25 de fevereiro de 2008

A Igreja Cinzenta


Não falo de Religião desde que a Mãe morreu.
Quer dizer, falo com o Padre, falo na Catequese, mas não é a mesma coisa. Só a Mãe sabia falar de Religião no seu sentido transcendente, histórico, ortodoxo e crítico. Era um prazer falar destes assuntos com ela. Sem ela eu teria hoje uma compreensão muito incipiente da Religião e, não fora a sua orientação pelos meandros da consubstanciação, transubstanciação, pelas vielas do catolicismo e das formas multivariadas do protestantismo, e eu seria uma pobre de espírito mais pobre do que o que sou e não teria tido a oportunidade de escolher qual a religião (letra minúscula) com que a minha espiritualidade mais se identifica. Assim, criada num ethos nórdico luterano-evangélico, tornei-me católica romana, praticante, mas pensante. Sem a Mãe não discuto Religião, com o Padre falo quase sempre em confrontação (embora eu saiba que ele, mais do que a qualquer pessoa, respeita as minhas opiniões) e na Catequese falo a meninos e meninas que precisam de um primeiro Kerigma porque vêm de lares totalmente laicos e, desconfio, no mínimo agnósticos (não digo ateus porque isso é ir longe demais num país de orientação católica).
Este Sábado dei comigo a divagar durante a Homília. (Confesso que divago muitas vezes porque as homílias do meu pároco são renomadas pela sua longa duração). Olhando à minha volta só vi gente vestida de escuro: preto, cinzento, castanho, cores mortas e sem fé. Raras eram as pessoas da minha idade (acho que só os pobres dos acólitos que ali estavam visivelmente contrariados e mais uma ou outra pessoa eram mais novos do que eu). Era um cenário deprimente. O rito oco. As pessoas estavam ali em cumprimento de uma obrigação. Não houve cânticos. A Missa foi uma coisa vazia. Senta, levanta, diz "Ámen", recita as orações de cor, senta outra vez, levanta depois.
No meio daquele vazio todo senti-me vazia. Lembrei-me da Madre Teresa de Calcutá e do vazio em que ela viveu durante 50 anos. E pior do que isto, no meio da minha divagação, pensei que a Santa Madre Igreja afugenta os crentes. Pensei neste Papa e tive pena dele, como tenho sempre que penso nele. É difícil suceder a alguém excepcional (seja um Papa, um político, um rei, um progenitor). Mas não o sinto vir a nós rebanho. Este Papa ainda não me tocou. Meu Deus, as maluqueiras que eu fiz para ir ao encontro do João Paulo II, de cada vez, de todas as vezes, "mein Papst"!
Não pensei em Deus nem em Jesus na minha divagação. Centrei-me na Humanidade. Perdi-me nos meus pensamentos e segui no vazio à minha volta. Tudo tão escuro. Até a humidade da igreja me incomodou. Afinal, prestamos culto em sítios frios e desagradáveis. Até isso me constrangiu e me levou na divagação. Saí da Missa esquisita. Quase me perguntei (acho que subconscientemente me perguntei) o que é que eu ali tinha ido fazer. Não senti que ali estivéssemos em comunidade. Presumo que ali estávamos todos em individualidade.
Como sempre, lembrei-me que o meu problema é com a igreja dos Homens e não com a Igreja de Deus. Andamos desfazados de Deus. "Venha a nós o Vosso Reino"...

15 comentários:

antonio disse...

Encontro nesta tua crónica tons com que pintei a minha.

Somos com efeito essa igreja, com i minúsculo e i maiúsculo, pois isso só depende de nós.
Quanto ao Papa, tem o pecado de não ter sido o eleito pela imprensa, de não ser o asiático ou o sul-americano que ajudaria a vender muita tinta impressa e fala-nos de um Deus Caridade, talvez esteja mesmo em contra-ciclo.

Mas quando falamos de Deus devíamos ser tão humanos e autênticos como o foste neste teu texto.

quintarantino disse...

Pessoalmente nem sequer sei que relação tenho com a religião e com a Igreja.

Para além dos problemas com que te deparas e te deparaste naquele instante, naquele momento preciso, sinto em mim que parte das respostas que conheço e que me foram dadas a conhecer não me servem, nem me convencem.

Seria quase de certeza um herético. Um cátaro.

Admito que a minha necessidade de respostas não se satisfaz com facilidade, nem a rigidez formal da Igreja Católica me consegue satisfazer essa ânsia.

Aliás, começo logo por não entender como é que a Igreja que, aqui e ali, ainda tem arremedos de ser a única e verdadeira, se revê em si fundada que foi e assente que é em Pedro, justo Pedro que três vezes renegou a Cristo.

Dir-me-áo que se arrependeu, que abraçou de novo a Fé, mas então isso levanta-me outras inquietações ...

Curiosamente, e talvez pela minha ânsia, recordo-me que já li "A Bíblia" ... de ponta a ponta ... mas mesmo assim ...

Que me desculpem os que se assumem e aqui assumiram como crentes (e estou certo que para alguns serei uma desilusão), mas não consigo rever-me nesta Igreja e admito que as minhas interpretações possam ser demasiado radicais e livres ...

