21 de abril de 2011

Suma liberdade

Frei lebt wer sterben kann.
                          Karen Blixen

Li ontem num livro que ando a ler há tantos anos que me esqueço quantos: Out of Africa.

"Vive livre quem pode morrer." Deve ser essa a máxima liberdade: pensar que podemos morrer que não fica cá nada incompleto ou sujeito a definhar sem nós. Olho para a Mãe e acho que Ela morreu assim que teve liberdade para tal, logo depois de enterrar os pais e assim que nós estávamos a começar a bater as asas. Foi cedo - cedíssimo - mas foi no momento exacto em que Ela atingiu esta liberdade tal que podia morrer. Olho para a Mana com este bebé de cinco meses e sei que ela não pode morrer. E olho para mim... a liberdade plena de que fala a Blixen.
Recomecei a ler Out of Africa que sempre me foi um filme caro mas um livro intragável. Recomecei a ler com a voz da Meryl Streep e a banda sonora das savanas na cabeça e, desse modo, leio páginas e páginas. Fazem-me sentido agora. E, talvez, tenha sido necessário eu chegar aqui para me diluir na leitura.
Como a Karen Blixen, eu tenho a liberdade da Morte, a solidão do caminho compartilhado sem amarras, a gestão de terras (que me dão a preocupação do que fazer com elas e, como ela, receio nunca saber investir sabiamente), e desta Casa de paredes amplas e ecos que cada vez amo mais.
Sim, vive livre quem pode morrer.

6 comentários:

ana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ana disse...

Blonde with a phd,

Venho agradecer a sua visita. Descobri mais um novo lugar para visitar.
Gostei muito do filme mas nunca li o livro. Não sei porquê nunca despertou a minha atenção.
Achei graça à sua maneira de chegar até ele.

Obrigada pelas suas palavras e o seu blogue tem um nome fantástico!
:)
PS Apaguei o outro comentário por causa de uma gralha, sorry!

Chinook disse...

Minha Cara,

A sua irmã não tem liberdade para morrer e, de algum modo, também não a tem, na medida em que todos somos solidários com os pequenitos da Família. É assim a aldeia que ajuda a criar as suas descendências e todos não somos de menos para o fazer.

O seu olhar pareceu-me um pouco egoísta... ou se calhar é o meu porque gosto de a ler...

:-)

António de Almeida disse...

A Liberdade é a palavra que me é mais cara, livre para viver, morrer, com algo ou sem rigorosamente nada para fazer, quero ser livre. Já andei por algumas paisagens próximas das que inspiraram Blixen. Julgo que ainda não foi lá, pelo menos nunca tive o prazer de a ler sobre África, permita um conselho deste seu amigo que a lê há muito, mesmo quando não comenta, vá até África quando puder tirar uns dias e respire a verdadeira liberdade. Aposto que irá regressar uma pessoa diferente, por mais que já tenha experimentado Europa, USA ou até Austrália. Vá até África, logo que possa, mesmo que por breves dias...

Ältere Leute disse...

Quem é que decide que pode morrer?
Ah! Instinto de sobrevivência, ou seja lá o que for, deita por terra - acredite!- essas grandes certezas...
Daqui do meu "forte" dos vendavais, varrido a chuva ( felizmente com pouco vento ), solto-lhe um Osterhase cheio de bons augúrios!

Rute CS disse...

Blonde,
entendo o que dizes e o que diz a Blixen. Mas também creio que tem liberdade na morte aquele que está certo o que está além dela. Essa certeza firme, que o que vem depois será melhor do que a vida terrena, é que nos faz levar a vida que agora conhecemos com a leveza e liberdade de ser só o princípio. Quem não está certo do além morte dificilmente sorrirá ou encontrará paz perante ela.
bjs
Rute