8 de novembro de 2009

Die Mauer ist weg!


E o Muro caiu.
A Mãe chorou de alegria nesse dia. Via as imagens nocturnas na televisão e repetia, na mecanicidade da incredulidade, que o Muro tinha caído. Estávamos todos suspensos. Acho que tivémos, por instantes, medo de que houvesse uma qualquer revolução sangrenta, que as coisas não fossem bem assim ou que a súbita liberdade fosse um engano a que, em breve, a polícia fosse pôr fim. Afinal, eu cresci a ouvir as histórias trágicas da Tante Ruth e da Tante Henny que tinham fugido de Berlim sob saraivadas de metrelhadora, a coberto da noite e a nado num Spree completamente gelado com a Bärbel pequenina levada no pescoço da Tante Ruth.
Estes anos todos depois, quando a Tante Ruth vai a Berlim, à terra dela, ainda diz que vai à Heimat, a Pátria. O Muro pode ter caído, mas nada, enquanto as gerações do Muro viverem, vai apagar o fosso, a divisão. O Muro ainda vive, de certa forma, na dor que impôs a milhares de alemães: os que viveram na opressão comunista, os que, como as minhas Tias, fugiram dele e, sobretudo, num povo que, quer queiramos quer não, continua atravessado por uma divisória ideológica e de vivências que o separou em dois.
Sempre que aqui em Portugal me perguntavam de qual das Alemanhas eu era, havia sempre o orgulho de dizer que era da República Federal e ficava sempre a pensar no que levaria as pessoas a fazerem-me essa pergunta: como se fosse possível eu ser da outra, da República Democrática, que de democrática não tinha nada. Eu, e acho que todos os alemães, detestávamos a DDR. Sofríamos horrores nos Jogos Olímpicos com aquela competitividade de Guerra Fria a ver quem ganhava mais medalhas. Já não era só um povo separado, eram dois povos distintos que acalentavam um ódio denso subreptício.
Sim, foi uma emoção sem igual ver a destruição do Muro (nunca fiquei com pedacinho nenhum como tantos turistas quiseram ficar), mas ao vermos os alemães de leste invadirem a RFA porque aí se vendiam e comiam bananas, e eles gastavam os 100 marcos que o governo federal lhes dava em bananas, soubémos todos que a Vereinigung, a Reunificação, não ia ser fácil. Não foi. Mas o Muro caiu e a Mãe chorou.
O Muro caiu e o mundo pôde tornar-se o que é hoje: um mundo que canalizou os seus medos mais profundos de aniquilamento para a esfera árabe. O Muro acabou a Guerra Fria e no após ergueu-se a Guerra do Terror porque nós, o mundo, não aprendemos nada e não existimos sem uma guerra mundial qualquer.
Seja como for, e numa gramática melhor do que a o Kennedy: "Ich bin Berlinerin!" Hoje, e por me lembrar, eu sou berlinense!

13 comentários:

Ältere Leute disse...

Pois era... e nós que vivíamos aqui a querer ser impecavelmente imparciais na transmissão da Landeskunde, bem nos esforçávamos por usar os contributos que nos dava a A.A.Portugal-Rda, para mostrar os benefícios do Sistema: Wohnung(fotografias desencorajantes ! ),keine Arbeitslosigkeit ( à custa de quê ?), Sozialversicherung...Sicherheit ( a da Stasi?) Mas depois lá tinha de vir o relato da passagem no metro da Friedrichstr.com as revistas confiscadas, os marcos trocados para pagar os museus e o almoço na Rathaus ( mas não para dar gorgetas nos lavabos, que aí reinavam os Pfennig ocidentais )e, supostamente devolvidos no regresso ( eu não, que tenho aqui essa relíquia, melhor que um pedaço de Muro! ). E a esperteza de ter deixado o Pergamon, a Ópera, a Catedral... do lado de lá ! Depois,em 1986, houve Chernobyl e aí a gente começou a perceber porque é que, da parte da tal A.A., nunca havia ninguém para falar de Umwelt ("Umwelt? Nicht so wichtig wie die Menschen...") Nunca podíamos fazer o confronto num tema tão caro ao lado de cá, onde a nós, que começávamos a ficar mais "umwelbewusst", até nos pareciam mesmo "Fundis".
Em 1999, com o Programa Socrates ( o da Europa) veio a Anna, de Dresden, que tinha 12 anos em '89, e a sua presença foi uma Landeskunde viva: a alegria de viajar, de aprender Inglês, de aprender Russo só "zum Spass",de decidir o que queria estudar, teve o condão de mostrar aos pais que tinha valido a pena.
Não se pode ter tudo : Ossis e Wessis hão-de reconhecer isso.
Mas tb tenho pena de que tenha de haver sempre muros por aí, pretextos para que se possa dar vazão ao que de mau existe no Homem!

