13 de abril de 2011

Lembranças de um país que não conheci

Lembro-me mal: porque não tinha idade, porque éramos nómadas errantes por essa Europa e por esse Portugal fora. Mas lembro-me de retalhos de coisas que me ficaram na memória e que, agora e neste presente, vou conseguindo perceber melhor.
Lembro-me de ver a Heidi a preto e branco e achar muito estranho. Lembro-me que havia escritos nas paredes dos prédios quando me levavam a passear a Lisboa ou a Vila Franca. Lembro-me de haver manifestações de gente com bandeiras pretas na televisão e de a Mãe, sentada no cadeirão da sala, perguntar ao Pai o que eram aquelas bandeiras.
- Gente com fome. - Dizia o Pai.
Também me lembro, quando aqui chegámos de forma mais definitiva, porque eu precisava de ir para a escola e a Mãe queria que eu fosse educada em Português, que o nosso telefone era o único nas redondezas e a Mãe deixava que fosse uma espécie de aparelho ao serviço da comunidade. E lembro-me, muito claramente, de a Mãe ter na despensa reservas de conservas que "emprestava" aos vizinhos. Eu, na ingenuidade das crianças, pensava que as pessoas não faziam bilhetes de compras como a Mãe fazia e achava-a uma mulher de paciência por nunca dizer "não" a ninguém.
A Mãe morreu sem me explicar muito bem esses tempos. O Pai também não fala muito deles. Acho que os associavam, mais do que a um tempo de pobreza do país, a um tempo de injustiças: a nossa casa tomada e vandalizada no pós-25 de Abril, as acusações fascistas, a reforma agrária. Mas hoje, olho para o país que me envolve e cuja nacionalidade eu viria a tomar anos mais tarde, e percebo o que devem ter sido esses tempos. Pensava que eram tempos da História e, devendo saber melhor, esqueci-me que a História é circular e repetitiva. Leio em todo o lado que o FMI já cá esteve. Antecipo o retrocesso económico que aí vem e não imagino as consequências sociais que se adivinham.
Talvez estejamos a recuar a esse dealbar dos anos 80, só que agora eu estarei cá como adulta e portuguesa. E, mais do que espectadora de sala, estarei, como me sinto agora, dentro desta espécie de máquina de lavar em centrifugação que é como descrevo este país.
É muito difícil (d)escrever o desapontamento e a falta de confiança que tenho no futuro que nos aguarda...

6 comentários:

João Afonso Machado disse...

A História é ciclica, com certeza. Mas este ciclo em que já entrámos tem muito de originalidade: mistura a guerra civil (à moda de agora) com a das epidemias (que traziam sempre a fome).

Fernando Vasconcelos disse...

Não queiram comparar. Mesmo com as restrições que se avizinham Blonde este país é já substancialmente diferente do país nos anos 80. Poderia ter sido uma diferença muito maior é verdade mas não se compare porque não existe qualquer tipo possível de comparação. embora não tenha vivido como a Blonde tantas variações lembro-me da diferença que existia entre Portugal e França e se comparar com o que vejo hoje mesmo com o que se avizinha posso dizer-lhe que não se pode fazer esse paralelo.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

E ainda por cima uma máquina de lavar ´pouco amiga do ambiente. Gasta que se farta!

A.B. disse...

Pois eu gramei o PREC no fundo da cadeia alimentar, gastei tempo e vida a saír desse desconfortável sítio, e agora vejo 99.99% do meu país atirado de novo para a cauda da cadeia alimentar. Por tipos que, por junto, devem ter feito um mês de trabalho honesto na vida e se alçaram para o topo da nossa pobre, patética, miserável, cadeia alimentar. Sinto uma grande vergonha quando leio o que se diz de nós por esse mundo. Porque têm razão.

Fernando Vasconcelos disse...

@A.B. : Em todas as histórias há sempre mais do que uma face e independentemente do desvario orçamental existente os problemas do nosso país não têm só a ver com o nosso "desgoverno". O que se escreve por esse mundo fora é também o que dá jeito porque em qualquer época de crise nada como um bom bode expiatório a quem atribuir responsabilidades e fazer esquecer o resto. Não nos esqueçamos que a propósito dos tão falados fundos europeus onde estes foram gastos. Não nos esqueçamos que para a Europa na altura deu jeito, muito jeito um mercado adicional de 40 milhões de pessoas sedentas de consumir a quem se injectou a quantidade necessária de moeda ... Em tempos idos os usuários eram tão mal vistos quanto os que a eles recorriam, agora são uma espécie de Deuses. Lamento mas não compro essa verdade parcial. É verdade isso sim que pela terceira vez na nossa história cometemos o erro de gastar a nossa riqueza não para criar meios de gerar ainda mais riqueza mas sim para consumo imediato. Em resumo a responsabilidade do problema é para ser dividida por aqueles que refere a quem temos que adicionar os agiotas que hoje constroem mais valias fabulosas à sombra de uma qualquer ilha paradisíaca no pacifico. Mais valias absolutamente imorais.

Eu Mesma! disse...

É incrivel o que escreves...
desde que rebentou esta bomba que eu sinto algo semelhante...

a bendita intervenção dos anos oitenta eu era criança...
já nem me recordava mas... quando agora relembram constantemente titulos de jornais e frases da epoca tudo aparece...

também eu achava que era "a história deste país".... nunca me apercebi que "esses tempos" eram ditos de uma intervenção...

e agora sim... tb eu sinto receio de 20 anos depois voltar "aqueles tempos" mas agora ... como adulta...

:(