30 de março de 2011

Pensei que não me aconteceria a mim

Mas aconteceu. Esta manhã dei comigo a fazer delete das imagens do meu ex-marido do disco do pc e dos álbuns. Pensava que era superior a isso. Pensava que só em telenovelas de 5ª categoria as pessoas se dessem a esses assomos de pequenez emocional. Levei três anos a pensar ser incólume a imagens do passado. Acontece que... não sou. Aquilo está expurgado. É um capítulo inexistente. Um vácuo. Não me aquece nem arrefece mas não quero fotos daquela pessoa cá em casa. Ponto. Será que este sentimento primário de necessidade de esvaziamento de um pedaço da minha vida algo que faz de mim um ser mesquinho e básico? Resumir aquela pessoa a um nada fará de mim alguém menos digno enquanto pessoa? Não sei, mas assustei-me com a necessidade de fazer aquilo e, sobretudo, assustei-me com a tremenda facilidade com que o fiz. Enfim, talvez mais um passo em direcção à liberdade.

13 comentários:

I. disse...

Também passei por isso e também me surpreendeu a facilidade com que, finalmente, consegui apagar os vestígios daquela pessoa. E antes, se me perguntassem, também me diria superior a essas coisas. Mas é um lavar de alma.

Manuela disse...

Querida Blondewithaphd, eu penso que deste um passo mais, em direcção à tua liberdade, tal como disseste.
Faz bem, muito bem ...

João Afonso Machado disse...

Espero não leve a mal a intromissão: isso é salutar. A nossa memória é preciosa demais para não se guiar por critérios. O da utilidade é um deles. Quero dizer: a memória tem de se lembrar sempre que há momentos para esquecer.

giovanna disse...

Agiste por impulso.
Onde mora o respeito ao que foi bom enquanto durou?
Deletar imagens não é livrar-se de um passado.
Se fora desta forma, tão transgressor nossa memória, nossa cultura, a quem poderemos legar um futuro sem passado?
A história está cheia de erros, e estes estão por aí, como marca do ferro em brasa, para que um novo tempo resnaça, com esperança e amor.
Livrar-se de uma memória, é livrar-se de um pedaço de si, e por mais triste que seja, se amputar exemplos, para onde podemos caminhar livres, se sumos de uma laranja que a semente sempre caí a sombra da grande árvore.

Tarde é sempre, hora de arrepender-se.

António de Almeida disse...

Também já percorri esse caminho. Hoje quando encontro a pessoa, até consigo conversar, e parece saída de um passado distante, faz parte...

Eu Mesma! disse...

És humana... como tal... compreensível...

:)

Força!

JOY disse...

Olá Blonde,

Para chegar a esse ponto, esse alguém muito mal lhe deve ter feito, não sendo apenas o amor ter desaparecido.

Joy

Rute CS disse...

Faz parte. A semente tem de morrer para depois a planta poder brotar. Como renovar a casa, se não fizeres uma limpeza geral?
bjs

A.B. disse...

O passo seguinte é contraír amnésia?

Cristina Torrão disse...

Esse "sentimento primário de necessidade de esvaziamento de um pedaço da tua vida" não faz de ti um ser mesquinho e básico. "Resumir aquela pessoa a um nada" não fará de ti "alguém menos digno enquanto pessoa". De maneira nenhuma! Quiseste fazê-lo e fizeste-o. Apenas isso. Devemos seguir os nossos impulsos como uma criança o faz. Essa é a verdadeira liberdade :)

Parabéns!

sem-se-ver disse...

estou consigo, fiz o mesmo. (mas não só por ter feito o mesmo estou consigo)

é higiénico.

Ana Campos disse...

Eu não consigo, pois sou Co-dependente. Tenho esta doença, veja só. Comecei terapia, e amiga já vão para três anos em agosto que me separei. Depois de tanta dor e sofrimento, ainda acho que o amo incondicionalmente. Estou perdida neste espaço, e com dificuldade de me encontrar. Não sou a única, sou uma em milhões.
Um beijo

Zélia Parreira disse...

Como compreendo...
A existência dos meus filhos não me deixou fazer isso. Está tudo escondido em caixas (eu ainda sou do tempo em que estava tudo em papel...), mas nunca me referi a essa pessoa por outra designação que não fosse "o falecido". Não é nenhum tipo de desejo mórbido de vingança. É só porque para mim, aquela pessoa com quem casei e tive 3 filhos não existe. Não é a mesma pessoa que esporadicamente pára o carro à minha porta para os levar ou deixar. Não é a mesma pessoa que me agrediu e que eu agredi com palavras e atitudes. Não é o estranho em que se tornou. Simplesmente desapareceu.