13 de julho de 2019

Acabou o nojo pós-divórcio

Então parece que a Lei acabou com a lei do período de nojo pós-divórcio. O que me espanta é como houve uma lei tão estúpida como essa. O que me mais do que espanta é como eu não só apanhei com essa lei como a cumpri por excesso porque depois de o meu divórcio ter sido decretado, ao fim de sete anos de bulha, eu desapareci do sistema de registos nacional e levaram que tempos a encontrar-me.
Enfim, haja esperança para quem quer a liberdade.

6 de julho de 2019

Floresta no Montejunto

Há coisas perto de casa que são tão misteriosas, desconhecidas ou tomadas por garantidas que mal delas nos damos conta. Venho às arribas do Montejunto num dia em que desponta a Primavera. A floresta despida a tomar-se de sol, enquanto inspira serenamente, para o verde que aí vem, tem contornos de paisagem boreal dos contos dos irmãos Grimm. Quase parece uma floresta encantada de onde se espera surjam cavaleiros ou onde se escondem bruxas e fadas. Um passeio aqui, tão perto e tão longe da grande cidade, é entrar em todo um mundo de maravilha.

3 de julho de 2019

Jerez de la Frontera

Nunca me tinha acontecido ir a uma cidade monumental de fama e glória e encontrar a catedral fechada, penso que por causa da hora da siesta. Parece-me, mesmo, inaudito mas é o que aconteceu. Chego eu, pronta para me embrenhar em Jerez, que se deve chamar "de la Frontera" por ter sido aqui em tempos antanhos uma fronteira com os territórios mouros do al-Andaluz, e a cidade está fechada. O comércio fechado, a catedral fechada, o Alcázar fechado. Há uma bodega típica que faz provas de xerez, como convém na pátria deste vinho, ao pé de onde estacionamos o carro. Espreitamos só pois, palpita-nos que haverá tantas que poderemos escolher a que mais nos agradar. Rumamos ao centro da cidade e deparamos com o panorama desolado. Aberto, apenas a adega do Tio Pepe, íman turístico que não apela pela quantidade de gente que, estando o resto da cidade fechada, aí encontra com que se entreter. Dispenso e refazemos os passos até à bodega simpática e castiça ao pé do carro aparcado. Má sorte, triste fortuna. No entrementes de termos ido dar de caras com a catedarl fechada, os monumentos fechados e as filas de turistas a querer experiências vínicas pré-fabricadas, a bodega fechou. O que trago de Jerez? Nem uma garrafinha de vinho para recordação. Fuga foi o sentimento que dali nos levou.

30 de junho de 2019

Gibraltar visto de Espanha

O dia em que estive em Gibraltar estava nublado, pardacento, melancólico, muito diferente do dia em que subo aos montes vizinhos e o observo ao fundo na sua solidão de rocha escarpada e velha. Só assim se tem a real percepção da sua diminuta dimensão no coração de Espanha. Do aglomerado urbano que circunda O Rochedo, apenas uma ínfima fracção é Gibraltar, tudo o resto é Espanha que faz questão de se encostar o máximo que pode à fronteira. Mal se dá por ela. Parece uma portagem em hora de ponta e nada mais, ou um porto onde atracam ferries e se assista ao movimento de gente e carros de um lado para o outro. Olhando para a vastidão espanhola, Gibraltar, e o Rochedo em particular, têm a minúscula e dolorosa dimensão de uma ponta de alfinete ali cravada. Majestoso, O Rochedo domina, na sua altivez, a paisagem envolvente. Não é o promontório mais alto daquelas cercanias mas é singular pelo seu obstinado destaque e o não querer ligar-se à cordilheira que o cerca por todos os lados menos do do mar. Fiquei-lhe com respeito... 

