Morreu-me quem tão bom me foi. Salvou-me e levarei essa gratidão quando, por minha vez, morrer.
Tinha 78 anos quando decidiu patrocinar o meu inclemente divórcio. Durante quatro anos instruiu dois processos, deu-me a voz que a justiça me amordaçava, representou-me, nunca me deixou só e, sobretudo, nunca cedeu e nunca teve medo. Chorei muitas vezes ao pé dele, apunhalada que estava pela justiça, refém que estava de gente má. Dava-me coragem e dele aprendi que uma coisa é a Justiça, outra o Direito e que uma e outro nem sempre se encontram porque uma e outra são coisas diferentes.
Era agreste, temível e temido. Não era o tipo de homem que gera simpatias e amizades fáceis. Ouvi dizer dele que era espinhoso e impossível. Acredito. Mas para mim era mel. Vinha trazer-me carradas de lenha a casa com medo que eu passasse frio. Trazia-me queijo e cerejas e pão da sua quinta nortenha com medo que eu passasse fome. Dizia para me distrair que era muito nova. Queria-me acompanhada porque lhe doía que estivesse só. Dava-me o interior do passeio como um cavalheiro. Mesmo que eu o convidasse era ele que pagava porque jamais admitira que uma senhora pagasse fosse o que fosse ao pé dele e eu não seria excepção por muito nova e moderna que fosse. Falava o Português antigo que eu sempre ouvi da minha Mãe e que não ouvi muito tempo porque dela não foram longos os anos. Era meu amigo.
Quando fez 82 disse-lhe que não podia mais pedir-lhe o esforço de me patrocinar, que não era justo, que eu não lhe podia fazer aquilo e fazê-lo continuar a passar por aquilo. Recusou. Ajoelhei-me à frente dele no gabinete e implorei que me me deixasse libertá-lo daquele fardo. Recusou mas aceitou só para não me ver implorar. A contra-gosto assinou os papéis que me faziam transitar de advogado e disse que estaria ali a zelar por mim e pelos meus interesses. Pedi-lhe a conta dos honorários e recusou, que não saberia o que me levar e que não havia conta nenhuma a ajustar.
Três anos depois, o meu infame divórcio concretizou-se, a meu favor como ele vaticinara e como ele preparara. Devo-lhe a liberdade. A felicidade em que hoje vivo devo-lha.
Era e foi e será sempre no meu coração meu amigo. Meu bom e querido amigo...
Descanse em paz, Dr. Eduardo. Descanse em paz.
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27 de janeiro de 2016
21 de outubro de 2015
Epílogo de um Divórcio: agora é que se lembraram!
Sete anos! Andei sete anos na justiça a tentar desfazer um casamento, no qual o grande, insuperável obstáculo era de ordem meramente material. Sete anos a desfazer um casamento nessa infame comunhão de adquiridos que, sei, agora, é o maior disparate que acomete às pessoas inteligentes que vão para o dito a pensar o melhor das outras pessoas e vem agora o Magno, Justo e Atempado Supremo Tribunal de Justiça dizer que sim, senhora, nem todos os bens do casal são bens comuns, nem podem ser bens comuns. Sete anos andei a pregar aos peixes! Sete anos de exibição e produção de prova. Anexos sem fim, documentos sem fim (tudo e só da minha parte, entenda-se, porque a outra só pedia) e agora é tudo pois sim, claro, nem tudo é comum.
Bem sei que a jurisprudência agora fixada pelo Magno, Justo e Atempado Supremo Tribunal de Justiça não ia desfazer muito mais depressa o meu infame divórcio que, descansa agora numa secretária algures no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem porque, no meu caso a coisa era mais flagrante por se tratar de heranças minhas por morte de quem mais amei na vida, heranças ousadamente disputadas por quem me recuso pronunciar, mas sempre me ia dar mais algum sustentáculo de razão na peleja que esta decisão tivesse vindo mais cedo.
Enfim, chega tarde a decisão, acórdão, jurisprudência ou a nomenclatura que lhe valha e tenho é de fazer uma vénia grata em nome dos outros, dos desgraçados que deste facto vão beneficiar. Talvez que a pena seja menor para muitas pessoas que ora disputam a vida nas barras dos tribunais e que não o podem fazer com os alicerces sobre os quais erigi a minha defesa e a minha vida. Mas chega, e isso já me deixa feliz e um pouco de nada mais descansada pela justiça (triste) deste país.
Só não consigo entender, por muito que me expliquem, como é que, em 35 juízes, 6 votam vencidos. Talvez seja por não saberem o que é levarem com o peso inclemente e incomensurável da injustiça em cima. Tivessem um futuro ex-cônjuge a pedir-lhes 100.000 euros de compensação por património próprio a ver se não votavam a favor! Digo eu que, apesar de sete anos, continuo tão ignorante da justiça como sempre.
Bem sei que a jurisprudência agora fixada pelo Magno, Justo e Atempado Supremo Tribunal de Justiça não ia desfazer muito mais depressa o meu infame divórcio que, descansa agora numa secretária algures no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem porque, no meu caso a coisa era mais flagrante por se tratar de heranças minhas por morte de quem mais amei na vida, heranças ousadamente disputadas por quem me recuso pronunciar, mas sempre me ia dar mais algum sustentáculo de razão na peleja que esta decisão tivesse vindo mais cedo.
Enfim, chega tarde a decisão, acórdão, jurisprudência ou a nomenclatura que lhe valha e tenho é de fazer uma vénia grata em nome dos outros, dos desgraçados que deste facto vão beneficiar. Talvez que a pena seja menor para muitas pessoas que ora disputam a vida nas barras dos tribunais e que não o podem fazer com os alicerces sobre os quais erigi a minha defesa e a minha vida. Mas chega, e isso já me deixa feliz e um pouco de nada mais descansada pela justiça (triste) deste país.
Só não consigo entender, por muito que me expliquem, como é que, em 35 juízes, 6 votam vencidos. Talvez seja por não saberem o que é levarem com o peso inclemente e incomensurável da injustiça em cima. Tivessem um futuro ex-cônjuge a pedir-lhes 100.000 euros de compensação por património próprio a ver se não votavam a favor! Digo eu que, apesar de sete anos, continuo tão ignorante da justiça como sempre.
21 de agosto de 2015
Epílogo de um Divórcio: Chegaram as custas
Ainda tem dias que penso em raiva "Mas quando é que isto vai acabar?". E quanto mais vejo a meta do fim, mais ela se afasta tal horizonte sempre inalcansável e distante.
Recebo carta do tribunal emitida a 14 de Agosto (data a reter) dando-me dez dias mais cinco de dilação para pagar custas de um dos processos relativos ao meu infernal divórcio, cronologicamente o segundo dos processos. Umas belas centenas de euros a serem pagos já. A carta, porém, não indica o método de pagamento, sendo, apenas uma cópia de uma guia que, em versão mais completa, seguiu para os meus advogados.
É Agosto. Não quero incomodar as férias dos advogados. Telefono para o tribunal a saber como posso pagar as custas. Diálogo transcrito para memória futura:
- A Senhora, se leu bem a carta até ao fim, vê que a carta foi para os seus advogados - informa, em condescendência debitada de alto, a funcionária que me atende o telefonema.
- Certo, bem sei. Mas estamos em Agosto e não os quero incomodar - respondo, engolindo o furacão que sempre desponta em mim quando me tratam como uma molécula acerebral.
- Ó minha Senhora, eles depois entram em contacto consigo.
- Só que quando eles chegarem já passou o prazo. Se bem li, e parece-me que li, tenho dez dias mais cinco a contar da data da recepção da carta.
- Ah, não é assim. Tem até 15 de Setembro.
- Perdão? Isso não está na carta porque eu ainda sei ler - continuo, a voz inalterada pelo grilhão que lhe ponho e as oitavas que lhe desço.
- É que estamos em férias judiciais e todos os prazos estão suspensos.
- Ah, e eu tenho de adivinhar que uma carta elaborada a 14 de Agosto para um acto administrativo que me dá prazos também se enquadra nas férias, ou isso estava escrito e eu é que não li? - a pergunta colocada no mais seráfico que a voz me proporciona.
- Silêncio.
