28 de março de 2010

Lágrimas que me sabem bem


Tão bem que, no meio das outras, perdi a noção de que estas também existem. Não as consigo conter na convulsão que me percorre o organismo, como se a felicidade que me inunda neste momento se quisesse desaprisionar dos grilhões corpóreos em que se encerra. Acordei longe e só, no meio de nevoeiros frios, muito longe. Acordei para um dia banal de quotidiano, alheia que se iria tornar um dia assombroso, um dia de nadas e muitos, um dia de tudo.
No telemóvel um sms de duas palavras. Duas apenas e bastam duas para, de súbito, a Vida ter todo um novo sentido. Paralizo na perplexidade e não sei sequer que pensamentos convocar. Conduzo na velocidade que me trará aqui ao meu mundo, aqui onde tudo se passa, onde tudo me diz que é bom acordar porque há infinitas razões para acordar. Quase me desconheço nesta sensação.
Chego a casa. Desligo o alarme, saúdo o Spotty que me espera com olhos de mel. Entro com malas que deposito à toa como quem se livra de um fardo. Santuário. O chão ainda está húmido de lavado de fresco. A Paula deve ter saído há pouco e eu sei que a casa estará perfeita, na perfeição em que ela ma deixa sempre nestes muitos anos em que aprendi a não saber viver sem a ajuda dela.
Sobre a mesa da cozinha encontro os mimos que ela me costuma deixar para as minhas chegadas: revistas, ovos, legumes e bilhetes de recados e boas-vindas. Há também um saquinho encarnado que abro descobrindo um espelho e uma esferográfica, presentinhos legendados com cuidado no bilhete:
"Cada objecto que te ofereço são elementos para que a energia não te falte. Espelho - cada vez que te olhes para ele verás a imagem de uma pessoa realizada na vida. Caneta - que a tinta dela faça escrever sem gastar muitas palestras. Vela florida - que toda a luz do mundo te acompanhe. Beijos, Paula".
Sinto-me mimada, meu Deus, tão mimada e tão gostada. Protegida neste mundo de uma casa demasiado grande para uma pessoa, uma casa de ecos, de passados, de divisões em que raramente entro, de um jardim habitado pelo Spotty e cuidado pelo Sr. Luís que usa as minhas ausências para o domesticar, trabalhar e aprimar dos estragos do Spotty e do meu abandono. Sim, protegida, sinto-me protegida neste meu mundo de rapariga-mulher que o construiu, que quase sufocou sob o seu enorme peso, pesado de tantas responsabilidades e que o mantém, sentindo-se, cada vez mais, senhora dele e mais confortável nele.
Cinco minutos. Cinco minutos de Vida ainda me esperam neste dia. Cinco minutos que vislumbram eternidades, Tempo. Segundos que escorrem velozes numa ampulheta que não se esvazia. Segundos serenos como a calma quente do deserto que eu amo. Segundos velhos como as rochas esculpidas pelo vento de milénios. Segundos salvíficos que me deixam atónita.
Nunca temi a Morte, seja porque sei que a Mãe me espera do outro lado para reatarmos as nossas longas conversas com cacau quente, seja porque nunca senti que perdesse nada porque nada aqui me prendia. Hoje é diferente. Se morresse hoje diria que vivi. Não morreria no vazio de deixar uma vida sem nada, morreria no tudo, nas lágrimas quentes e grossas que me afagam de felicidade, nas lágrimas que sei que escorreriam dos corações daqueles que habitam o balão do meu mundo, que me amam e protegem.
Durmo sózinha ao cabo deste dia, feliz porque vou acordar para muito, feliz porque se não acordar terei vivido muito...

P.S. - Ainda não encontrei a tal vela florida que a Paula me deixou cá em casa, mas também, aqui na imensidão, ela pode estar em qualquer sítio... Quando a encontrar mostro. Prometo.

9 comentários:

Pedro Lopes disse...

you are a blessed happy person, congrats, that's rare, congrats

Daniel Santos disse...

deslumbrante momento.

antonio - o implume disse...

Existe quem precise de um mundo sós seu para conseguir respirar....

AB disse...

Que coisa. Estive a ver o (500) Days of Summer. Duas palavras que nos fazem felizes são "love you", se é que isso são duas palavras.
Também estive a rever o Tearms of Endearment, e as duas palavras eram "it's benign". Quais foram?

Eu Mesma! disse...

adorei o teu texto e as tuas palavras...
escreveste com alma...

António de Almeida disse...

Dizem que uma imagem vale por mil palavras, pelos vistos bastaram duas...

Turmalina disse...

Nada como a volta prá casa...e com mimos assim, melhor ainda!
Deixei resposta sobre o Rigatoni lá nos comentários do blog :o)
Bjos

Ana Campos disse...

Um beijinho grande.
O meu coração é grande e cabem lá todos tu também.

Joaninha disse...

Que bom! Beijos