De facto, se dúvidas houvesse em relação ao distanciamento dos políticos da vida real do país, dissipar-se-iam com a nova palavra da Ministra da Agricultura para o sector: IVA forfetário para os pequenos agricultores. A coisa é tão disparatada que nem eu, do alto do meu doutoramento, reconheço a palavra à primeira. Conheço "forfeit" em Inglês e daí rapidamente cheguei ao significado de forfetário. Via Inglês, note-se. a Senhora Ministra sabe quem é o pequeno agricultor deste país?
Pois bem, eu sei quem é porque convivo com ele.
O pequeno agricultor deste país, o tal que fica isento de IRS se recebe 1600eur anuais (fortuna colossal a partir da qual um agricultor pequeno passa a grande latifundiário) e que pagará um regime forfetário de IVA se tiver ganhos anuais inferiores a 10.000eur, mal sabe ler e escrever. É alfabetizado mas funcionalmente iletrado. Não percebe nem os políticos nem as políticas. Vai para as reuniões da cooperativa discutir os estatutos da mesma e fica à espera que seja o engenheiro, ou a Loura Doutorada que às vezes por lá aparece, a lançar e a redigir as propostas e alíneas, artigos e excepções que se vão firmar no documento.
O pequeno agricultor, esse dos 1600eur e dos 10.000, não percebe Lisboa, como não percebe de forfeits, sabe apenas que a agricultura é uma pena paga a trabalho, incompreensão e muita desilusão. Digo eu que sou pequeno-agricultora, doutorada, certo, mas pequeno-agricultora.
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24 de fevereiro de 2014
29 de maio de 2013
A minha primeira reunião na Cooperativa
Cheguei à hora mas a Cooperativa está vazia. Os funcionários já me conhecem e deixaram de estranhar a invasão da citadina de saltos altos, muito bling e óculos escuros.
- Ó Dra., só começa daqui a uma hora. Nós é que marcamos sempre para uma hora antes porque nunca cá está metade dos sócios. Eram precisos dois mil. - Explica-me a secretária do director e eu sinto-me na obrigação de justificar o que me fez ir à Cooperativa a uma segunda às 17.30 para uma reunião a que nunca fui. Explico que tenho curiosidade em saber o que é que vai ser discutido sobre os estatutos e sobre os investimentos em Moçambique e no Brasil.
- E faz muito bem vir que é para não serem sempre os mesmos. - Replica-me a sorrir, enquanto eu imagino porque é que ela sorri na antecipação da cena.
Vou para casa fazer a espera da tal hora. Quando regresso, o parque está completo e tenho de procurar lugar para estacionar. A sala de reuniões está cheia para meu espanto. Começaram mesmo à hora e o director explica coisas. Vejo uma cadeira livre na fila da frente. Antecipo o que me espera de pasmo nos olhos e a perturbação que estou a causar. Imagino os comentários e vejo os pontos de interrogação todos em cima da cabeça das pessoas. Não quero saber. Sento-me entre o silêncio que se fez.
Assino a presença. Peço os documentos que vejo que todos têm. Trago os estatutos que tinha pedido uma hora antes. Ponho-me a par.
Debate-se alteração às eleições e discute-se sobre a percentagem de votos para aprovar coisas como a extinção e a cisão da Cooperativa. Escuto quem pede a palavra. Oiço a mesa. Observo quem está na sala e tiro o pulso à agricultura deste país.
Gente tisnada. Resignada e paciente. A gente que levou com as políticas agrícolas comuns, as PACs que nos arruinaram o campo. A gente que não percebe o Governo e cujo Governo as não percebe. Há um ou dois jovens agricultores, jovens com a minha idade, logo adultos a quem já não chamamos jovens. Os jovens que o não são mas que o são porque ninguém no seu juízo quer a terra.
Finalmente levanto o braço e acho que assusto o Presidente, um homem que desconfio não vem da agricultura e que me repulsa profundamente na sua maneira arrogante de conduzir a reunião.
Discordo das medidas propostas. Discordo do fraseado que querem arranjar. Venho dar cabo do sistema. Proponho alterações à redacção estatutária nos pontos que me incomodam e que nem sequer estão na ordem de trabalhos e trago um vocabulário estranho. Desconfio que muita gente me perceba em soluços mas percebe-me a presidência que não respeito e a Direcção que admiro e são, sobretudo, esses que quero que me oiçam. Votam-se as minhas propostas. Descanso porque são aprovadas. Ainda bem que vim.
Saio antes do fim e sei que vão pensar na ave rara que ali lhes entrou porta dentro. Gosto da gente simples, tisnada e cansada. Não gosto dos ares da presidência e sei que quem trabalha e mantém a Cooperativa é a direcção. É o director que me trata dos terrenos, que tem as ideias para os investimentos, que me ouve e me recebe. Saio e agradeço-lhe concordar comigo e não me achar estranha.