Desligo devidamente informada. E ainda me faltam as custas do segundo processo, o primeiro da cronologia.
Mas quando é que isto vai acabar?
Recebo carta do tribunal emitida a 14 de Agosto (data a reter) dando-me dez dias mais cinco de dilação para pagar custas de um dos processos relativos ao meu infernal divórcio, cronologicamente o segundo dos processos. Umas belas centenas de euros a serem pagos já. A carta, porém, não indica o método de pagamento, sendo, apenas uma cópia de uma guia que, em versão mais completa, seguiu para os meus advogados.
É Agosto. Não quero incomodar as férias dos advogados. Telefono para o tribunal a saber como posso pagar as custas. Diálogo transcrito para memória futura:
- A Senhora, se leu bem a carta até ao fim, vê que a carta foi para os seus advogados - informa, em condescendência debitada de alto, a funcionária que me atende o telefonema.
- Certo, bem sei. Mas estamos em Agosto e não os quero incomodar - respondo, engolindo o furacão que sempre desponta em mim quando me tratam como uma molécula acerebral.
- Ó minha Senhora, eles depois entram em contacto consigo.
- Só que quando eles chegarem já passou o prazo. Se bem li, e parece-me que li, tenho dez dias mais cinco a contar da data da recepção da carta.
- Ah, não é assim. Tem até 15 de Setembro.
- Perdão? Isso não está na carta porque eu ainda sei ler - continuo, a voz inalterada pelo grilhão que lhe ponho e as oitavas que lhe desço.
- É que estamos em férias judiciais e todos os prazos estão suspensos.
- Ah, e eu tenho de adivinhar que uma carta elaborada a 14 de Agosto para um acto administrativo que me dá prazos também se enquadra nas férias, ou isso estava escrito e eu é que não li? - a pergunta colocada no mais seráfico que a voz me proporciona.
- Silêncio.
Desligo devidamente informada. E ainda me faltam as custas do segundo processo, o primeiro da cronologia.
Mas quando é que isto vai acabar?
9 de agosto de 2015
Dia 8: Alexandria (Louisiana) e o meu ex-não-casamento
Há esta série:
Sou fã. Passa no Canal História e é sobre a família DeRamus e a sua loja de penhores em Alexandria, no coração do Louisiana a trezentos e muitos quilómetros a noroeste de Nova Orleans. Mas já lá vamos.
O que uma road trip tem de excitante é nunca se saber como será o dia que amanhece. Tem sido assim. Vir sem hotéis marcados dá uma liberdade imensa para se fazer o que se quer e ir onde apetece. Porém, não vou dizer que não queria ir a Alexandria e que não trazia um propósito escondido para esta viagem. Trazia. E trazia-o na bagagem, bem almofadadinho para não se partir, já que ia conhecer o seu destino nesta terra e bem longe da minha vida comum. Ei-lo:
O topo do meu bolo de não-casamento e pior divórcio. Trouxe-o comigo desde Portugal para lhe dar um tremendo destino de ironia e distância. Levei-o à casa de penhores dos DeRamus em Alexandria, Louisiana, a casa com o General Lee dos Dukes of Hazard à porta. Estava lá, o General Lee, e estavam lá os DeRamus: pai, filha e irmão do pai, a trindade. Não sabia se estariam lá. E se estivessem e não fossem simpáticos como na série? Puro engano.
- Please tell me I'm the first Portuguese to walk in through the door?
-You're the first Portuguese to walk in through the door. Yes, M'am!
Trataram-me como royalty. Contaram-me a ascendência e as histórias da vida como se eu fosse próxima da vida deles.
Disse-lhes que trazia uma coisa, just for the fun of it.
- Hmm... the top of your wedding cake.
- My first and ex-wedding cake - corrijo entre os risos que a situação provoca.
- So that's how bad you want to get rid of it, hum?
Entra na personagem e logo me faz viver a cena típica dos episódios.
- And do you want to pawn it or sell it?
- Sell it!
E quanto quer pelo objecto?
- Five cents.
Chama a filha para avaliar o objecto e brincamos à série por uns instantes de maravilha regada a riso.
No final... e ao contrário da série, em que nunca dá o que lhe pedem pelos objectos, faz-me uma oferta de dez dólares.
Fico meia aparvalhada porque eu sairia da loja feliz deixando lá o mono desgraçado por um cêntimo, ou por nada, o mono é que eu não traria de volta. Jamais. Antes atirá-lo ao Mississippi.
- I take it! - Exclamo na perplexidade, enquanto a verbalização do pensamento veloz assume forma oral:
- My marriage was worth ten bucks.
E é isso, o meu casamento valeu dez dólares numa loja de penhores no fim do mundo num dia de 39º à sombra.
Para os anais da história, as provas do crime:
Sou fã. Passa no Canal História e é sobre a família DeRamus e a sua loja de penhores em Alexandria, no coração do Louisiana a trezentos e muitos quilómetros a noroeste de Nova Orleans. Mas já lá vamos.
O que uma road trip tem de excitante é nunca se saber como será o dia que amanhece. Tem sido assim. Vir sem hotéis marcados dá uma liberdade imensa para se fazer o que se quer e ir onde apetece. Porém, não vou dizer que não queria ir a Alexandria e que não trazia um propósito escondido para esta viagem. Trazia. E trazia-o na bagagem, bem almofadadinho para não se partir, já que ia conhecer o seu destino nesta terra e bem longe da minha vida comum. Ei-lo:
O topo do meu bolo de não-casamento e pior divórcio. Trouxe-o comigo desde Portugal para lhe dar um tremendo destino de ironia e distância. Levei-o à casa de penhores dos DeRamus em Alexandria, Louisiana, a casa com o General Lee dos Dukes of Hazard à porta. Estava lá, o General Lee, e estavam lá os DeRamus: pai, filha e irmão do pai, a trindade. Não sabia se estariam lá. E se estivessem e não fossem simpáticos como na série? Puro engano.
- Please tell me I'm the first Portuguese to walk in through the door?
-You're the first Portuguese to walk in through the door. Yes, M'am!
Trataram-me como royalty. Contaram-me a ascendência e as histórias da vida como se eu fosse próxima da vida deles.
Disse-lhes que trazia uma coisa, just for the fun of it.
- Hmm... the top of your wedding cake.
- My first and ex-wedding cake - corrijo entre os risos que a situação provoca.
- So that's how bad you want to get rid of it, hum?
Entra na personagem e logo me faz viver a cena típica dos episódios.
- And do you want to pawn it or sell it?
- Sell it!
E quanto quer pelo objecto?
- Five cents.
Chama a filha para avaliar o objecto e brincamos à série por uns instantes de maravilha regada a riso.
No final... e ao contrário da série, em que nunca dá o que lhe pedem pelos objectos, faz-me uma oferta de dez dólares.
Fico meia aparvalhada porque eu sairia da loja feliz deixando lá o mono desgraçado por um cêntimo, ou por nada, o mono é que eu não traria de volta. Jamais. Antes atirá-lo ao Mississippi.
- I take it! - Exclamo na perplexidade, enquanto a verbalização do pensamento veloz assume forma oral:
- My marriage was worth ten bucks.
E é isso, o meu casamento valeu dez dólares numa loja de penhores no fim do mundo num dia de 39º à sombra.
Para os anais da história, as provas do crime:
E é assim que o mono que encimou o bolo do meu mui infeliz não-casamento conheceu o seu destino longe de mim. Os DeRamus dizem que não vão vendê-lo e que o vão juntar à sua exposição de coisas não vendáveis na sua loja: a Silver Dollar na Lee Street em Alexandria. Da próxima vez que lá passarem, o mono de noivos parvos e ridiculamente felizes veio de Portugal, não viveu feliz para sempre e a noiva ganhou juízo e chama-se Blonde. Deu um chuto ao noivo e vendeu o mono por duas notas de cinco. Goodbye and good riddance!
To the DeRamus family, my heartfelt gratitude for an afternoon well-spent; the definite highlight of the day. You're the gem of Louisiana. God bless!
(PS - Naturalmente, este post só podia ter duas tags: Diários de Viagem e Diários de um Divórcio.)
