8 de junho de 2009

Lavagem de alma...


"Traz roupa prática que se possa sujar, sapatos rasos ou ténis que te vamos pôr a trabalhar e traz algo mais finório se sairmos à noite" - diz no mail. Passo a semana em alegre antecipação de um fim-de-semana perdido no Alentejo e imagino-me a regar tomateiros e a apascentar ovelhas.
No Sábado de manhã acordo bem-disposta ao estilo: "Adeus mundo conhecido que vou à aventura!". Visto-me sem respeitar as instruções do mail. Afinal, tenho muita estrada pela frente e preciso parar numa qualquer estação de serviço para comprar o novo jornal da praça porque me remeti à colecção da revista de fim-de-semana (ora aí está uma estratégia de marketing de fidelização da clientela, sim senhora!).
Páro em Aveiras. Chove que se farta. Começo a imaginar a roupa de Verão que trago na mala e a temer pelo futuro. "A Zana diz que lá em Cabeço de Vide a malta dorme a sesta que não se pode com o calor" - penso em jeito de justificação para as T-shirts que, neste tempo frio e chuvoso não me vão servir de agasalho. Compro o jornal e dou-lhe uso imediato como guarda-chuva: dois em um e ainda fico com a revista - um bom investimento.
Sigo. Em Ponte de Sôr perco o sinal da M80 e de mais umas quantas estações na memória do rádio da carrinha. Só me restam a Comercial e a RFM, e esta com intermitências. "Oh, oh, isto afinal é mais interior ostracizado do que eu supunha" - falo comigo própria enquanto atravesso uma ponte romana no meio de nenhures rezando para não vir nenhum camião em sentido contrário e esperando que não seja a minha carrinha que ponha ponto final a dois mil anos de história. "Cristo se eu morro aqui vai ser um sarilho darem comigo!"
Em Alter do Chão saúda-me a mais monumentalmente horrorosa estátua equestre que se possa imaginar, enfiada numa dessas rotundas que fazem questão de indicar que o alegre condutor chegou a uma povoação. Como é possível tamanho mau-gosto, Deus do Céu? Enfim, sigo que já estou quase a chegar.
- Trazes-me cerejas? - Pergunta a Zana assim que me vê. Sorri de orelha a orelha. Leu o post anterior e eu desato a rir também.
- Não, trago-te mangas! Não disseste que isto era o fim do mundo? - Rio e abraço-a naquele abraço enérgico de quem só vai dar e receber energias profundamente positivas. Que saudades eu tinha dela. Há quantos anos a estrada dela interseccionou a minha: vinte e sete? Ui tantos! Melhor nem pensar!
Estaciono a carrinha junto ao posto da GNR de Cabeço de Vide. Ela não acha prudente eu levar o meu veículo citadino e novo para o todo-o-terreno de silvados e pedras que é um simulacro de estrada até ao monte dela e do Zé. (Mais tarde, depois de comprovar o caminho áspero, agardeço-lhe a lembrança: sim, a minha carrinha não teria sobrevivido às provações das folhas de azinho e galhos secos de funcho que se dobram pelo caminho que dá para o monte).
Antes de irmos para casa, ela leva-me ao mercado local. Um sítio castiço onde o senhor da banca da fruta faz as contas num cartão e vende mel caseiro em frascos velhos de Tofina. Não há mangas. E nisto, telefona-me a Tina. Momentaneamente, o trio está composto. Falamos as três partilhando o meu telemóvel. Estou mais alegre que sei lá o quê. Esfusiante! Eu, a Zana e a Tina! Que pena a Tina não estar aqui.
Mais uma paragem. Vamos à papelaria, a loja mais "in" de Cabeço de Vide, diz-me a Zana. Ela quer comprar o "Sol". Não há. Nem o "Expresso".
- Deixa lá, eu trouxe o "i" - digo-lhe.
- O quê?
- Deixa, vamos que depois eu explico. - Sim, a interioridade tem destas coisas.
Vejo a casa da Zana emergir depois da curva e por detrás das árvores. É tal e qual eu tinha imaginado: térrea, debruada a amarelo. Saio do carro e só penso em mudar de roupa. Ela faz-me o tour da casa mas eu sinto-me totalmente "out" com os meus óculos escuros xl, as minhas sandálias pumps, o meu casaco comprido assimétrico como se usa nesta estação, as minhas bangles e o anel de design que comprei em Rhodes. Tenho de tirar esta casca e mudar para outra urgentemente. Quando o Zé chega das obras do ovil que eles estão a construir já eu pareço uma nativa: fiz uma trança mal amanhada e vesti-me como mandava o mail. Estou pronta para ir regar a horta!
