20 de outubro de 2018

Até a Gucci é política

Estou diante do Waldorf Astoria. Quinta Avenida no seu mais top que há. em frente uma torre com nome infeliz de presidente. Ao lado a Gucci. Observo curiosa a cena. À frente da dita cuja torre, magotes de turistas curiosos, uns por admiração, outros por protesto e querem ir ver ao perto, outros porque o voyeurismo é um comportamento puramente humano, outros porque as selfies ficam bem ali naquele locus e outros, como eu, calharam de passar por ali e observam. Reparo que a Gucci tem um cartaz a imitar grafitti onde se lê em francês, não inglês, repare-se, "Liberté, Égalité, Sexualité".
Cada um que tire as suas conclusões...

17 de outubro de 2018

Amor à bandeira

Uma coisa que sinceramente admiro nos americanos é o amor orgulhoso e férreo que têm à bandeira. É-lhes súmula da identidade e usam-na até como decoração ostentada com garbo. têm a bandeira hasteada à porta de casa, no quintal, usam-na em t-shirts, almofadas, toalhas, loiça e tudo e tudo e tudo. Aqui, os patrícios mais entusiastas lá colocam a nossa bandeira à vista quando a selecção nacional ganha um jogo e vendê-mo-la em bugigangas chinesas aos turistas.
O amor à pátria é uma cosia admirável.

13 de outubro de 2018

Central Park

Se não fosse a poluição e o trânsito absolutamente insano, eu não me importava de morar em Nova Iorque. E onde é que eu gostaria de morar? Numa das avenidas viradas para Central Park. Algures ao pé do Guggenheim, ou do prédio onde morou a Jackie O., ou do museu de arte alemã e austríaca. No Dakota Building não gostaria muito por estar associado ao Lennon e ao seu assassinato mas dessem-me um TQualquer Coisa de frente para Central Park e eu de bom grado lá moraria. Mas só no Verão porque eu não gosto de neve e frio e, inclemência por inclemência, prefiro a humidade quente e pegajosa de Nova Iorque no Verão aos nevões do Inverno.
Central Park, esse pulmão mítico de Nova Iorque, era um antro nos anos 80 do século passado. Hobos, junkies, essas denominações para os desalojados e os viciados, faziam do parque o seu "terroir" e era ver este pedaço de verde como o local do crime de todas as "Baladas de Hill Street" e de todos os policiais de Hollywood, mesmo que Hollywood seja a um continente de distância. Depois veio o Mayor Giuliani, numa outra encarnação, e limpou o parque. Restituído à cidade, aos seus habitantes e aos turistas, Central Park é um pedaço de descanso numa cidade frenética. Ali, esquecemo-nos de onde estamos.

10 de outubro de 2018

O Flatiron Building

Nova Iorque é os seus edifícios, entidades providas de nome, identidade, individualidade. O Flatiron Building, literalmente, o ferro de engomar, é um deles. O aspecto triangular dá-lhe a imagem distintiva que o associa ao electrodoméstico comezinho e quotidiano. No entanto, nem há maior antítese. O Flatiron não tem nada de comezinho.
Localizado numa área de "prime real estate", onde o metro quadrado atinge somas exorbitantes demais para o entendimento da nossa comum mortalidade, o Flatiron está na charneira entre a opulência da Quinta Avenida e a boémia Broadway. Evocativo dos primórdios confiantes do século XX, foi acabado de construir em 1902, é uma ode ao poder do aço e do betão com aspirações ao belo e não meramente ao funcional. Tem o seu quê de simpático à vista e de menos arrogante no seu gigantismo face a outros vizinhos. Lá dentro aloja um dos maiores portentos editoriais do mundo, a Macmillan, curiosamente em mãos de um grupo alemão. Livros, aço, betão, a Quinta Avenida e Manhattan em dia de sol, o pensamento dessa comunhão não deixa de ser alegre.

6 de outubro de 2018

Empire State

Quem vem a Nova Iorque pela primeira vez, palpita-me, sucumbe à tentação de subir ao topo do Empire State Building, o arranha-céus icónico com o mesmo nome do estado em que se localiza a cidade. O estado de Nova Iorque é o estado do império, sem que ninguém saiba o porquê da denominação. Já fui turista com essa tentação da subida. Sofredora de vertigens como sou, agarrei o medo e lá me aventurei rumo à altura. Naquele tempo, havia as vistas para as Twin Towers e tudo se menorizava no contraste com aquela verticalidade a pique. Havia vento, muito vento, e o vento puxa à vertigem. Vi o azul do rio e uma minúscula, se bem que continuamente imponente, Estátua da Liberdade. Desci, contente por vencer pavores que, para mim, nada têm de irracional, e feliz por ter feito um visto numa quadrícula de coisas imprescindíveis em Nova Iorque.
Os anos passaram. Nada me chama a empreender a subida em elevadores ultra-rápidos com a promessa da vista fascinante sobre a cidade que nunca dorme, que tudo pode e onde tudo se pode. Vejo o colosso agarrada ao solo, à distância ou a espreitar entre o emaranhado de prédios. Lembra-me sempre a época antitética em que foi construído, um tempo de recessão e, apesar de tudo, optimismo. O crash bolsista de 1929 aconteceu no ano antes do início da sua construção em Março de 1930. Treze meses depois era inaugurado. Posso não subir ao alto do Empire State mas, para mim, ele é a corporização do espírito americano...

3 de outubro de 2018

As Twin Towers já lá não estão

A vida tem coincidências estranhas. Por uma dessas coincidências fui das últimas pessoas a ver as Torres Gémeas de pé. Estávamos em 2001, George W. Bush era presidente dos EUA e eu andava por Nova Iorque nesse Verão quente como o são todos os Verões nova-iorquinos. A notícia era incrível, no sentido de não poder ser credível. Vi um avião embater numa das Torres e pensei que se tratasse de uma coisa qualquer para um filme-catástrofe de Hollywood. Depois, num segundo pensamento, veio-me à mente que aquilo poderia ter sido um dos milhentos helicópteros privados que sobrevoam a cidade a cada instante. Teria sido um acidente qualquer com uma avioneta particular, qualquer coisa assim. Porém, a realidade transcendia qualquer proeza hollywoodesca. Foi dos dias mais terríveis de que tenho memória tirando as memórias tenebrosas que me ligam ao desaparecimento da minha Mãe.
No dia seguinte às Torres caírem, todo o meu corpo doía, amassado que estava pela incredulidade daquelas horas de horror.
Todos estes anos depois, o Ground Zero já não é uma ferida no skyline desta cidade. Não consigo lá ir. Vejo à distância o que se reconstruiu, o que se reergueu mas não consigo ir pisar aquele chão. Há dias que nunca nos sairão da memória...

29 de setembro de 2018

Estátua da Liberdade

Nunca pus os pés em Liberty Island. Há sempre qualquer coisa que me impede de descer do barco e ir colocar-me aos pés da Estátua da Liberdade. Aquilo é algo tão icónico que é como se a estátua fosse uma deusa viva e eu queira, por isso, manter a distância não lhe violando o espaço olímpico onde reside. Prefiro vê-la ao longe e abrangê-la na sua magnífica plenitude. É como se juntar-me às horas turistas que a vão ver ao perto fosse uma dessacralização, uma heresia. Assim sendo, contento-me, feliz, por vê-la nesta distância solene e respeitosa.