1 de março de 2009

Rosa sem Espinho: O Congresso dos Felizes

O que é que será que existe de saboroso e triunfal numa vitória antecipada sem a glória da batalha ideológico-partidária? Mas enfim, há quem se contente...

O momento histórico é favorável: a crise global é um escudo protector muito confortável, uma desculpa para a impotência, uma máscara para o insucesso. A confusão baralhada da oposição um adjuvante tremendo. Que melhores e mais fáceis circunstâncias existirão para vitórias sem luta?

Nunca pensei ver um PS de punho erguido com medo de um juvenil BE. Assusta-me, para ser sincera. E irrita-me. Tal como me assustam e irritam as vitórias só porque sim, só porque o panorama político português actual é um enorme vazio e porque não há escolhas e porque não há ninguém com um brilho que nos catapulte para a esperança.

Valha-nos Deus por um Vital Moreira. Precisamos de mais, de muitos mais. Precisamos de gente pensante, escrevente, falante, em suma, articulada que venha seja lá de que quadrante político for.

Em remate, pergunto-me, fingindo não saber a resposta, o que é que um partido de governo teme da discussão dos temas estruturantes/fracturantes que pairam, tal espada de Dâmocles, na atmosfera política? Felizes os esquecidos dos males pátrios, que deles é o reino parlamentar.

4 comentários:

Ferreira-Pinto disse...

Numa perspectiva meramente tacticista e de conjuntura, o Congresso do PS em Espinho foi um sucesso para as hostes socráticas.

Um discurso unânime, em torno de um líder que, goste-se ou não, tem o carisma quanto baste para galvanizar as bases (e isso viu-se na ovação que recebeu no que, curiosamente, só foi superado pelas palmas dispensadas à independente Maria de Lurdes Rodrigues) é o que o PS, na tal óptica que acima referia, e num ano terrível (a tríplice corrida eleitoral aliada à crise) necessita.

Isto sendo claro e pragmático, já que as máquinas partidárias vivem de momentos destes. Aliás, toda a encenação mostrava isso mesmo.

A ausência de discursos dissonantes pode ser confrangedora mas aí as culpas têm de ser atribuídas em maior grau a quem se quis resguardar nas tábuas.

Manuel Alegre, o santo deidificado e idolatrado por tudo quanto é camafeu, não apareceu como, aliás, era previsível e é seu apanágio. Alegre é dos que enche muito a boca com o povo, mas dispensa-o bem. E às maçadas de se deslocar a locais como este e lá dizer o que garante que ninguém lhe calará.
Tivesse ele a tal estatura que os profissionais da análise de caserna lhe apontam e teria, tal como Manuel Maria Carrilho em 2001, ido ao Congresso e enfrentado as massas ululantes! Carrilho foi e foi praticamente impedido de falar; meses depois seria louvado -o que também diz muito do que é o povo anónimo.

Quanto ao coelho da cartola chamado Vital Moreira, poder-se-á dizer que teoricamente é um bom candidato, mas que na prática se revela uma péssima escolha conforme o provou a intervenção do indigitado no Congresso. Não tem chama, falta-lhe verbo!

Valha-nos, ao menos, que a escolha não recaiu em Edite Estrela como se conjecturou e cheguei a temer.

Blondewithaphd disse...

Ó Quinn,
Falta chama ao Vital Moreira, olha a novidade, mas antes um orador sem centelha que um balão de ar verborroso sem nada no interior da caixa craniana, não achas? (Ok, o povão não vai perceber metade do que ele diz, paciência!).

Ferreira-Pinto disse...

My dearest, nada a opor ao argumentário apresentado.

Aliás, se reparares, digo que teoricamente Vital Moreira é um bom candidato. Tem substracto intelectual, tem capacidade de abordagem a temas jurídico-comunitários e é um garante que não será pela via do cabeça de lista ao Parlamento Europeu que a direcção e o Secretário-Geral serão apanhados entre dois fogos, digamos.

E isso também conta. Aliás, contou isso e o sinal dado para dentro que, por enquanto, quem manda é José Sócrates. O que talvez explique que António José Seguro, que alimenta não tão secretas ambições de suceder a Sócrates, tenha passado tão discreto pelo congresso espinhense.

Quando aduzi o elemento do verbo foi porque entendo que o PS, no actual contexto, necessita de fazer de cada acto eleitoral um teste à sua capacidade de mobilização para, no mínimo, repetir o último resultado eleitoral para o Parlamento Europeu.

Qualquer resultado abaixo disso servirá para leituras e análises a apontar no sentido de perda e todos bem sabemos o que isso poderá significar. Ora, se nós o sabemos, também Sócrates o sabe. E bem. Daí que, em minha opinião, tenha arriscado em demasia nesta escolha.

António de Almeida disse...

"um cão não acasala com um cão, um porco não acasala com um porco, um cavalo não acasala com um cavalo, é assim no reino animal onde estamos sim acostumados a ver os machos lutarem pelo direito a acasalar com as fêmeas". Esta foi a frase mais hilariante do Congresso, onde também foram "passear" no último dia uns idosos de Cebolais de Cima no autocarro da C.M.Castelo Branco, certamente integrado numa qualquer iniciativa de apoio à 3ª idade. Mais a sério, Vital Moreira poderá ser uma boa escolha ou não, depende do PSD, se avançar Pacheco Pereira teremos um interessante debate sobre o que representa a Europa, mas previsivelmente uma vitória socialista, caso avance Marcelo Rebelo de Sousa, irá aparecer hoje, o mais tardar amanhã uma petição para candidatar Marcelo Rebelo de Sousa, seria um desastre para o PS, de consequências inimagináveis sobre o efeito que poderia ter nas legislativas. Como sempre tenho escrito, há que aguardar, o povo é sereno...