2 de novembro de 2010

Ó sim, também há o reverso da questão

E eu entendo perfeitamente que à infame pergunta "o que é que eu posso fazer pelo meu país?" muita gente pense na carrada de malta que de tanto ter o país a fazer por ela (e percorro desde o bas fond do rendimento mínimo de inserção social ao CEO de empresa estatal/municipal) deveria pensar agora em fazer pelo país. Afinal, a reciprocidade é uma coisa muito democrática. No meu caso, e lamentando o "umbiguismo" que me ataca por estes dias, vejo uma factura pesada de deves e haveres da qual me considero grande credora. E digo isto no sentido mais absolutamente patriótico do termo.

14 comentários:

I. disse...

Sinceramente, não sei o que mais possa fazer. Vou pagar mais impostos, e sempre os paguei. Vou continuar a trabalhar o melhor que sei, e sempre o fiz (e para o Estado), vou ter redução de vencimento, não tenho aumentos há que anos, o que me resta? Dar abrigo a um desses CEO, já agora?

Manuel Rocha disse...

:)
Concretizemos então: participaste na Assembleia Municipal que instituiu a empresa e definiu o vencimento do CEO, que contestas ? Se participaste e foste vencida mas não convencida, promoveste as manifestações de indignação a que tens todo o direito ? Ou partilhas o senso comum de que a politica é para os politicos e os politicos são "aqueles gajos"? Apre Sôtora !

http://manuelrrocha.blogspot.com/2010/11/portugal-perde-com-espanha.html

:)

JL disse...

Sinceramente, eu acho que há práticas que desmentem a teoria. Como dizia alguém, vou pagar mais impostos (e são tantas as formas de ‘imposto’ desde o IRS, ao IVA, à contribuição da casa, ao duplo imposto para comprar carro, etc., etc….), vou ter redução de ordenado, frequento activamente as reuniões do meu condomínio, separo devidamente o lixo, não interfiro na liberdade alheia em tudo o que isto diz respeito, exerço o meu dever cívico e vou votar em cada uma das eleições (para as dezenas de distritos, centenas de concelhos, milhares de juntas de freguesia, assembleias de freguesia, assembleias municipais, mais de duas centenas de deputados, Presidência da República… – atenção, temos pouco mais de 92 000 Km quadrados e somos apenas cerca de 10 milhões de almas), contribuo sempre que posso para as causas sociais e que obtenho eu em troca do meu país? Insegurança nas ruas com aumento da criminalidade, filas e filas de espera se necessitar de me deslocar a qualquer organismo do estado devido à interminável burocracia, menos e pior saúde, auto-estradas pagas, escolas sem um mínimo de condições e professores legitimamente desmotivados, uma justiça que não funciona, caça à multa nas estradas,… Enfim, não quero tornar isto fastidioso referindo-me, em oposição, às mordomias de um estado que deveria dar o exemplo e não dá, só pede, pede. Aliás, não pede, obriga. Foi para isto que se pensou a democracia? Não, não foi, e é esse o meu maior temor. O descrédito por um sistema deturpado e que não funciona. E se assim acontecer, todos sabemos onde isto vai parar.

Manifestações? Fazer política? Desculpem-me o 'senso-comum' mas não posso, tenho de ir trabalhar.

Cumprimentos.

JL disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Manuel Rocha disse...

Comoveu-me o depoimento de JL ! :)
Então os serviços de cujo mau funcionamento justamente se queixa são desempenhados por quem ?! Extra-terrestres ?! Somos todos menores a precisar de exemplos vindos de cima ? Os dirigentes de hoje não andaram connosco na escola ?
“Condições das escolas” ?! Não me faça rir ! Sabe do que está a falar ? Quer vir até aqui a Auckland ? A sala de profs desta conceituada universidade de onde lhe envio estas teclas é um open space num velho ginásio e na sexta feira passada dei uma aula no refeitório, mas ninguém se queixa de falta de condições, imagine-se !!
“Menos e pior saúde”?! no país onde até as mudanças de sexo e a infertilidade são pagas pelo SNS ?! Encontra algo no género nos USA ? Aqui se falo disso chamam-me tangas, e se digo a um médico que em PT os senhores doutores continuam a receitar medicamentos de marca porque os genéricos não sei quê, ao ponto de o estado ter de fazer campanhas publicitárias para ver se convence os doentes a pedir genéricos aos médicos, corro o risco de perder por completo a credibilidade por completo ….:)

Continuamos a objectivar ? Eu gostava...:)

JL disse...

Caro, MR, a intenção não era comovê-lo mas registo o pormenor. E se lhe dá vontade de rir com a situação actual do país, garanto-lhe que a mim não.