Somos 4600. Estávamos ali 47 a espelhar o abandono em que caiu a agricultura deste país. Orgulho-me de ser o nº 41, a herdeira de um dos fundadores. Penso no que dirá o Pai quando souber que eu ali estive...
- Ó Dra., só começa daqui a uma hora. Nós é que marcamos sempre para uma hora antes porque nunca cá está metade dos sócios. Eram precisos dois mil. - Explica-me a secretária do director e eu sinto-me na obrigação de justificar o que me fez ir à Cooperativa a uma segunda às 17.30 para uma reunião a que nunca fui. Explico que tenho curiosidade em saber o que é que vai ser discutido sobre os estatutos e sobre os investimentos em Moçambique e no Brasil.
- E faz muito bem vir que é para não serem sempre os mesmos. - Replica-me a sorrir, enquanto eu imagino porque é que ela sorri na antecipação da cena.
Vou para casa fazer a espera da tal hora. Quando regresso, o parque está completo e tenho de procurar lugar para estacionar. A sala de reuniões está cheia para meu espanto. Começaram mesmo à hora e o director explica coisas. Vejo uma cadeira livre na fila da frente. Antecipo o que me espera de pasmo nos olhos e a perturbação que estou a causar. Imagino os comentários e vejo os pontos de interrogação todos em cima da cabeça das pessoas. Não quero saber. Sento-me entre o silêncio que se fez.
Assino a presença. Peço os documentos que vejo que todos têm. Trago os estatutos que tinha pedido uma hora antes. Ponho-me a par.
Debate-se alteração às eleições e discute-se sobre a percentagem de votos para aprovar coisas como a extinção e a cisão da Cooperativa. Escuto quem pede a palavra. Oiço a mesa. Observo quem está na sala e tiro o pulso à agricultura deste país.
Gente tisnada. Resignada e paciente. A gente que levou com as políticas agrícolas comuns, as PACs que nos arruinaram o campo. A gente que não percebe o Governo e cujo Governo as não percebe. Há um ou dois jovens agricultores, jovens com a minha idade, logo adultos a quem já não chamamos jovens. Os jovens que o não são mas que o são porque ninguém no seu juízo quer a terra.
Finalmente levanto o braço e acho que assusto o Presidente, um homem que desconfio não vem da agricultura e que me repulsa profundamente na sua maneira arrogante de conduzir a reunião.
Discordo das medidas propostas. Discordo do fraseado que querem arranjar. Venho dar cabo do sistema. Proponho alterações à redacção estatutária nos pontos que me incomodam e que nem sequer estão na ordem de trabalhos e trago um vocabulário estranho. Desconfio que muita gente me perceba em soluços mas percebe-me a presidência que não respeito e a Direcção que admiro e são, sobretudo, esses que quero que me oiçam. Votam-se as minhas propostas. Descanso porque são aprovadas. Ainda bem que vim.
Saio antes do fim e sei que vão pensar na ave rara que ali lhes entrou porta dentro. Gosto da gente simples, tisnada e cansada. Não gosto dos ares da presidência e sei que quem trabalha e mantém a Cooperativa é a direcção. É o director que me trata dos terrenos, que tem as ideias para os investimentos, que me ouve e me recebe. Saio e agradeço-lhe concordar comigo e não me achar estranha.
Somos 4600. Estávamos ali 47 a espelhar o abandono em que caiu a agricultura deste país. Orgulho-me de ser o nº 41, a herdeira de um dos fundadores. Penso no que dirá o Pai quando souber que eu ali estive...
23 de setembro de 2012
Vindimas
Anoitece enquanto vejo as tinas despejarem as uvas vindimadas na adega. Uma atrás de outra largam cachos azulados que se espremem num líquido roxo. Longe vão os tempo das filas de tractores que esperavam vez até às duas da manhã e a adega sempre aberta. Era a laboração e eu associava a palavra a dias quentes e gente nas vinhas. Também vindimávamos. Cacho a cacho. Ganhávamos prémios. Nas vindimas havia gente e uma espécie de união colectiva de vocabulário igual e curiosidade por graus e pesos. Ontem senti-me só em vindimas sem gente. Poucos tractores. Poucas descargas. Gente envelhecida de sol e idade. Ninguém quer isto. Ninguém dá valor. Ninguém sabe como tudo começa.
Fiquei ali a ver, querendo fazer parte e lembrando-me de quando fazíamos parte. Lembro-me de o Pai pintar a tina de amarelo para ser diferente. E lembro-me do articulado que fazia dele o agricultor mais excêntrico das redondezas. Deixava as engenharias e dava-se de gosto à agricultura nos fins-de-semana como se isso o tornasse um deles. Trazia métodos esquisitos do estrangeiro. Fazia culturas exóticas. Herdei-lhe os terrenos e os números de sócio dos grémios. Ontem lembrei-me dele e de como andava feliz por estas alturas de tinas cheias e filas na adega. Eu sou só estranha e poucos sabem já de quem sou filha.
