
Um Alentejo muito inglês, sim senhora!
Chego à tapada. Carros de volante à direita e matrícula GB. Os caseiros espantam-se quando me ouvem em Português. Descubro mais tarde que devo ser a primeira portuguesa hóspede nesta casa que alugo por esta semana. O Visitor's Book só está assinado por bifes. Na cozinha a louça é Whittard tal como os chás que me deixam em boas-vindas na versão Earl Grey e English Breakfast. Na mesinha da sala os números mais recentes de The Economist e da Newsweek e por toda a casa pilhas de livros em inglês. As instruções de Eating Out, Sightseeing, General Information e todos esses etcs. estão em inglês, também existe um pequeno glossário "of useful language" no qual detecto "Veado - Venison" e as instruções de como proceder caso um escorpião me pique asseguram-me que "that is not lifethreatening but you should go immediately to the hospital in Portalegre". Nunca imaginei um Alentejo ready-made para inglês ver. Aliás, esta tapada está feita para expedições de "birdwatching" e, pelos vistos, é muito conceituada lá fora. Pergunto-me quantas parcelas destas de um Portugal estrangeiro existirão.
Tirando este àparte e o calor incomensurável que jamais esperei encontrar, acordar com esta vista e dormir ao som de corujas e cigarras é estupendo. Já avistei umas quantas aves de rapina (perdão, "birds of prey") e a ver se encontro algum dos abutres (preto, egípcio) que são tão anunciados como publicidade à propriedade. Também parece que há linces ibéricos muito fugidios (só pode porque na volta já estão extintos) e essa maravilhosa criatura que dá pelo nome de "wild boar" (não é bem mais chique do que javali?).
Bem, deixa-me ir enfrentar as melgas e outros bichos alados enquanto aqui estou no terraço a apanhar a fresca e a ouvir os chocalhos das ovelhas ao longe, os grilos e as corujas. Fui (mas toda mordidinha).




