24 de fevereiro de 2011

Pedaços de luz


É noite de breu quando chego a casa. Do lado de fora um carro parado, pardo e solitário na escuridão. O feixe de luz dos meus faróis reconhece-lhe a matrícula.
- Pensei que estivesses a precisar de mim. Trago jantar. - Declara assertiva enquanto sai do carro
- E estou. - Replico num sorriso que pensa: "Mas tu não lês o blog, eu nem tenho falado contigo."
- Palpitou-me...
Enquanto estaciono a carrinha já ela está com os braços carregados de coisas que imagino sejam o jantar.
- Vá, pega aqui no vinho. - Diz no comando do imperativo que me dá a melhor parte daquele fardo.
- Vinho?! Vinho e tudo? - Sorrio.

Sim, há o dark side. Mas quantos se ficam só por ele? E quantos se ficam porque não têm como iluminá-lo?
Damos por findo o serão já são 2.30 da madrugada. Rendeu a noite, o vinho, os crepes com chocolate. Rendeu isto: a conversa e, sobretudo, rendeu a comunhão. Posso não saber fazer muitas coisas, posso não ter sabido fazer outras tantas mas algures no percurso eu soube ir fazendo amigos. Estão espalhados na geografia. Estão espalhados pelas páginas deste blog onde despejo o dark side. Em cada episódio sombrio estão lá. Uns pegam em mim e levam-me para longe; rebocam-me para a distância que me dará a clarividência. Outros chamam-me até eles, até às suas vidas, fazem-me conduzir por estradas geladas ou atravessar pontes romanas perdidas em rios de Seda. Outros vêm aqui, aqui a esta Casa Grande onde, por vezes, o dark side se avoluma na exacta medida do espaço largo e me engolfa espraiando-se como quem pode abrir as asas à vontade.
A luz entra pela cozinha onde gosto de apanhar as manhãs. Sento-me à mesa agora solitária. Copos vazios e a garrafa aberta, testemunhos mudos da luz de ontem, de há umas horas. Levemente sinto o cheiro acidulado de vinho aberto que permanece. O dark side também permanece. Fechou as asas por ora. Olho-o e é feio. Uma coisa amorfa e disforme em negro. Um Allien que se esconde nos múltiplos recantos desta Casa. Dá-me um medo danado. Estou na fase do filme em que ele se pensa invencível. Só que o filme não acaba agora. De mansinho estou a vestir o fato impermeabilizado pelas nuvens de algodão que me dão os pedaços de luz como os de há bocado. Lentamente visto o fato. O Allien está ali, ainda se vai aproximar mais de mim. Ainda vou ter mais medo que agora. Mas eu já vi o filme mil vezes...

7 comentários:

Eu Mesma! disse...

Adorei o texto :)

Manuela disse...

Blondewithaphd, muito bom este teu texto sobre o nosso dark side, mas também sobre a amizade :)

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Também adorei. Até porque também eu estou em Dark Side...

Ältere Leute disse...

O texto é bonito, sim... Mas eu gostava de, através dele, conseguir vislumbrar melhor a personagem-narradora!

antonio - o implume disse...

Os amigos são para ser apreciados como um bom vinho, sem exageros ou militâncias, sorvidos em golos curtos, oxigenados e com muito tempo.

mdsol disse...

Deixo-te um beijo, Blondinha!

:)))

Quint disse...

Pois eu tenho para mim, com o devido respeito à inopinada visita, que essa do "alien" se deve única e exclusivamente à falta de fibra da loira para aguentar um copo de tinto que seja, quanto mais dois!
Já te disse, moça ... isso bebe-se a garrafa toda que nem "alien", nem "dark side" nem "darth vader" metem medo!