Só o cheiro a engaço e mosto permanece igual. Aviva-me o passado de Outonos despontantes. Vou para casa a pé no meio do vento que me revolve os cabelos e levanta a tempestade que cairá noite dentro. É tão Outono já neste meu campo de onde todos partiram e onde eu fiquei entregue a passados presentes diferentes, dona de coisas que não são o que eram. Soube-me bem ir à adega em tempo de vindima ao fim destes anos mais que muitos. Ainda há tinas que se despejam de uvas.
Fiquei ali a ver, querendo fazer parte e lembrando-me de quando fazíamos parte. Lembro-me de o Pai pintar a tina de amarelo para ser diferente. E lembro-me do articulado que fazia dele o agricultor mais excêntrico das redondezas. Deixava as engenharias e dava-se de gosto à agricultura nos fins-de-semana como se isso o tornasse um deles. Trazia métodos esquisitos do estrangeiro. Fazia culturas exóticas. Herdei-lhe os terrenos e os números de sócio dos grémios. Ontem lembrei-me dele e de como andava feliz por estas alturas de tinas cheias e filas na adega. Eu sou só estranha e poucos sabem já de quem sou filha.
Só o cheiro a engaço e mosto permanece igual. Aviva-me o passado de Outonos despontantes. Vou para casa a pé no meio do vento que me revolve os cabelos e levanta a tempestade que cairá noite dentro. É tão Outono já neste meu campo de onde todos partiram e onde eu fiquei entregue a passados presentes diferentes, dona de coisas que não são o que eram. Soube-me bem ir à adega em tempo de vindima ao fim destes anos mais que muitos. Ainda há tinas que se despejam de uvas.
7 de julho de 2012
Progressos da seara
Ando a ver dos progressos da seara indo aos terrenos de duas em duas semanas. Passou a fase da flor e agora há umas cápsulas peludinhas parecidas a casulos à espera de amadurecerem. O que me espanta é a velocidade com que as plantas correm etapas.
No curioso das coincidências, aqui há dias vi um documentário sobre feijões e fiquei a saber que a variedade de feijão mais consumida no mundo é... o grão - muito à conta do amor mediterrânico por humus. Ora, justo no ano em que me vejo na agricultura, o que se semeou nos terrenos foi grão. Pode ser que seja um bom sinal...
No curioso das coincidências, aqui há dias vi um documentário sobre feijões e fiquei a saber que a variedade de feijão mais consumida no mundo é... o grão - muito à conta do amor mediterrânico por humus. Ora, justo no ano em que me vejo na agricultura, o que se semeou nos terrenos foi grão. Pode ser que seja um bom sinal...
6 de junho de 2012
Seara 2012
A última vez que fui aos terrenos foi há talvez dois meses. O ano agrícola ia perdido sem chuva e nem as daninhas despontavam. Hoje fui e descobri uma seara de grão a começar a dar flor. Estou tão orgulhosa. O engenheiro tinha-me dito que íamos arrancar com grão.
- Por causa do azoto. - Disse-lhe, a dar uma de conhecedora.
Sim, era por causa do azoto e porque precisamos começar a transição para o biológico. Mas eu pensei que já não íamos a tempo de semear fosse o que fosse. Enganei-me (em boa hora). Regresso das viagens e dou-me com o chão em verde e pontinhos brancos de flores minúsculas.
Afinal, pode ser que ainda haja uma chance para o nosso ano agrícola e para a minha primeira seara. Estou empolgada na mesma medida em que estou pasma por ter chegado aqui. Peço chuva benfazeja. Peço a colheita. Peço que a alegria não desmorone. Peço...
- Por causa do azoto. - Disse-lhe, a dar uma de conhecedora.
Sim, era por causa do azoto e porque precisamos começar a transição para o biológico. Mas eu pensei que já não íamos a tempo de semear fosse o que fosse. Enganei-me (em boa hora). Regresso das viagens e dou-me com o chão em verde e pontinhos brancos de flores minúsculas.
Afinal, pode ser que ainda haja uma chance para o nosso ano agrícola e para a minha primeira seara. Estou empolgada na mesma medida em que estou pasma por ter chegado aqui. Peço chuva benfazeja. Peço a colheita. Peço que a alegria não desmorone. Peço...
16 de março de 2012
Um bocadinho como a Karen Blixen
Quando chegou a África, sem experiência agrícola nenhuma, a Karen Blixen deparou-se com uma sucessão infinda de maus anos agrícolas, más decisões e as consequências óbvias da sua impreparação. Eu sinto-me um pouquinho assim neste meu primeiro ano agrícola.
