13 de janeiro de 2012

A Tante Henny morreu

Eu esperava isto há muito tempo. Li a notícia na caligrafia quase imperceptível da Tante Ruth. Poucos pormenores, apenas a informação aliviada de que se conseguiu despedir dela. Há muitos anos que eu sabia que a Tante Henny ia morrer primeiro do que a Tante Ruth. Li a carta sem mais sobressaltos do que quando leio as cartas normais da Tante Ruth que desta vez me pede para ir ter com ela antes que não haja tempo. Comecei ontem a despedir-me dela.
Da Tante Henny guardo as memórias de infância de quem me ensinava canções e se passeava pelo Algarve em Verão agarrando a mãozita da minha irmã. Eu era mais sorumbática e apegada à Tante Ruth, a Mana, sempre muito expansiva e cantarolas, emparelhava com a Tante Henny e corria pelos areais selvagens de Vale do Lobo a fugir à apanhada com ela. E lembro-me da Tante Henny num restaurante em Rheydt numa vez que ela me confidenciou que havia uma coisa que ela nunca tinha percebido no meu Pai mas que nunca tinha tido coragem de lhe perguntar: o que é que ele queria dizer de cada vez que a via e se despedia até sempre? Expliquei-lhe um pouco da alma portuguesa que o Pai às vezes deixava transparecer. Não sei se ela percebeu e agora nunca saberei.
Tinha um riso franco e sonoro, a Tante Henny. Larga e grande impressionava pelo físico que se desconstruía naquelas gargalhadas de quem gostava de viver porque sabia o que era lutar para poder viver. Nunca a ouvi falar da Guerra como ouvia à Tante Ruth a história da fuga delas da Berlim ocupada, das rajadas de metralhadoras enquanto atravessavam o Spree para o mundo livre. Pararam quase ao pé da Holanda onde eu fui nascer e sempre chamaram Heimat, pátria, à Alemanha que tinha ficado ocupada por outro regime. Mesmo depois da reunificação continuaram a chamar Heimat àquela terra.
A Tante Henny morreu e eu sabia que ela ia morrer. Ainda não disse ao Pai nem à Mana. Tenho de ir rápido a Berlim. É visceral. A Tante Henny morreu mas não imagino a devastação quando morrer a Tante Ruth. Tenho de ir rápido a Berlim mas penso irracionalmente que não quero porque isso é despedir-me, é não voltar a vê-la. Eu despedi-me da Mãe e não quero mais despedidas.
A notícia chegou ontem mas só hoje me estou a dar conta do que se está a passar: as Tanten estão a morrer e o meu passado está a acabar.
"Até sempre", Tante Henny.

7 comentários:

mdsol disse...

Beijinhos, Blondinha!

mfc disse...

O nosso passado vai morrendo e passamos a ocupar a primeira fila!
A vida passa num repente.... demasiadamente depressa.
Um abração e um beijinho.

Leonor disse...

Beijos, Blonde.
A minha única tia morreu em Novembro e tive essa sensação de solidão. O meu mundo também vai morrendo aos poucos.

Chinook disse...

Beijo

Chinook disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Olá Amor disse...

Força Blonde!! São sempre momentos difíceis de ultrapassar, mas estou certo que todas as memórias que guardarás acabam por te ajudar a ultrapassar esta situação!!

Pedro disse...

todos os dias é passado
dia a dia o futuro
vai