Azar! Desata a chover. A tempestade que eu apanhei em Aveiras desaba sobre o nosso fim do mundo. Cai granizo a rodos e desabam também os meus planos de rega. "Ó São Pedro, caramba, tinha de ser logo hoje?" Tenho tanto frio que tenho de vestir um casaco polar do Zé e calçar umas meias de empréstimo do Zé ou da Zana, já nem sei. Pensava eu que vinha para o Verão. Olho para as minhas pobres sabrinas e percebo que são a coisa mais imprópria para sair à rua. Valha-me os botins do Zé que calço com mais um par extra de meias. Depois da tempestade vamos ver a horta: tomateiros, pimenteiros, aboboreiras, batateiras, feijão, cebolas, vou enumerando. A Zana e o Zé olham-me incrédulos. Momentaneamente esqueceram-se que eu também vivo no campo. Acho que olham para mim como a Blonde with a PhD quando eu sou apenas a Blonde que corria montes e vales e queria ser como o David Attenborough quando era miúda. Tenho de acordá-los da incredulidade. Vamos ver os gansos e eu sugiro à Zana que compre umas galinhas da Índia. E ei-las as ovelhas: pretas. São merinos, explica-me a Zana. Olho para ela e apanho-lhe os traços de felicidade estampados no rosto. Olho-a no seio daquele meio, fundida e em comunhão com ele. Era o que ela mais queria: a simplicidade, a proximidade com a terra, os animais, os ciclos das estações. Fico inundada de felicidade também. Não lhe sei exprimir o que o meu coração sente por vê-la feliz nas suas decisões de vida. Eu sempre quis a carreira académica, consegui; ela quis a vida no campo, conseguiu. Enquanto ando a ver a quinta vou agradecendo baixinho as benesses que usufruímos e dando graças por termos chegado a estas fases das nossas vidas.
Ficamos e horas esquecidas à conversa depois do almoço. Fazemos pão com flocos de aveia, fazemos café, sentamo-nos nos sofás e falamos, falamos sempre enquanto o pão está a levedar na máquina (tenho de comprar uma!). Ali estamos. Passamos tempos infindos sem nos vermos e quando nos reunimos está tudo como sempre esteve. É isso o que o trio tem de extraordinário. Com a Tina é a mesma coisa. Como explicar que tenho as melhores amigas que alguém pode ter? Houve um tempo em que, estudantes, nos víamos todos os dias. Depois veio a Vida e foi cada uma para seu lado em pontos distantes do país. Quando nos vemos, os laços estão lá como sempre. É impressionante.
E falamos sem mágoas da Vida. Eu feliz e realizada profissionalmente mas (ainda) não emocionalmente. A Zana bem resolvida emocionalmente mas (ainda) não profissionalmente. E nestes interstícios entre o que temos de bom e menos bom nas nossas vidas vamos tentando diariamente a felicidade. O que importa é nunca deixarmos que o menos bom seja o que nos derruba, senão tornamo-nos pessoas azedas, empedernidas de coração, incapazes de gozar tardes longas como a que estamos a apreciar.
Ainda temos de ir passear os cães: dois rafeiros e uma Bouvier Bernois. Calha-me o Elmo, o rafeiro ruivo de olhar vivo e tão mau de trela como o meu Spotty. Ainda tento os truques para ele ir ao meu lado, mas é tudo em vão. A Zana olha-me com olhos comiserativos do estilo: "Ai vida, esta minha amiga..." Apanho-lhe o olhar e rio, claro. Elmo, segue lá à maluca que eu estou contigo! Passeamos entre campos de restolho debruados a azinho e sobreiros velhos. Desato a correr com o Elmo. Canso-o. Coitadito, aposto que ele pensava que a citadina não corria! Enganou-se! Fica com a língua de fora, estafado mas a pedir mais. Encho os pulmões de ar. Com os meus botins, a trança despenteada, o casaco polar sinto-me bem naquele meio. O sol que cai está frio e eu passo por cima das poças de água e lama, feliz porque nada daquilo eu faço no meu dia-a-dia. O Elmo vai à trela, mas eu, eu sigo sem trela, completamente desgarrada de tudo o que me prende quotidianamente.
Quando chegamos a casa ainda fazemos uns exercícios de yoga, a Zana e eu, e entretanto o pão está feito. Barro fatias generosamente com manteiga. Nirvana. Ela e o Zé querem levar-me a Alter à feira do livro. Percebo que me queiram levar a sair. Não lhes digo que preferia ficar ali em casa a comer pão com manteiga e a falar, a falar e que eles não precisam me levar a lado nenhum. Visto duas T-shirts por cima uma da outra e a Zana empresta-me um casaco de malha. Ela nem imagina que tenho na mala uma camisola de lamé dourado que era a tal de roupa "finória" que ela tinha escrito no mail. Agora sei que ali o "finório" tem um sentido bestialmente diferente do que eu entenderia.
A feira do livro está a fechar quando chegamos mas ainda compro "O Amor é Fodido" do MEC. A Zana e o Zé compram outro tipo de livros. Olhando para cada um dos três livros que comprámos, mais tarde, sentados no café do cinema de Alter, vejo que compramos coisas que só podem ter a ver com cada um de nós. Eu não iria comprar um livro de doeças de animais e eles não comprariam "O Amor é Fodido", se bem que eu não ache exactamente que o amor é aquilo que o MEC diz.
Durmo no silêncio e na escuridão do Alentejo profundo. A Xuga, a mini rafeirita, aninha-se aos meus pés e ambas dormimos o sono dos justos. Que bom que amanhã ainda aqui estarei...
OBRIGADA ZANA! OBRIGADA ZÉ!

