21 de setembro de 2010

Incredulidade demorada

A incredulidade demora-se aqui.
Enfio-lhe cinco Valdispert sabendo-os um placebo sem efeito.
Acordo várias vezes durante a noite. O pensamento gótico e tenebroso.
Os filhos dela. Orfãos de mãe e de infância.
Ela. O telefonema que não fiz. O último encontro aqui. Chá. Conversa. A vida pela frente.
Lembranças minhas. A Mãe.
A cabeça que não sossega.
5.33. Não aguento mais esta cama, esta noite, o saber a Cristina morta e enterrada e eu sem ter tido tempo para saber a tempo.
Enfrento o dia. Treze horas na faculdade. Companhia. Trabalho. Esquecer é suave na mente.
Regresso a casa. Pensamentos dela assaltam-me no vazio que deixou.
Estou meia parva. Meia zonza. Penso se não estarei sentimental demais, atordoada demais para um facto da vida. Mas nunca me morreu uma amiga e eu não tenho referencial nenhum que me normalize isto.
Vai passar...

20 de setembro de 2010

Não é possível que morresses. Não é possível!


Não acredito.
Tem de ser ser engano.
Não é possível.
Não consigo abarcar.
Há duas horas que sei que a Cristina morreu. O número no telemóvel. Os contactos na agenda. Como é que eu apago uma amiga que me morreu nesta vertigem? Não consigo. Não consigo.
A Cristina morreu. Meu Deus, a Cristina morreu! Os filhos! Meu Deus, são tão pequenos!
A Cristina... Meu Deus! E eu não tive tempo de saber a tempo. E eu que não lhe telefonava há que tempos. Aqueles telefonemas para aqueles encontros de gente que tomamos por garantida, gente que está sempre lá e que retoma os telefonemas e as conversas no exacto sítio em que as deixámos. Chá na minha casa. Chá na dela. Canela com maçã. Álbuns de fotos em tardes de Outono com o sol a cair cedinho. Raptava-me à minha vida quando a Mãe morreu e eu estava perdida naquela dor maior que a Vida.
- Anda! - Dizia. E levava-me dentro da vida dela à casa dela, buscar os miúdos. Fazia-me chá. Dava-me mimo.
- Anda! - E eu ia. E ela era a coisa mais alegre que eu conhecia naqueles dias. E foi por causa da minha Dor que eu a conheci. Fazia-me coisas especiais com bordados colados. Colagens para postais. Dava-me uns presentes sempre muito originais. Ensinou-me a aspirar. Sim, a aspirar. Um dia em que me raptou para a casa dela e foi fazendo as coisas que tinha de fazer enquanto falávamos e falávamos e eu saía de lá tardíssimo.
E ela era alegre. Meu Deus, que alegre! E tinha gatos e filhos, o marido e o cão. E eu achava que ela tinha o paraíso naquela casa com vista de Tejo e das ilhas do Mar da Palha.
A Cristina morreu. A Vida ceifou-a em três semanas e eu não tive tempo de saber a tempo.
A Cristina morreu! Meu Deus, a Cristina morreu e eu não acredito.
Meu Deus, como é que se morre assim?
- Ó Cristina...

A girl's best friend


O Pai sempre teve horror que alguma de nós (entenda-se eu, a Mana e a Mãe) alguma vez se visse numa situação qualquer de dependência do género masculino. O lema era independência ou morte bem ao estilo Ipiringa. Vai daí trazia-nos n gadgets da Alemanha de cada vez que lá ia a fim de que nós fôssemos o protótipo da autonomia. Estas boas (estilo boa constrictor) são muita boas a abrir tampas, até ao dia...

- Papi querido, sabe o que é uma coisa funcionar 99,9% das vezes? É... aconteceu o 0,1%...

18 de setembro de 2010

Felicidade também é...

Acordar de mansinho.
A cama quente.
Demorar.
A claridade transparente de Outono a chegar.
Descer no mármore frio da casa grande.
Café. Forte. Amargo.
O dia.

16 de setembro de 2010

Felicidade é...

... a barriga da Mana com sete meses de gente lá dentro irromper pela casa adentro às dez da noite. Filmagens. Sorrisos. A casa da Tia. O Spotty. O como era antes de nasceres. Nós. Tu no pensamento.
Quando fizeres 18 anos verás Nós neste final de Verão em 2010. Será 2028. E a Cápsula do Tempo que os teus pais te darão contará como te adoramos desde sempre.
Vem, meu sobrinho, que tenho saudades que sejas depressa.

14 de setembro de 2010

Rumo ao Sul


Vi hoje os primeiros. Dezasseis. Voavam para o Sul soalheiro que povoa a minha imaginação. O sul magrebino do primeiro éden do Attenborough. A orla meridional do Mediterrâneo. A África de tamareiras e de savanas de lagoas pouco profundas. Iria com eles se fosse o Nils Olgerson da minha infância.
Fico sempre especada de nariz no ar a ver os bandos de gansos e patos que nesta altura do ano nos deixam voando para Sul. Fico sempre especada como da primeira vez, a miúda das trancinhas louras...
A seguir vêm as castanhas e o cheiro a terra molhada.