18 de julho de 2018

Ir para os States na era Trump

Nunca me apeteceu menos ir para os States do que este ano. É muito deprimente a sensação de não sermos bem vindos ou desejados e, por outro lado, é sabermos que os Estados Unidos são mais do que esta presidência e o seu eleitorado minoritário. Quero ir e não quero...

16 de julho de 2018

Porque é que?

Quando estamos numa fila de trânsito a nossa faixa anda mais devagar que as outras? E porque é que quando as outras parecem andar mais depressa e nós mudamos ficam paradas pior do que onde estávamos?
Raiva!

14 de julho de 2018

No regresso

Pela evolução e pelas circunstâncias da vida que caminha e nos leva e traz a rotinas e a espaços novos, vai-se tornando hábito que, nos regressos, a estas costas atlânticas seja precisamente para o mar que eu me dirija. Aí espera-me o coração do lado de fora do corpo, aquilo que há meia dúzia de anos não existia e que eu não sonhava ser tão forte e tão especial. É para eles que regresso, deles que trago as saudades máximas. Estão aqui, à beira deste mar, em residência oficial de veraneio. Tornou-se rotina chegar de fora e vir aqui (re)confortar a alma no encontro.
Fui ao meu país de origem. Venho, para meu espanto, quase muda. Não consigo meter em palavras verbalizadas na oralidade o que me foi o reencontro com aquelas terras familiares e distantes, à vez conhecidas e o oposto. Levei o meu marido que era quem eu mais lá queria levar. Porém, levei-me a mim, o Eu que sou hoje, distante e familiar dess'outro que fui. Este meu Eu contemporâneo precisava do reencontro para se calibrar a balança nesta fase da vida. Perdi Rheydt. Acho mesmo que não regressarei onde nasci. Nada no sentimento me pede que regresse e tão pouco me entristece que não queira voltar. Bremen continua a ter no meu querer a pujança que sempre teve, agora mais porque aí criei memórias que posso partilhar com quem amo e quem eu quis me acompanhasse nesta viagem à Alemanha e nesta viagem de vida. Percebi também que não tenho de ter medo de me despedir da Tante Ruth porque ela vai estar sempre comigo e sempre será uma parte da minha viagem por esta dimensão e pelas outras.
Não mudei o que sinto por aquela terra e aquelas gentes. Não lhes pertenço, porém, claro que há um pouco de pertença. Sendo outsider, sou insider. Vivo um paradoxal paradigma de interioridade e exterioridade. Aceito que vivo num limbo pacificado e sinto-me a espécie de híbrido em que sempre vivi dentro da minha pele. Sei que é à beira deste Atlântico ventoso do Oeste que melhor me entendo como cidadã com pertença a um algures. Louvo em gratidão o pôr-do-sol que os meus olhos vêem quando chego vinda de longe, um pôr-do-sol como só existe nesta latitude e sobre estas ondas que reconheço pátrias. Que cena mágica e inesquecível. Que povo abençoado este que vive na banalidade de algo tão deslumbrante. Na Alemanha não há disto. Na Alemanha está o meu passado, aqui o meu presente. Não matarei o que em mim se aloja proveniente desse nascimento longínquo na geografia em que habito os meus dias.
Sou uma privilegiada. A hibridez é uma fortuna, não uma desvantagem. Venho de casa e regresso casa. Sim, sou uma privilegiada...

