Mostrar mensagens com a etiqueta Travel Diaries. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Travel Diaries. Mostrar todas as mensagens
7 de setembro de 2019
Sardenha em catalão
Na Sardenha fala-se, naturalmente, italiano e fala-se o dialecto local,o sardo. Porém, aqui na parte ocidental da ilha fala-se catalão Na verdade, o Reino medieval de Aragão tinha aqui domínios e a língua perdurou até agora. Nas ruas, a informação é bilíngue italiano e catalão e há mesmo um monumento ao orgulho linguístico catalão e à sua preservação. Amante de línguas e semi-poliglota, fascinam-me estas curiosidades. Sorrio a este bi ou tri-lingualismo na Sardenha. Preserve-se.
4 de setembro de 2019
Sardenha: Alghero
E lá tive de ir a Alghero para não dizer que não fui à cidade sarda mais importante aqui neste pedaço de Sardenha em que me encontro para uns dias de recarregamento de baterias all by myself. Foi um ano tão extenuante profissionalmente que preciso isolamento e dolce far niente e a Itália, já se sabe, é que inventou esse conceito. Bom, para Alghero, então.
Era uma vilota piscatória, agora convertida ao turismo da chinelice. Há parques de campismo gigantes à volta do perímetro urbano e as praias limítrofes não são as mais bonitas da região. Perco-me nas ruazinhas. Descubro igrejas mas, sobretudo, fico parva com o comércio de coral vermelho. Pensava que já estava interdita ou, pelo menos, muito limitada a extracção coralífera, Pelos vistos não. Já tinha lido nas brochuras que promovem Alghero que é a capital do coral vermelho mas não pensava que era este absurdo. Enoja-me. Fujo. Só penso, como tenho pensado muito nesta viagem desde que, do céu, vi o Tejo seco, que isto não vai acabar bem para nós. Daremos cabo do planeta se continuarmos assim mas esquecemo-nos que o planeta terá a última palavra. Não é o planeta que morrerá, é o Antropoceno que dará lugar a uma outra era do planeta, uma em que, tal como sucedeu aos dinossauros, nós não estaremos presentes.
Era uma vilota piscatória, agora convertida ao turismo da chinelice. Há parques de campismo gigantes à volta do perímetro urbano e as praias limítrofes não são as mais bonitas da região. Perco-me nas ruazinhas. Descubro igrejas mas, sobretudo, fico parva com o comércio de coral vermelho. Pensava que já estava interdita ou, pelo menos, muito limitada a extracção coralífera, Pelos vistos não. Já tinha lido nas brochuras que promovem Alghero que é a capital do coral vermelho mas não pensava que era este absurdo. Enoja-me. Fujo. Só penso, como tenho pensado muito nesta viagem desde que, do céu, vi o Tejo seco, que isto não vai acabar bem para nós. Daremos cabo do planeta se continuarmos assim mas esquecemo-nos que o planeta terá a última palavra. Não é o planeta que morrerá, é o Antropoceno que dará lugar a uma outra era do planeta, uma em que, tal como sucedeu aos dinossauros, nós não estaremos presentes.
31 de agosto de 2019
Sardenha: De autocarro
Peço um chauffeur privado no hotel que me leve a passear e a ver vistas. Enfim, quero um guia privado porque venho sem paciência par alugar um carro e não participo em excursões e empacotamentos para turistas.
- Signora - diz-me a recepcionista do hotel -, por que quer um motorista se temos um serviço de autocarros que vai de Alghero a Cappo Caccia e passa por todas as praias e sítios bonitos?
Insisto que, então me chamem um táxi.
- Ma, Signora - oiço insistência de volta -, tem aqui o horário e o bilhete diário custa só seis euros.
Decido contra a minha intenção e sigo o conselho, apesar de desconfiada. Afinal, não ando de transportes públicos desde nem sei quando e, sabendo do gosto italiano para a confusão e não cumprimento de horários, palpita-me que posso arrepender-me de ir ao arrepio do meu pseudo-bom-senso.
