8 de outubro de 2010

Tempo bera

Passo doze horas fechada na faculdade. Não sei o tempo que faz cá fora. Aulas, reuniões, grupos de trabalho, orientações, o dia corre sem que eu o apanhe. Ignoro que o Vargas Llosa já é Nobel. A crise passeia-se nas conversas de corredor. Sinto que estou cansada só quando saio e é noite lá fora.
Hoje acordo cedo, justo quando estava a dormir tão bem. Despacho o que há para fazer. Enfrento o temporal. Regresso a tempo de apanhar o sono. Deixo-me ir. Acordo com latidos contentes do Spotty que encontrou maneira de ir para a zona proibida do jardim. É tarde, muito tarde. Devia estar tão cansada que não dei conta de adormecer naquele desaprisionamento morno que nos cura o corpo e a alma.
Café amargo e fumegante, o de sempre. Ligo-me à net nesta biblioteca invadida pela luz cinzenta de um dia triste. Parece que há uma fórmula meio idiota para me calcular a redução salarial anunciada. Já contava com a pancada, não com matemáticas obtusas. Insisto em ler as notícias de um país moribundo e desnorteado. Desisto. Não há ideias. Não há nada. Há um Nobel da Paz lá fora. O vento acalmou. Vou buscar o Spotty que pensa ser o herói da batatolina no meio da relva molhada para onde não devia ter ido. O vendaval trouxe folhas castanhas e galhos partidos para o quintal. Esqueço-me de ir ver o correio. Regresso à biblioteca e à poltrona aconchegante. A luz cinzenta quebra-me ritmos e vontades. Contemplo o resto do dia. O imenso trabalho que tenho em cima da secretária. E esta luz pálida. O trabalho. A luz. A tristeza do dia num país que já nem é triste, um país em hibernação, olhando para o lado com medo de olhar para dentro.
Decididamente, hoje é um dia daqueles...

6 de outubro de 2010

Diários agrícolas: o meu pedaço de chão

O solo está crestado e áspero. Conjuro memórias de um passado abundante. Inalo o cheiro plácido de uma terra amena que me povoa um tempo ido. Havia pomares e vinhas, terra de pão e oliveiras que davam um azeite verde cristalino que se empastava na invernia. Lembro-me de vindimas e do cheiro a mosto na adega. Lembro-me do som distante de gentes que amanhavam aquela terra, esta terra cinzenta que agora piso e pela qual entro falando baixinho:

- Perdoa-me. Vou tratar de ti. Aceita-me de volta.

Os portões foram roubados. Uma parte do muro de cima ruiu. Vou ver os poços. Há água, muita, de um inverno húmido que deixou marcas. Mas tenho sempre medo daquela escuridão fresca com água parada que me reflecte a face que espreita a medo. Percorro a terra caminhando sobre grossos torrões revolvidos. Verifico marcos. As vedações também desapareceram.

- Venho aqui tomar-te de volta. Reclamo-te. Abraço-te.

Sinto-me a herdeira que não devia ser. Não ainda. Entro como proprietária. É cedo demais. Há doze anos que é cedo demais para eu ser herdeira do que quer que seja. Mas sou e é tempo, mais do que tempo, de tomar o pulso às coisas. Sinto que a Casa Grande já me vai correndo nas veias. A casa que me ocupa tantas páginas neste blog. A casa que também herdei cedo demais, tão grande que quase me afogou. Tão pesada que quase me asfixiava. Deitei paredes abaixo. Erigi outras tantas. Pintei e repintei. Destruí, restruturei, construí. Domei memórias. Apaziguei saudades. Convivi com ecos e portas fechadas. Fui um fantasma e vi fantasmas. É tempo de olhar noutra direcção. Continuar numa outra etapa deste luto doloroso e fazê-lo para continuar a seguir em frente.

Ali estão, estes hectares de chão que se declina suavemente pelo outeiro abaixo e se espraia numa várzea virada para o sol nascente. O meu pedaço de mundo. O meu legado tão precoce e violentamente caído nas minhas mãos. Venho reclamá-lo. É tempo de enfrentá-lo.

- Estou aqui. Vou cuidar de ti.

5 de outubro de 2010

Republicana até à medula

O que é estranho se tomarmos em consideração eu ter crescido a ouvir as histórias do exílio forçado do Sr. Dom Manuel e a fuga da Sra. Dona Amélia e a saber que havia uma bandeira monárquica escondida dentro do baú que se salvou das Invasões Francesas (de que eu agora sou a feliz herdeira), mas bandeira essa que soçobrou à traça e bicharada que tal antes de eu vir para Portugal. Ou seja, degenerei e beza-me Deus sou muito republicanazinha da minha alma.
Não é que a República tenha o glamour da Coroa e, sinceramente, acho qualquer monarca bem mais preparado para representar uma nação do que um presidente. Mas é a minha aversão medular a todo e qualquer processo que não envolva plebiscitos e contornos de democracia universal.
Se me perguntarem se concordo com o nosso modelo republicano, digo logo que não. Preferia um regime presidencial (e, nesta hora de crise, creio que se poupariam fortunas com esta macro-bicefalia do Estado e palácios/residências oficiais para PM e Presidente). Um Presidente com funções representativas e legislativas, uma boa e saudável Procuradoria-Geral da República e estava a coisa arrumada. Acho que temos cangalhada política a mais: ministros e secretários de estado, presidente, procuradoria, assessores em barda e para quê? Estamos lindos, não estamos? E depois, porque é que temos de ter um parlamento com 230 deputados para um país minúsculo de escassos dez milhões de habitantes que cabem todos, por exemplo, na cidade de Londres?

Enfim, hoje comemora-se o centenário da República Portuguesa. Feliz centenário! A ver se as coisas melhoram porque tu, pobre República, andas que é um enxovalho só.


4 de outubro de 2010

Em dia de ponte

Há gajas Blonde que lá se deslocarão à cidade grande para dar aula das 17.30 às 20.00. Desconfio que os tipos vão dar à sola mas ao menos o trânsito deve estar uma maravilha.

E porque é Dia do Animal:
- Abaixo as touradas;
- Para quando as penalizações à séria para quem abandona animais?;
- Para quando um país em que não existam matadouros clandestinos?;
- Para quando um país em que civismo também significa respeito por formas de vida distintas da nossa?

3 de outubro de 2010

Faulenzen

(Pronunciado fáulentzen) deve ser das palavras que mais gosto, em significado e som, da língua que me viu nascer. Faulenzen, preguiçar sem ser por preguiça, vontade de estar quieta a degustar a preguiça de um dia outonal. Acordar de mansinho com vento a uivar nas persianas e o som das goteiras a pingarem forte nos gradeamentos das varandas. Faulenzen. Ver um episódio de "Civilisation" regado a café amargo e quente, embalada na genialidade de Lord Clark, escolhido pelo David Attenborough para apresentador do programa: o primeiro a ser emitido a cores na Grã-Bretanha dos finais dos anos 60. Dürer, Cranach e os humanistas germânicos. Vejo as imagens de Wurttemberg e Würzburg e deixo-me ir entre goles de café, o som do vento lá fora, a cadência de "Civilisation" no DVD e as minhas próprias memórias.

Faulenzen e o dia que pede. O dia bom para "faulenzar" em peúgas de lã e manta no sofá. A cama por fazer. Sem pressa para o duche que acaba com preguiças mornas. Um livro a meio e o dia todo.

1 de outubro de 2010

Porque é Outubro e Outubro é Rosa

E a Kylie venceu o cancro da mama.

Porque a Mãe me morreu para vencer o cancro.

E porque haverá algo melhor do que ser-se despida/o?