1 de agosto de 2009

Noite 1


- Shit! Shit! Shit!
Lembro-me da cena derradeira de "A Entrevista com o Vampiro". Sim, essa em que um Lestat semi-morto de décadas segue no carro com o jornalista que entrevistou o vampiro. Os faróis do carro estão em máximos mas só vejo sombras assustadoras. Imagino que uma Banshee me salte ao caminho. São 11 da noite e eu estou no meio de nada e, portanto, não estou a meio de coisa nenhuma. Sinto os meus medos irracionais ganharem forma.
Há cinco minutos atrás estou sossegada a rememorar um dia extraordinário. Vejo as fotos maravilhosas que tirei, as paisagens que cheiram à hortelã bravia que os meus pés calcam por entre os asseiros do montado. Vejo a luz tremeluzente que se esgueira entre folhagens velhas de anos e estações. Oiço o silêncio quebrado em sobressalto pela presença do cheiro estagnado, doce e denso de uma figueira gigante cujos ramos vencem silvados e ombreiam com sobreiros num matagal de verde impenetrável. Revejo imagens de um luar cristalino emoldurado em oliveiras. O luar que agora me arrepia.
- Shit! Shit! Shit!
Esqueci-me de fechar os portões da herdade. Tenho de sair, enfrentar a noite de breu. Pego nas chaves do carro, nas chaves do portão. Tranco a casa atrás de mim. Estou só, na rua, na noite, no vazio alentejano sem nada por perto. Pego na Xuga e meto-a no carro. Não há fecho central. E agora? Tranco as portas empurrando os pins para baixo. A meio do caminho e dos terrores de assombrações e salteadores lembro-me de que deixei o telemóvel em casa. Isto não está a acontecer! Sei que não tenho ajuda em circunstância alguma. E a escuridão... A escuridão...
Conduzo a 10 à hora. Desvio-me de pedras e buracos. Conheço mal o caminho. É longe até ao portão como longe e grande de espaço é o Alentejo. Sinto pressa de fugir mas o caminho faz-se à razão de centímetros.
Finalmente o portão!
Estou trancada!
Não consigo sair do carro!
O pin da minha porta não mexe!
Não é possível que eu Blondewithaphd esteja trancada num carro com um mini cão ao lado, numa noite de sábado, em pleno Alentejo profundo, sem telemóvel, sem nada!
Ao melhor estilo cinema fantástico de Hollywood corro com as mãos ao pin da outra porta. Enxoto a Xuga e, de joelhos no assento do pendura, tento desencravar o pin. Liberdade! Saio do carro e vou abrir a minha porta. Corro ao portão. Fecho o cadeado. Volto ao carro. Tenho, nem sei como, de fazer inversão de sentido de marcha. Penso no Lestat atrás. Xuga, que raio de cão és tu que não me afastas os medos?
A casa! Santuário. Adeus Lestat!

5 comentários:

Abobrinha disse...

Não digo que consigas fazer um filme inteiro com isto, mas pelo menos uma curta metragem de categoria consegues de certeza!

Pedro Lopes disse...

pegando na ideia da Abobrinha, títulos possíveis para a obra:

Alentejo's Blonde
Sunset Alentejo
À noite há luar
Inside a Blonde's Jeep
The missed interview
Xuga's night
Shit! Shit! Shit!

:-)

Daniel Santos disse...

Forma diferente de começar umas férias...

Chinook disse...

Por aqui percebo a angústia de uma noite no campo. Nem viste que a noite estava bela e que a calma do campo é sempre relativa para quem ouve o que se passa para além do fundo sem ruído.

Fora isso uma bela descrição para uma curta-metragem de suspense.

Excelente começo de férias.

Ferreira-Pinto disse...

Espera lá, tens medo do escuro?
E sonhas acordada com vampiros?
Moça, volta para a cidade que está-se mesmo a ver que não tens "guts" para "la campagne"!