O meu hotel está no meio de uma floresta de pinho manso à borda de água mas nas traseiras da propriedade passa a estrada que vai até Alghero, a vinte e tal quilómetros, e que, no lado oposto, vai por todas as praias, baías e enseadas até à monumentalidade natural de Cappo Caccia. Ponho-me na estrada à espera do autocarro. Os italianos são loucos ao volante e, apesar do traço contínuo, vejo ultrapassagens triplas numa estrada onde mesmo dois veículos em contra-mão se têm de encolher. Vendo a estrangeira loura, os carros e motas apitam-me e oiço chamaram-me bella ragazza italiana! Farto-me de rir de mim para mim e escangalho-me algumas vezes. Aprecio a experiência e só regressarei ao hotel ao fim do dia. Nunca seis euros me levaram tão longe, me renderam tanto ou me fizeram admirar vistas tão deslumbrantes.
A felicidade, de facto,precisa de muito pouco. Gratidão...
- Signora - diz-me a recepcionista do hotel -, por que quer um motorista se temos um serviço de autocarros que vai de Alghero a Cappo Caccia e passa por todas as praias e sítios bonitos?
Insisto que, então me chamem um táxi.
- Ma, Signora - oiço insistência de volta -, tem aqui o horário e o bilhete diário custa só seis euros.
Decido contra a minha intenção e sigo o conselho, apesar de desconfiada. Afinal, não ando de transportes públicos desde nem sei quando e, sabendo do gosto italiano para a confusão e não cumprimento de horários, palpita-me que posso arrepender-me de ir ao arrepio do meu pseudo-bom-senso.
O meu hotel está no meio de uma floresta de pinho manso à borda de água mas nas traseiras da propriedade passa a estrada que vai até Alghero, a vinte e tal quilómetros, e que, no lado oposto, vai por todas as praias, baías e enseadas até à monumentalidade natural de Cappo Caccia. Ponho-me na estrada à espera do autocarro. Os italianos são loucos ao volante e, apesar do traço contínuo, vejo ultrapassagens triplas numa estrada onde mesmo dois veículos em contra-mão se têm de encolher. Vendo a estrangeira loura, os carros e motas apitam-me e oiço chamaram-me bella ragazza italiana! Farto-me de rir de mim para mim e escangalho-me algumas vezes. Aprecio a experiência e só regressarei ao hotel ao fim do dia. Nunca seis euros me levaram tão longe, me renderam tanto ou me fizeram admirar vistas tão deslumbrantes.
A felicidade, de facto,precisa de muito pouco. Gratidão...
28 de agosto de 2019
Sardenha: Cappo Caccia
Há qualquer coisa de A Guerra dos Tronos neste penhasco vertical e sua escadaria de medo até às grutas À borda de água. Estou em Cappo Caccia. Venho aqui em aventura. Disseram-me que podia vir por mar ou, se fosse aventureira, por terra. Escolho a aventura e a vertigem, eu que sou vítima com provas dadas de intolerância às alturas. Ai, o medo, esse sedutor.
São seiscentos e muitos degraus a pique esculpidos na verticalidade do penedo. O mar é fundo no fundo mas tão incomensuravelmente azul. Poucos se aventuram. Um ou outro casal que desce, aventuroso como eu na minha solidão. Depois há uma ou outra alma que passa por mim subindo, os bofes de fora, a pele ruborizada pelo chicote do sol. Ainda bem que trago t-shirt e calções e chapéu e água A descida é penosa, a subida será um calvário mas vale a pena. Testo limites. Confronto o sol inclemente e olho para a extensão líquida onde vive Poseidon a quem aqui chamam Neptuno e que dá nome às grutas que chamam chusmas de turistas lá onde o penedo toca na água.
