29 de junho de 2009

Porque já são 11 anos...

O dia estava lindo. Junho terminava. Pressentia-se o Verão nas roupas esvoaçantes das senhoras, nas bouganvílias cheias de flores, numa Lisboa mais clara pela luz branca estival. Nós os três, o Pai, a Mana, eu, vivíamos numa espécie de bolha transparente: víamos o lado de fora, a vida que segue, os quotidianos das pessoas que passavam por nós, mas não pertencíamos a nada. Foram dias de limbo. O cansaço da esperança era talvez o pior porque não havia esperança. Havia dias em que eu queria aceitar a desesperança mas não tinha coragem. Afinal, de todos nós, a Mãe era imortal. Sempre pensei que eu podia morrer, o Pai, a Mana, mas a Mãe não. Nunca contemplei a sua mortalidade e isso tornava difícil, naqueles dias longos de sol e calor, aceitar que ela estava a partir. Acho até que tudo teria sido mais natural se fosse um de nós a morrer, mas a ironia era que era Ela quem partiria antes de todos, antes de ter tempo sequer para ir embora.



- Mutti, não te prendas por nós. Segue. Vai ser feliz. Não fiques triste se nos vires chorar. Nós somos fortes e tu sabes isso. Adoro-te Mutti linda, mas tens de ir. Não fiques aqui. Não fiques por nós. Sabes que eu olho por eles. Nunca, mas nunca te preocupes. Vai Mãe... Vai...



A Mãe morreu três horas depois de eu ter tido a coragem para deixar o egoísmo de a ter aqui. Levei tantos dias a mentalizar-me que deveria ter esta conversa com ela. Todos os dias eu entrava naquele quarto e todos os dias eu pensava que teria de deixá-la ir. O Pai e a Mana não entravam. A Mãe jorrava Amor e jovialidade, aquela graça natural que nos deixava presos num encantamento, não importava se fôssemos humanos ou animais, pequenos, grandes, todos nos apaixonávamos por Ela. E era por isso, talvez, que o Pai e a Mana não entravam naquele quarto nos últimos dias em que Mãe esteve nesta Terra. Não a queriam contemplar naquela vida sem vida. Ficavam à espera as horas que eu estivesse com ela lá dentro do quarto. E eu ali ficava a olhar para ela. Cheirava-lhe a pele doce e morna e pedia a Deus para nunca me esquecer daquele cheiro.
Naquele dia, depois de várias horas a lutar contra mim, decidi falar-lhe. Tive tanto medo. Tão pouca coragem. Sabia que nunca mais ia sentir aquele cheiro e aquele calor que a envolviam num halo de Vida. Pensava que a despedida invocasse palavras grandiosas mas só me saíram frases curtas, banais. Que guiões existem que nos digam o que dizer na última vez que estamos junto do Ser que mais amamos? O que é que se diz quando tudo é derradeiro na mortalidade e não há regresso? E depois, depois eu já lhe tinha dito tudo quando falávamos horas esquecidas em tardes longas sem fim. Era tão bom falar com Ela.
A Mãe tinha aquele intelecto fino, desenvolto que lhe permitia a abstracção mental e podíamos falar horas a fio de Teologia e Cosmologia, da finitude e do infinito. Desde que Ela morreu nunca mais tive conversas destas com ninguém. Ninguém fala com aquele nível de profundidade. E que saudades eu tenho dessas conversas... Também lhe disse muitas vezes que a amava e agradeci-lhe sempre ter-me dado a Mana. Não ficaram palavras por dizer, sentimentos não verbalizados. Daí a despedida ter tão pouco para dizer.
Quando o telefone tocou, eu já sabia. Não foram precisas palavras para dizer ao Pai ou à Mana. Dentro de mim fiquei contente: agora eu poderia voltar a falar com a Mãe sem estar naquela incerteza humana se os estados de coma superficial permitem a audição. Agora eu tinha a certeza de que na incorporalidade Ela me ouvia. Ela, que me ensinou esta língua nos versos do Pessoa e que me falava em alemão tantas vezes, agora ouvia-me.
Peguei na água de colónia que ela toda a vida usou, 4711, dois pares de sapatos, duas mudas de roupa, uma em rosa outra em azul, e no estojo da maquilhagem dela. Fui ter com Ela à morgue onde a depositariam. Eu jamais permitiria que Ela estivesse lá sózinha, tratada por estranhos, gente que desconhecia quem era Ela e a sua imensa capacidade de amar. Na minha voz calma e determinada deixaram-me entrar.