A falta de chuva não deixou semear nada, agora chove mas não é suficiente para repor humidade nos solos ressequidos e duros. Vai ser preciso lavrar tudo outra vez porque, à conta desta água, vão brotar mais ervas daninhas do que se possa contar. Não sei o que se possa semear nesta altura do ano. Não faço a mínima de nada. Nem sei mesmo se ainda se vai a tempo de se fazer qualquer coisa.
Isto da agricultura tem muito que se lhe diga: se não é o tempo, é a conjuntura, se não é a conjuntura, é o tempo e assim sucessivamente e eu só me admiro que ainda haja gente disposta a enfrentar semelhante desafio.
A falta de chuva não deixou semear nada, agora chove mas não é suficiente para repor humidade nos solos ressequidos e duros. Vai ser preciso lavrar tudo outra vez porque, à conta desta água, vão brotar mais ervas daninhas do que se possa contar. Não sei o que se possa semear nesta altura do ano. Não faço a mínima de nada. Nem sei mesmo se ainda se vai a tempo de se fazer qualquer coisa.
Isto da agricultura tem muito que se lhe diga: se não é o tempo, é a conjuntura, se não é a conjuntura, é o tempo e assim sucessivamente e eu só me admiro que ainda haja gente disposta a enfrentar semelhante desafio.
29 de fevereiro de 2012
Mas quando é que chove?
Não me lembro de uma coisa destas: querer chuva e não a ter, sonhar com chuva e não chover, regar artificialmente em pleno Inverno e ver os montes à volta castanhos de chão ainda lavrado mas não despontado de sementes que germinam. Sinto a terra em stress.
31 de janeiro de 2012
Terra arada
Nunca pensei chegar este dia: ir confirmar que os terrenos estão lavrados, que sou eu que estou por trás, que aquilo andou uma geração para a frente. Lembro-me de o Pai ir ver como estavam as lavras. Lembro-me de ele tirar fotos. Lembro-me dos planos dele e de como ele mantinha tudo aquilo vivo e produtivo. Hoje senti-me nos sapatos do Pai mas era eu de máquina na mão, ténis e roupa de treino, óculos escuros e a curiosidade de ver como tinha ficado o trabalho. Janeiro vai seco e dou comigo a pensar as estações sem a sensação citadina mas na necessidade agrícola. Nunca pensei aqui chegar mas hoje estou orgulhosa desta terra lavrada à qual quero fazer bem.
20 de setembro de 2011
Sempre a agricultura
Ontem dei-me ao trabalho aborrecido de ver os Prós e Contras. Era sobre a nossa agricultura e com estes meus interesses agrícolas lá me dispus a ver o programa. Desisti a meio.
22 de julho de 2011
Dia sui generis
Chego exausta a casa. Apetece-me cair num sofá e deixar-me estar. Fazer um shut down qualquer e não fazer o que há por fazer, não pensar o que há para pensar. Quero sossego.
A campaínha toca. Alguém me dá flores. Volto ao sossego.
A campaínha toca. Alguém me vem perguntar se eu não vendo os terrenos. Volto ao sossego.
Não posso dar-me ao sossego. Marcho para o ginásio.
Chego a casa exausta. Mas agora posso sossegar.
29 de junho de 2011
Biomassa
Sorgo doce. Salgueiros. Produção de biomassa. Oiço o engenheiro agrónomo falar de projectos potenciais para os meus terrenos.
- E o projecto biológico? - Pergunto. Levei este último ano a pesquisar as potencialidades do biológico e tenho ideias que queria desenvolver agora que me decidi a tomar as coisas em mãos.
- O surto da E. Coli pôs os consumidores reticentes em relação à agricultura biológica.
- Sei disso. Sei isso muito bem, mas os consumidores rapidamente se vão esquecer disto. - Replico, momentaneamente ressabiada com essa massa amorfa designada por consumidores. Sabem lá os consumidores, apetece-me dizer. - Pastagens biológicas. - Continuo. - Pensei em começarmos por pastagens biológicas. Há mercado.
- E biomassa? - Pergunta-me o engenheiro.
- Biomassa? - Apanhou-me na curva. Eu tenho ideias de agricultura à antiga e ele vem-me com biomassa? Não estudei nada sobre biomassa. Sei o trivial e nada mais.
- Sim. Sorgo doce. Salgueiros.
- Salgueiros? Vou plantar árvores que vão acabar em pellets e brickets? - Não faço por esconder a surpresa mas omito que não sei o que é sorgo doce. Sei o que é sorgo mas desconheço que haja esta variedade "doce" e muito menos que seja uma cultura para biomassa.
- Passamos a máquina duas vezes por ano e estamos a negociar com a câmara xpto uma central processadora de biomassa. Podemos entrar nesse projecto.
- Hmm... Produção de biomassa... Certo, vamos estudar melhor e contrapor a pastagem biológica e a produção de biomassa. Vou querer ter a última palavra. - Digo firme, sabendo que não sei nada, enquanto o engenheiro me olha na complacência. Acho que me quer ajudar e tem pena de mim, nos meus sonhos agrícolas e na vontade de reanimar algo que está moribundo neste país.