11 de julho de 2018

E, por fim, a comida

Nenhuma ode a um país, nenhum périplo relatado está completo sem uma alusão à gastronomia local, típica e única. Aqui na Baviera sejamos temerários e enveredemos por uma de experimentalismo. Se a língua é (como costuma ser por estas partes) um obstáculo, peguemos num menu e escolhamos o mais impronunciável que lá encontremos. Lembro-me de fazer isso quando para aqui vim estudar. Nem sempre me dei bem mas, pelo menos, aventurei-me e só isso é um triunfo da alma viajante. Lembro-me de ir um dia à cantina da faculdade e olhar embasbacada para a lista de pratos que havia para o almoço. Os meus colegas foram para as coisas identificáveis. Eu fui para o que me pareceu a coisa mais exótica: Pflaumenauflauf. Tirei pelo sentido que, como Pflaum significa ameixa, a coisa deveria ser algo como carne de porco com ameixa, já que ambos ligam bem, culinariamente falando. ainda perguntei à senhora que estava na linha a servir as refeições, o que é que era o prato em questão. Respondeu-me na algaraviada bávara incompreensível e eu encolhi os ombros e preparaei-me para o meu encontro com o dito cujo Pflaumenauflauf. Carne picada com doce de ameixa e uma generosa colherada de molho de chocolate por cima. Digamos que não foi a minha melhor experiência gastronómica. Foi, todavia, inesquecível.
Hoje, nem sei bem porquê, apetece-me sopa. Passo os olhos pelo que há e uso o método interpretativo do costume: traduzir por aproximação contextual. Brätstrudelsuppe, penso. Brät tanto pode ser qualquer coisa assada como algo salsichoso. Strudel é qualquer coisa enrolada, como no famoso Apfelstrudel, um enrolado de maçã. Suppe é sopa, como está bem de ver. Pois lá me vem uma sopa de panquecas enroladas com recheio de salsicha, fatiadas e servidas a flutuar num caldo de carne. Bem bom, digo só.
E depois que tal uma Milzwurst com salada de batata? Wurst é salsicha mas ele há milhentas variedades que uma pessoa mais vale pôr o coração ao alto e esperar para ver de que se trata esta espécie. É uma salsicha gigante cortada às rodelas e panada, à moda de um Schnitzel, que não é mais do que um panado e quem já comeu Wienerschnitzel saberá que não é mais do que um bife panado.
Há infinitas outras opções de manjares exóticos nesta Baviera de onde me despeço da Alemanha. Por exemplo, sopa de panquecas, Pfannkuchensuppe (sim, em Alemão aglutinam-se as palavras todas de uma única ideia e nascem vocábulos longos como comboios, mas, garanto, é tudo muito prático, linguisticamente falando). Para os menos afoitos, tudo o que diga Teller, que quer dizer, tão simplesmente "prato" há, e não só aqui mas por todo o país as deliciosas opções de Grillteller, que nós familiarmente chamamos "grelhada mista", Käseteller, pratos de queijo, uma das obras-primas da simplicidade e da delícia, ou os Schinkenteller, pratos de carnes frias variadas, outro hino à simplicidade deliciosa, todos devidamente acompanhados de saladas frescas e variadas e pão, o pão rústico pelo qual a Alemanha é tão conhecida e que em nada se fica atrás do bom pão caseiro português. Cresci a comer Käse e Schinkenteller e o hábito ficou-me, de tal forma que, em casa, faço umas variações luso-alemãs que me deixam no sétimo céu da multiculturalidade culinária.
E como a comida se acompanha por bebida e já sabemos que na Alemanha imperam a cerveja e o Riesling, que tal irmos numa de não-alcoólico e pedirmos o bom do sumo de maçã? Força! Contudo, aqui na Baviera, o singelo sumo de maçã é toda uma ciência. Não há cá sumo de maçã. Há, mas é uma coisa cultural. Aqui o sumo de maçã chama-se Apfelschorle. Ora Schorle é quando se corta uma bebida com outra. Bem sei que é criminoso mas os alemães cortam o vinho com água ou com gasosa e isso é um Schorle. O sumo de maçã serve-se como qualquer Schorle. até aqui já aprendemos. O passo seguinte é destrinçar os diferentes tipos de Schorle. Então, temos o Apfelschorle süss, que é a versão doce e o corte é feito com uma gasosa doce e há, também o Apfelschorle sauer, a versão "amarga" em que ao sumo de maçã se junta apenas água com gás. Equipados com este conhecimento dominaremos a arte desta bebida (que faz alguma confusão aos vizinhos austríacos, que a têm mas insistem em chamar "g'spritz"). E só para acabar de confundir, os próprios alemães não se entendem quanto ao género da palavra Schorle. Tendo três géneros, os habituais feminino e masculino, juntaram-lhe um neutro e, dependendo de onde estamos na Alemanha, Schorle tanto pode ser um, ou outro ou outro. Ou seja, não há hipótese de errar gramaticalmente, mas há toda a hipótese de desastre cultural. Boa sorte! E, já agora, aproveitem para descobrir as iguarias deste país que sabe, como nenhum, desmultiplicar a variação da salsicha e da salada de batata, Kartoffelsalat, para que conste.
Guten Appetit! 