21 comentários:

Carol disse...

A felicidade transparece em cada palavra. É bom saber-te assim!

DANTE disse...

Huh...desculpa lá uma coisita...o teu cão é professor de filosofia(phd)?? lolololol

E já vi que o fim de semana foi em grande , não tarda 'tá aí outro ;D

Beijo :)

António de Almeida disse...

Há mais de 10 anos que li "O amor é fodido", e até concordo com o MEC. Também conheço Alter, Cabeço de Vide e toda a região...

mdsol disse...

É a 'prova dos nove' da amizade: ser capaz de retomar a conversa como se tivesse sido interrompida ontem ou mesmo da parte da manhã.
Beijinhos enternecidos Blondinha

Blondewithaphd disse...

Carol,
Sim, é uma fase boa.

Dante,
O meu cão prof de filosofia?! Hmm... ele é é um grande filósofo da asneirice!!

António,
Vou ver se começo a ler agora nos feriados. Para já só sei o título. E sim, é uma zona muito bonita aquela, não é?

mdsol,
A amizade é uma coisa...

Tina disse...

Com que então a divertirem-se sem mim!
bjs e até breve

antonio - o implume disse...

O intelectual quando sai da soleira da sua porta comporta-se como um provinciano! Julga-se logo num recôndito, profundo e esquecido lugar de Portugal, onde nem a rádio nem os jornais chegam e onde obviamente ainda não se sabe que Salazar já não governa Lisboa!

Quando partimos, devemos viajar leves, sem a carga dos nossos preconceitos. ;)

Blondewithaphd disse...

Tina,
Tu não te irrites mulher!:) Olha-m'esta, agora, hein?!

Implume,
Mas quais preconceitos, homem? Uma Blonde lá tem preconceitos?

Ferreira-Pinto disse...