Sim, talvez as ideias dele, nada semelhantes às minhas que ainda sonho com vinhedos e olivais, sejam um caminho. As novas energias são o futuro e, se a produção energética passa por culturas de espécies para biomassa, talvez tenhamos aqui um nicho.
Biomassa... Hmm... Sorgo doce... Vamos ver.
- E o projecto biológico? - Pergunto. Levei este último ano a pesquisar as potencialidades do biológico e tenho ideias que queria desenvolver agora que me decidi a tomar as coisas em mãos.
- O surto da E. Coli pôs os consumidores reticentes em relação à agricultura biológica.
- Sei disso. Sei isso muito bem, mas os consumidores rapidamente se vão esquecer disto. - Replico, momentaneamente ressabiada com essa massa amorfa designada por consumidores. Sabem lá os consumidores, apetece-me dizer. - Pastagens biológicas. - Continuo. - Pensei em começarmos por pastagens biológicas. Há mercado.
- E biomassa? - Pergunta-me o engenheiro.
- Biomassa? - Apanhou-me na curva. Eu tenho ideias de agricultura à antiga e ele vem-me com biomassa? Não estudei nada sobre biomassa. Sei o trivial e nada mais.
- Sim. Sorgo doce. Salgueiros.
- Salgueiros? Vou plantar árvores que vão acabar em pellets e brickets? - Não faço por esconder a surpresa mas omito que não sei o que é sorgo doce. Sei o que é sorgo mas desconheço que haja esta variedade "doce" e muito menos que seja uma cultura para biomassa.
- Passamos a máquina duas vezes por ano e estamos a negociar com a câmara xpto uma central processadora de biomassa. Podemos entrar nesse projecto.
- Hmm... Produção de biomassa... Certo, vamos estudar melhor e contrapor a pastagem biológica e a produção de biomassa. Vou querer ter a última palavra. - Digo firme, sabendo que não sei nada, enquanto o engenheiro me olha na complacência. Acho que me quer ajudar e tem pena de mim, nos meus sonhos agrícolas e na vontade de reanimar algo que está moribundo neste país.
Sim, talvez as ideias dele, nada semelhantes às minhas que ainda sonho com vinhedos e olivais, sejam um caminho. As novas energias são o futuro e, se a produção energética passa por culturas de espécies para biomassa, talvez tenhamos aqui um nicho.
Biomassa... Hmm... Sorgo doce... Vamos ver.
6 de junho de 2011
Blonde a Ministra da Agricultura!
Ok, Secretrária de Estado da Agricultura já que o Ministério deve ter ido para as couves.
Sempre estou para ver o que é que vão fazer à Agricultura/Lavoura no quadro deste Governo de coligação e sempre quero ver como é que vão sustentar o tão-apregoado regresso à terra e, também, sempre estou para ver qual é a pessoa com créditos dados na área que lá vão colocar. Sim, porque depois de terem desbaratado a agricultura quem é que sabe da poda neste país? (Pronto, pronto, eu até sei umas coisas que nem só de PhD vive uma pessoa).
Bom, como herdeira agrícola de agricultura falida aguardo ansiosa o que nos vai acometer...
Sempre estou para ver o que é que vão fazer à Agricultura/Lavoura no quadro deste Governo de coligação e sempre quero ver como é que vão sustentar o tão-apregoado regresso à terra e, também, sempre estou para ver qual é a pessoa com créditos dados na área que lá vão colocar. Sim, porque depois de terem desbaratado a agricultura quem é que sabe da poda neste país? (Pronto, pronto, eu até sei umas coisas que nem só de PhD vive uma pessoa).
Bom, como herdeira agrícola de agricultura falida aguardo ansiosa o que nos vai acometer...
25 de maio de 2011
Um PhD e a Agricultura
Houve um tempo em que os terrenos que me ficaram porque a Mãe morreu tinham vinhas e pomares e searas. A Mãe morreu. A agricultura morreu. Os terrenos estão lá. Entrei neles pela primeira vez o ano passado. Eu. Dona. Herdeira. Estrangeira ali em chão que não me reconhece. Falta-me decidir, antes do final do ano agrícola (que acaba em Setembro e eu não sabia mas ando a aprender), que projecto ali vou fazer. Falo com o engenheiro agrónomo que me vai ajudar e o que ouço é devastador. A agricultura em Portugal é um cadáver.
- Oliveiras! - Sugiro entusiasmada, pensando em hectares de árvores verde prateado e azeite liso aveludado. Andei a ler sobre oliveiras. Sei as espécies. Sei as diferentes variantes da cultura e sei quantas árvores um hectare sustenta.