8 de julho de 2018

O que não se deve dizer tem de ser dito

Passamos os últimos dias desta viagem numa Gasthof tradicional em Bergkirchen, uma pequena vila a oeste de Munique. Uma Gasthof é uma espécie de hotel que se especializa em restauração e festas. Tem quartos para hóspedes e vive para entreter e socializar com boa comida e melhor bebida. Passamos dias de lentidão passeante, provamos tudo o que seja comida típica, e quanto mais impronunciável melhor, e fazemos provas e mais provas de cervejas (nenhumas, no entanto, que nos superem o gosto pela Kolsch de Colónia). Damos uns saltinhos a Munique, onde compro umas sabrinas alusivas à Oktober Fest, e vamos passeando por estas redondezas rurais da Baviera profunda.
É quando o meu marido me confessa o que confessa e que eu já desconfiava sem nunca o pronunciar, sem nunca chamar o assunto.
Nos três dias em que esteve na Alemanha antes de eu chegar e de irmos ter com os nossos padrinhos para começar a viagem propriamente dita, aproveitou para ir visitar uns amigos a Erfurt (nas cercanias de Weimar). Até aí nada que eu não soubesse.
- Também fui a Dachau - informa-me, tentando dar ao assunto a informalidade que ele não tem.
Não me impressiona e não me desgosta. Imaginei que ele, estando aqui, fosse a um sítio desses na minha ausência. Também sei que, por pudor e delicadeza para comigo, não mo iria dizer de antemão e nem talvez nunca.
- E então? - pergunto-lhe enquanto jantamos iguarias tradicionais no restaurante com grossas vigas de madeira da Gasthaus. Falar do Holocausto ao jantar é, só por si, ignóbil por fazer parecer banal um assunto conspurcado.
- Saí enojado a detestar tudo na Alemanha e a pensar que iria odiar estes dias e este povo - responde.
- Bem sei. É odioso.
Prometi a mim mesma nunca visitar um campo de concentração. Quando estive a estudar em Eichstätt, muitos amigos meus, estudantes estrangeiros, foram a Dachau, quiçá dos campos mais infamemente famosos aqui na Baviera. Não fui. Nenhum interesse me move ou me faz querer fazer uma visita dessas. O Nazismo é-me detestável e incompreensível. A capacidade da maldade agonia-me. Foram os alemães que fizeram aquilo. Foram e é um passado indesculpável, inapagável e que eu desejo nunca seja branqueado ou esquecido.
- E, agora, depois destes dias, o que sentes? Como vês a Alemanha que te mostrei? - pergunto na curiosidade de saber se a monstruosidade do passado aniquila o presente e a capacidade de se poder gostar deste país.
- Mixed feelings - responde-me. Percebo-o. Sei exactamente o que quer dizer e o que deve estar a sentir. Explica-me que se surpreende como é que um povo que viveu aquilo, que foi e é odiado, e que foi destruído se levantou para ser o que é. Diz-me que tem de admirar um povo que vive sob este peso histórico constante e que se soube reerguer das cinzas e do asco mundial. Também me diz que descobriu que não são os vilões antipáticos e frios que julgava serem. Respondo que sim a tudo e esclareço-o de que a Alemanha que ele viu comigo não é a Alemanha vista do exterior, é a Alemanha vista de um limbo, de uma terra-de-ninguém e que é a minha perspectiva. Eu habito nesse hiato. Estou fora e dentro. Não sou de cá mas sou. Vejo a Alemanha de longe e de perto, do mesmo modo como vejo Portugal. Ao fim destes anos todos desta hibridez, aprendi a fazer dela a minha natureza. Sim, claro que sou portuguesa mas não estranho a Alemanha. Como poderia?