13 de julho de 2015
Epílogo de um Divórcio: Eu c. Portugal
É oficial: o meu processo deu entrada no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. Chegou bem. Já tem um número atribuído e um nome:
Eu c. Portugal
O meu nome recuperado, os meus sobrenomes de baptismo e de mim, um c com um ponto a querer dizer contra, e este país, o meu país que me foi tão duro quando dele precisei.
Eu c. Portugal
Uma vergonha que eu não quis e, agora, uma necessidade que eu quero. Hei-de vencer por mim e por todos, que como eu e que, ao contrário de mim, ainda têm menos voz, nos vemos com as vidas suspensas em limbos que vão dar a parte nenhuma por causa da justiça que queremos e não temos.
Hei-de vencer.
Amén!
Eu c. Portugal
O meu nome recuperado, os meus sobrenomes de baptismo e de mim, um c com um ponto a querer dizer contra, e este país, o meu país que me foi tão duro quando dele precisei.
Eu c. Portugal
Uma vergonha que eu não quis e, agora, uma necessidade que eu quero. Hei-de vencer por mim e por todos, que como eu e que, ao contrário de mim, ainda têm menos voz, nos vemos com as vidas suspensas em limbos que vão dar a parte nenhuma por causa da justiça que queremos e não temos.
Hei-de vencer.
Amén!
12 de junho de 2015
Epílogo de um Divórcio: Seguiu!
Chego do estrangeiro. O Estado Português é condenado em mais um caso de demora na justiça. A minha queixa para o Tribunal europeu dos Direitos do Homem seguiu para o seu destino. Observo a coincidência.
Agora aguardo pela notificação, as senhas com os códigos de barras do processo. Aguardo os próximos capítulos, ciente de que há uma cruz numa opção de escolha que diz o meu nome contra o Estado Português, a sigla PRT à frente da qual a cruz faz fé da minha vontade, da minha injustiça e da justiça em que insisto há sete longos e duros anos.
Siga. Amén!
Agora aguardo pela notificação, as senhas com os códigos de barras do processo. Aguardo os próximos capítulos, ciente de que há uma cruz numa opção de escolha que diz o meu nome contra o Estado Português, a sigla PRT à frente da qual a cruz faz fé da minha vontade, da minha injustiça e da justiça em que insisto há sete longos e duros anos.
Siga. Amén!
27 de maio de 2015
Epílogo de um divórcio: Desabei
Têm sido meses a trabalhar com os meus advogados na elaboração do processo para o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem que, entretanto, aprendi a chamar familiarmente TEDH ou, ECHR, no jargão inglês. Estudei os processos que lá dão entrada como se estivesse novamente a fazer pesquisa para o doutoramento que já fiz, abordei-o como cientista, expurguei-me de mim para dissecar as leis internacionais e a agora minha tão bem conhecida Convenção Europeia dos Direitos do Homem e todos os seus Protocolos.
Tenho presente as taxas de aceitação dos processos. Tudo tem de ser sólido, comprovado, manifestamente degradante da condição humana, claramente violador da integridade do Homem ao nível da sua pessoa moral e física e das suas possessões materiais. Analisei os processos contra o Estado Português face a outros Estados. Verifiquei que o que mais se invoca para acusar este nosso Estado pelos atropelos ao pleno direito ao bem-estar dos cidadão é o artigo 6, ponto 1: a demora na justiça, o direito à resolução de um problema perante a justiça em tempo "razoável". Invoco esse artigo, claro. Mas invoco outros.
Aproximar-me do meu caso com a distância do investigador tornou-me forte e fechou-me o coração ao que senti e ao que vivi nos últimos bastantes anos. Só assim eu poderia falar a quem me representa legalmente, só assim eu poderia ter a capacidade da lucidez de que necessitava para levar isto por diante. Por isso, o ontem não era algo que eu previsse. O sofrimento dos anos perdidos e angustiados estava no passado e eu, nessa germanidade que me ficou da educação que pouco percebe de apegos revivalistas e saudosistas, fecha-se a cada dia porque eu olho, e tenho de olhar, para a frente.
Vieram os documentos da petição para eu analisar, agora que estavam fixados em letras e palavras no papel. Li a minha vida na legalidade das palavras. E li aquilo como se estivesse a ler de alguém profundamente martirizado por abusos de inoperância e liberdade toldada. Palavras como "privação", "abuso", "impedimento", palavras de contextualidades negativas estavam a ser empregues em relação àquele ser humano que eu lia como alguém outro até me bater na consciência que eu estava a ler de mim e que o ser humano era eu.
Desabei.
Senti as pedras da fortaleza rolarem em desmoronamento. Senti raiva e pena e tudo o que se empapa em lágrimas enroladas em gritos asfixiados. Eu era aquele alguém e eu sou esse alguém.
Está quase pronto o processo, uma coisa de complexidades e formatações legalistas em espécie de labirinto. Exposições de factos para um lado, exposição de violações para outro, alíneas disto e daquilo para outro ainda e listas documentais da prova factual. Sei que quando o enviarmos seremos sujeitos a um primeiro escrutínio que pode nem sequer considerar a nossa admissibilidade. Terei tentado mas acredito que passaremos através desse portal e que haverá justa causa nesta demanda.
Sinto tangivelmente os meus privilégios: os que me permitiram aguentar um divórcio de sete anos na justiça, sete anos, os que me permitiram ganhar cada vírgula da minha verdade, os que me permitem ir medir forças com o Estado que me quis prostrar e que tantas e tantas mulheres e homens na minha situação não conseguem por falta de literacia, falta financeira, falta do aconchego familiar e amigo, falta desta coisa que hoje ouvi dizer que eu tenho e que me surpreende a cada vez, empowerment.
Hei-de conseguir. E o ser humano que ali vai descrito há-de falar perante as instâncias do mundo. Amén!
Tenho presente as taxas de aceitação dos processos. Tudo tem de ser sólido, comprovado, manifestamente degradante da condição humana, claramente violador da integridade do Homem ao nível da sua pessoa moral e física e das suas possessões materiais. Analisei os processos contra o Estado Português face a outros Estados. Verifiquei que o que mais se invoca para acusar este nosso Estado pelos atropelos ao pleno direito ao bem-estar dos cidadão é o artigo 6, ponto 1: a demora na justiça, o direito à resolução de um problema perante a justiça em tempo "razoável". Invoco esse artigo, claro. Mas invoco outros.
Aproximar-me do meu caso com a distância do investigador tornou-me forte e fechou-me o coração ao que senti e ao que vivi nos últimos bastantes anos. Só assim eu poderia falar a quem me representa legalmente, só assim eu poderia ter a capacidade da lucidez de que necessitava para levar isto por diante. Por isso, o ontem não era algo que eu previsse. O sofrimento dos anos perdidos e angustiados estava no passado e eu, nessa germanidade que me ficou da educação que pouco percebe de apegos revivalistas e saudosistas, fecha-se a cada dia porque eu olho, e tenho de olhar, para a frente.
Vieram os documentos da petição para eu analisar, agora que estavam fixados em letras e palavras no papel. Li a minha vida na legalidade das palavras. E li aquilo como se estivesse a ler de alguém profundamente martirizado por abusos de inoperância e liberdade toldada. Palavras como "privação", "abuso", "impedimento", palavras de contextualidades negativas estavam a ser empregues em relação àquele ser humano que eu lia como alguém outro até me bater na consciência que eu estava a ler de mim e que o ser humano era eu.
Desabei.
Senti as pedras da fortaleza rolarem em desmoronamento. Senti raiva e pena e tudo o que se empapa em lágrimas enroladas em gritos asfixiados. Eu era aquele alguém e eu sou esse alguém.
Está quase pronto o processo, uma coisa de complexidades e formatações legalistas em espécie de labirinto. Exposições de factos para um lado, exposição de violações para outro, alíneas disto e daquilo para outro ainda e listas documentais da prova factual. Sei que quando o enviarmos seremos sujeitos a um primeiro escrutínio que pode nem sequer considerar a nossa admissibilidade. Terei tentado mas acredito que passaremos através desse portal e que haverá justa causa nesta demanda.