Ao cabo da descida, heróica para mim que sobrevivi às vertigens estando só, a entrada da gruta. Há um ancoradouro para os turistas que preferem vir no conforto dos barcos turísticos que os vomitam à entrada das cavernas. Olho para a fila de centenas de gente de mochila às costas e penso que não estou para aturar isto. Estou de férias e não me considero uma turista apenas. Desisto de ver as grutas dessecradas e devassadas por tanta e tanta gente. Faço-me à escadaria do precipício. Absorvo as vistas, sinto os pulmões e chego a fim, bem no cimo da montanha de pedra a desejar sentar-me nem que seja no chão. Recomponho a respiração. Estou feliz com o meu feito e aqui de cima a vista deste mar é sublime. Sublime. Estou só e a paisagem é tão tudo.
Gratidão...
São seiscentos e muitos degraus a pique esculpidos na verticalidade do penedo. O mar é fundo no fundo mas tão incomensuravelmente azul. Poucos se aventuram. Um ou outro casal que desce, aventuroso como eu na minha solidão. Depois há uma ou outra alma que passa por mim subindo, os bofes de fora, a pele ruborizada pelo chicote do sol. Ainda bem que trago t-shirt e calções e chapéu e água A descida é penosa, a subida será um calvário mas vale a pena. Testo limites. Confronto o sol inclemente e olho para a extensão líquida onde vive Poseidon a quem aqui chamam Neptuno e que dá nome às grutas que chamam chusmas de turistas lá onde o penedo toca na água.
Ao cabo da descida, heróica para mim que sobrevivi às vertigens estando só, a entrada da gruta. Há um ancoradouro para os turistas que preferem vir no conforto dos barcos turísticos que os vomitam à entrada das cavernas. Olho para a fila de centenas de gente de mochila às costas e penso que não estou para aturar isto. Estou de férias e não me considero uma turista apenas. Desisto de ver as grutas dessecradas e devassadas por tanta e tanta gente. Faço-me à escadaria do precipício. Absorvo as vistas, sinto os pulmões e chego a fim, bem no cimo da montanha de pedra a desejar sentar-me nem que seja no chão. Recomponho a respiração. Estou feliz com o meu feito e aqui de cima a vista deste mar é sublime. Sublime. Estou só e a paisagem é tão tudo.
Gratidão...
24 de agosto de 2019
Sardenha-Paraíso
Em Portugal chove em Agosto o Tejo está seco e há uma comoção por causa de greves de motoristas. Estou a um mundo de distância e acredito que ainda há paraísos na Terra. Não sei se durarão muito mais com este abuso que impomos ao planeta. Para já, desligo a mente, não quero saber de notícias e vou viver numa bolha auto-imposta e fantasista. Andamos todos a precisar de escapes de um mundo cada vez mais absurdo.
Inspiro o Mediterrâneo meu amigo numa Sardenha onde nunca vim.
Inspiro o Mediterrâneo meu amigo numa Sardenha onde nunca vim.
21 de agosto de 2019
Rumo à Sardenha
Depois de vários anos a viajar sem intermediação de agências, este ano em que profissionalmente me desgastei como nunca, preciso de entrar numa espécie de retiro do mundo e de tudo. Desligar. Estiar. Como o Mediterrâneo sempre me foi amigo e abrigo, escolho a Sardenha. Bem sei que é infestada de turistas, por isso na agência que vai tratar deste escape, pois nem força tenho para planear as férias e dou de bandeja que mas tracem e mas dêem prontas a consumir, o pré-requisito é explícito: não quero proximidade à Costa Smeralda, não quero enxames de turistas à volta. Quero paz e sossego.
A agência que contrato só trabalha com viagens à medida por isso a escolhi e, por isso, a certeza de que estará à altura. Encontram-me um local fantástico numa zona menos descoberta da Sardenha. Nunca ouvi o nome Alghero na vida, nem sabia que aí havia um aeroporto. Há. Só deve receber meia dúzia de voos por dia. É longe de Cagliari, a capital da Sardenha. Longe da Costa Smeralda, o íman de turistas na Sardenha. O hotel onde vou ficar nem sequer é em Alghero. Perco-me e é mesmo isso que desejo. Sardenha,aqui vou eu!
