14 de março de 2011

Up in the air

Fugi muitas vezes do meu não-casamento nas viagens que fazia por esse mundo fora. A solidão das viagens era mais confortável do que a solidão acompanhada em que eu vivia. Sózinha pelo mundo via muito com os olhos novos, inteiros de si. Não me importava com lonjuras, bagagens e horas longas. Digo sempre que foi na distância da Austrália que a minha mente decidiu que se queria desagrilhoar. Em rigor, talvez fosse num stopover de cinco horas em Singapura, sentada no chão a ver quem passava. Detinha-me na apreensão de quem passava, de quem, como eu, se resignava na espera, nos apressados, nos soldados com metralhadoras, num aeroporto sem luz do sol que dissesse se era dia ou noite. Na viagem seguinte que fiz sózinha já desfizera o não-casamento. Agora viajava na abertura de asas e nos pulmões que finalmente inspiram a golfadas.
Nasci em viagem. Cresci em viagem até estacionar num país ancestral cuja língua aprendi à força. Éramos nómadas, acho, e talvez por isso esta inquietação da imobilidade.
Mas hoje, nos milhares de quilómetros percorridos, aborreço-me. Dou por mim sem a excitação da fuga ou da descoberta. Custa-me ver para lá das nuvens. Ao invés de antecipar a chegada ao destino, detenho o espírito no enfado dos aeroportos, no desconforto dos aviões, nas escalas que são sempre e invariavelmente demasiado longas ou nervosamente curtas para transbordos. Irritam-me as filas de alfândega:
- M'am, what's your purpose to your stay in the US?
- M'am, have you left your luggage unattended at any moment?
Dantes gostava do desconhecido de chegar a um sítio pela primeira vez. Agora até procurar uma saída para apanhar um táxi me enfastia, tal como me enfastia um check-in num hotel e a familiarização com o local.
Percorro a net para ver temperaturas no destino. Gasto tempo nas indecisões do que levar. Vai estar frio em Chicago e eu preciso mudar de terminal. Vai estar semi qualquer coisa na Carolina do Sul. Levo Working in the Shadows do Gabriel Thompson sabendo que é leitura que regressará incompleta e que tanto serve para entretenimento como para trabalho.
- Que sorte tens por teres essa profissão. - Oiço constantemente. Não dou resposta. Acho que gostamos todos do que não temos. Sim, tenho sorte. Não me imagino a fazer outra coisa qualquer. Mas é trabalho, é habituação e, como tal, algures no percurso o dourado vai ficando mais esbatido e começa a descamar aqui e ali. Sim, de facto não me imagino a fazer outra coisa. Mas desta vez acho que não levo espírito de ir. Logo saberei quando chegar e der comigo no familiar das coisas comezinhas que me fazem sentir lá: pancake stacks, beetroot beer...
Vemo-nos lá ou, quando muito, quando eu regressar e aqui ainda for aqui.

7 comentários:

antonio - o implume disse...

Blonde, como eu te compreendo. Só o mundo rural português, no seu encanto rústico ponteado por feéricas demonstrações de modernidade (como conseguir comprar o Expresso em pleno Alentejo), nos pode surpreender.

Bjnhos e boa viagem.

PS: Essa inexistência de que falas foi também a tua vida.

Ältere Leute disse...

Compreendo agora melhor os textos de ultimamente...Vá, desanuvie por esses sítios que até lhe são caros e onde vai, com certeza, encontrar pessoas que lhe dizem algo - ( por todos os motivos, e mais algum, faz tanto bem sair daqui deste ambiente sufocante por uns dias... ) - refamiliarize-se com a "cor local" toda que puder.É bom, mesmo que tenha os seus defeitos!
Sim, sim, quando voltar "ainda será aqui", que "isto" não se esboroa assim... E se encontrar cá visitas, que seja para o mal menos mau! Esqueça agora,e aproveite o momento!

Eu Mesma! disse...

O ser humano está sempre insatisfeito... com a vida.. com as pessoas... com os costumes...

o vizinho é melhor sempre... a cadela... a casa... o emprego... enfim...

nunca entendi porquê...
adoro viajar... adoro ainda mais regressar a casa :)

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Continuo a gostar de viajar com espírito de avenura. Os aeroportos aborrecem-me muito e as longas viagens de avião por vezes já se tornam maçadoras mas, mesmo assim, o meu modo de vida continua a ser de andarilho. Até cá dentro...
Boa viagem e desfrute

Chinook disse...

Pois como te compreendo. Viajar em trabalho tem sempre um sentido muito particular.

Eu faço-o com alguma regularidade e se as primeiras vezes têm um certo encanto as seguintes começam a ser muito aeroporto e hotel e pouco tempo para tudo o que poderia tornar a viagem mais engraçada.

Mas continuo a gostar e ver novos aeroportos é sempre divertido (até por causa do que significa em termos de Engenharia e Arquitectura e que torna sempre interessante ver uma nova estrutura e um novo contexto arquitectónico).

Mas enfim faz boa viagem e diverte-te porque no fim é isso que levamos connosco de cada viagem (o que nos divertimos e o que aprendemos através dela).

Filoxera disse...

Apesar de não estares na disposição, desejo boa viagem: bom ir e vir e, sobretudo, bom estar.
Até breve!

zana dias disse...

Desculpa, mas não vou ajudar! Já há muito que me desagrada viajar para e em trabalho. Esse desagrado é tal que me fez vir viver para o Alentejo.
Se se despahassem com o teletransporte humano, podia ser que ainda me cativassem umas voltinhas...