Gosto de ouvir o que ouço ao meu marido. Viu um país inteiramente ressuscitado dos escombros. Não há quase monumento nenhum que não tenha sido bombardeado. Percebeu que o Nazismo foi uma aberração histórica criada no seio de uma nação civilizada e amante da liberdade. Não é uma desculpa. Longe disso. É um facto que ainda não obteve explicação e que, creio, nunca a vai ter.
Não me posso jamais esquecer deste passado do país que me viu nascer e do qual só guardo boas memórias, boas impressões e boas pessoas. Partilho com os alemães o viver sob o jugo do fardo histórico e sórdido. Não o falamos. Porém, não o esquecemos.
No último dia, mostro algo ao meu marido. Um cemitério. Calhou a ser em Bergkirchen mas podia ser em qualquer lugar neste país. Não preciso dizer-lhe o que lhe quero mostrar. Ele adivinha. Campas e campas de soldados de baixa ou nenhuma patente, de oficiais. Os mortos da guerra. Em algumas campas, fotos a sépia de rostos jovens em uniforme, miúdos de dezanove, vinte anos, mortos na frente russa. Noutras, fotos de rostos sérios e mais velhos, generais, comandantes disto e daquilo, mortos em solos distantes à conta da loucura da guerra.
- Percebes? Só houve mortos. Mortos e mortos e sofrimento de um lado e do outro. De todos os lados. A guerra é vil - digo, notando que o meu marido talvez esteja a fazer uma descoberta. A descoberta que houve este lado, o lado do inimigo e o inimigo também tinha gente, do mesmo modo que tinha monstros.
Escondida no cemitério, longe de olhares curiosos ou inquisidores (como os nossos), uma cruz e um pequeno monumento à memória dos filhos da terra mortos na guerra. Silêncio. Tal como temos os nossos mortos em La Lys e na Guerra Colonial e os nossos panteões a esses filhos tragicamente perecidos, aqui também os há. Vemo-los como o inimigo, sim. Só que aqui o inimigo não tem esse nome. O inimigo aqui é o próprio, o "Eu" que está do outro lado. Tenho um novo assomo de mixed feelings por ver que o pequeno panteão aos mortos da guerra é aqui uma coisa envergonhada e escondida, como se não se pudesse lembrar às claras os participantes naquelas guerras que eram filhos, pais e maridos de alguém. Dá pena mas não dá perdão.
Espero, nestes nossos tempos em que tomamos tudo por garantido, em que facilmente nos esquecemos do passado e em que, com ligeireza, desprezamos a paz consigamos lembrar-nos que o mal existe e está mais perto do que imaginamos. Que jamais esqueçamos que a guerra existe, a guerra é e a guerra começa sem que dela nos apercebamos...
Deixo que os fiéis, vestidos nos seus trajes típicos domingueiros, saiam da igreja onde assistiram ao rito. Tenho esse pudor. Sei que são os descendentes daqueles mortos, os descendentes daquele passado que quero mostrar ao meu marido. Quando, por fim, temos o cemitério à volta da igreja abandonado e só para nós, convido-o a olhar os mortos. Acho que percebe, por muito difícil que seja perceber.