Blondewithaphd disse...

Antonio,
Sabes que nunca fui muito nessa idolatria desenfreada de que tínhamos de ter um Papa asiático ou sul-americano. Até gostei da escolha, convenhamos que temos um Papa de um país luterano (tudo bem que a Baviera é enraizadamente católica, mas a Alemanha é protestante) e isso não é pouco!
E sim, concordo: a I/igreja somos nós que a fazemos.

Gracias por tus palabras!

Blondewithaphd disse...

Quinn,
Queiramos ou não todos temos uma relação com a Igreja, mais que não seja para refutá-la. E dizer que as respostas doutrinais da Igreja não te convencem não faz de ti um herege. Faz de ti um crente, caso acredites, que pensa e não engole o dogma passivamente. Eu, que até vou à Igreja, não o faço certamente.
Pedro... Pedro é humano, como todos nós. Pedro teve medo, como todos nós. Pedro seria, por isso, a melhor pedra para se construir uma Igreja de Homens. Aliás, até Jesus vacilou e teve medo na sua humanidade. Não, não acho que sejas uma desilusão. Estás à procura, como todos nós.

Manuel Rocha disse...

Curioso...

Sempre tive em relação ao religioso uma relação de navegação ao largo. São terras que conheço de ouvir dizer e de ler descritas mas cuja essência , a Fé, não entendo, nem me move a curiosidade ao ponto de me levar a alterar a rota.

Com o religioso eu tenho a interacção de respeito devido ao que não está ao meu alcance. Mistérios da Fé ? Sejam ! Como os da vida ! Confesso que gosto da vida com mistérios. Saber e entender tudo seria para mim um imenso tédio ...:))

António de Almeida disse...

-Por princípio respeito a fé de cada um, pelo que não discuto religião, excepto numa mesa de amigos, onde possa criticar e sujeitar-me á crítica, mas debater desde que assim o entendam. Em qualquer caso nunca passo duma esfera semi-privada. Tenho no entanto uma relação algo conturbada com a I.C., tendo-me sido ministrados todos os sacramentos até á crisma, fiquei-me por aí, mas não tolero perseguições á instituição por parte de jacobinos, é muito complicado, por ora fico-me por aqui.

Tiago R. Cardoso disse...

Desde pequeno fui ensinado e dirigido naquela direcção, algo imóvel e carregados de dogmas inquestionável.

Cheguei a uma altura que me senti como tu, estava ali e limitava-me a execução de rituais como se fosse um autómato, senti-me desligado, tudo isto acompanhado pelo facto de todos os dias assistir aos constantes desmandos dos "donos" da igreja, afastou-me dela, não da fé mas desta igreja que já deixou de ser de Deus e passou a ser de homens.

Blondewithaphd disse...

Dear Manuel,
Navegação ao largo, gostei da expressão. E claro, o sentimento religioso é pessoal. Cada um sabe com o que se identifica. E respeito pelo transcendente acho que todos temos.
Vida com mistérios? Sim, é o sal da dita!

Blondewithaphd disse...

Dear Antonio de Almeida,
Lá está, eu sinceramente penso que é com a Igreja dos Homens que os fiéis (os mais e os menos) têm os seus problemas de fé. A Igreja Católica é uma instituição e, como tal, assenta na nossa humanidade. Claro que é animada pelo Espírito Santo, claro que é vivificada pela fé no Cristo, mas mesmo assim é na nossa imanente humanidade que se sustenta.

Blondewithaphd disse...

Dear Tiago,
O que eu senti no Sábado foi um momento, não quer dizer que é sempre assim. Nem sei o que despoletou aquilo (talvez o frio, o escuro da noite, uma vacilação, não sei). Percebo o que dizes de te terem ensinado a seguir dogmas sem questionar, porém, a fé activa está cheia de questões, cheia de pensamentos próprios.

bluegift disse...

Pois eu andei num colégio católico até aos 14, felizmente com freiras irlandesas dominicanas o que já implicava um espírito mais aberto perante a religião. Mesmo assim entrei em crise com a igreja depois dos 13 anos e a minha relação com a ICAR não parou de sofrer altos e baixos. Hoje tenho uma percepção mais abrangente do fenómeno religioso e da sua importância no mundo em que vivemos. Estou cada vez mais em paz com um Deus que tal como afirmas está cada vez mais longe, mais desfazado, da Igreja e "dos homens de má vontade".

Blondewithaphd disse...

Sim Blue,
Não há como escapar ao fenómeno religioso, omnipresente, omnipotente. E sim, é em paz que nos relacionamos com Deus. Felizmente, mesmo assim, ainda há homens e mulheres de muito boa-vontade:)

joshua disse...

Viver em Comunidade foi uma fonte de sofrimento enorme para mim desde o princípio, quando pelo meu próprio e voluntário pé nela entrei. Entro facilmente em conflito com todo e qualquer discurso de exclusão e odeio respeitos humanos e humanas subserviências. Há Padres Letais e quando escrevi os meus posts (dois) Padre Miura, falei de essas dores precisamente.