Sinto tangivelmente os meus privilégios: os que me permitiram aguentar um divórcio de sete anos na justiça, sete anos, os que me permitiram ganhar cada vírgula da minha verdade, os que me permitem ir medir forças com o Estado que me quis prostrar e que tantas e tantas mulheres e homens na minha situação não conseguem por falta de literacia, falta financeira, falta do aconchego familiar e amigo, falta desta coisa que hoje ouvi dizer que eu tenho e que me surpreende a cada vez, empowerment.
Hei-de conseguir. E o ser humano que ali vai descrito há-de falar perante as instâncias do mundo. Amén!
8 de maio de 2015
Epílogo: Já tenho passaporte
E agora o mundo é a minha ostra. O nome fresco do nome de sempre sem apêndices de má memória e pior fortuna. As viagens que me esperam, e a super-viagem das viagens que ainda vou fazer este ano já com o meu nome de Eu. Até vou já pedir o waiver de entrada nos Estados Unidos que ainda não tinha pedido só por estar à espera deste momento.
É bom pensar e sonhar que vou ser eu Eu que vou às Galápagos, eu Eu que vou à Ilha de Páscoa, eu Eu a cruzar céus e o espaço e nunca mais aquele eu que me Eu não era. Vou ser tão feliz...
É bom pensar e sonhar que vou ser eu Eu que vou às Galápagos, eu Eu que vou à Ilha de Páscoa, eu Eu a cruzar céus e o espaço e nunca mais aquele eu que me Eu não era. Vou ser tão feliz...
25 de abril de 2015
Da felicidade do epílogo num dia bom
Gosto sempre deste reencontro. Digamos que é um daqueles momentos altos no ano, um momento estabelecido em tradição, um ritual que marca ciclos e a circularidade da vida.
Este ano tivémos de adiar: a vida, claro, e o meter-se no meio de planos só para nos confundir. Foi Natal em fins de Abril com águas miúdas mil a borrifar o encontro, quiçá se a lembrar os nossos habituais Dezembros.
Cheguei já ela me esperava, ainda que eu não estivesse atrasada. Costuma ser assim. A primeira coisa que os olhos queriam era ver se ela estava igual a sempre ou se havia mudança pelo tempo e circunstâncias que nos adiaram o encontro. Descansei. O mesmo que os olhos viram naquele instante ainda antes de lhe dizer olá e de dar o abraço adiado sossegou o coração no descanso confortável que diz "está tudo bem".
Novidades a jorro, a conversa que flui com muito para dizer e o meu pensamento, neste dia em particular, a lembrar-me que ela vem comigo desde um passado feliz. Conheceu-me quando eu tinha o meu nome verdadeiro, a minha família intacta, a vida que me despontava, a juventude em aberto. Foi-me importante e foi ficando e eu com ela. Depois veio a Morte, seguida do meu casamento desastrado e do meu pior calvário para o divórcio. E ela sempre a continuar em presença e os nossos lanches e almoços e conversas condensadas no muito que temos sempre para dizer.
- Ao recomeço. - Diz ela, dando-me mensagens de amor de um Portugal tradicional e antigo e inocente. E ela nem sonha que hoje, neste dia em particular, o recomeço tem um significado tão exaltado.
Faz hoje, exactamente hoje, anos que casei desastradamente. Convidei-a mas ela não veio. Hoje agradeço a não sei que estrela da Providência que a Mãe estivesse morta e que ela não tivesse vindo. Nem uma nem outra assistiram fisicamente ao holocausto que simbolicamente vejo ter sido o dia do meu casamento condenado. Mas ela hoje está comigo e está comigo justo no dia em que vou buscar o meu novo cartão de cidadão, onde voltei a ter o meu nome verdadeiro e a sentir-me Eu. Sim, vou buscá-lo assim que a deixar. Acho que me despeço numa pressa pouco habitual. Não sei se ela repara ou não. Mas sei que me vai perdoar: tenho uma pressa visceral em ir buscar o meu cartão novo com a minha identidade que conheceu um tão nefasto interregno. Podia ir buscá-lo na segunda-feira, mas não conseguirei segurar a ansiedade de me ter de volta por mais dois dias.
Minha querida Ältere Leute,
No dia 24 de Abril de há muitos anos não esteve comigo, mas esteve hoje, neste mesmo dia, no dia em que volto a ser eu oficialmente. Não imagina o que isso tem de significado para mim. Não lho consegui dizer presencialmente porque não queria fantasmas de memórias a ensombrar as poucas horas que estávamos juntas e porque, às vezes, as coisas realmente profundas encontram melhores palavras e mais fáceis verbalizações na escrita. Ontem foi um aniversário mas foi também um dia zero de muitos dias que virão.
Fui muito feliz nesta coincidência e mais gostei de estar consigo neste dia. O meu passado bom materializado presente.
Na foto que aqui deixo, há uma palavra que fotografei de propósito, "feliz", porque é feliz que estou, porque é feliz que esta amizade me faz. Fico à espera do nosso próximo encontro. Até lá, obrigada por ser quem é: gosto muito de si hoje e sempre.
Um beijinho,
Blonde
Este ano tivémos de adiar: a vida, claro, e o meter-se no meio de planos só para nos confundir. Foi Natal em fins de Abril com águas miúdas mil a borrifar o encontro, quiçá se a lembrar os nossos habituais Dezembros.
Cheguei já ela me esperava, ainda que eu não estivesse atrasada. Costuma ser assim. A primeira coisa que os olhos queriam era ver se ela estava igual a sempre ou se havia mudança pelo tempo e circunstâncias que nos adiaram o encontro. Descansei. O mesmo que os olhos viram naquele instante ainda antes de lhe dizer olá e de dar o abraço adiado sossegou o coração no descanso confortável que diz "está tudo bem".
Novidades a jorro, a conversa que flui com muito para dizer e o meu pensamento, neste dia em particular, a lembrar-me que ela vem comigo desde um passado feliz. Conheceu-me quando eu tinha o meu nome verdadeiro, a minha família intacta, a vida que me despontava, a juventude em aberto. Foi-me importante e foi ficando e eu com ela. Depois veio a Morte, seguida do meu casamento desastrado e do meu pior calvário para o divórcio. E ela sempre a continuar em presença e os nossos lanches e almoços e conversas condensadas no muito que temos sempre para dizer.
- Ao recomeço. - Diz ela, dando-me mensagens de amor de um Portugal tradicional e antigo e inocente. E ela nem sonha que hoje, neste dia em particular, o recomeço tem um significado tão exaltado.
Faz hoje, exactamente hoje, anos que casei desastradamente. Convidei-a mas ela não veio. Hoje agradeço a não sei que estrela da Providência que a Mãe estivesse morta e que ela não tivesse vindo. Nem uma nem outra assistiram fisicamente ao holocausto que simbolicamente vejo ter sido o dia do meu casamento condenado. Mas ela hoje está comigo e está comigo justo no dia em que vou buscar o meu novo cartão de cidadão, onde voltei a ter o meu nome verdadeiro e a sentir-me Eu. Sim, vou buscá-lo assim que a deixar. Acho que me despeço numa pressa pouco habitual. Não sei se ela repara ou não. Mas sei que me vai perdoar: tenho uma pressa visceral em ir buscar o meu cartão novo com a minha identidade que conheceu um tão nefasto interregno. Podia ir buscá-lo na segunda-feira, mas não conseguirei segurar a ansiedade de me ter de volta por mais dois dias.
Minha querida Ältere Leute,
No dia 24 de Abril de há muitos anos não esteve comigo, mas esteve hoje, neste mesmo dia, no dia em que volto a ser eu oficialmente. Não imagina o que isso tem de significado para mim. Não lho consegui dizer presencialmente porque não queria fantasmas de memórias a ensombrar as poucas horas que estávamos juntas e porque, às vezes, as coisas realmente profundas encontram melhores palavras e mais fáceis verbalizações na escrita. Ontem foi um aniversário mas foi também um dia zero de muitos dias que virão.
Fui muito feliz nesta coincidência e mais gostei de estar consigo neste dia. O meu passado bom materializado presente.
Na foto que aqui deixo, há uma palavra que fotografei de propósito, "feliz", porque é feliz que estou, porque é feliz que esta amizade me faz. Fico à espera do nosso próximo encontro. Até lá, obrigada por ser quem é: gosto muito de si hoje e sempre.
