1 de novembro de 2011

Acordar no silêncio

É bom acordar no morno de lençóis ocupados. Acordar com companhia, gente viva ao nosso lado que reparte connosco uma parte dessa coisa maravilhosa que é a nossa individualidade, a nossa exclusividade para connosco próprios. Precisei divorciar-me para saber o que isso é: acordar com companhia. Mas é igualmente bom acordar no silêncio ocupado apenas por nós: a Casa vazia, o dia inteiro por nossa conta, a liberdade total que temos quando nos damos bem com a nossa solidão.
Não há aqui ninguém com quem falar, verbalizar palavras em modo sonoro. No entanto, falo o dia todo: palavras mentais, outras que escrevo e as muitas que leio. O cérebro habita-se de ideias infinitas e todas em palavras, inglesas na maioria das vezes, portuguesas muitas, alemãs cada vez menos, como se essa língua primeira se esteja a esvair e a fluir para longe.
Tem dias em que a solidão me enche de fantasmas: os que ainda vão teimando esconder-se nos cantos escuros e fechados desta Casa em baús e armários de outras gerações e outras vidas, e os da minha vida presente de um divórcio moroso na justiça que me vai corroendo as fibras da resistência. Mas há outros dias em que a solidão é a minha vida plena, o caminho que me trouxe aqui e a potencialidade de cada dia e cada curva. Gosto destes dias em que o espírito se desimpede do mal e vê, através do translúcido da clarividência, o que de bom existe.
Acordar no silêncio... tem dias que é suave como hoje.

7 comentários:

Cristina Torrão disse...

Somos realmente mais felizes, quando nos damos bem com a nossa solidão, quando percebemos as vantagens que ela nos pode trazer ;)

Leonor disse...

Gostei tanto :)

Daniel Santos disse...

mais um bom momento.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

A solidão pode ser muito enriquecedora.

sem-se-ver disse...

que bom :)

CNS disse...

Estarmos apenas connosco tem desses dias.
Gostei imenso.

João Azevedo disse...

É muito bom acordar no silêncio de um palacete. É uma maravilha!