24 de março de 2009

Um dia normal na vida de um cão





O Marley, que já deu um livro e agora chega às salas de cinema com a Jen Aniston (e aquela coisa semi-actor chamada Owen Wilson), é um anjo!

Depois da enésima travessura do tonto do meu adoptado Spotty decido que é altura de lhe dedicar um certo espaço no blog, com direito a etiquetagem própria e tudo. Mas que digo? Não, o Spotty não faz travessuras, isso é com o Marley. O Spotty excede-se em maluqueira inconsciente. Esqueço-me das incontáveis vergonhas e sustos em que ele me tem metido nestes três anos de uma vida extraordinariamente activa e prolífica em episódios que nem no cinema.

Para que conste, a Blonde é uma pessoa de gatos. Os cães são grandes, aluados, dependentes, pouco higiénicos, barulhentos, desastrados, desarrumados e etc. Mas o Spotty era um cachorrinho abandonado tão pequenino e com uns olhitos leitosos sem cor tão adoráveis que acabou no colo da Blonde e ganhou um lar. Logo na primeira tarde em casa da Blonde, a Blonde viu o futuro: xixi no tapete iraniano, mordidelas ferozes na mesinha de café, xixi na carpete da sala, aversão ao banho, xixi no tapete da casa-de-banho (porque é que será que embicava sempre com tapetes e nunca com o chão despido?) e mais mordidelas em tudo o que fosse perna de cadeira. Sim, o futuro prometia e ainda íamos só na primeira tarde de convívio juntos.

Durante a fase cachorrinho adorável, o Spotty apenas roeu 12 candeeiros de relvado e um sistema inteiro de rega (sprinklers e as mangueiras enterradas no solo incluídos). Os colchões da cama desta alegre criatura tiveram sempre uma esperança média de vida oscilando entre os 30 minutos e os 20 segundos. Os brinquedos a mesma coisa. O primeiro veterinário ganhou-lhe um trauma quando viu o consultório destruído, marquesa de alumínio incluída no rasto de destruição. E isto ainda a criaturinha linda não tinha um ano. Estou a vê-lo, ao vet, de olhar vazio e incrédulo, urinado pelos esguichos de alegria que o Spotty lhe debitou, a marquesa de pernas para o ar e o consultório revirado. Também paciência, estamos a falar de um veterinário que olhou para o cachorrito e disse com a voz da certeza:
- Hmm, vai fazer-se um lindo cão médio aí com uns dez, doze quilos.
O bicho aos dez meses pesava 20! Encontrei o veterinário no concerto da Mafalda Veiga e, sinceramente, a vergonha ainda é tanta que fingi não o ver.

Certo dia o Spotty fugiu do quintal por entre as pernas da Blonde e esta teve de mandar cortar o trânsito na rua de casa (que não é uma rua é uma estrada porque a Blonde vive no campo). Montou-se a caça ao bicho com a vizinhança e a Blonde ia tendo um esgotamento nessa tarde. O Spotty deve ter achado aquele um dos dias mais festivos da sua curta existência. Doutra vez espetou o focinho num vespeiro e apareceu muito cabisbaixo a mostrar a tromba de elefante à querida Blonde:
- Não me ralhes Dona, mas isto arde que se farta.
Claro que a Blonde levou-o a correr ao veterinário com medo de choques anifiláticos, infecções e o diabo. Da segunda vez que Sua Suma Inteligência resolveu brincar com vespeiros a Blonde já nem se ralou:
- Aguenta amigo, que isso já passa!

Ainda outra ocasião, vem a Blonde cansada do ginásio e encontra Sr. D. Spotty emaranhado num tapete que destruíra. Nem se mexia, nem conseguia fechar as mandíbulas, tinha fios grossos de tapete entre os dentes a cortarem-lhe a gengiva, as pernas atadas e um garrote à volta do pescoço. A Blonde entrou em pânico. Agarrou nele com forças de Super-Mulher e lá vai à velocidade-luz para o veterinário, desta feita, outro que se traumatizou. Foram precisos dois veterinários e muito bisturi para o desenrolarem do tapete. E, claro, da segunda vez que a Eminência se emaranhou noutro tapete, a Blonde ralhou com ele e cortou o tapete à tesourada de tão furibunda estava.