Sabe, eu não falava de condições nas escolas para os professores. Referia-me aos alunos, embora, reconheça, acabem por sofrer todos por tabela. Não conheço a situação em Auckland, pelo que não faço comparações. Mas, só para lhe dar um outro exemplo do bom Estado que temos, ainda hoje soube de algumas empresas de obras públicas com o crédito cortado nos fornecedores simplesmente por falta de liquidez das mesmas já que o estado não lhes paga. E o mesmo se passa com as autarquias, que não pagam a ninguém. Fala de medicamentos, imagino que saiba igualmente qual o valor da dívida do estado às farmácias. Por tudo isto, não se trata apenas de uma questão simplista de 'exemplos vindos de cima' ou de menoridade de quem quer que seja. Trata-se também de fazer com que o estado não se torne num empecilho para as empresas e cidadãos. Até porque, num estado de direito, há sempre o recurso à justiça. Mas com a celeridade com que vemos serem tratados os processos do género em Portugal, muitas empresas fecham sem obterem quaisquer respostas dos tribunais. Esse mesmo estado que nos diz para 'fazermos o que eles dizem e não o que eles fazem' e nos pede esforços suplementares. E, já agora, não me parece correcto comparar o que se passa em matéria de impostos 'versus' saúde pública entre Portugal e os EUA já que se trata de sistemas diferentes.

Sim, estou a objectivar. Até porque correria o risco de me tornar desagradável se começasse a adjectivar.

Cumprimentos.

Manuel Rocha disse...

Caro JL,
Diz muito bem qd refere no fim do seu comment que não podemos comparar realidades quando os sistemas são diferentes. Mas atenção que essa reflexão acertada tem de ser válida para tudo, mesmo quando se comparam sistemas identicos em realidades distintas, e não servir apenas qd nos dá jeito para nos menorizarmos.

Sabe JL, eu não ignoro as dificuldades portuguesas, sou critico cadastrado de muitas delas, mas como para o bem e para o mal conheço muitas outras, não posso deixar de considerar um claro exagero o clamor desproporcionado que emana da pátria lusa. Em todo o lado e em todo o tempo se criaram e fecharam empresas, se contrataram e despediram pessoas, se sucederam ciclos viciosos e virtuosos. É mau? Não! É péssimo! Mas não é especificidade lusitana.

O cerne da minha argumentação tem contudo outro alvo, que é a lógica da vossa ( sua e da Blonde ) estrutura narrativa, segundo a qual a responsabilidade dos ciclos viciosos é do Estado e do Estado como entidade abstracta ou fulanizada no Sócrates do momento. Ora isso como postura é profundamente errado.O Estado somos nós-plural, somos nós em relação biunívoca permanente quem presta e recebe cuidados de saúde, de educação ou de outra coisa qualquer. Se as coisas andam menos bem, temos em primeiro plano de nos perguntar a nós mesmo se não podemos fazer mais nada como utentes , funcionários, cidadãos, antes de nos remetermos para a circunstancia de vitimas da ficção de uma tirania espúria propalada pelos megafones circenses das agendas mediáticas do momento. O Estado que temos, qualquer Estado, é sempre a resultante das tensões conflituais inevitáveis no confronto de paradigmas. Mas é na critica assertiva e na acção que se corrigem as disfunções, não com retórica demagógica alusiva a cenas lamentáveis como as “jantaradas das finanças”. É que quem lá estava à mesa éramos nós-plural, parentes nossos e vizinhos nossos concretos, não eram figurantes contratados a Hollywood. É na ( auto) educação cívica de cada um que em primeira mão têm de se dirimir esses desacertos da nossa relação connosco-Estado, não na hipócrita estratégia de fuga que consiste na derrapagem para a ideia de Estado abstracto, ou na adjectivação gratuita do pacóvio de serviço. Um Estado é um povo e uma cultura. Somos nós na dialéctica da história. Como sempre!

Desculpem-me os eventuais excessos!

Saudações Maoris ! :)

Blondewithaphd disse...

Pois eu fulanizo, ponto. que eu saiba o Estado é uma entidade perpétua, idenpendente da cara de quem ocupa o cargo. Amanhã fulanizo no Passos Coelho. Era só um esclarecimento bimbo para esta discussão.
Continuem.

Ältere Leute disse...

Giro,giro!!!
Cara Professora: não gostava de ver os seus alunos assim envolvidos em "Debatten" ou "Rollenspiele" ? Jesus, que a Doutora consegue aqui no blogue!!!

antonio - o implume disse...

O mundo é injusto para com a Blonde.

Daniel Santos disse...

eu estou literalmente cansado de fazer pelo meu país e agora querem mais.

antonio - o implume disse...

É impossível ficarmos imunes a uma blond, por isso percebo o fascínio que estes textos produzem no Manuel. Esse é o supremo mistério, mesmo munida com o inqualificativo PHD (que fica mal a qualquer blond que se preze), a nossa Blonde é irresistível.

Blonde, do you love me?

S* disse...

Devíamos protestar mais... e já era fazer muito.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

A maioria prefere ficar à espera que outros façam por eles