- Oliveiras?! Era bom. Mas os espanhóis compraram o Alentejo e é impossível competir com eles. - Diz-me na seriedade de quem sabe do que fala.
- Vinha? - Replico lembrando-me das nossas vinhas de quando eu era pequena e comia grossos bagos de Dona Maria e produzíamos castas híbridas vinícolas. - Os terrenos já tiveram vinha, podíamos lá fazer um vinhedo outra vez.
- O investimento é monstruoso e não compensa produzir para a Adega Cooperativa. Aliás, já nem sequer temos muitos sócios e, como vê, as vinhas estão todas por amanhar.
- Searas?
- Ó Dona Blonde, agora vem tudo da América do Sul. Um hectare na Amazónia compra-se por nada. Aqui os custos de produção cerealífera subiram 300% e o preço de venda de trigo desceu de tal ordem que o seu Pai nos anos 80 vendia o trigo que produzia a 30 escudos o quilo e se agora o vendesse a 4 cêntimos teria sorte. Não vê que até a EPAC fechou? Quem é que receberia os cereais?
Fico parva pelo tanto que as coisas mudaram nestes anos em que virei as costas ao passado. Estamos a pensar num plano para transição para agricultura biológica. Talvez cereais. Entretanto descobri umas coisas sobre pastagens biológicas e ainda lhe vou sugerir isso. A ver o que ele diz. Agora que quero agarrar os terrenos, a determinação continua. Mas continuo na perplexidade de ver o ponto a que as coisas chegaram. Ninguém fala em políticas agrícolas neste país. Os terrenos viraram matos. Há um ordenamento do território que cria reservas agrícolas nacionais, sítios de silvas e abandonos. Como é que poderíamos não estar em crise? O CDS fala na Lavoura e as Esquerdas proclamam o regresso à agricultura. Mas só oiço intenções. Ninguém assume rumos, estratégias ou políticas. Ninguém sabe como ressuscitar a agricultura.
Eu continuo a pensar, a ler e a pesquisar. Há-de-me surgir uma ideia para resgatar aqueles terrenos e encontrar-me em paz com passados. Pena tenho é que para isso tenha de lutar contra um país que desprezou a terra de onde vem e o pó para onde vai...
- Oliveiras! - Sugiro entusiasmada, pensando em hectares de árvores verde prateado e azeite liso aveludado. Andei a ler sobre oliveiras. Sei as espécies. Sei as diferentes variantes da cultura e sei quantas árvores um hectare sustenta.
- Oliveiras?! Era bom. Mas os espanhóis compraram o Alentejo e é impossível competir com eles. - Diz-me na seriedade de quem sabe do que fala.
- Vinha? - Replico lembrando-me das nossas vinhas de quando eu era pequena e comia grossos bagos de Dona Maria e produzíamos castas híbridas vinícolas. - Os terrenos já tiveram vinha, podíamos lá fazer um vinhedo outra vez.
- O investimento é monstruoso e não compensa produzir para a Adega Cooperativa. Aliás, já nem sequer temos muitos sócios e, como vê, as vinhas estão todas por amanhar.
- Searas?
- Ó Dona Blonde, agora vem tudo da América do Sul. Um hectare na Amazónia compra-se por nada. Aqui os custos de produção cerealífera subiram 300% e o preço de venda de trigo desceu de tal ordem que o seu Pai nos anos 80 vendia o trigo que produzia a 30 escudos o quilo e se agora o vendesse a 4 cêntimos teria sorte. Não vê que até a EPAC fechou? Quem é que receberia os cereais?
Fico parva pelo tanto que as coisas mudaram nestes anos em que virei as costas ao passado. Estamos a pensar num plano para transição para agricultura biológica. Talvez cereais. Entretanto descobri umas coisas sobre pastagens biológicas e ainda lhe vou sugerir isso. A ver o que ele diz. Agora que quero agarrar os terrenos, a determinação continua. Mas continuo na perplexidade de ver o ponto a que as coisas chegaram. Ninguém fala em políticas agrícolas neste país. Os terrenos viraram matos. Há um ordenamento do território que cria reservas agrícolas nacionais, sítios de silvas e abandonos. Como é que poderíamos não estar em crise? O CDS fala na Lavoura e as Esquerdas proclamam o regresso à agricultura. Mas só oiço intenções. Ninguém assume rumos, estratégias ou políticas. Ninguém sabe como ressuscitar a agricultura.
Eu continuo a pensar, a ler e a pesquisar. Há-de-me surgir uma ideia para resgatar aqueles terrenos e encontrar-me em paz com passados. Pena tenho é que para isso tenha de lutar contra um país que desprezou a terra de onde vem e o pó para onde vai...
15 de dezembro de 2010
Diários agrícolas: Blonde 1 - Pombas de louça 0
E não é que eu estava enganada?