Um beijinho,
Blonde
17 de abril de 2015
Já tenho nome!!!!!!!!!!!
Isto de escrever o epílogo do meu fenomenalmente longo, absurdamente patético divórcio tem sido tão estapafúrdio e longo como escrever o processo do divórcio em si.
A semana passada fui renovar o meu cartão de cidadão porque está a caducar e eu vou ter várias viagens no horizonte próximo e preciso do cartão de cidadão para também renovar o passaporte. Apesar de divorciada em Janeiro, ainda tive de renovar o cartão como casada e com o nome de casada. Mais papéis para os advogados, mais coisas a juntar ao processo que vai para o Tribunal dos Direitos do Homem, mais diligências para o tribunal e para os registos, a continuação da trapalhada.
Bom, hoje fui levantar o cartão. Na Conservatória já não me podem ver de tantas vezes que lá tenho ido nos últimos tempos a pedir cópias do meu assento de nascimento a confirmar o não averbamento do divórcio. Eu farta. As senhoras da Conservatória fartas. E eu danada por ter um cartão de cidadão novo com a vida do antigamente, o nome do antigamente, o estado civil do antigamente. Tudo coisas que me deixam particularmente feliz.
Não sei que circunstância cósmica ali se deu, mas uma das senhoras da Conservatória teve a ideia de ali mesmo, e à revelia dos omnipotentes Registos Centrais, fazer à unha uma mudança no meu assento de nascimento que não passasse pelos nefandos ditos cujos (não esqueçamos que eu tenho naturalidade alemã, o que ajuda sempre a qualquer interacção minha com a sacrossanta burocracia).
Em menos de cinco minutos fiquei "divorciada" e sem o apêndice doloroso do nome da minha anterior vida. Passei logo para a máquina dos retratos e a tirar novas impressões digitais para o meu novo cartão de cidadão perante a estupefacção do povo presente e minha também: afinal não é todos os dias que uma pessoa renova o cartão de cidadão no dia em que recebe o novo.
Ele há coisas que nem vale a pena tentar perceber...
Mas uma coisa é certa: hoje há champanhe cá em casa e o ponto final do epílogo está cada vez mais próximo. Estou feliz...
A semana passada fui renovar o meu cartão de cidadão porque está a caducar e eu vou ter várias viagens no horizonte próximo e preciso do cartão de cidadão para também renovar o passaporte. Apesar de divorciada em Janeiro, ainda tive de renovar o cartão como casada e com o nome de casada. Mais papéis para os advogados, mais coisas a juntar ao processo que vai para o Tribunal dos Direitos do Homem, mais diligências para o tribunal e para os registos, a continuação da trapalhada.
Bom, hoje fui levantar o cartão. Na Conservatória já não me podem ver de tantas vezes que lá tenho ido nos últimos tempos a pedir cópias do meu assento de nascimento a confirmar o não averbamento do divórcio. Eu farta. As senhoras da Conservatória fartas. E eu danada por ter um cartão de cidadão novo com a vida do antigamente, o nome do antigamente, o estado civil do antigamente. Tudo coisas que me deixam particularmente feliz.
Não sei que circunstância cósmica ali se deu, mas uma das senhoras da Conservatória teve a ideia de ali mesmo, e à revelia dos omnipotentes Registos Centrais, fazer à unha uma mudança no meu assento de nascimento que não passasse pelos nefandos ditos cujos (não esqueçamos que eu tenho naturalidade alemã, o que ajuda sempre a qualquer interacção minha com a sacrossanta burocracia).
Em menos de cinco minutos fiquei "divorciada" e sem o apêndice doloroso do nome da minha anterior vida. Passei logo para a máquina dos retratos e a tirar novas impressões digitais para o meu novo cartão de cidadão perante a estupefacção do povo presente e minha também: afinal não é todos os dias que uma pessoa renova o cartão de cidadão no dia em que recebe o novo.
Ele há coisas que nem vale a pena tentar perceber...
Mas uma coisa é certa: hoje há champanhe cá em casa e o ponto final do epílogo está cada vez mais próximo. Estou feliz...
16 de março de 2015
Às labaredas!
Seis anos e vários meses depois é-me possível esta catarse. Nunca pensei que demorasse tanto. Nunca pensei que aqui chegasse. Alfa e ómega. Eu.
Papéis que vão esboroar, chamas e cinzas, o tudo que restará da infelicidade de tudo. Fénix de mim.
Papéis que vão esboroar, chamas e cinzas, o tudo que restará da infelicidade de tudo. Fénix de mim.
20 de janeiro de 2015
Diários de um Divórcio: 20 de Janeiro de 2015, libertação
20 de Janeiro de 2015, hoje, faço anos, como sempre neste dia.
12.00 - já quase todos se despacharam a dar-me os parabéns quando cai um mail. Vem da sociedade de advogados que me representa no meu divórcio. Abro o mail: uma sentença, a sentença.
É decretada a dissolução do meu casamento e o consequente divórcio.
Estou livre ao cabo de seis anos, dois meses e vinte e um dias de peleja na justiça.
Recebi o melhor presente de aniversário de sempre: a liberdade.
Estrasburgo: agora serei eu contra o Estado Português, que, nos últimos dias, me intimou a juntar a regulamentação do poder paternal para o decreto de divórcio de um casamento sem filhos. Foi até à última a cena lamentável da justiça em Portugal.
Liberdade!
Freedom!
Liberté!
Freiheit!
12.00 - já quase todos se despacharam a dar-me os parabéns quando cai um mail. Vem da sociedade de advogados que me representa no meu divórcio. Abro o mail: uma sentença, a sentença.
É decretada a dissolução do meu casamento e o consequente divórcio.
Estou livre ao cabo de seis anos, dois meses e vinte e um dias de peleja na justiça.
Recebi o melhor presente de aniversário de sempre: a liberdade.
Estrasburgo: agora serei eu contra o Estado Português, que, nos últimos dias, me intimou a juntar a regulamentação do poder paternal para o decreto de divórcio de um casamento sem filhos. Foi até à última a cena lamentável da justiça em Portugal.
Liberdade!
Freedom!
Liberté!
Freiheit!
29 de outubro de 2014
Lembravam-se
Oito e meia da noite. Escuro e eu à pressa enfiada numa loja a escolher um presente de última hora para o Senhor Pai. Sem tempo nem paciência ao fim de um dia longo de horas e trabalho.
- Blonde...
Oiço a voz. Vejo um casal que me saíra da vida quando me separei. Nunca mais pensei neles. Tinham vindo com o marido. Tinham saído com o ex-marido e achei normal.
Afinal, lembravam-se do meu nome (eu que me esqueci do deles e ainda não me consigo lembrar), queriam saber de mim. Sorriam. Sorriam muito. Não me perguntaram por episódios passados. Foram carinhosos.
Em suma, fiquei parva porque não saíram. Ficaram numa coxia qualquer e não tomaram nem partidos nem trincheiras. Gostei. Iluminei-me. Só não me consigo lembrar dos nomes...
Obrigada!
- Blonde...
Oiço a voz. Vejo um casal que me saíra da vida quando me separei. Nunca mais pensei neles. Tinham vindo com o marido. Tinham saído com o ex-marido e achei normal.
Afinal, lembravam-se do meu nome (eu que me esqueci do deles e ainda não me consigo lembrar), queriam saber de mim. Sorriam. Sorriam muito. Não me perguntaram por episódios passados. Foram carinhosos.
Em suma, fiquei parva porque não saíram. Ficaram numa coxia qualquer e não tomaram nem partidos nem trincheiras. Gostei. Iluminei-me. Só não me consigo lembrar dos nomes...
Obrigada!
3 de outubro de 2014
Sente-se livre?
A Fundação Francisco Manuel dos Santos está a promover o seu 3º encontro de Reflexão, cujo tema é Em Busca da Liberdade. A pergunta feita é: "Sente-se Livre?"
Se mo perguntarem só posso dizer: "Claro que não!"
