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23 de julho de 2008

Sorriso amargo

Acabei de ver o "Jornal da Uma" na televisão. A última peça foi sobre uma criança guineense desaparecida desde 2005, sem que as investigações levem a alguma conclusão, sem que aquela mãe receba algum tempo de antena de autoridades manifestamente manietadas, sem que ninguém se preocupe que uma criança tenha sido tirada ao lar familiar e hipoteticamente vendida em Inglaterra.

Seja como for, a reportagem termina com aquela mãe, arrancada a uma África parada no tempo e na miséria, a andar ao longo de um Tejo lisboeta lavada em lágrimas entrecortadas por palavras em que o unicamente compreensível é "nha filho". Tanta dor. Tanta que não a compreendemos porque não a vivemos.

Tive pena do Carlos Daniel que, especado a ver a os restos dolorosos da reportagem, teve de pôr o melhor sorriso o-mundo-continua-e-amanhã-cá-estamos, como se as notícias fossem mais um programa de entretenimento apresentado por gente feliz (sem lágrimas).

O mundo a que chegamos... Como dizia a Hannah Arendt é a banalização do mal ao ponto de o acharmos normal, quando o devíamos olhar como excepcional.

25 de fevereiro de 2008

A Igreja Cinzenta


Não falo de Religião desde que a Mãe morreu.
Quer dizer, falo com o Padre, falo na Catequese, mas não é a mesma coisa. Só a Mãe sabia falar de Religião no seu sentido transcendente, histórico, ortodoxo e crítico. Era um prazer falar destes assuntos com ela. Sem ela eu teria hoje uma compreensão muito incipiente da Religião e, não fora a sua orientação pelos meandros da consubstanciação, transubstanciação, pelas vielas do catolicismo e das formas multivariadas do protestantismo, e eu seria uma pobre de espírito mais pobre do que o que sou e não teria tido a oportunidade de escolher qual a religião (letra minúscula) com que a minha espiritualidade mais se identifica. Assim, criada num ethos nórdico luterano-evangélico, tornei-me católica romana, praticante, mas pensante. Sem a Mãe não discuto Religião, com o Padre falo quase sempre em confrontação (embora eu saiba que ele, mais do que a qualquer pessoa, respeita as minhas opiniões) e na Catequese falo a meninos e meninas que precisam de um primeiro Kerigma porque vêm de lares totalmente laicos e, desconfio, no mínimo agnósticos (não digo ateus porque isso é ir longe demais num país de orientação católica).
Este Sábado dei comigo a divagar durante a Homília. (Confesso que divago muitas vezes porque as homílias do meu pároco são renomadas pela sua longa duração). Olhando à minha volta só vi gente vestida de escuro: preto, cinzento, castanho, cores mortas e sem fé. Raras eram as pessoas da minha idade (acho que só os pobres dos acólitos que ali estavam visivelmente contrariados e mais uma ou outra pessoa eram mais novos do que eu). Era um cenário deprimente. O rito oco. As pessoas estavam ali em cumprimento de uma obrigação. Não houve cânticos. A Missa foi uma coisa vazia. Senta, levanta, diz "Ámen", recita as orações de cor, senta outra vez, levanta depois.
No meio daquele vazio todo senti-me vazia. Lembrei-me da Madre Teresa de Calcutá e do vazio em que ela viveu durante 50 anos. E pior do que isto, no meio da minha divagação, pensei que a Santa Madre Igreja afugenta os crentes. Pensei neste Papa e tive pena dele, como tenho sempre que penso nele. É difícil suceder a alguém excepcional (seja um Papa, um político, um rei, um progenitor). Mas não o sinto vir a nós rebanho. Este Papa ainda não me tocou. Meu Deus, as maluqueiras que eu fiz para ir ao encontro do João Paulo II, de cada vez, de todas as vezes, "mein Papst"!
Não pensei em Deus nem em Jesus na minha divagação. Centrei-me na Humanidade. Perdi-me nos meus pensamentos e segui no vazio à minha volta. Tudo tão escuro. Até a humidade da igreja me incomodou. Afinal, prestamos culto em sítios frios e desagradáveis. Até isso me constrangiu e me levou na divagação. Saí da Missa esquisita. Quase me perguntei (acho que subconscientemente me perguntei) o que é que eu ali tinha ido fazer. Não senti que ali estivéssemos em comunidade. Presumo que ali estávamos todos em individualidade.
Como sempre, lembrei-me que o meu problema é com a igreja dos Homens e não com a Igreja de Deus. Andamos desfazados de Deus. "Venha a nós o Vosso Reino"...