5 de julho de 2018

Orgulho bávaro

É uma infelicidade histórica que existam palavras más para descrever sentimentos bons na sua essência. Nada há de mal ou errado em gostar da sua terra, em ter espírito nacional. Nacionalismo e nacionalista deveriam ser benevolamente associados a esse espírito de bem-querer. Não o são. Trazem-nos à memórias hediondices passadas e presentes e medos futuros. Fiquemo-nos por um qualificativo mais ligeiro e usemos a palavra nacional para construir expressões do sentimento bom pela terra.
Mais, porventura, do que em outros estados da Alemanha, a Baviera tem uma clara noção da sua nacionalidade, a qual lhe é, e só pode ser, inegável e indesmentível. Enquanto passeio tranquilamente sobre as águas do Chiemsee reparo nos barquinhos com as bandeiras bávaras de losangos azuis e brancos. Há um que me chama a atenção por me parecer a epítome da alma nacional bávara. Tem hasteada uma grande bandeira do estado. Não é a bandeira oficial. é uma bandeira que tem a efígie de Ludwig II no centro e conoto-a com o reino antigo e independente da Baviera. Acho-a uma bandeira saudosista e explícita do orgulho nacional de quem a hasteou. Acima, e mais pequena, numa simbologia notória da secundarização que lhe é dada, uma tricolor alemã, a Shwartz-Rot-Gold, preto-encarnado-ouro. Também não é uma bandeira oficial. Tem, ao centro, a águia imperial de asas abertas, outra reminiscência passada de grandiosidade e orgulho. Na verdade, há uma bandeira alemã oficial com a águia imperial sobre um escudo, é a bandeira de Estado, usada apenas em circunstâncias especiais. quem quer usar a bandeira da águia não a pode usar sobre o escudo. Verbot! Proibido! Por isso, há muitas tricolores com águias menos "oficiais". Noto estes pormenores nas bandeiras daquele barco e imagino o dono ou os donos bávaros convictos e orgulhosos, perfeitamente conscientes da hierarquia da sua nacionalidade: primeiro a Baviera autónoma, depois a Alemanha em toda a sua germânica pujança. Haja orgulho mas que não se atravesse a fronteira dos "ismos".
Naturalmente, outra das arreigadas noções autonómicas dos bávaros e de outros alemães é proporcionada pela língua. Já se sabe que a língua alemã não é uma homogeneidade. Dir-me-ão que o Português também não o é. Certo. Mas Português é entendível independentemente do sotaque ou das escolhas vocabulares que diferenciam o "sumo bebido pela palhinha" do "suco tomado pelo canudinho". O uso do Alemão na Alemanha é como o uso do Espanhol em Espanha: há um padrão e depois há outras línguas, dialectos e variadas mais ou menos inter-inteligíveis. Os bávaros amam falarem um Alemão incompreensível para o resto dos alemães.
Apanho um carro com um selo na chapa do porta-bagagens que me diz deste orgulho na língua que forma e corporiza uma nacionalidade. Tem um losango azul que significa a simplificação da bandeira bávara e depois pergunta a quem o lê se fala bávaro? Acho deliciosa esta assumpção da nacionalidade. "I red Boarisch und Du"? Ora, esta bavaridade traduzida para Alemão-padrão é algo como "Ich spreche Bayerisch und Du?, eu falo bávaro e tu? Pois eu, é mais para menos do que para mais. Posso convocar os meus conhecimentos linguísticos para discernir que "I" é obviamente "eu" como no Inglês, um derivado do Frísio, que é uma variante do Alemão. Posso fazer uma comparação com o verbo Alemão "reden" que se usa não para falar uma língua mas para falar uma conversa e, assim, apanhar o sentido por contexto. E, claro, não é muito difícil entender que "Boarisch" seja o equivalente a "Bayerisch". Porém, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Se me falarem em bávaro depressa e bem, de nada me servem conhecimentos linguísticos que não percebo nada. A diversidade linguística é um tesouro humano. Aqui na Baviera preservam-se bem estes tesouros da nacionalidade: a autonomia, a história, a língua. O que há de mal em ter orgulho no que é nacional? Apetece-me um autocolante que diga "Eu falo Português e tu?"