Ältere Leute disse...

Acabo de ver o doc da BBC "Vidas Duplas". Porque será que a fé dos dois mais velhos entrevistados nos "amanhãs que cantam" não teve / não tem força para construir ( e aguentar sem recurso às Stasis) a tal sociedade perfeita, invulnerável àquilo que de tão mau existe no resto do mundo?

Eu Mesma! disse...

Ainda me lembro das imagens....
dos sons que a televisão emitia.... e fiquei parva por perceber que já passaram 20 anos e que... eu vivi esse momento atraves da tv....

antonio - o implume disse...

Confesso que gostava mais da guerra fria... vivíamos melhor sem a globalização.

António de Almeida disse...

Gosto de pensar que no final triunfou a Liberdade. Os crentes nos amanhãs que cantam digam o que quiserem, a realidade é que ninguém queria passar aquele muro de Oeste para Leste, enquanto muitos perderam a vida tentando passar de Leste para Oeste...

Ferreira-Pinto disse...

Afinal, sempre é verdade a história de Kennedy se ter afirmado uma bola de berlim e não um berlinense?

Daniel Santos disse...

Muitos por ai, incluindo Portugal, sente saudades dele.

Daniel Santos disse...

esqueci-me...

Aquele endereço de mail é para quê se a menina não lê a caixa?

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Eu compreendo a alegria de todos os que viviam na Alemanha, porque viver num país e numa cidade dividida não pode deixar ninguém feliz.
Compreendo menos bem as celebrações num mundo ocidental que se mantém indiferente, compreende e até apoia, a existência dos muros de Gaza, EUA/México, Eslováquia, Irlanda ou Chipre. Os três primeiros foram construídos depois da queda do muro de Berlim.E isso, eu não compreendo...

bluegift disse...

Dear Charles, Ich Bin Ein Berliner. Ele é tão bola de Berlim quanto todos os chefes de governo que passam a vida a puxar para si os inimagináveis louros de toda e qualquer vitória. Já não há paciência...
Apesar de tudo, Blondie, girl, deixo-te os meus parabéns!

Joaninha disse...

Eu vi, confesso que na altura não entendi a dimensão da coisa, aqui neste nosso cantinho à beira mar plantado...Hoje entendo um pouco melhor, mas acho que ainda não completamente...

beijos

Ferreira-Pinto disse...

"Tuus takk", Bluegift!

Chinook disse...

O mundo é sempre igual a si mesmo pois as pessoas que o compõe não mudaram nunca...

Gosto de ti Blonde, gosto do que escreves, mas, acima de tudo, gosto do riso que me lembro de ter ao ver outros muros a serem derrubados, como aquele que foi em 25 de Abril de 1974 (em que a fome e algumas pilhas de cadáveres de uma guerra tonta eram a estrutura do muro que foi derrubado).

Nem todos os muros são de betão, aço, pedras...

Alguns, barreiras tão intransponíveis como essas, são construídas com regras e normas que os tornam pesadíssimos...

Beijos, com carinho deste,

Chinook