27 de janeiro de 2008

Carta Aberta a Palavrossaurus Rex


Querido Joshua,
Estavas, Palavrosaurus Rex, emboscado nas veredas tortuosas em que caminhas. Disseste-me que se te interpretasse mal eu "levava". Não interpreto. Também te prometi replicar na medida destes parcos 50 quilitos.
O mundo segue e faz-se do confronto de opiniões, e das grandes divergências nascem as convergências. Perdoa, merecias mais do que um chavão banal. No entanto, este serve o propósito vertente e, afinal, os chavões mais não são do que verdades do senso comum partilhadas ao infinito humano.
Empreendes, porém, em juízos temerários (talvez caminhes pelos vales da sombra da Morte). E como poderia ser de outra forma se não conheces quem se esconde por detrás da Blondewithaphd? Não lhe adivinhas o nome ou o som da voz. Não lhe descobres as amarguras e as felicidades. Prevaricas.
E esse Cristo draculeano que apresentas sem pudor? Não é O teu, não é O meu. Blasfemas.
Tens razão que vivo num mundo de privilégios: materiais, muitos; humanos, muitos mais. Ignoras, contudo, o que esses privilégios implicam. Não percorreste os meus próprios caminhos, não te encostaste ao bordão que me ampara tantas vezes. Não decidiste por mim em cada cruzamento da estrada (não a de Emaús), mas a minha. Não conheces o sal das lágrimas que oculto. Não sabes o que me humilho ante Deus. Não, não sabes nada.
Se soubesses, talvez entendesses que nem todos se expõem na adoração do Divino. Fecha-te num quarto e ora ao Senhor teu Deus. Conheces de certeza o que isto é. Por isso, entenderias, quiçá, que me levante ao Domingo e suba aos montes para uma paróquia de gente velha vestida de escuro, que participe da Eucaristia num local ignoto (sim, leio em público, sim canto para todos), longe dos meus privilégios e depois suba ainda mais para um sótão decrépito de sacristia, com teias de aranha, pó e telha vã, onde não consigo estar de pé, e evangelize os meninos que vêm de casas onde Fé é letra morta. Não, não sabes nada.
Radicalizas o ficcionismo. És Palavrossaurus Rex e tirano.

9 comentários:

Blondewithaphd disse...

Naturalmente que na dicotomia Joshua/Palavrossaurus Rex eu prefiro o Joshua.

António de Almeida disse...

-Vamos ter polémica? Bem, vou acompanhar!

Joshua disse...

Minha querida Blonde, desde o princípio que sabes quem sou no âmago e por isso mesmo não te deixas cegar de rejeição apressada e timorata de mim em face da hegemonia por vezes desse meu lado Sáurio, reptilianamente Tirano que parece só violência e aspereza.

Eu, que passo os meus dias a enternecer-me com os seres humanos sob a limpidez de um amor divino, manso, embebido em Cristo e nos Sentimentos que Havia n'Ele, quando porém escrevo, rasgo todos os véus e abro todas as feridas como quem, em desespero, quer ir mais além, até mesmo ao limite do revelar Total de quanto margina esse Rio de Amor Represado que deveria jorrar dos corações. Eis tudo.

É um instinto básico meu. É uma predação sem peias, cruel, e ela, sim, Cega, e, no entanto, preside-lhe a demolição permanente do supérfluo que se interpõe coração a coração.

No que à Fé Comunitariamente Celebrada diz respeito, atravesso uma fase eremítica, como Antão, lembras-te? A vida comunitária era-me fonte de um sofrimento e de uma ânsia dilacerantes em face do que via discrepante com um amor incondicional pessoa a pessoa, caso a caso. Não via delicadeza. E a minha delicadeza era lida como esbatimento da exigência dos critérios da Fé ou frouxidão moral. Tive de me preservar e aguardo um Tempo Novo, um Grande Recomeço: há sempre um Santuário onde tudo é Frescura de Alma e Consolo.

Na verdade, toda a nossa tradição de Fé, desde a sua origem, é o mistério de um Amor Dilacerado. O Pai entrega-Se, mas quem O acolhe? A sua Palavra é oferecida, mas quem responde? O seu Espírito é difundido, mas ainda não partilhado.

A Criação é puro dom, mas ainda à espera do Acolhimento. Nesse Very First Princípio, tantas vezes ignorado por nós, o Deus Vivo experimenta a sua primeira kenose*: o seu amor já se revela aí, mas na penumbra duma promessa ignorada. Ora, o meu coração de ADORADOR DO DEUS ALTÍSSIMO é um grito de impaciência por que haja esse Acolhimento no cerne das pessoas, por que essa Resposta seja dada, por que todos vivam uma permanente Parusia e uma profunda KENOSE HUMANA. A minha grande tónica instintiva é a vivência de essa KENOSE.

Eu sou também um homem sofredor: às minhas mãos e às mãos dos seres humanos, mas isso é o labririnto da minha história pessoal com a qual estamos sempre a tentar reconciliar-nos.

Minha querida Blonde, hoje, agorinha mesmo, e para ti SEMPRE!, Joshua, só Joshua = Deus Salva!

TODA A TERNURA!



*KENOSE: cf. Fl 2, 7. A expressão «esvaziou-se de si mesmo» ou «aniquilou-se» tornou-se substantivo na nossa língua. O Filho permanece Deus ao incarnar, mas despoja-Se da sua glória a ponto de ficar «irreconhecível» (cf. Is 53, 2-3). A kenose é a maneira divina de amar: tornar-se homem até ao fim, sem se impor nem forçar. Trata-se, em primeiro lugar, da kenose do Verbo na Encarnação, que se completa na kenose do Espírito Santo na Igreja e revela a do Deus vivo na criação. O mistério da Aliança está por debaixo do sinal da kenose: quanto mais profunda for, mais total é a união. A nossa divinização é o encontro da kenose de Deus com a do homem, e traz consigo a exigência fundamental do Evangelho: seremos um com Cristo, na medida em que nos «perdermos» por causa d’Ele.

antonio disse...

Passei por aqui em jeito de oração.

Blondewithaphd disse...

Querido Joshua,

Trago-te o Kerigma da paz em Cristo dos primeiros cristãos. Não poderia ser de outra forma. Tenho graves e sérios cismas com a Igreja dos Homens mas não com a de Deus e, por isso, perceberás que na nossa humanidade terreal me sinta constrangida com esse Acto de Contrição. Agradeço-te, no entanto, porque me enterneces. Como me enterneces sempre "malgré tout" (e não procures aqui uma ironia ou um sarcasmo que não existem).
Não te vejo como Santo Antão no pináculo no deserto. Vejo-te como Prometeu Agrilhoado, mas a águia é esse sáurio que te canibaliza. Atormenta-me que o Joshua seja tão consumido por ele. É essa constante Weltschmerz de que te não libertas que me preocupa.
Aqui descansarás sempre do sáurio (vês como os meus 50 quilitos dão uma luta danada a esse monstro?).
PAZ!

Blondewithaphd disse...

Dear António de Almeida,
A polémica vale sempre a pena se chegarmos a resultados positivos para o bem comum.

Blondewithaphd disse...

Dear António,
Sempre benvindo, com ou sem orações.

quintarantino disse...

... safa ... vou sair de mansinho ...

NuNo_R disse...

Ora aí está um debate interessante a ser seguido ;)

Bjs