- Por favor, é a minha Mãe que aí está. Falo com o Director ou com quem for preciso. Não faço cenas. Mas deixe-me entrar, por favor.

Tiraram-na de uma gaveta grande na parede. Fiquei aliviada por não a ter encontrado naquele corpo de olhar vítreo. Estava tão gelada a pele dela. Não cheirava a nada. Ela já ali não morava e eu fiquei feliz por isso. Perfumei-a. Penteei-a. Escolhi o vestido azul às flores que lhe ficava tão bem naquele cabelo louro de veludo, calcei-lhe os sapatos beige. Dei-lhe um beijo na testa e sussurei-lhe ao ouvido o refrão de uma canção do Freddy Mercury que ela adorava: "The show must go on". The show must go on, Mutti.
Depois pedi que a depositassem na urna. Fizeram-no com tanto respeito, tanto esmero, em silêncio. Pedi que fechassem o caixão. Só eu a veria sem vida, sem a sua joie de vivre. Não poderia deixar que o Pai e a Mana a vissem a dormir sem estar a dormir. O Pai não aguentaria e a Mana era tão novinha para ser confrontada com imagens que nunca mais seriam apagadas, tão novinha.
No ano passado, e somente no ano passado, a Mana disse-me que teve com a Mãe a mesma conversa que eu tive uma semana antes da minha coragem para me despedir. Quando ela me divulgou aquilo, senti uma sombra percorrer-me a alma: a Mãe esperou que eu me despedisse, a Mãe viveu na vida sem vida até eu me despedir. Acredito na eternidade do Amor, na força incomensurável do Amor, o Amor que tudo pode, que tudo vence.

Hoje chove e eu estou melancólica. Meto em palavras as saudades que vivem comigo a cada segundo desde aquele dia soalheiro de Junho. Tenho tantas saudades...

18 comentários:

Ferreira-Pinto disse...

Deixaste-me esmagado!
Desculpa, mas não posso, nem devo dizer mais nada.
Notável.

António de Almeida disse...

Não sei em que acredito ou deixe de acreditar, mas já que conta esta sua história pessoal, vou-lhe contar uma que se passou comigo, vai para 8 anos. Estava o meu pai no Hospital, mas como o internamento durou cerca de 2 meses, com operações pelo meio, como bem diz "show must go on", e eu tive de ir trabalhar, o que inclusivamente implicou viajar. Estava num hotel, quando aparece um amigo que não tinha reserva, e não conseguiu quarto, como pretendia ficar apenas uma noite, e porque o meu quarto tinha 2 camas, disponibilizei-me para ele ficar no meu. Fomos jantar, passámos num bar onde conversámos um pouco, pela meia noite estavamos deitados. Estranhamente acordei agitado entre as 4H e as 5H, indo várias vezes à casa de banho, ou apenas beber água, sem acender a luz para não acordar o meu amigo, que julgava eu, estava a dormir. Na manhã seguinte não me lembrava do sucedido, quando me telefonaram a dar a notícia que não queria ouvir, desliguei o telefone e desapareci. Passados alguns dias, o meu amigo relatou a minha inquietação, e perguntou-me a hora do óbito, fui ver, 4h40. Vale o que vale, não sou crente...

Pedro Lopes disse...

as palavras banais são tão grandes
tão grandes, enormes pequenas, e tudo
quando cheias de amor
e sentir
vivas
as tuas palavras tão vivas

não sei se o tempo pára
se as memórias ajudam a viver
se

no estar em sentir
isso vou sabendo
momento a momento
às vezes dói
tanto
e no sentir outras imagens
memórias
que memórias
outros sorrisos?

das nuvens
do céu escuro
de tantas saudades
por entre um cinzento carregado
olha do brilho que se faz dia
um e outro dia a dia
um raio de sol
luz de ouro
um raio
de luz

Chinook disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Chinook disse...

