30 de dezembro de 2010

2010


Foi. Nem bem nem mal. Passou-se. Dificilmente tenho outro 2009 tão inolvidável e surpreendente no bom todo que o bom tem.
Só que, pensando bem, eu tive este 2010 de habituações mornas e caminhos aplanados porque me dei 2009. Sim, talvez tenha sido a falta da adrenalina nova, dos anseios todos, das novidades que agora me dão a ideia de um 2010 meio insosso, meio acomodado. Ou então sou eu que sou uma mulher de ímpares e recordo melhor os anos e as idades desemparelhados. Que bom que é tudo ímpar em 2011.
O que eu acho no fundo é que 2009 me habituou mal, muito mal. Foi tão vivido e tão inesperado que se tornou num clímax de Vida, da minha. E como os clímaxes se esvaziam, porque é da sua natureza imanente o esvaziamento, eu aterrei mal na fase pós e o pós leva-nos ao nível do chão e tira-nos das alturas insuportáveis de manter. Em vez de voar, como em 2009, caminhei e as minhas asinhas nos pés não apreciaram muito terem voltado a ser solas (podem até ser solas de pumps mega-fashion, mas solas).
Tive o meu sobrinho: a energia de saber que ele vinha aí e depois o confronto com a pessoa ele quando nasceu. Não sei se foi amor à primeira vista porque o estranhei e estranhei tudo. Mas agora, aos dois meses, ele já me deu tempo e eu descubro que ele é a coisa mais adorável e gostável da Vida. Ainda me pasmo saber a Mana mãe e mais ainda quando lhe oiço a palavra "filho" neste novo vocabulário que agora nos entra Vida adentro. É bom este episódio.
De resto, continuei a domar esta Casa de ecos e espaços, de passados e fantasmas. Já vou habitando as divisões quase todas em vez de morar apenas no meu quarto, na biblioteca e pouco mais com medo das paredes que falavam. Aos poucos vai ficando, ou já está mesmo, irreconhecível face aos diversos passados que por aqui passaram desde a morte da Mãe ao meu não-casamento. Teria sido mais fácil vendê-la e Deus sabe que um tempo houve em que essa ideia era uma obsessão. Acabar com tudo. Vender o passado. Mas como é que eu ia vender os fantasmas? E eu, que depois de a Mãe morrer lhe quis calçar à força os sapatos de matriarca, ia ser matriarca onde? Era aqui que eu tinha de ficar. Aqui começava a minha luta por um presente novo. Eu começava aqui. Caramba, eu era uma mulher de coragem, ou não? Aqui estou e vou amando a Casa como já a odiei na demonização personificada que lhe conferi.
Foi também o ano de me virar para os terrenos. Com a Casa mais exorcizada virei-me para outra frente: passo a passo. Acho que me estou a sair bem. Mais importante, ando a recolher as peças do meu cadáver, a colá-las para renascer. Se calhar precisei destes doze anos de luto, que nem foram bem de luto, foram de absoluta dilaceração. Esqueci-me da Vida de mim, devastei-me, não-casei-me daquela maneira e só agora estou a emergir num parto que demora. Mas já respiro a plenos pulmões. É bom este ar. Posso até andar cansada, afinal enxotar fantasmas, querer um matriarcado, domesticar a Casa a chicote e ressuscitar terrenos é obra! No meio disto tudo ainda tem de me sobrar tempo para o Tempo de outras coisas, das coisas que nos acontecem a todos e que em todos nos são exclusivas. Se calhar é isso: 2009 foi tão especial porque foi só meu; 2010 foi menos excitante porque trabalhoso, porque cheio de frentes, porque cheio da Vida interrompida há doze anos que gritava para que eu a tirasse das silvas e das heras que lhe tinham crescido por cima. Aqui estou, de foice na mão (mas sem martelo) pronta a continuar o desbaste.
Veremos 2011...

A todos que aqui vêm e se detêm nas frivolidades que por aqui deixo nesta cadeira freudiana: obrigada. Um excelente Ano Novo.

29 de dezembro de 2010

Bater perna

Tarde de chuva. Saldos. Centro comercial. Os meus afilhados. A minha amiga C. Não tenho pachorra nem para tardes de chuva, nem saldos e muito menos centros comerciais. Só posso mesmo gostar dos putos e da minha amiga... E porque é que eu tenho a impressão que saldos significam só trapagem investível e incalçável? E já agora, também será impressão minha ou a malta ainda não se deu conta de que estamos em crise?

28 de dezembro de 2010

Só mesmo neste país!