Eu tive um experiência espiritual muito intensa com seis e depois com catorze anos. Encontrei ou passou-se comigo a Voz de Brisa de Deus soando imparável no meu coração. Eu, um obsecado com a Perfeição no Karaté, um ginasta dedicadíssimo, ouvi um dia uma Voz. Sempre fui um solitário na infância mas nunca um alterofobo. Há falta de amigos, tive livros, dezenas deles. Revistas de cultura geral e enciclopédias, centenas delas.

Li evidentemente todo o Evangelho muito novo, com 10 anos, na minha varanda sob um sol de um Junho Ardente que todo me desidratava. Mas com catorze anos, alguma coisa se passou comigo de muito Radioso e Intenso aí pelo mês de Janeiro, no meu isolamento aquando de uma leitura muito especial. Apaixonei-me redobradamente pelo Cristo Vivo.

Daí até aos 36 anos militei, fui activista, animei a juventude, fiz catequese, cantei, emocionei, discursei, sofri, padeci, magoei-me do hetero-humano de quem me embebi todo na minha Comunidade.

Romper temporariamente com essa dimensão foi e está a ser importantíssimo para mim. Precisamente por esses momentos ronceiros de que dás conta e pelo imponderável peso da mediocridade e limitação de vistas e horizontes com que nos brindam os nossos irmãos mais piedosos e imaculados.

Ao contrário de Madre Teresa, nunca vivi uma Noite Escura prolongada, só o pecado que me consinto e em que mergulho, tornam imperfeita e baça a minha união undissolúvel com Cristo. Mas conheço as fontes de renovação e refrescamento do meu coração para que o Amor Divino todo me perpasse.

Os meus dias, porém, têm de ser de deserto, de aspereza, de insatisfação, de provocação, de incoerência, de erro, de violência, de conflito, de raiva, de fúria, de devoramento, de pecado. Tenho a obrigação de Procurar, de desenterrar tudo para que não me tente a alcandorar em Vinha Escolhida, Eleito Eleito, escol, Nata dos Filhos de Deus, devo ser capaz de compreender qualquer ser humano e sentir pulsar o apelo salvífico concreto de Cristo para cada um de nós, que temos dentro continuamente a possibilidade da loucura exterminadora e da violência deliciosa e execravelmente patentes na personagem de Javier Bardem (Anton Chigurh) em «Este País não é Para Velhos».

Sempre fui um privilegiado da Plenitude Espiritual, sempre fui beatífico porque vivo do silêncio e da contemplação gozoza de Deus e essa disciplina é-me natural e facílima, corre com a minha natureza.

Preciso, porém, de uma privação de esse meu Céu conhecido. Careço de arder e armadilhar todos os Ninhos, todos os Refúgios Seguros, quero mergulhar no que é a ruptura, no vazio da não-fé a partir dos quais o meu coração se enterneça com os outros no seu contexto porque a minha grande aquisição a partir de um grande hieratismo inicial inflexível foi a descoberta do outro e do seu contexto e de como o Encontro amoroso, fraterno, delicado e respeitador é o grande milagre.

Cristo exemplificou-o com as suas mãos, o seu olhar, o modo delicado e respeitador de abordar os homens. Esse estado de Proposta Irresistível e, sempre, delicadíssima na Sua Pessoa e na Sua Palavra são o Cerne de Mel do Evangelho e é o que nos deve impregnar porque o Caminho é Ele ou não é de todo.

A Igreja tritura-nos de tensão e de crivo, de murmuração e de mediocridade e infelizmente mais que uma Casa de Festa e de Alegria, é uma Cave-Covil de Triste Abatimento e Deprimência. Essa descaracterização é inaceitável. Sei o que é Festa, Celebração Jubilosa, sei o que é Silêncio e Interiorização Absoluta da Palavra e sei Onde isso é cortável à Faca.

Eu sei que abominas o calão. 'Caralho' repugna-te. 'Foda-se' desagrada-te e toda a parafrenália disponível porque o que é feio feio é. Houve um tempo em que nenhuma palavra má saía da minha boca mas só a palavra edificante. Mas algo me diz que há coisas que devemos filtrar para que o que é puro e autêntico não se nos seja invisível.

Gostava de ser lido sem que sequer isso obstaculizasse o Yeshua que me quero, BlastingB!


PALAVROSSAVRVS REX

JOY disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
JOY disse...

Olá Blonde ,

Sou um cristão,como costumo dizer á minha maneira ,acredito em qualquer coisa superior , mas tenho alguma dificuldade em comungar da atitude actual da igreja muito marcada ainda por um dialogo de medo de soburdinação de uma postura que não se identifica com os tempos actuais ,tendo mesmo muita dificuldade em abordar muitos dos problemas que abatem sobre a sociedade.Vai havendo alguns padres de espirito mais aberto que com algumas alterações ,conseguem com a ajuda de jovens que a missa não seja aquele momento tristonho que tão bem descreves no teu texto.Torna-se urgente que a igreja se apróxime mais dos jovens ,mas terá de mudar o seu discursso.

Fica bem
Joy