31 de julho de 2018

Há um terreno...

Chama-me do fundo do tempo. É-me passado, um passado simultaneamente nostálgico e belo e violentamente doloroso. Chama-me e eu finjo que não escuto apesar de escutar. Não preciso de mais responsabilidades com terrenos. Não quero. E ele a chamar-me. Cortei com aquele passado pelo que me lembra e me faz sentir. Vivo com esse passado na memória e nos livros que escrevo como dona da Blonde. Não sei que faça. Não sei que queira...

28 de julho de 2018

Coincidências na Lua de Sangue

Dizem que os planetas estavam alinhados, que esta lua só de cem em cem anos nos agracia com esta vista. Dizem coisas que não acredito. Só sei, porém, que a minha vida pode ter mudado ontem, no dia da Lua de Sangue, com os planetas alinhados e todas as coincidências cósmicas em que não acredito mas que me deixam alerta e meio atónita.
A vida da minha irmã também mudou ontem. Será que há coincidências?

24 de julho de 2018

Em contagem decrescente

Todos os anos é a mesma coisa, o cansaço acumulado pesa cada vez mais e os dias arrastam-se sem brilho. Parece que a proximidade das férias é uma lonjura intransponível. E todos os anos a outra mesma coisa: cada vez parece haver mais trabalho, mais ralações, mais pontas soltas à medida que as férias se aproximam. Apetece-me gritar um Arghhhh!

18 de julho de 2018

Ir para os States na era Trump

Nunca me apeteceu menos ir para os States do que este ano. É muito deprimente a sensação de não sermos bem vindos ou desejados e, por outro lado, é sabermos que os Estados Unidos são mais do que esta presidência e o seu eleitorado minoritário. Quero ir e não quero...

16 de julho de 2018

Porque é que?

Quando estamos numa fila de trânsito a nossa faixa anda mais devagar que as outras? E porque é que quando as outras parecem andar mais depressa e nós mudamos ficam paradas pior do que onde estávamos?
Raiva!

14 de julho de 2018

No regresso

Pela evolução e pelas circunstâncias da vida que caminha e nos leva e traz a rotinas e a espaços novos, vai-se tornando hábito que, nos regressos, a estas costas atlânticas seja precisamente para o mar que eu me dirija. Aí espera-me o coração do lado de fora do corpo, aquilo que há meia dúzia de anos não existia e que eu não sonhava ser tão forte e tão especial. É para eles que regresso, deles que trago as saudades máximas. Estão aqui, à beira deste mar, em residência oficial de veraneio. Tornou-se rotina chegar de fora e vir aqui (re)confortar a alma no encontro.
Fui ao meu país de origem. Venho, para meu espanto, quase muda. Não consigo meter em palavras verbalizadas na oralidade o que me foi o reencontro com aquelas terras familiares e distantes, à vez conhecidas e o oposto. Levei o meu marido que era quem eu mais lá queria levar. Porém, levei-me a mim, o Eu que sou hoje, distante e familiar dess'outro que fui. Este meu Eu contemporâneo precisava do reencontro para se calibrar a balança nesta fase da vida. Perdi Rheydt. Acho mesmo que não regressarei onde nasci. Nada no sentimento me pede que regresse e tão pouco me entristece que não queira voltar. Bremen continua a ter no meu querer a pujança que sempre teve, agora mais porque aí criei memórias que posso partilhar com quem amo e quem eu quis me acompanhasse nesta viagem à Alemanha e nesta viagem de vida. Percebi também que não tenho de ter medo de me despedir da Tante Ruth porque ela vai estar sempre comigo e sempre será uma parte da minha viagem por esta dimensão e pelas outras.
Não mudei o que sinto por aquela terra e aquelas gentes. Não lhes pertenço, porém, claro que há um pouco de pertença. Sendo outsider, sou insider. Vivo um paradoxal paradigma de interioridade e exterioridade. Aceito que vivo num limbo pacificado e sinto-me a espécie de híbrido em que sempre vivi dentro da minha pele. Sei que é à beira deste Atlântico ventoso do Oeste que melhor me entendo como cidadã com pertença a um algures. Louvo em gratidão o pôr-do-sol que os meus olhos vêem quando chego vinda de longe, um pôr-do-sol como só existe nesta latitude e sobre estas ondas que reconheço pátrias. Que cena mágica e inesquecível. Que povo abençoado este que vive na banalidade de algo tão deslumbrante. Na Alemanha não há disto. Na Alemanha está o meu passado, aqui o meu presente. Não matarei o que em mim se aloja proveniente desse nascimento longínquo na geografia em que habito os meus dias.
Sou uma privilegiada. A hibridez é uma fortuna, não uma desvantagem. Venho de casa e regresso casa. Sim, sou uma privilegiada...