A coisa é a seguinte:
Desde que peguei em mim e decidi que é tempo de tomar certas coisas em mãos, nomeadamente a vertente agrícola e outros sucedâneos cuja razão de existir começou num Junho há doze anos quando a Mãe morreu, fiz uma petição na Câmara para que um vizinho, que pensou certamente que eu tinha morrido com a Mãe (morri mas em versão fénix), fechasse uma janela enfeitada com pombinhas da Catrina que abriu despudoradamente sobre um dos terrenos aqui da je. O vereador lá me respondeu e eu pensei que "balelas, não vai acontecer nada e já me vejo no tribunal a resolver o assunto derivado da questão". Enganei-me. Hoje passei pelo terreno e não é que em vez da janela está uma coisa horrorosa cimentada de cinzento? Gosh, I'm proud!
A parte séria da coisa é que me vejo a tomar todas estas decisões sózinha e a seguir em frente. Vejo-me arcar com esta Casa, com os hectares de terra, as responsabilidades que não pertenciam à minha vida já de si repleta de responsabilidades e vejo-me andar, andar sem parar. Nunca pensei ter força para tudo isto. Nunca pensei conseguir suportar toda esta engrenagem que eu via funcionar antes da Mãe morrer, quando outras almas oleavam tudo para que tudo me parecesse suave quando é tudo, afinal, tão pesado.
Sim, vou seguir em frente. Resgatar a terra, como tenho resgatado a Casa. Vou pô-la a produzir, não como no antigamente porque não conseguiria, de todo, administrar pomares, vinha, chão de cereais. Vou domá-la à minha medida e, no fundo, vou amá-la como outros a amaram, outros que eu tanto amo.
Hoje, agora, estou tão orgulhosa!
Mutti, Tu que vês, que dizes? Estou a sair-me bem?
A coisa é a seguinte:
Desde que peguei em mim e decidi que é tempo de tomar certas coisas em mãos, nomeadamente a vertente agrícola e outros sucedâneos cuja razão de existir começou num Junho há doze anos quando a Mãe morreu, fiz uma petição na Câmara para que um vizinho, que pensou certamente que eu tinha morrido com a Mãe (morri mas em versão fénix), fechasse uma janela enfeitada com pombinhas da Catrina que abriu despudoradamente sobre um dos terrenos aqui da je. O vereador lá me respondeu e eu pensei que "balelas, não vai acontecer nada e já me vejo no tribunal a resolver o assunto derivado da questão". Enganei-me. Hoje passei pelo terreno e não é que em vez da janela está uma coisa horrorosa cimentada de cinzento? Gosh, I'm proud!
A parte séria da coisa é que me vejo a tomar todas estas decisões sózinha e a seguir em frente. Vejo-me arcar com esta Casa, com os hectares de terra, as responsabilidades que não pertenciam à minha vida já de si repleta de responsabilidades e vejo-me andar, andar sem parar. Nunca pensei ter força para tudo isto. Nunca pensei conseguir suportar toda esta engrenagem que eu via funcionar antes da Mãe morrer, quando outras almas oleavam tudo para que tudo me parecesse suave quando é tudo, afinal, tão pesado.
Sim, vou seguir em frente. Resgatar a terra, como tenho resgatado a Casa. Vou pô-la a produzir, não como no antigamente porque não conseguiria, de todo, administrar pomares, vinha, chão de cereais. Vou domá-la à minha medida e, no fundo, vou amá-la como outros a amaram, outros que eu tanto amo.
Hoje, agora, estou tão orgulhosa!
Mutti, Tu que vês, que dizes? Estou a sair-me bem?
5 de novembro de 2010
Diários agrícolas: começou a confusão
Já aqui tinha falado do meu pedaço de chão, do como me estou a reencontrar com um monte de coisas de um passado trágico que aos poucos vão encontrando um caminho para a luz, ou pelo menos, vou tentando que encontrem um caminho para dentro da minha vida. Tem sido assim com a Casa e agora vai ter de ser assim com os torrões de terra, que, tendo estado ao cuidado de terceiros generosos o suficiente para me libertarem do peso da responsabilidade, eu agora quero tomar em mãos. Algum dia tinha de ser...
Primeira precaução da Blonde agricultora: ver marcos e conferir extremas. Há uns anos mandei fazer um levantamento topográfico que enfiei para dentro de uma gaveta com um dossier chamado "Terrenos". Toca de tirar cadernetas prediais e mapas e ver o estado da coisa.
Sem surpresa, um idiota de um vizinho achou por bem fazer uma dependência qualquer numa das extremas confinantes com um dos terrenos aqui da Blonde. Tudo ok não fosse ter-se lembrado de abrir uma janela e... enfeitá-la com duas pombas de louça. Até lhe podia perdoar a ousadia não fossem as pombas, que eu sou uma mulher de estilo, ora essa! Tirei fotos (horrorosas como só podiam ser), fui à Conservatória pedir os dados do dono das pombas de louça e entreguei uma petição na Câmara para me resolverem o problema.