Hoje, a criatura em questão achou que rebuçados para ratos (não esquecer que estamos no campo) são uns biscoitos próprios para cães e cá vai disto. No meio de muita gozação: "Ó p'ra mim Dona, vou mesmo comer isto, estás a ver?", lá comeu um rebuçadito envenenado (ainda estou para ver que raio de repelente anti-animais domésticos aquilo tinha que, como se vê, funciona às mil maravilhas!). E lá foi a Blonde tinóni para as urgências da clínica veterinária, onde ao que parece, nunca ninguém viu um bicho envenenado ter tanta alegria que nem drogado parava quieto.

Enfim, outro dia absolutamente normal: a Blonde veio descomprimir do susto para o blog e a fantástica e super-potente criatura ali está no jardim feliz da sua vidinha que nem parece podia ter morrido há umas horas atrás.


Legenda: A criatura maravilhosa aos três meses em plena actividade lúdica-destrutiva.

9 comentários:

mdsol disse...

Só posso sorrir com o teu texto.

Os teus "cadilhos" são provocados pelo spotty!

Gabo-te a paciência Blondinha! Mas, levado "na boa" até é bem divertido!

:))

António de Almeida disse...

Deve ser divertido, mas por viver em apartamento nunca quis ter cães nem gatos. Tive um papagaio em criança, que morreu, talvez por isso nunca quis afeiçoar-me a qualquer animal, há uns 2 anos experimentei um peixe, até gostava de olhar para ele, mas morreu passados uns meses e reforcei a minha decisão, mais desgostos não!

Ferreira-Pinto disse...

Como aí o "dog" não fuma umas brocas, embora se apanhar a "grass" deva ser cão para a pisar e comer, penso ser seguro deduzir que o "cámone" é ... marado!
E cool.

Joaninha disse...

Hehehe, são uns queridos é o que eles são.

Deixa lá, faz parte, compensam com a atenção e o mimo que nos dão.

Essa do veneno de ratos é tipica, enfim...

By the way, o Spotty é liiindo.

Beijos

Blondewithaphd disse...

mdsol,
Ui, é cá uma diversão que nem imaginas!!! Um dia destes tenho um enfarte é o que é! (E se me explicasses o que são cadilhos não era simpático? Tou mesmo a imaginar que isso não existe no dicionário, certo?) :)

António,
Concordo, num apartamento eu também não me aventurava a adopções desta natureza (demito-me é de dizer em que estado lastimável tenho o jardim, mas enfim...). Também já tive um peixe mas o coitado foi pelo ralo abaixo num belo dia em que mudei a água ao aquário. Compensei-o com um funeral à maneira! :)

Quinn,
Eu não sei o que é que o tipo toma mas que deve ser coisa potente ai isso deve! Marado, chanfrado, despastilhado, tu chama-lhe o que quiseres que ele não se deve importar e eu muito menos:)

Jo,
Enganas-te minha linda, esta criatura a mim é que não me dá atenção nenhuma, só quando faz asneira e precisa que o safem dos apertos em que se mete. De resto é o diabo em quatro patas é o que é!!! É lindo é, uma linda peste:)

Joaninha disse...

Não dá atenção o quê! Aposto que ele arrasta um bonde pela sua dona Blonde ;)

beijos

mdsol disse...

Blondinha:

"Quem tem filhos tem cadilhos
Tem-nos quem os não tiver.
Quem tem filhos ainda vive
Mesmo depois de morrer."
António Correia de Oliveira

Foi desta quadra que me lembrei ao ler o teu texto sobre o Spotty...

Cadilhos é usado em sentido figurado como:
trabalhos;
preocupações;
aflições.

Blondewithaphd disse...

Jo,
No caso em questão, ele é mais Spotty arrasta a Dona Blonde pelo chão de rojo mesmo:)

mdsol,
Ah, ok!!! Right! Thanx! Então siiiiim, este cão só me dá trabalhos (mais chatos do que os de Hércules! Arre!)

indomável disse...

Ahahahah, blondie...

então temos mais alguma coisa em comum! É que eu tenho um spot, de 20kg, mais coisa menos coisa, que não pára e não cessa de me abismar.
É que sua excelência, para além de praticamente me destruir tudo o que encontra, já conseguiu arrancar a vedação a uma vizinha quando fugiu do canil com 1,50m de altura, e matou uma galinhita ou duas...
já foi atropelado e enquanto vinha coxeando pelo caminho afora, de focinho baixo e olhos mortiços nem piava, mas 30minutos depois já ladrava de contente e saltava à volta dos miudos como se não houvesse amanhã!
Por vezes penso que existe ali uma inteligência qualquer que os meus dois neurónios não conseguem atingir, é que ele até se safa de uma coleira em corrente grossa para ir às galinhas!
E os meus filhos ainda querem ir ver o filme, deve ser para me dar uma taquicardia!