11 de julho de 2018

E, por fim, a comida

Nenhuma ode a um país, nenhum périplo relatado está completo sem uma alusão à gastronomia local, típica e única. Aqui na Baviera sejamos temerários e enveredemos por uma de experimentalismo. Se a língua é (como costuma ser por estas partes) um obstáculo, peguemos num menu e escolhamos o mais impronunciável que lá encontremos. Lembro-me de fazer isso quando para aqui vim estudar. Nem sempre me dei bem mas, pelo menos, aventurei-me e só isso é um triunfo da alma viajante. Lembro-me de ir um dia à cantina da faculdade e olhar embasbacada para a lista de pratos que havia para o almoço. Os meus colegas foram para as coisas identificáveis. Eu fui para o que me pareceu a coisa mais exótica: Pflaumenauflauf. Tirei pelo sentido que, como Pflaum significa ameixa, a coisa deveria ser algo como carne de porco com ameixa, já que ambos ligam bem, culinariamente falando. ainda perguntei à senhora que estava na linha a servir as refeições, o que é que era o prato em questão. Respondeu-me na algaraviada bávara incompreensível e eu encolhi os ombros e preparaei-me para o meu encontro com o dito cujo Pflaumenauflauf. Carne picada com doce de ameixa e uma generosa colherada de molho de chocolate por cima. Digamos que não foi a minha melhor experiência gastronómica. Foi, todavia, inesquecível.
Hoje, nem sei bem porquê, apetece-me sopa. Passo os olhos pelo que há e uso o método interpretativo do costume: traduzir por aproximação contextual. Brätstrudelsuppe, penso. Brät tanto pode ser qualquer coisa assada como algo salsichoso. Strudel é qualquer coisa enrolada, como no famoso Apfelstrudel, um enrolado de maçã. Suppe é sopa, como está bem de ver. Pois lá me vem uma sopa de panquecas enroladas com recheio de salsicha, fatiadas e servidas a flutuar num caldo de carne. Bem bom, digo só.
E depois que tal uma Milzwurst com salada de batata? Wurst é salsicha mas ele há milhentas variedades que uma pessoa mais vale pôr o coração ao alto e esperar para ver de que se trata esta espécie. É uma salsicha gigante cortada às rodelas e panada, à moda de um Schnitzel, que não é mais do que um panado e quem já comeu Wienerschnitzel saberá que não é mais do que um bife panado.
Há infinitas outras opções de manjares exóticos nesta Baviera de onde me despeço da Alemanha. Por exemplo, sopa de panquecas, Pfannkuchensuppe (sim, em Alemão aglutinam-se as palavras todas de uma única ideia e nascem vocábulos longos como comboios, mas, garanto, é tudo muito prático, linguisticamente falando). Para os menos afoitos, tudo o que diga Teller, que quer dizer, tão simplesmente "prato" há, e não só aqui mas por todo o país as deliciosas opções de Grillteller, que nós familiarmente chamamos "grelhada mista", Käseteller, pratos de queijo, uma das obras-primas da simplicidade e da delícia, ou os Schinkenteller, pratos de carnes frias variadas, outro hino à simplicidade deliciosa, todos devidamente acompanhados de saladas frescas e variadas e pão, o pão rústico pelo qual a Alemanha é tão conhecida e que em nada se fica atrás do bom pão caseiro português. Cresci a comer Käse e Schinkenteller e o hábito ficou-me, de tal forma que, em casa, faço umas variações luso-alemãs que me deixam no sétimo céu da multiculturalidade culinária.
E como a comida se acompanha por bebida e já sabemos que na Alemanha imperam a cerveja e o Riesling, que tal irmos numa de não-alcoólico e pedirmos o bom do sumo de maçã? Força! Contudo, aqui na Baviera, o singelo sumo de maçã é toda uma ciência. Não há cá sumo de maçã. Há, mas é uma coisa cultural. Aqui o sumo de maçã chama-se Apfelschorle. Ora Schorle é quando se corta uma bebida com outra. Bem sei que é criminoso mas os alemães cortam o vinho com água ou com gasosa e isso é um Schorle. O sumo de maçã serve-se como qualquer Schorle. até aqui já aprendemos. O passo seguinte é destrinçar os diferentes tipos de Schorle. Então, temos o Apfelschorle süss, que é a versão doce e o corte é feito com uma gasosa doce e há, também o Apfelschorle sauer, a versão "amarga" em que ao sumo de maçã se junta apenas água com gás. Equipados com este conhecimento dominaremos a arte desta bebida (que faz alguma confusão aos vizinhos austríacos, que a têm mas insistem em chamar "g'spritz"). E só para acabar de confundir, os próprios alemães não se entendem quanto ao género da palavra Schorle. Tendo três géneros, os habituais feminino e masculino, juntaram-lhe um neutro e, dependendo de onde estamos na Alemanha, Schorle tanto pode ser um, ou outro ou outro. Ou seja, não há hipótese de errar gramaticalmente, mas há toda a hipótese de desastre cultural. Boa sorte! E, já agora, aproveitem para descobrir as iguarias deste país que sabe, como nenhum, desmultiplicar a variação da salsicha e da salada de batata, Kartoffelsalat, para que conste.
Guten Appetit!