Com um divórcio a correr há SEIS anos que foi agora sanado mas que, à conta do crash do Citius, continua sem ser homologado eis porque não posso dizer que sou livre:
- Não tenho direito ao nome;
- Não posso voltar casar (se isso quisesse);
- Não posso adoptar (a lei é muito clara podem adoptar pessoas solteiras ou casadas e eu nem sou uma coisa nem outra);
- Não posso dispor da herança dos meus pais apesar de me ter casado apenas em comunhão de adquiridos porque o meu ainda-marido teria de dar consentimento;
- Não posso anular contas bancárias (mesmo que o BES caia) porque preciso da assinatura do dito cujo ainda-marido (que não vejo fisicamente há SEIS anos);
- Não posso dar entrada com o processo no Tribunal Internacional dos Direitos Humanos em Estrasburgo porque, legalmente, o processo em Portugal ainda não está concluído;
- Se eu morrer agora, o meu testamento não consegue deserdar o meu ainda-marido na totalidade, e eu tenho um testamento feito para estas eventualidades mortais que não se pode sobrepor à lei.
Sente-se livre?: "Livre?! O que é isso?"
Se mo perguntarem só posso dizer: "Claro que não!"
Com um divórcio a correr há SEIS anos que foi agora sanado mas que, à conta do crash do Citius, continua sem ser homologado eis porque não posso dizer que sou livre:
- Não tenho direito ao nome;
- Não posso voltar casar (se isso quisesse);
- Não posso adoptar (a lei é muito clara podem adoptar pessoas solteiras ou casadas e eu nem sou uma coisa nem outra);
- Não posso dispor da herança dos meus pais apesar de me ter casado apenas em comunhão de adquiridos porque o meu ainda-marido teria de dar consentimento;
- Não posso anular contas bancárias (mesmo que o BES caia) porque preciso da assinatura do dito cujo ainda-marido (que não vejo fisicamente há SEIS anos);
- Não posso dar entrada com o processo no Tribunal Internacional dos Direitos Humanos em Estrasburgo porque, legalmente, o processo em Portugal ainda não está concluído;
- Se eu morrer agora, o meu testamento não consegue deserdar o meu ainda-marido na totalidade, e eu tenho um testamento feito para estas eventualidades mortais que não se pode sobrepor à lei.
Sente-se livre?: "Livre?! O que é isso?"
17 de setembro de 2014
Agora é o Citius: Desfecho de um Divórcio, Parte X
O meu infame processo de divórcio, começado há seis anos e repartido em dois processos em varas diferentes, está em fase final desde dia 2 de Junho, pendente apenas do despacho de homologação de um dos juízes. Ou seja, no aberrante de tudo, continuo tão casada legalmente como em 2008, ano do começo do calvário.
No entrementes, meteram-se as férias judiciais (como se a justiça pudesse tirar férias) e agora mete-se o crash do Citius para que o "estado de sítio" seja completo. Estou com pressa de iniciar o processo contra o Estado Português em Estrasburgo mas o alinhamento astral da justiça neste país é um novelo de tais dimensões que, neste momento, passada a fúria espumosa da raiva, só me dá para rir. É que quanto mais tempo este processo se mantiver, mais lenha eu terei para a pira fúnebre em que vou deitar o tal dito Estado...
No entrementes, meteram-se as férias judiciais (como se a justiça pudesse tirar férias) e agora mete-se o crash do Citius para que o "estado de sítio" seja completo. Estou com pressa de iniciar o processo contra o Estado Português em Estrasburgo mas o alinhamento astral da justiça neste país é um novelo de tais dimensões que, neste momento, passada a fúria espumosa da raiva, só me dá para rir. É que quanto mais tempo este processo se mantiver, mais lenha eu terei para a pira fúnebre em que vou deitar o tal dito Estado...
9 de setembro de 2014
Sei que nunca mais lhe ligarei: um tributo
Apaguei hoje da lista do telemóvel o número dele. Não há hipótese de lhe voltar a ligar. Esse capítulo fechou-se. Foi meu advogado durante os primeiro quatro anos do meu infame processo de divórcio. Foi ele que elaborou as peças processuais que me permitiriam chegar aqui com os resultados a que cheguei. Foi ele que me aturou no mau e no pior que mau que atravessei e atravessámos.
Era duro. Não atraía simpatias mas simpatizámos um com o outro e ele apiedou-se de mim na dificuldade que era o meu divórcio em toda a sua megalómana insanidade.
- Tenha ânimo, Doutora - dizia-me. - Ainda é muito jovem. Tenha ânimo!
E eu desabava muitas vezes, incapaz de crer na justiça e na justeza dos homens. Só o meu processo o impedia de se retirar das lides. Aguentava-me e aguentava-se por mim. Era um Senhor. Daqueles de cêpa rija e antiga. Passava cá por casa e dava-me pão e cerejas e enchia-me a garagem de lenha para o Inverno. Não me cobrou um tostão de honorários.
Quando chegou aos 82 e o meu divórcio a continuar parado, a minha consciência berrou-me forte que eu não lhe podia continuar a fazer aquilo. Ele não achava assim. Foi o cabo dos trabalhos convencê-lo de que era altura de outros aguentarem tribunais e processos, juízes e advogados rivais. Ajoelhei-me aos pés dele para que se deixasse de bravuras, que era tempo de ele descansar e que eu não aguentava mais saber que ele passava por aquela violência aos 82 por minha causa.
Hoje sei que não mais lhe ligarei. O número foi apagado mas se eu cheguei aqui, da maneira que cheguei, devo-o a ele.
Meu querido Dr. Eduardo, um número apagado não é o fim da memória. Obrigada por tudo: hoje, sempre.
Era duro. Não atraía simpatias mas simpatizámos um com o outro e ele apiedou-se de mim na dificuldade que era o meu divórcio em toda a sua megalómana insanidade.
- Tenha ânimo, Doutora - dizia-me. - Ainda é muito jovem. Tenha ânimo!
E eu desabava muitas vezes, incapaz de crer na justiça e na justeza dos homens. Só o meu processo o impedia de se retirar das lides. Aguentava-me e aguentava-se por mim. Era um Senhor. Daqueles de cêpa rija e antiga. Passava cá por casa e dava-me pão e cerejas e enchia-me a garagem de lenha para o Inverno. Não me cobrou um tostão de honorários.
Quando chegou aos 82 e o meu divórcio a continuar parado, a minha consciência berrou-me forte que eu não lhe podia continuar a fazer aquilo. Ele não achava assim. Foi o cabo dos trabalhos convencê-lo de que era altura de outros aguentarem tribunais e processos, juízes e advogados rivais. Ajoelhei-me aos pés dele para que se deixasse de bravuras, que era tempo de ele descansar e que eu não aguentava mais saber que ele passava por aquela violência aos 82 por minha causa.
Hoje sei que não mais lhe ligarei. O número foi apagado mas se eu cheguei aqui, da maneira que cheguei, devo-o a ele.
Meu querido Dr. Eduardo, um número apagado não é o fim da memória. Obrigada por tudo: hoje, sempre.
31 de julho de 2014
O anel de não-casamento
Em princípios de Maio lembrei-me da minha aliança. O divórcio arrastava-se há quase seis anos sem fim à vista. Gosto de jóias e não me desfaço delas mesmo que me sejam desagradáveis na memória como era o caso desta aliança que, em tempos, mandei fazer, como mando fazer grande parte das jóias que não me chegaram por herança ou presente.
Ouro amarelo com embutidos de esmalte azul foi a aliança da noiva que fui num passado distante. Em princípios de Maio decidi dar-lhe nova vida. Mandei parti-la, como partido estava o que ela significava, e, na junção, mandei pôr uma pedra de lápis-lazuli para dar com o esmalte. Mandei também apagar a inscrição que a ligava ao passado.
Dei a encomenda a fazer e parti para Paris. Quando regresso, o ourives encontra-me casualmente na rua e diz que já cortou a aliança e que só lhe falta escolher a pedra. Por coincidência, assim que chego a casa tenho um mail do tribunal, o mail que poria fim a seis anos de peleja na justiça e que me libertaria. Penso na coincidência da aliança partida e da resolução do divórcio. Não acredito neste tipo de coincidência cósmica mas que aconteceu, aconteceu e não deixo de imaginar o eterno "e se...": e se eu tivesse mandado partir a aliança logo em 2008? Não vale a pensa pensar.
