3 de agosto de 2009

Manhã do dia 3




- Bom dia! Pode dizer-me onde é o Correio?
- Ó menina, êle acabou de passar aqui!
- ?!
- Tá a vêr além aquelas larangêras? Êle deve de tar por ali.
São 10 da manhã. Saio de casa sem tomar duche e com urgência. Arranco para Cabeço de Vide. Páro o carro onde vejo dois senhores sentados nos degraus de um portal. Abro o vidro e pergunto onde são os Correios. A Zana foi de férias, esqueceu-se do carregador do telemóvel e arrisca-se a ficar incomunicável. Eu, que me mudei por estes dias para a casa dela, fiquei de lho enviar por encomenda expresso.
- Não, não é o correio: o edifício dos correios. - Pergunto de novo enquanto me lembro que, calhando, deveria ter dito casa em vez de edifício.
- Atão, segue por esta rua adiante e lá nas larangêras vira à dirêta.
Sigo, e depois de me perder lá no sítio das larangeiras e de perguntar a um casal onde são os correios, lá chego aos ditos. Dou com o nariz na porta. Só abrem às 11. Bem, vou fazer tempo para um café e tomar o pequeno-almoço.
- Nã, aqui nã temos bolos nem essas coisas. Isso só ali mais em baixo na pastelaria.
Caramba, mas isto tem escrito "Café"! Como é que um Café não tem uns bolinhos e umas torradas para o pequeno-almoço? Queres ver que é um Café segregado e coisas de senhoras são noutro Café? De facto, só lá estavam homens. Desço a rua e há, de facto, uma pastelaria onde, mais curioso ainda, só estão senhoras. A escolha não é muita mas arranjam-me uma torrada de pão alentejano. Deliciosa!
Como enquanto noto que sou o tema de conversas e centro de olhares: quem será a tipa dos óculos escuros e chapéu de abas?
11.05. Chego aos Correios e, estupidamente, vejo agora, procuro e pergunto pela máquina das senhas.
- Aqui nã há senhas, menina.
Também não há fila mas há um monte de senhoras à minha frente. Carregam telemóveis, pagam a conta da EDP e levantam a pensão (noto que uma é de 300 e poucos euros e fico escandalizada com este país).
Preciso de fósforos. Pergunto onde é o supermercado e meto-me ao caminho.
- Nã temos. Só quinta-feira.
- Não me diga! E onde acha que aqui posso comprar fósforos?
- Exprimente aqui no café ao lado.
Experimento, enquanto constato que, para uma vila tão pequenina, já vou no terceiro café no espaço de uma hora e pouco.
- Ó menina, nã temos fósforos. Mas se a menina chegar mais adiante vê uma casa com um pézinho azul e entra no portão que a minha cunhada tem.
Primeiro penso que o pézinho deve ser uma bifurcação qualquer na rua ou uma espécie de rotunda. Nem pergunto o que seja. Mas chegada, vejo uma casa com um rodapé azul. O pézinho deve ser o rodapé, só pode. Vende sanitários e materiais de construção e... fósforos! Deus seja louvado, quem se lembraria de comprar fósforos onde se vendem lavatórios e toalheiros?
- A menina nã é de cá, pois não?
- Não, não, estou de férias.
- Nas termas?
- Não propriamente.
- Então pode levar aqui uns cartõezinhos para quem vier para as termas? É que eu alugo uma casinha.
- Levo com certeza! (Não sei bem para quem, mas levo, sim senhora).
Enquanto aqui estou sentada na cama à hora da sesta (hoje não me apetece sair, mas ontem fui a Marvão e a Castelo de Vide... maravilhoso dia!), penso no país de assimetrias que este é, penso que a política é uma coisa de lisboetas, penso que as eleições se fazem para o país de Lisboa, penso que sou uma lisboeta (quer queira, quer não, mas ainda bem que sim) que vive num mundo de superavit de desenvolvimento. Penso que me estou a divertir à grande nestas férias rurais, que estou a adorar estar aqui neste Alentejo, neste campo, nestas vilas históricas, nesta raia a perder de vista. Mas penso, também, que, neste país falamos linguagens diferentes e que não são só auto-estradas que vão aplanar as diferenças entre litoral e interior.

6 comentários:

Daniel Santos disse...

Não são linguagens diferentes, são linguagens mais simples.

Pedro Lopes disse...

o tempo é um outro tempo

Zana disse...

Já nos divertimos os quatro a ler as tuas holiday confessions!
Escreve mais amanhã, nós pedimos-te, imploramos-te!

Decerto tornaste-te a ESTRELA do dia nos meandros sociais videnses!

...Reparaste se os fósforos que te venderam tinham cabeça???

antonio - o implume disse...

Começo a notar que a Blonde está menos bicho do mato mais descontraída... isso é bom. O interior português tem muito para descobrir e calor humano para dar!

António de Almeida disse...

Uma visitinha à serra em Portalegre, recomenda-se, dá para almoçar num dos restaurantes e contemplar a paisagem. Na cidade poderá visitar alguns locais de interesse, é o mais desenvolvido que por aí se arranja, a capital do Distrito. Avis e Alter do Chão também são locais obrigatórios, no dia de regresso em direcção a Lisboa, pare no Fluviário em Mora, absolutamente imperdível. Boas férias.

Ferreira-Pinto disse...

Olha, o António de Almeida tem razão ... o fluviário de Mora é singularmente espectacular. E já que andam por aqui todos a sugerir isto e aquilo, aparentemente na certeza que não há longe, nem distância, também tens Penha Garcia mais para riba e o Parque Internacional do Tejo ... há por lá sítios deslumbrantes, mesmo para uma cesta de piquenique.

Claro está que recomendaria ainda o Isaías em Estremoz (presumo que ainda aberto), bem como o Fialho em Évora!