17 de outubro de 2011

Porque a Função Pública recebe mais que o sector privado

A demonização do funcionalismo público, parece-me, começa a ultrapassar a razoabilidade ou até o cómico com que o costumamos caracterizar quotidianamente. Se cidadãos anónimos o fazem com o desconhecimento e a estereotipação corrente, é um mal menor. Que uma figura cimeira do Estado, e patrão actual desse mesmo funcionalismo público o faça, é algo totalmente diferente.
Como podemos generalizar e dizer que os funcionários públicos ganham em média mais 10% a 15% que os funcionários do sector privado? Explico:

1. 60% dos funcionários públicos são licenciados, esta correlação de valores não existe no sector privado e, portanto, se a qualificação profissional/académica se deve valorizar remuneratoriamente, a comparação público/privado não se pode fazer com base neste pressuposto;

2. Há carreiras públicas sem equivalente privado, veja-se o caso da Magistratura. Como podemos comparar os salários dos magistrados com algo que não existe no privado?;

3. Na saúde sabemos dos médicos que migram do público para o privado e não será certamente para penalizações remuneratórias por qualquer razão altruísta;

4. Poderemos comparar a Universidade pública com a privada em Portugal? Na América sabemos que as melhores e mais prestigiadas universidades são privadas, no nosso caso é o exacto oposto;

5. Será que todas as empresas privadas declaram o que remuneram aos funcionários de forma líquida e transparente? Ter-se-á acabado entretanto com as falsas declarações de rendimentos no privado?

Pensemos nestas questões enquanto atribuímos à Função Pública a factura do nosso resgate económico.

10 comentários:

Turista disse...

Querida Blonde, pois creio que o que enunciaste no ponto 5, está muito longe de se concretizar, verdade?!

André Couto disse...

Muito bem, Blonde.

Peter disse...

Sou um dos "indignados", porque sou um reformado da odiada FP. Claro que para o Estado é mais fácil, mais rápido e mais controlado, ir lá buscar o dinheiro.

Daniel Santos disse...

Muito bem colocado.

A.B. disse...

...mas também foi mais fácil ao Estado/Governos ir lá pô-lo quando lhe foi conveniente controlar outras coisas...
Deve ser possível para um Sociólogo identificar as razões que levam a que a percepção que os cidadãos têm da Função Pública seja a que é.

Peter disse...

As razões são a forma como a FP trata os reles cidadãos, como eu, pois o vidro que nos separa faz deles uns "tiranetes", dá-lhes uma sensação de Poder.

A.B. disse...

O ponto 1 também é interessante, dado que a percentagem de "caixas" de hipermercado licenciadas também deve ser altíssima. Harmonizam-se os salários e a segurança no emprego, progressões na carreira, etc. por aí?
O ponto 2 é ambíguo. Se não houver termo de comparação os salários são arbitrários? Aparentemente são-no, e sem qualquer relação com a produtividade, ou intenção de tê-la.
Pontos 3 e 4; talvez com a degradação das condições haja uma inversão de valores nestes dois pontos. Bons professores migrarem para onde lhes pagam mais e maus médicos a procurarem o aconchego do público. A minha percepção, por muito errada, é de que os elementos mais fracos do mercado de trabalho foram procurando o guarda-chuva do tacho público. Até há bem pouco era só onde se podia ser mesmo incompetente sem ir para a rua.
Ponto 5: o Estado tem sido o pior exemplo de fantasia contabilística desorçamentação, e mesmo fraude, como é óbvio pelo descalabro conhecido das contas públicas - é certo que o PM não era licenciado.
Dito isto, que é demasiado fácil dizer, não aprecio demagogias. Os funcionários públicos não são todos maus, como o crédito não é todo mau.
Mas, a percepção é essa. Porquê? Creio que o comentário do Peter dá umas pistas.

Leonor disse...

Muito bem, Blonde. É isso mesmo.

sem-se-ver disse...

clap clap clap

e obrigada :)

João Azevedo disse...

pois pois pois. A Historia repete-se sempre igual.