Fui buscá-la hoje e baptizei-a de imediato "Unwedding Ring". Vou usá-la orgulhosa como símbolo de libertação e de resiliência. A aliança que se transformou em jóia, em anel único e vivido. Deixei de ter uma aliança, passei a ter mais um anel na colecção. Estou feliz. E aliviada.
Ouro amarelo com embutidos de esmalte azul foi a aliança da noiva que fui num passado distante. Em princípios de Maio decidi dar-lhe nova vida. Mandei parti-la, como partido estava o que ela significava, e, na junção, mandei pôr uma pedra de lápis-lazuli para dar com o esmalte. Mandei também apagar a inscrição que a ligava ao passado.
Dei a encomenda a fazer e parti para Paris. Quando regresso, o ourives encontra-me casualmente na rua e diz que já cortou a aliança e que só lhe falta escolher a pedra. Por coincidência, assim que chego a casa tenho um mail do tribunal, o mail que poria fim a seis anos de peleja na justiça e que me libertaria. Penso na coincidência da aliança partida e da resolução do divórcio. Não acredito neste tipo de coincidência cósmica mas que aconteceu, aconteceu e não deixo de imaginar o eterno "e se...": e se eu tivesse mandado partir a aliança logo em 2008? Não vale a pensa pensar.
Fui buscá-la hoje e baptizei-a de imediato "Unwedding Ring". Vou usá-la orgulhosa como símbolo de libertação e de resiliência. A aliança que se transformou em jóia, em anel único e vivido. Deixei de ter uma aliança, passei a ter mais um anel na colecção. Estou feliz. E aliviada.
2 de julho de 2014
1 mês: Desfecho de um divórcio, parte IX
Tirando o que se vai passar em Estrasburgo, não me apetece voltar a escrever sobre as infâmias do meu absurdamente longo processo de divórcio. Há, porém, uma necessidade de fechar capítulos e hoje cumpre-se precisamente um mês sobre o acordo extra-judicial que definiu a minha liberdade (homologação ainda pendente na justiça e mais os seus invariáveis atrasos crónicos).
Quase seis anos de litígio e o acordo tem apenas meia página:
. o Réu reconhece que a Autora é a única proprietária de xpto;
. o Réu e a Autora reconhecem que não existem bens comuns do casal.
Assim. Nada mais de especial e eu estive cativa da Maldade, da tal banalidade do mal de que fala a Hannah Arendt, com pleno acordo da justiça portuguesa durante quase seis anos, mais o tempo que se irá passar até os dois juízes homologarem o divórcio. Por mais que eu queira racionalizar ou perceber não consigo. Apenas me consolo num: "Acabou!" O litígio acabou, a justiça ainda não...
Quase seis anos de litígio e o acordo tem apenas meia página:
. o Réu reconhece que a Autora é a única proprietária de xpto;
. o Réu e a Autora reconhecem que não existem bens comuns do casal.
Assim. Nada mais de especial e eu estive cativa da Maldade, da tal banalidade do mal de que fala a Hannah Arendt, com pleno acordo da justiça portuguesa durante quase seis anos, mais o tempo que se irá passar até os dois juízes homologarem o divórcio. Por mais que eu queira racionalizar ou perceber não consigo. Apenas me consolo num: "Acabou!" O litígio acabou, a justiça ainda não...
26 de junho de 2014
Desfecho de um divórcio: parte VIII
7 de Junho de 2014:
É Sábado à noite. A vila está em festa e há um toiro à solta no largo do chafariz. Gente na rua e eu sinto-me livre. Há anos que eu não me sentia assim e não sei se alguma vez me senti assim verdadeiramente. Acho que não. Forma duas décadas de penas e grilhões. Primeiro aquela tragédia toda que nos entrou porta adentro e nos mutilou no que de mais eterno tínhamos. Depois fugi para a frente num casamento desconexo e oco que me fez estranhar-me e desligar-me de mim para não me confrontar no erro. E, por fim, estes quase seis anos de batalhas numa justiça que teimou em não me divorciar. Sim, não me lembro do que é liberdade e, nestes últimos dias, dou comigo a pensar no que vou fazer com ela e como a poderei aproveitar. De súbito tenho este dom tão imenso e sinto-me diminuir ante a sua envergadura.
Vou sair com quem tanto me fortaleceu e acompanhou neste calvário. Falamos deste novo capítulo e do que agora se encerra. Quero finais, encerramentos e sei que fechar capítulos presume rituais. Este é um deles. Sair para jantar com quem me aturou tristezas e me vinha esperar a casa com o jantar que sabia eu não comeria se estivesse só. Falamos de um pretérito recente para não precisarmos voltar a falar dele. Ando pelas ruas animadas desta vila de campo e vejo tudo como pela primeira vez. Estou livre e, por muito que o verbalize, ainda não acredito.
É Sábado à noite. A vila está em festa e há um toiro à solta no largo do chafariz. Gente na rua e eu sinto-me livre. Há anos que eu não me sentia assim e não sei se alguma vez me senti assim verdadeiramente. Acho que não. Forma duas décadas de penas e grilhões. Primeiro aquela tragédia toda que nos entrou porta adentro e nos mutilou no que de mais eterno tínhamos. Depois fugi para a frente num casamento desconexo e oco que me fez estranhar-me e desligar-me de mim para não me confrontar no erro. E, por fim, estes quase seis anos de batalhas numa justiça que teimou em não me divorciar. Sim, não me lembro do que é liberdade e, nestes últimos dias, dou comigo a pensar no que vou fazer com ela e como a poderei aproveitar. De súbito tenho este dom tão imenso e sinto-me diminuir ante a sua envergadura.
Vou sair com quem tanto me fortaleceu e acompanhou neste calvário. Falamos deste novo capítulo e do que agora se encerra. Quero finais, encerramentos e sei que fechar capítulos presume rituais. Este é um deles. Sair para jantar com quem me aturou tristezas e me vinha esperar a casa com o jantar que sabia eu não comeria se estivesse só. Falamos de um pretérito recente para não precisarmos voltar a falar dele. Ando pelas ruas animadas desta vila de campo e vejo tudo como pela primeira vez. Estou livre e, por muito que o verbalize, ainda não acredito.
24 de junho de 2014
Desfecho de um divórcio: Parte VII
3 de Junho de 2014:
Acordo para o dia seguinte. Sempre gostei da expressão francesa le jour d'après, transmite melhor o significado do dia posterior ao dia de um grande acontecimento. O meu jour d'après é hoje porque ontem foi o dia do grande acontecimento.
Acordo atordoada. Não estou nem feliz, nem aliviada. Contudo, não estou nem stressada, nem angustiada. Estou dormente. Lembro-me de acordar assim no dia depois de a Mãe ter morrido. Como é possível eu comparar acordar hoje com acordar para a morte da Mãe? Eu hoje acordo para a vida, naquele dia acordei para o luto e para a irremediabilidade da perda. Mais tarde, a minha irmã explicar-me-á que estou a viver um período de stress pós-traumático natural e expectável. A Ciência explica que a minha amígdala cerebral viveu quase seis anos em modo de sobrevivência, como se eu estivesse numa selva primitiva e me tivesse de defender contra predadores e, por isso, a chegada à segurança não se faz instantaneamente. O meu cérebro, que se habituou ao martírio, vai ter de se habituar à nova circunstância. A explicação faz-me sentido e acho-a surpreendente. Ao fim e ao cabo sou uma sobrevivente. Vivi em situação de guerra, psicológica é certo, mas guerra apesar de tudo e dias houve em que contemplei a morte de perto quando tudo me desabava e eu pensava que não teria forças para mais. Comparo-me a um veterano de guerra que sobreviveu. É uma pretensão arrogante comparar-me com quem sobreviveu a balas e morte iminente, mas é assim que me sinto.
Sempre pensei que no dia em que o meu divórcio tivesse um fim eu irradiaria felicidade e júbilo. Porém, seis anos e martírio longo operam em nós transformações profundas. Não tenho capacidade para exprimir felicidade. É como se estivesse seca por dentro. Como se tudo me tivesse sido sugado.
