9 de dezembro de 2010

Homem do Ano


Apesar de tudo, acho que a Time o devia eleger Homem do Ano. Fico a aguardar.
E apesar de tudo, o tipo é um génio que vai dar muitos filmes em Hollywood, e fazer rios de tinta correr em biografias. Também fico a aguardar.
Estas mentes de QIs gigantes e inadaptações concomitantes fascinam-me.

6 de dezembro de 2010

Começou o meu Natal


É a primeira vez este ano que oiço "Last Christmas". Estaciono no Martim Moniz. Chove. Apetece-me andar e estou com tempo. Lisboa está cinzenta como as pessoas. Atravesso a Praça da Figueira por entre fumo de castanhas. O Rossio. Subo o Chiado como na canção. Gosto de andar à chuva. Prescindo sempre o guarda-chuva mas hoje chegaria ensopada. Es ist immer so gut. Immer diese warme Freundschaft. Die Erinnerungen...
O tempo é uma coisa tão rara. E Lisboa, assim sob a chuva no triste da tarde, nas vidas apressadas de passos, nos turistas, Lisboa elegíaca em cinza, tão bom.
Recebo chocolates de Beja. Vêm quentes de sol do passado no calor do presente. Hab'ich es nicht gesagt wie gut, immer so gut, die warme Freundschaft ist?
O meu Natal começou hoje por entre pingos de chuva e palavras mornas que se trocam e chamam outras. Palavras que vêm de longe no Tempo e que sabemos estão apenas à distância não de um Aufwiedersehen de circunstância, mas de um auf Wiedersehen redondo de volta. No Chiado ou em qualquer outro lugar...

Correcção meteorológica

E não é que o tempo h.o.r.r.o.r.o.s.o. melhorou? Agora o que eu pedia mesmo mesmo era menos humidade e, já agora, pressão na torneira e menos falhas na electricidade, se faz favor, é que isto de morar no campo tem que se lhe diga (e eu não me apetece ir tomar duche na casa-de-banho do rés-do-chão à conta da falta de pressão, ok?).

5 de dezembro de 2010

Blhack!

Que tempo mais h.o.r.r.o.r.o.s.o!
E porque é que tenho sempre mais frio na casa dos outros do que na minha?

4 de dezembro de 2010

Feia

Senta-se pesada e imóvel como um fardo à minha frente. Cruza os braços que mal se dobram sobre a barriga proeminente misturada com o peito. Fita-me. Encara-me directo. É feia. Desagradável. Os lábios finos escorrem para baixo dando-lhe a expressão de mal com a vida, de mal com o mundo, de mal consigo. Continua a fitar-me. De alto a baixo escrutina-me. Sem vergonha. Os olhos fixos, inexpressivos. Imagino-a amarga e seca. Imagino que perdeu a vida num azedo de limão. E o olhar que não me larga. O que é que vê? Como me vê? O que é que aquele cérebro antipático pensará da mulher em frente? Acusar-me-á? Reflecti-la-ei na antítese?
Sinto, para lá do desconforto, nojo. Nojo pelo olhar lívido, plenamente ausente de qualquer sentimento. Não o consigo ler. E olhos que não se lêem são anti-naturais. Imagino-a com algodões nas narinas num caixão. A visão pavorosa nunca me ocorreu na vida. Vejo-a morta e é igual ao que vejo em vida.
Chamam-na. Levanta-se a custo sem agradecer a ajuda. Arrasta-se. Deixa cair uma revista que olha com desprezo no chão. Nem ela nem quem está com ela a apanham. Vai-se embora caminhando morta.
Acho que vi um fantasma morto que ainda não se apercebeu que morreu.

2 de dezembro de 2010

Este país humilha-me

Não é que eu tenha por hábito revelar-me aqui na vida profissional. Mas como é, pelo menos, a segunda vez que o meu mail profissional assiste a uma cena destas cá vai.
Mail vindo dos USA a propósito de uma conferência que estou a organizar em Bruxelas:

Dear Dr. Blonde,
Blablabla, blablabla e agora o giro da coisa:
If you don't mind me asking, are things as scary in your country regarding debt as the news and financial markets indicate? We were talking yesterday in my class about Portugal and Spain in relation to what happened to Ireland earlier this month. I would love to share any insights you might provide with my students.
Best,
X

A reacção educada é, claro, ignorar, embora me tenha passado pela cabeça responder a dizer: I'm afraid I'm not a financial expert. A reacção que, porém, isto merece é fazer um forward ao nosso PM e pedir-lhe que responda sff. Estou a chegar perigosamente ao limite da vergonha. Sinto-me quase como se sentiam os sul-africanos nos anos 80 quando viajavam e punham um sticker com a bandeira do Canadá na mala ou na mochila pois não queriam ser associados ao país do Apartheid. E o que me irrita bestialmente é que, em nome de brios nacionais (que feliz ou infelizmente ainda sinto), eu não responda algo do género:

Sim, as coisas estão realmente medonhas porque há gerações que somos governados por mentecaptos, políticos decadentes com a mania das grandezas, gente com vistas curtas e inteligência diminuta, capazes, apenas, de políticas de corredor, de compadrios e simpatias mesquinhas, gente que ignora o supra-bem comum e que trata o Estado como um feudo pessoal-partidário. E vocês meus bimbos americanos, em vez de andarem na sobranceria que questiona a desgraça alheia, bem responsáveis foram por estes imbróglios. Experimentem, pois, levar com os dois anos de congelamentos de salários que o Obama vos prometeu e não me venham cá com mails paternalistas destes que não tenho pachorra.
Best,
Blonde

Eu tenho de levar com cada uma!!