2 de julho de 2018

Fraueninsel: a ilha das mulheres

Aqui num lago em que há duas ilhas separadas por água e por género não deixa de ser curioso verificar o apartamento que culturalmente opõe feminino a masculino. Aqui, a ilha dos homens, Herrenchiemsee, conota-se com a pujança do poder e do domínio, o palácio megalómano de um rei excêntrico que viveu para impressionar. Do outro lado, a ilha das mulheres, Fraueninsel, uma ilha mais pequena, o próprio tamanho a evidenciar, metaforicamente, a pequenez devotada às mulheres. Fraueninsel é conhecida pelo seu mosteiro de freiras beneditinas, daí a ilha ser das mulheres. Respira-se paz e simplicidade, tão ao contrário da ilha vizinha.
Hoje estranho a enchente turística que se apropria da ilha. Há vinte e tal anos, quando aqui estive pela primeira vez, o dia estava acinzentado, muito diferente do dia resplandecente de azul que está enquanto vou calcorreando os poucos hectares desta ilha, e, tenho na memória, que não havia quase ninguém. Pude, à vontade, ver o que me apeteceu e tomar tempo para observar. Hoje vejo apenas. As hordas tiram-me o gosto e a vontade da observação. Decido mentalmente dar a volta à ilha no entrementes que dura a chegada do barco que nos traz e a partida do próximo que nos levará de regresso. Há, no entanto, algo que me é imprescindível. Procuro-O.
Nesse dia, há mais de duas décadas, fui detida por Ele. Acho que talvez tenha sido uma experiência mística por eu estar fragilizada com a notícia que a minha Mãe teria de caminhar um calvário e nós com ela. Sei que, nas minhas deambulações pela ilha a ver o mosteiro, me deparei com aquela estátua, um crucifixo em escala humana e real que me chamou e me fez voltar para trás ao Seu encontro. Obedeci ao chamamento e ali estava Ele, tão verídico, tão homem como nós. Lembro-me de pensar que Aquele poderia muito bem ser o Cristo real.
Talvez que, dado o pardacento do dia, a cor da pele lhe estava macilenta, acinzentada. Esvaído. Parecia ter morrido em paz e nessa paz estar vivo. Nada de semelhante aos crucificados horripilantes do Catolicismo meridional. Aquele era sereno. Fiquei ali a contemplá-Lo e a pedir-Lhe pela minha Mãe e por nós. Ainda não sabia, naquela altura, que o calvário nos ia durar seis anos e acabar num Gólgota sem ressurreições. Procuro-O neste dia cheio de gente e é tudo o que quero e tenho para fazer ali na ilha. Encontro-O.
Está, como me recordo, num canto semi-escondido, um pátio interior pouco percorrido pelas hordas visitadoras. Aproximo-me em busca da aura magnética que me cativou há tantos anos. Não a encontro. Não sei se é porque vivo na felicidade que não tinha há vinte anos, se é pelo sol alegre do dia, se é porque o meu marido está aqui ao meu lado e eu não estou na solidão que se presta à contemplação. Sei que este Cristo não me convoca como naquele outro dia. É como se tivesse cumprido a Sua missão e Se tenha recolhido ou, então, é porque Se dessacralizou no meio desta violação por gente e mais gente e já não esteja para Se dar ao trabalho porque nós deixámos de Lhe ligar. Vejo-O. Acho que Lhe falo o "obrigada" que Lhe devo e vou-me embora ligeiramente esquisita por não ter encontrado o que julgava vir encontrar. Circundo o resto da ilha em direcção ao cais e, mais do que olhar para o mosteiro alvo que tanto fascínio sobre mim exerceu no passado, viro os olhos para o azul do lago e para o horizonte de céu. O dia está lindo e é a memória do dia que vou levar daqui hoje.
Quando regressar a casa vou procurar a foto do Cristo de há vinte anos e compará-la com esta que agora levo. encontro-a na caixa das recordações passadas. Lá está Ele naquele dia cinzento e húmido. apaixonei-me por Ele mal o vi e agora, nesta comparação, percebo o que é o passado e o presente, como a vida muda, como mudam os estados de espírito, as paixões e as percepções. Louvado Sejas por me trazeres ao Aqui em que habito, por me ajudares a entender as mudanças e já não me agastar tanto com elas. Amén!