Passo o dia na faculdade a trabalhar e, de vez em quando, tenho um flash de consciência que me diz: Estás livre! Deixo o flash passar porque não o consigo sentir. Ainda não consigo sentir que estou livre. Os grilhões foram tão pesados e apertados que ainda me marcam e ainda lhes sinto o peso arrastado.
Saio da faculdade às 16.30. Tenho uma urgência enorme de ir tratar do meu Eu espiritual. Preciso começar a fechar este capítulo para poder sentir a paz e a liberdade que alcancei. Pego na carrinha e rumo a uma igreja que me foi bordão nestes seis anos e que descobri apenas porque vivi este divórcio. É uma igreja ao pé de um largo empedrado na parte velha de uma vila, hoje cidade. Fica entre dois edifícios que alojam os dois tribunais onde, durante quase seis anos, mantive uma pendência, em dois processos distintos, que me levasse ao divórcio. Tantas e tantas vezes que entrei naquela igreja depois das agruras do tribunal. Tantas vezes ali me refugiei pedindo auxílio regado a lágrimas que não tive vergonha de chorar em público. Ali eu era apenas filha de Deus. Uma filha em sofrimento pedindo perdão por ter casado. Uma filha pedindo força para suportar a cruz; pedindo luz e sentido para o que lhe estava a acontecer.
Dou conta de entrar na igreja como filha que não vem pedir. Entro nesta igreja e, pela primeira vez, apercebo-me de que venho em liberdade. Meu Deus, chego em liberdade. Desaprisiono as lágrimas que me correm grossas e quentes e não me importo que haja uma senhora ali também e que mas possa ver. Meu Deus, estou em liberdade!
Agradeço.
Olho para o Cristo a carregar a cruz. Agradeço que me tenha ajudado a carregar a minha. Estive no Gólgota durante o fim-de-semana. O calvário foram os quase seis anos de percurso martirizado. O Gólgota, o clímax de agonia do fim-de-semana. Sim, morri numa cruz de stress e ansiedade no fim-de-semana e hoje sinto que estou dorida e lassa do suplício. Sinto que me descem da cruz e descanso porque sei que unguentos vão sarar este corpo. Descanso o espírito nesse pensamento. Ainda estou ferida mas vou sarar. E agradeço ter quem me ame. Agradeço ter podido chegar aqui. Agradeço que a minha verdade tenha sido a Verdade.
E peço.
Não peço por mim. Peço pelas vítimas, pelos mártires, pelos injustiçados e pelos presos sem culpa. Peço pelas mulheres que vivem situações como a minha ou piores, porque há bem pior do que o que eu passei. Decido acender velas, eu, cuja religiosidade não é de velas. Quando as acendo não é em mim que penso. Ofereço as velas como luz para todos os mártires.
Saio da igreja em paz. Vou comprar flores porque há mais uma paragem obrigatória no meu percurso rumo à vida nova.
Páro no cemitério porque tenho de dar estas notícias à Mãe sem ser só em pensamento. Minha querida Mãe, que feliz sou que não tenhas vivido nesta Terra durante a infelicidade do meu casamento e a tragédia do meu divórcio.
Mutti, estou livre e sei que estás feliz. Adoro-te, Mãe!
Acordo para o dia seguinte. Sempre gostei da expressão francesa le jour d'après, transmite melhor o significado do dia posterior ao dia de um grande acontecimento. O meu jour d'après é hoje porque ontem foi o dia do grande acontecimento.
Acordo atordoada. Não estou nem feliz, nem aliviada. Contudo, não estou nem stressada, nem angustiada. Estou dormente. Lembro-me de acordar assim no dia depois de a Mãe ter morrido. Como é possível eu comparar acordar hoje com acordar para a morte da Mãe? Eu hoje acordo para a vida, naquele dia acordei para o luto e para a irremediabilidade da perda. Mais tarde, a minha irmã explicar-me-á que estou a viver um período de stress pós-traumático natural e expectável. A Ciência explica que a minha amígdala cerebral viveu quase seis anos em modo de sobrevivência, como se eu estivesse numa selva primitiva e me tivesse de defender contra predadores e, por isso, a chegada à segurança não se faz instantaneamente. O meu cérebro, que se habituou ao martírio, vai ter de se habituar à nova circunstância. A explicação faz-me sentido e acho-a surpreendente. Ao fim e ao cabo sou uma sobrevivente. Vivi em situação de guerra, psicológica é certo, mas guerra apesar de tudo e dias houve em que contemplei a morte de perto quando tudo me desabava e eu pensava que não teria forças para mais. Comparo-me a um veterano de guerra que sobreviveu. É uma pretensão arrogante comparar-me com quem sobreviveu a balas e morte iminente, mas é assim que me sinto.
Sempre pensei que no dia em que o meu divórcio tivesse um fim eu irradiaria felicidade e júbilo. Porém, seis anos e martírio longo operam em nós transformações profundas. Não tenho capacidade para exprimir felicidade. É como se estivesse seca por dentro. Como se tudo me tivesse sido sugado.
Passo o dia na faculdade a trabalhar e, de vez em quando, tenho um flash de consciência que me diz: Estás livre! Deixo o flash passar porque não o consigo sentir. Ainda não consigo sentir que estou livre. Os grilhões foram tão pesados e apertados que ainda me marcam e ainda lhes sinto o peso arrastado.
Saio da faculdade às 16.30. Tenho uma urgência enorme de ir tratar do meu Eu espiritual. Preciso começar a fechar este capítulo para poder sentir a paz e a liberdade que alcancei. Pego na carrinha e rumo a uma igreja que me foi bordão nestes seis anos e que descobri apenas porque vivi este divórcio. É uma igreja ao pé de um largo empedrado na parte velha de uma vila, hoje cidade. Fica entre dois edifícios que alojam os dois tribunais onde, durante quase seis anos, mantive uma pendência, em dois processos distintos, que me levasse ao divórcio. Tantas e tantas vezes que entrei naquela igreja depois das agruras do tribunal. Tantas vezes ali me refugiei pedindo auxílio regado a lágrimas que não tive vergonha de chorar em público. Ali eu era apenas filha de Deus. Uma filha em sofrimento pedindo perdão por ter casado. Uma filha pedindo força para suportar a cruz; pedindo luz e sentido para o que lhe estava a acontecer.
Dou conta de entrar na igreja como filha que não vem pedir. Entro nesta igreja e, pela primeira vez, apercebo-me de que venho em liberdade. Meu Deus, chego em liberdade. Desaprisiono as lágrimas que me correm grossas e quentes e não me importo que haja uma senhora ali também e que mas possa ver. Meu Deus, estou em liberdade!
Agradeço.
Olho para o Cristo a carregar a cruz. Agradeço que me tenha ajudado a carregar a minha. Estive no Gólgota durante o fim-de-semana. O calvário foram os quase seis anos de percurso martirizado. O Gólgota, o clímax de agonia do fim-de-semana. Sim, morri numa cruz de stress e ansiedade no fim-de-semana e hoje sinto que estou dorida e lassa do suplício. Sinto que me descem da cruz e descanso porque sei que unguentos vão sarar este corpo. Descanso o espírito nesse pensamento. Ainda estou ferida mas vou sarar. E agradeço ter quem me ame. Agradeço ter podido chegar aqui. Agradeço que a minha verdade tenha sido a Verdade.
E peço.
Não peço por mim. Peço pelas vítimas, pelos mártires, pelos injustiçados e pelos presos sem culpa. Peço pelas mulheres que vivem situações como a minha ou piores, porque há bem pior do que o que eu passei. Decido acender velas, eu, cuja religiosidade não é de velas. Quando as acendo não é em mim que penso. Ofereço as velas como luz para todos os mártires.
Saio da igreja em paz. Vou comprar flores porque há mais uma paragem obrigatória no meu percurso rumo à vida nova.
Páro no cemitério porque tenho de dar estas notícias à Mãe sem ser só em pensamento. Minha querida Mãe, que feliz sou que não tenhas vivido nesta Terra durante a infelicidade do meu casamento e a tragédia do meu divórcio.
Mutti, estou livre e sei que estás feliz. Adoro-te, Mãe!
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