28 de junho de 2019

21

Às vezes penso quando é que vou deixar de vir aqui, de me lembrar deste dia, quando o vou esquecer ou fazer dele uma banalidade normal daquelas que nos passam despercebidas. Acho que não o faço por isso seria traír-te, menorizar-te no meu coração, quando menor é tudo o que não és nem nunca foste. O filho que eu teria tido, se fosse vida e não morte o que assinala esta data, seria um adulto na plenitude da maioridade, aquela a que se chegava antes de ela ter descido aos dezoito anos do fim adolescente. Quem seria e o que faria com os seus vinte e um anos. Que vida teria eu tido mãe dessa pessoa? Ao invés, tenho sido filha ferida pela saudade e pela amputação. Nunca o superei, como não o quero superar.
Não é masoquismo esta lembrança, é uma forma de me avivar de ti, Tu que andas sempre presente e te fazes notar a cada instante. A vida seguiu-nos, de uma maneira estranha, é certo, mas seguiu. Hoje temos o que temos, sendo o que somos, órfãos de ti mas gente viva que viveu o que soube e pôde depois daquilo. Vinte e um anos, Mãe. Vinte e um, tenho de repetir para me dar conta do lapso de tempo menos rico e feliz que passou entre aquele dia e hoje. Lembro-me de como pensava que cinco anos eram tantos, depois dez e mais e agora isto, este número com tendência a crescer, enquanto decresce a minha proximidade de ti.
No meio disto tudo sou feliz. Feliz porque te tenho e feliz da sorte que me fez ser-te o que sou. Não me fiz mãe de algum filho que agora fizesse vinte e um anos e estivesse prestes a seguir a sua vida longe de mim. Continuei filha e filha morrerei, como morreria se me tivesse feito mãe como a tua outra filha. É assim a vida, eu venho aqui, um dia estarei aí.
Não se dizer como te amo... Mãe.

26 de junho de 2019

Baía de Cádiz

Associo Cádiz às descobertas espanholas, aos tempos imperiais, a uma época de navegações e rivalidades com Portugal. A localização de Cádiz tem o privilégio e a sorte de lhe dar duas caras, uma virada para um porto abrigado, gigante e sereno, e outra que a projecta para o mar aberto. É uma língua de terra rodeada de água e esse geoestrategismo deu-lhe a história e a importância. Ir a Cádiz obriga a que lhe façamos a circunferência. entremos pelas ruas do casco histórico e apanhemos a marginal nas costas da catedral Sigamos pela marginal que contorna o mar ventoso, continuemos e entremos pela marginal que percorre a serenidade da vasta baía.
As praias ficaram algures na década de 1950, parece-me. Guardam uma nostalgia perdida que não as torna modernas mas sim reminiscentes de esplendores de outrora. Têm também qualquer coisa de magrebino, o edifício de banhos, agora albergue arqueológico meio abandonado, teria enquadramento pleno numa praia marroquina ou tunisina, aqui fica numa descontextualização paradoxal de uma Espanha que, afinal, foi árabe. É neste cadinho de confluências culturais e geográficas que se ergue Cádiz, cidade de amarelos e rosas pálidos em fundos azuis de céu, mar e baía. Esperava, confesso outra monumentalidade, algo imponente como Sevilha ou, mesmo, Salamanca (tão diferente do espírito andaluz) mas Cádiz não é isso. Tem uma catedral de colosso, como convém e como seria expectável, tem igrejas de tamanho tudo menos menor mas falta-lhe o esplendor palaciano. é terra de comércio, de mercadores e marinha e exércitos estacionados, não é um local de grandes portentos cortesãos. Talvez necessite um pouco mais de carinho nos edifícios devolutos ou semi mas, quiçá, talvez seja isso que lhe dá o charme negligenciado...

23 de junho de 2019

Macacos de Gibraltar

Fomos bem avisados que os macacos do Rochedo são atrevidos, impertinentes e totalmente donos do espaço. São conhecidos por "roubarem" os turistas e pela dentada ocasional em gente mais imprevidente. Logo à entrada do teleférico, fotos de dentes aguçados avisam para o perigo de mordeduras. Não vou sem falta de aviso.
São a única colónia de macacos em solo europeu. Macacos de Barbária. Vi os seus primos há muitos anos empoleirados nas coníferas do Atlas marroquino. São iguais, a mesma pelagem densa dourado-acastanhado e avivam-me memórias de uma série menos conhecida, mas minha preferida, do David Attenborough, "O Primeiro Éden: O Mundo Mediterrânico e o Homem". Ao evocar a fauna mediterrânea veio aqui filmar estes macacos isolados e é ao vivo, neste seu habitat, que os venho encontrar. Movem-se com incrível agilidade nos penhascos. Dá-me vertigens vê-los a correr nas escarpas. Não me aproximo muito embora eles se aproximem de mim. Penso que me vão agarrar a carteira e, por isso, não quero cá intimidades. Entram pela cafetaria adentro, remexem em lixos e pacotes. São tudo o que eu pensava que seriam. Deixam-se fotografar mas pedem coisas em troca. São negociantes e mercenários que olham para nós com o desprezo altaneiro que, justificadamente, lhes merecemos. Em suma, mandam em nós e deixam-nos pensar o contrário. tiro-lhes o chapéu!