Porra que cheguei a meio já cansado e exausto ao fim ... e depois esse arrazoado bucólico campestre de um desfiar de hortaliças e quejandos biológicos, mais as galinhas da Índia e uma amizade ié-ié com uma Zana qualquer não me soam nada bem ... andor para a cidade ó arremedo de provinciana!
Basta ver a indumentária enfiada na mala ... e ir-me à Feira do Livro comprar o Miguel Esteves Cardoso, de facto, foi o arremedo final ... aliás, eu lia-te e imaginava-te qual Jacinto queirosiano vindo lá da Cidade Luz para as faldas do Douro bravio ... é, o Jacinto com as favas e a donzela com sei lá o quê ... quê, ainda aí estás? andor, rapidinho ...

Canseiroso disse...

Nunca uma flor do campo ficará bem numa lapela.
Que seja ela e por ela.
Demos-lhe estimação...

Joaninha disse...

A menina anda-se a divertir à grande, faz a menina senão bem ;)


beijão

André Couto disse...

Caríssima Blonde,
seria para mim impossivel ler o teu post e ficar indiferente.
Está cheio de sentimento, o teu sentimento pelas situações que na vida nos fazem sentir gratos por poder vivê-la. É muito bom podermos estar com os amigos verdadeiros, aqueles que quase sempre são poucos, mas ainda assim muito bons. É sempre muito gratificante sentir que alguém se preocupa connosco e nutre carinho por nós.
Para mim absorver tudo isso das tuas palavras foi muito bom, tal como, graças à tua inata capacidade de observação, foi muito interessante ver através dos teus olhos as diferenças tão grandes que distâncias geográficas tão pequenas acentuam de forma quase inacreditável.
Fico muito satisfeito por, na tua vida, estares numa fase boa em que te é dada a possibilidade de a apreciar plenamente.
Que assim continue!

Beijinho.

Zana disse...

... Recentemente, numa exposição de arte contemporânea lia-se em determinada instalação: "Nada existe antes de ser escrito."
Aplica-se pois a este fim de semana: agora que tu o escreveste, ou melhor lhe compuseste um HINO, existe MAIS!!
Acreditem que nunca vi a Blonde tão bonita, nem tão solta enquanto corria com o Elmo, de trança mal amanhada e de botins verdes até aos joelhos...Acho que a felicidade transparecia... e como é bom sentirmo-nos felizes com coisas que aos nossos olhos nos parecem simples e garantidas!!

Obrigada em nome próprio, do Zé, dos dois,e dos quatro patas...Será sempre bom partilhar contigo e com quem vier por bem our truly happy days!

... O André Couto apanhou a onda muito bem!!!

Chinook disse...

A zona é bela e o espaço de felicidade com os amigos ainda mais.

É bom encontrar-te feliz.

Manuel Rocha disse...

Olha...vê mas é se na próxima vez que resolveres regressar a cabeço de Vide me dizes alguma coisa. Pode ser que te pague uma imperial nas sombras das traseiras do Pateo Real. ;)

Entretanto, inspiraste-me, Dear Urbanita !

:))

antonio - o implume disse...

Blonde, aqui o Manuel Rocha ainda tem um feitio bem pior do que o meu... embora seja menos forreta, sempre paga uma imperial!

joshua disse...

O Amor é Fodido no bom sentido, querida Blonde.

A minha Blonde, sempre capaz de deslumbramento novo, descreve a Vida Plena, com o Elmo, a Zana e a Tina, como uma alienígena ultra-extraterrestre se descobre encantada por haver mais plenitude para além do Grande Vácuo da Vaidade Banal Quotidiana, onde se tresanda a Oco e ainda mais a Fútil.

Obviamente que exulto por isso, embora seja um espasmo passageiro.

Daniel Santos disse...

E muito bem!

Quer dizer, acho eu...

UFO disse...

quando foi editado o Amor é Fodido do MEC tentei, tentei, e não consegui passar do meio do livro. O livro é que me pareceu Fodido.
Melhor sorte lhe desejo.

joshua disse...

A Leitura é Fodida.

PRD disse...

Claro que a parte da revista do novo jornal me comoveu... Mas confesso que o que mexeu comigo foi mesmo o ambiente, a descrição, o tom de toda a jornada... Estás lixada, blonde: vou-te desafiar para uma crónica na tal revista, e até já tenho tema... Em troca, a edição que te falta...
;-))))))