Se ele há coisas essenciais à vida como respirar é acordar, fazer café forte em chávena king mega size e passar em revista as notícias. Heaven! Mas neste país, o Heaven! passa rapidamente a Hell! porque quando menos esperamos: bang, lá vem bomba!
Eu admiro, sinceramente, as mentes brilhantes que pensam em coisas como esta, i.e., o Estado devolve aos partidos as multas que os dirigentes, ou outros, recebem. Não acham isto genial? Eu acho! E como as ditas cujas coimas engrossam as despesas partidárias, fixe: no final do ano o Estado tem de arranjar provimento para um orçamento partidário engrossado. Brilhante! Devíamos exportar esta ideia, com chorudos direitos de autor, aos paspalhos dessa Europa que se diz civilizada!

26 de dezembro de 2010

Cansada. Cansada demais. Rodeada de muito, do muito que não quero que me falte. Rodeada de muitos, dos muitos que não quero me faltem. Porém...
Vou desmanchar a árvore. O Natal não começou bem. Não sei como acabou mas tendo em conta as circunstâncias acho que até acabou bem. No meio houve o Pai, o Pai que é uma força da natureza, e acho que foi ele que me fez o Natal este ano. No meio houve também o bebé Manel (são dele os pézinhos que agora me descansam no aparador).
Já pensei se não estarei a ressacar destes dois anos loucos de adrenalina a mover montanhas e a viver à pressa. Ou então estou a ressacar da morte do Nuno. Ou então é tudo junto. Quando olho à volta a pensar que tudo já faz sentido, que já cheguei lá, o horizonte fica mais longe e isso confunde-me. Olho outra vez e está tudo no chão. Encho-me de questões não verbalizadas e mal articuladas na mente. Questões que se eu materializar ganham vida e eu prefiro-as dormentes para fingir que são inconscientes. Fingir que não existem. Fingir que não me magoam...

23 de dezembro de 2010

Em Babel

Não me lembro de adormecer. Lembro-me do vento em silvos. O vento solto e forte de campo descoberto e amplo. Lembro-me de pôr o despertador para muito tempo antes de me ser necessário acordar. Planeei ir ter com a tua tia. Falar-lhe sem saber o quê, só à espera que o olhar dissesse que não foste em vão. Planeei ir ter contigo. Não conseguiria passar por ti no dia em que te sei aí e ignorar-te sem me deter.
O alarme toca. Esqueço-me porque tenho de acordar. Lembro-me mas a coragem quebra-se. Fico na cama a olhar a claridade coada que entra pelas persianas. Não sou capaz. Não, ainda vou a tempo, penso melhor.
Visto-me de bonita. Sempre quis que me visses bonita. Tento forçar o pequeno-almoço sabendo que a angústia sempre me levou o apetite. A angústia vence.
Saio.
Entro na loja da tua tia e, graças a Deus, é a tua prima que lá está. Como é que eu, agora que tenho um sobrinho, como tu foste da tua tia, a ia enfrentar? O que é que ela sente, ela que também te adormeceu nos braços nos intervalos da tua mãe? Que dilaceração eu não sentiria?
Não são precisas muitas palavras. Estávamos todos lá no passado. Não são precisas grandes explicações e das outras eu prescindo. Recuso-as. Peço-lhe que dê um abraço à tua tia e digo-lhe que não insisto em enviar um à tua mãe para a poupar de mais memórias. Ela diz que não, que o vai dar, que o quer dar.
Vou ter contigo.
Não sei porque te trouxeram para aqui. Foste feliz aqui? Terá sido por isso? Por aqueles Verões e férias? Pela liberdade que aqui tinhas e que talvez nunca tenhas tido onde moravas e a tenhas procurado da maneira como o fizeste? És livre aqui? Também só eu aqui permaneci quando a minha família morreu. Percebo. Aqui temos o vento. O vento que me desalinha os cabelos sedosos de limpos do meu cosmopolismo quando entro para te visitar. Demoro a encontrar-te. Uma campa fresca de lama. Flores que dizem que morreste agora e que eras querido. Vês como te sentem a falta? Ajoelho-me como se te estivesse à cabeceira.


- Foste querido e tenho pena que seja tão tarde para te dizerem isso. Espero que tenhas encontrado a libertação. Que te seja suave e pacificadora.


Falo-te. Lembro-te enquanto afago flores molhadas de chuva. Deixo-te uma rosa, encarnada, despida de ornamentos. Levanto-me e vou-me embora. Um traço magro de cor por entre mármore encardido pelos elementos. Apercebo-me que é a minha geração a que agora começa a levar com os embates que eu via a geração dos pais levar. Sou eu agora que vou contando os mortos. Já devemos ser adultos para nos confrontarmos com isto. Adultos no sentido de vividos.
Regresso à carrinha e sigo para a cidade onde vou dar amor e ver olhos que começam a ver. Estou cinzenta por dentro. Na alucinação imagino que falas comigo na coincidência de ouvir os Queen em "Too much love will kill you, just as sure as none at all". Falaste comigo? Sinto-as escorrem-me pela face. Grossas e quentes. Contornam-me o queixo e escorrem pelo pescoço. Não as aguento.
Chego a Lisboa com a cara a repuxar de lágrimas secas. Passo o resto do dia a olhar um céu estranho através de janelas de cidade. Sobre a mesinha de café, dorme numa alcofa um embrulho de gente e por detrás imagens sem som de um mundo aberrante que leio em legendas.
Babel. Não a Torre. Babel o filme das coisas ininteligíveis. Sinto-me personagem em Babel. Falo com mortos na cabeça enquanto um bebé me dorme em frente do sofá onde estaciono os pensamentos.
Reconheço-o, o luto. Não queria estar aqui, em luto. Guardo-te para sempre como N. nos meus diários, como Nuno nas minhas memórias e vou ver-te para sempre como eras: um tipo com um futuro maiúsculo pela frente e céu nos olhos.

