20 de janeiro de 2008

Sopas e Mortos



Na Terça-feira senti saudades.
A Avó era uma pessoa especial, não por ser a Avó. Acho que era carisma. A Avó era inacessível quase. Muito loura, muito alta, muito magra, muito hirta e tinha aqueles olhos azuis muito frios, gélidos, que lhe davam um ar duro e impenetrável. Não era nada o protótipo da Avózinha. Era a Avó.
Senti saudades de coisas que se perderam com a Avó e que eu fechei cá dentro para não ter de lidar com elas para não me doerem. Mas na Terça encarei uma das coisas que me faltam e que ela levou. Apeteceu-me uma daquelas sopas muito suculentas que ela fazia e que nunca mais provei porque são daquelas coisas irremediáveis que se perdem para sempre.
Na Terça-feira, nem sei como ou a que propósito, meti na cabeça que ia tentar fazer uma daquelas sopas. Não sei como ela as fazia, nunca perguntei e nunca me interessei porque naquela altura eu pensava que tudo era eterno. A sopa aparecia, era uma delícia e depois eu sabia que haveria mais num outro dia qualquer que eu fosse à casa da Avó. Só que um dia a casa da Avó ficou vazia...
Inventei a sopa. Pus tudo o que eu achava que ela metia para dentro da panela. Só omiti a batata porque hoje falamos em hidratos de carbono e a Avó não tinha de se ralar com calorias e outras minudências com que enchemos a cabeça a pensar que estamos a fazer bem. Ficou tão boa a minha sopa! Mas faltava-lhe qualquer coisa. Faltava-lhe a Avó.
Hoje falta-me o João e todas as coisas que eu pensava serem eternas porque havia o João. A sopa ainda está no frigorífico e o João descansa sob uma pilha de flores...
Post Scriptum - Foi pelo João, e não pelo filho do João, que eu fiz o impensável (o que eu sempre repeti que jamais faria na vida) e adoptei um nome que não é o meu. Este era o João na sua capacidade extraordinária de amar e se deixar amar.

20 comentários:

Tiago R. Cardoso disse...

Tinha para ai 6 anos e costumava ir à pesca com o meu pai adorava, era de facto um momento maravilhoso, depois aos poucos fui crescendo e perdemos esse costume, o crescer significou um afastamento, talvez a vida, o trabalho leva-se as coisas nesse sentido, depois ele faleceu e hoje que até nem gosto de pesca, sinto uma enorme vontade de ir pescar com ele...

Manuel Rocha disse...

Namasté, Shiaya !

quin[tarantino] disse...

Se vires bem, se abrires a arca... verás... lá no fundo estarão sorrisos e receitas... o João a dizer-te que deves ser feliz e a avó a dizer-te: "ao menos uma vez na vida, esquece os hidratos e põe lá a batata!"

indomável disse...

Dear Blonde,

Don't know why, I felt the urge of talking to you in english...
Or maybe I won't... talk to you I mean... Maybe I'll just... be with you in the everlasting spirit of friendship...
Whenever you need a shoulder...

Carol disse...

My dearest Blondie, as long as you remember them, they'll always be with you...
I lost too many people already, but whenever I need I feel their presence, the warmth oh their tenderness...

I missed you, Blondie.

quin[tarantino] disse...

My dearest and only one, I just came back on purpose to tell you I missed your words around. And you. I'm here...

bluegift disse...

Mais importante que as palavras, resta-nos a fraternidade para quem contempla mais uma estrela perdida na eternidade dos seres amados.
I'm sending you a big hug as close as possible :)

antonio disse...

As ausências não estão cheias de emptiness… elas se materializam em desejos, sabores, cheiros, carinhos. São mais do que uma memória. Não são um filme de que nos recordamos, são reais, como real é o peso que nos deixam no peito.

Reinventamos a nossa forma de estar porque temos que acomodar as ausências que nos habitam. E depois existem aquelas, que são peso, que saem de dentro de nós e que nos confrontam com o eterno, nós seres eternamente perecíveis.

Blondewithaphd disse...

Dear all,
You are simply adorable in your words! E nestes dias eu ando tão sem palavras, tão sem nexo. Tudo são meios pensamentos. Tudo ficou diferente de uma hora para a outra e eu ainda não tomei o passo deste novo capítulo. Ainda estou a confrontar a perplexidade e de repente tenho um espaço de evasão onde vêm umas pessoas que nunca vi, com quem nunca estive e que lêem as minhas palavras e as minhas dores. Também isto é novo!
Acho que é a vida na sua infinita transcendência.
You also make me happen, or, at least, you make Blondewithaphd happen.
OBRIGADA!

Carol disse...

I never met you, Blondie, but you are a friend to me. And when my friends need my presence, I always show up.
A big kiss.

quin[tarantino] disse...

Vim aqui de propósito para te trazer um modesto ramo de lírios ... e uma chávena de chã de jasmim ... dizem que faz bem ... não sei ...

Joshua disse...

Posta embebida em lágrimas!

JOY disse...

Blonde

Ao lêr este teu post de repente deu-me umas saudadedes da minha avó que faleceu vai para 18 anos ,tinha uma relação com ela muito especial.

JOy

Manuel Rocha disse...

Blonde...

Conheço um sitio em Monchique óptimo para Loiras a precisar de sopas e descanço e que só tem um inconveniente: lá não se fala estrangêre...::))

Nuno Boavida disse...

:)

alf disse...

A vida é sempre imensa como um oceano se nos deixarmos fluir com ela; em encontros e separações aprendemos a conhecer esse oceano; as sopas e os filhos amortecem as dores das separações; o cantinho da tua dor é também o cantinho da dor de cada um de nós; o que temos a fazer é abraçarmo-nos enquanto não voltamos a flutuar.

António de Almeida disse...

-Tenho várias pessoas que me fazem falta desde que não estão, e não fico melhor sabendo que nem sempre me fizeram falta enquanto estiveram.
P.S. sopa é que não me faz falta nenhuma, costumo dizer que apenas gosto de sopa ao longe. Abro uma excepção á sopa de Cação, mas como o peixinho apenas.

indomável disse...

Blonde, desculpa, já usei todo o meu inglês hoje.

Peço novamente perdão porque tomei uma liberdade que não me é usual e por este dias é quase proibitiva... escrevi um post e não sei porquê, estava a pensar em ti quando o fiz. Foi uma dupla liberdade, sobretudo porque tomei como certa uma realidade que não passa de pura ficção...
Seja como for o post é-te dedicado. Não pretendo saber mais da tua vida do que a que expões aqui, mas as palavras são sentimentos mal disfarçados muitas vezes e da dor e surpresa que estavas a sentir veio-me uma estória, uma página de vida que não consegui apagar, aliás, foi tão forte que a escrevi em dois sitios - no caderno primeiro e no blog depois...
In english, foi como me surgiu...

Sai ram

Carol disse...

My darling, just passing by to say hi...

Anónimo disse...

Lembrar é viver, não O esqueças querida Blondie.
Com um enorme carinho,

João castanhinha