Chegou a resposta.
Tarara, tarari, sim senhora que eu tenho muita razão (também lá na Câmara não devem gostar de pombas de louça) e... agora vem a melhor parte e até vou citar:
"Informamos que na presente data, foi enviada comunicação ao proprietário do prédio em questão para proceder ao respectivo licenciamento administrativo."
?! Além da pontuação grosseira, o que é que isto quer dizer exactamente? Que se o dito proprietário licenciar a janela eu tenho de gramar com as pombas? Mas eu não quero janela nenhuma aprovada porque é por isso que existe um artigo 1360 do Código Civil!
Acho que o meu caminho em direcção à agricultura começa a esbarrar numa coisa viscosa chamada "poder local". Lá vou eu meter pés a caminho e perguntar ao Vice o que raio é aquele relambório. Hmm... algo me diz que cheguei ao pântano...
Primeira precaução da Blonde agricultora: ver marcos e conferir extremas. Há uns anos mandei fazer um levantamento topográfico que enfiei para dentro de uma gaveta com um dossier chamado "Terrenos". Toca de tirar cadernetas prediais e mapas e ver o estado da coisa.
Sem surpresa, um idiota de um vizinho achou por bem fazer uma dependência qualquer numa das extremas confinantes com um dos terrenos aqui da Blonde. Tudo ok não fosse ter-se lembrado de abrir uma janela e... enfeitá-la com duas pombas de louça. Até lhe podia perdoar a ousadia não fossem as pombas, que eu sou uma mulher de estilo, ora essa! Tirei fotos (horrorosas como só podiam ser), fui à Conservatória pedir os dados do dono das pombas de louça e entreguei uma petição na Câmara para me resolverem o problema.
Chegou a resposta.
Tarara, tarari, sim senhora que eu tenho muita razão (também lá na Câmara não devem gostar de pombas de louça) e... agora vem a melhor parte e até vou citar:
"Informamos que na presente data, foi enviada comunicação ao proprietário do prédio em questão para proceder ao respectivo licenciamento administrativo."
?! Além da pontuação grosseira, o que é que isto quer dizer exactamente? Que se o dito proprietário licenciar a janela eu tenho de gramar com as pombas? Mas eu não quero janela nenhuma aprovada porque é por isso que existe um artigo 1360 do Código Civil!
Acho que o meu caminho em direcção à agricultura começa a esbarrar numa coisa viscosa chamada "poder local". Lá vou eu meter pés a caminho e perguntar ao Vice o que raio é aquele relambório. Hmm... algo me diz que cheguei ao pântano...
6 de outubro de 2010
Diários agrícolas: o meu pedaço de chão
O solo está crestado e áspero. Conjuro memórias de um passado abundante. Inalo o cheiro plácido de uma terra amena que me povoa um tempo ido. Havia pomares e vinhas, terra de pão e oliveiras que davam um azeite verde cristalino que se empastava na invernia. Lembro-me de vindimas e do cheiro a mosto na adega. Lembro-me do som distante de gentes que amanhavam aquela terra, esta terra cinzenta que agora piso e pela qual entro falando baixinho:- Perdoa-me. Vou tratar de ti. Aceita-me de volta.
Os portões foram roubados. Uma parte do muro de cima ruiu. Vou ver os poços. Há água, muita, de um inverno húmido que deixou marcas. Mas tenho sempre medo daquela escuridão fresca com água parada que me reflecte a face que espreita a medo. Percorro a terra caminhando sobre grossos torrões revolvidos. Verifico marcos. As vedações também desapareceram.
- Venho aqui tomar-te de volta. Reclamo-te. Abraço-te.
Sinto-me a herdeira que não devia ser. Não ainda. Entro como proprietária. É cedo demais. Há doze anos que é cedo demais para eu ser herdeira do que quer que seja. Mas sou e é tempo, mais do que tempo, de tomar o pulso às coisas. Sinto que a Casa Grande já me vai correndo nas veias. A casa que me ocupa tantas páginas neste blog. A casa que também herdei cedo demais, tão grande que quase me afogou. Tão pesada que quase me asfixiava. Deitei paredes abaixo. Erigi outras tantas. Pintei e repintei. Destruí, restruturei, construí. Domei memórias. Apaziguei saudades. Convivi com ecos e portas fechadas. Fui um fantasma e vi fantasmas. É tempo de olhar noutra direcção. Continuar numa outra etapa deste luto doloroso e fazê-lo para continuar a seguir em frente.
Ali estão, estes hectares de chão que se declina suavemente pelo outeiro abaixo e se espraia numa várzea virada para o sol nascente. O meu pedaço de mundo. O meu legado tão precoce e violentamente caído nas minhas mãos. Venho reclamá-lo. É tempo de enfrentá-lo.
- Estou aqui. Vou cuidar de ti.
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