Só hoje te consigo dizer:
Descansa em paz...

Nuno,

Não sei como te escrever. Sei que quero escrever de ti. Não estou em choque. Não estou a reagir na incredulidade, na surpresa violenta com que reagi quando soube da Cristina. A F. saiu daqui agora e tu calhaste em conversa. Ela não te sabia um capítulo na minha vida. Engraçado como ela poderia ter saído hoje daqui, de uma das nossas conversas, sem que eu soubesse de ti. Eu ignoraria. E na noite de Consoada iria, como nestes anos todos, lembrar-me: "O Nuno faz anos hoje." Um pensamento que duraria os segundos de se semi-materializar na minha mente mas estarias lá nesses segundos. Não sei, portanto, como estou a reagir. Se for para a cama levo-te no pensamento e não será só por uns segundos. Lembrar-me-ei de tudo, das canções que compunhas e tocavas à viola, da tua voz, de tantas coisas.
Eu augurava-te um futuro escrito a maiúsculas. Admirava a tua inteligência e a capacidade de articulares conversas. Acho que me ficaste como marca em muitos dos homens de que gostei a seguir a ti: olhos de céu a espreitarem nos óculos e o cabelo louro dourado, quente, amistoso, diferente do meu mais agreste. Talvez inconscientemente eu tenha estabelecido em ti um paradigma ou talvez, aqui neste Meridião, me lembrasses os homens do meu Norte original. Não sei. Sei que gostei de ti e que me fui lembrando de ti à medida que a minha vida se separou de ti.
Não te reconheci na última vez que nos vimos. Estranhos. Vidas muito distantes. Universos de galáxias diferentes. Acho que me desapontaste mas é terrível de mim, depois de eu saber disto, dizer uma coisa destas. Não vi o teu futuro escrito a maiúsculas e o meu estava ali, em negrito e sublinhado. Apareceste-me escrito normal. Foi isso que me desapontou. Que terrível de mim ter pensado isso. Que terrível hoje.
Sim, tudo nisso foi, afinal maiúsculo. A tua inteligência rumo à libertação última, final, amordaça o meu desapontamento. Foste determinado, louvo-te isso. Calo a vontade de te recriminar. Inibo-me de te julgar. Imagino a cena. A premeditação meticulosa. O jogo do teu cérebro superior a ser usado no plano perfeito, com calma. Não consigo imaginar mais. Páro. Porque se imagino mais acho que vou perder a consciência ou vou desabar.
Sinto o coração a querer bater, naqueles batimentos arrítmicos, sabes? Mas estou a fazer um esforço estóico para não o deixar descontrolar-se. É medo. É medo de aceitar. É medo de saber que sim, que é real. É medo de desatar a chorar. É medo de começar a visualizar. É medo de te perguntar porquê e começar a comparar-me contigo e que eu estou aqui. E eu não posso fazer isso. Eu não te posso dizer:
- Olha para mim. Pensas que tem sido fácil? Pensas que alguma vez foi fácil? Pensas que não pensei nisso? Pensas o quê? Que enfrentamos a Morte e a perda sem que isso nos faça passar o inferno? Pensas que é fácil aguentar um casamento duro e sair dele sem que te deixem sair? Pensas que isto não é uma luta constante? Pensas que é fácil acordar todos os dias com o passado a olhar-te quando te levantas da cama?
Pronto, conseguiste! Ei-las que chegam! E eu não te posso perguntar nada. Não me posso usar como comparação contigo. Nem seria justo.
Vou ter saudades de te saber neste mundo. Não gostaria que um capítulo bom desse passado que acorda comigo fosse tão derradeiro e tão permanentemente fechado.
Vieram enterrar-te aqui. Estavas tão longe e agora estás tão ironicamente perto. Vou passar por ti todos os dias. Todos os dias. A começar daqui a bocado quando amanhecer e eu passar no mundo dos vivos à tua porta.
Ó meu Deus, que esta hora me passe depressa. Ó meu Deus, eu estava a protelar. Ó meu Deus, que o meu choro se cale. Ó meu Deus...