Sabes Blonde deixaste-me abalado.

O meu Pai partiu vai para tantos anos e nessa altura estava longe dele. Na altura tive um presentimento de que devia muito falar com ele e no dia seguinte ligaram-me a dizer que tinha falecido. Ainda hoje sinto que ficaram tantas coisas por dizer.

Por vezes falo com ele. Nem me apercebo e procuro a sua palavra. Enfim, acabaste de me pôr com um ponto grande de nostalgia.

Deixa-me dizer que o mundo volta sempre a rodar e que nos que me seguem na linha da vida revejo um pouco do meu Pai e no fundo ele está lá.

Saudades...

Ältere Leute disse...

Minha querida, tinha que me fazer chorar hoje ? E logo a 4711 que não podia faltar... Um beijinho por hoje e por sempre !

Abobrinha disse...

Não faço ideia do que sentiste e espero não saber tão cedo.

Mas é bom saber que não tiveste que esperar pela incerteza da última hora para dizer o que precisavas de dizer. Tantas palavras e tantas emoções tinham corrido entre vocês que já não era preciso. A tua mãe e tu tiveram uma vida cheia. Ou seja: valeu a pena! Soube a pouco! Se partilhassem mais 50 anos na companhia uma da outra teria na mesma sabido a pouco! E isso é muito bom!

Ainda bem que tens saudades. Mas vai lá para fora e lembra-te da tua mãe da maneira que ela de certeza quer: a viver!

Um beijinho, linda!

Alexandra disse...

E eu que não tive coragem para mais que segurar-lhe a mão...

Helena Sacadura Cabral disse...

Perder a Mãe é perder um bocado de nós. A raiz. A matriz.
Pior, só perder um filho. Porque, nesse caso, perde-se a nossa vida!

Um abraço próximo de quem já passou pela sua dor.

Tina disse...

Estes sim, são momentos importantes que deves recordar com muito amor e saudade e que devem servir também para te fortalecer. Tudo o resto, não é nada, apenas pequenos obstáculos da vida...
with love

C.

antonio - o implume disse...

Deixaste-me um nó na garganta...

PRD disse...

arrasador de belo, profundo, e no entanto tão delicado, tão dedicado. estou esmagado. Bj

Eu Mesma! disse...

Nem sei o que te diga....

não consigo sequer imaginar o que podes estar a sentir...

:)

A Gata Christie disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carol disse...

Não consigo pensar em nada...
As lágrimas escorrem pelo meu rosto e dou graças a Deus por não ter vivido nada assim. Já perdi muitas pessoas que amava, mas a minha Mom não. Não concebo, sequer, perdê-la um dia... E ler-te, Blondie, é muito doloroso porque me faz perceber que um dia vou perdê-la e a dor de o imaginar é demasiado avassaladora...

Zana disse...

...que bom abordar a morte com Beleza! Beleza nas palavras, beleza de sentimentos e beleza nas memórias que ficam da altura da partida!
...que raro falar dela sem lhe colar desespero,revolta,injustiça, caos e vazio!

Parabéns pela coragem da abordagem! Foi sem dúvida um voto de confiança para com todos nós que partilhamos contigo este blog!
Obrigada!... Acho também curioso que os comentários até agora publicados não tenham resíduos de amargura... Talvez seja da fome que nós, actualmente temos de verbalizar (saudavelmente) o tabu da NOSSA MORTE!

Vivi disse...

Estou mais que esmagada... Lavada em lágrimas!!..tens, de facto, uma escrita fenomenal... Cada palavra sentida em grande...

Goldfish disse...

Não devemos nunca deixar para depois o que temos de dizer a uma pessoa que amamos. Ainda tenho a minha mãe, mas já perdi a outra - sim, porque eu tive a sorte de ter duas. Quando me deitei dormia debaixo do mesmo tecto que eu e quando acordei já não estava connosco. Já lá vão 12 anos e ainda não deixei de me despedir dela.