A agência que contrato só trabalha com viagens à medida por isso a escolhi e, por isso, a certeza de que estará à altura. Encontram-me um local fantástico numa zona menos descoberta da Sardenha. Nunca ouvi o nome Alghero na vida, nem sabia que aí havia um aeroporto. Há. Só deve receber meia dúzia de voos por dia. É longe de Cagliari, a capital da Sardenha. Longe da Costa Smeralda, o íman de turistas na Sardenha. O hotel onde vou ficar nem sequer é em Alghero. Perco-me e é mesmo isso que desejo. Sardenha,aqui vou eu!
17 de agosto de 2019
Córsega-Sardenha
Por muito mundo que eu corra, há sempre um chamamento que não sei como nasceu mas que sei de onde vem. Chama-se Mediterrâneo. Talvez que me tenha sido incutido pelo David Attenborough e pela sua série que mais me marcou a adolescência e se chama "O Primeiro Éden: O Mundo Mediterrânico e o Homem"ou talvez tenha nascido nos Verões com cheiro a pinho no Algarve da minha infância, dias longos e felizes passados com a minha família luso-alemã. Não sei, só sei que Mediterrâneo me é irresistível e, embora o Algarve não seja mediterrânico, o cheiro é e o cheiro é um poderoso criador de memórias. Sempre fui feliz no Mediterrâneo, esse mar quase sem vento e sem marés. Qualquer das orlas, sul, norte, este, oeste me são favoritas. Este ano vou conhecer mais um destino neste Mare Nostrum. Acho piada ao sobrevoo entre a Córsega e a Sardenha, o motor do avião, que me está na mira de visão, a fazer a divisória entre estas ilhas do Mediterrâneo ocidental. Vou para um delas. Talvez para o ano, ou em breve, vá à outra. Já estou feliz e ainda não aterrei. Primeiro vou a Roma fazer um transbordo e já regresso aqui.
3 de agosto de 2019
Acordar com Atlântico
Pensei acordar num atlântico inundado de sol e azul. Acordei entre brumas e cinzentos. Fixei-me na beleza selvagem e nórdica que a palidez das cores evoca. A meio do Norte, este Atlântico é tão vasto, profundo e misterioso que me lembra paisagens muito mais setentrionais e frias. Depois há o vento, essa presença aqui denominada nortada, o vento que nos refresca as noites, tão diferentes das do domesticado Mediterrâneo. Aliás, comparo sempre estas duas massas de água na lembrança de que uma é um oceano, a outra um mar e só isso faz toda a diferença.
Abro a portada e inspiro a brisa salina que me desalinha os cabelos e cuja frescura considero fria na contacto com o corpo. Podia ter acordado num belo dia de sol azul mas este cinza também tem o seu encanto.
Abro a portada e inspiro a brisa salina que me desalinha os cabelos e cuja frescura considero fria na contacto com o corpo. Podia ter acordado num belo dia de sol azul mas este cinza também tem o seu encanto.
6 de julho de 2019
Floresta no Montejunto
Há coisas perto de casa que são tão misteriosas, desconhecidas ou tomadas por garantidas que mal delas nos damos conta. Venho às arribas do Montejunto num dia em que desponta a Primavera. A floresta despida a tomar-se de sol, enquanto inspira serenamente, para o verde que aí vem, tem contornos de paisagem boreal dos contos dos irmãos Grimm. Quase parece uma floresta encantada de onde se espera surjam cavaleiros ou onde se escondem bruxas e fadas. Um passeio aqui, tão perto e tão longe da grande cidade, é entrar em todo um mundo de maravilha.
3 de julho de 2019
Jerez de la Frontera
Nunca me tinha acontecido ir a uma cidade monumental de fama e glória e encontrar a catedral fechada, penso que por causa da hora da siesta. Parece-me, mesmo, inaudito mas é o que aconteceu. Chego eu, pronta para me embrenhar em Jerez, que se deve chamar "de la Frontera" por ter sido aqui em tempos antanhos uma fronteira com os territórios mouros do al-Andaluz, e a cidade está fechada. O comércio fechado, a catedral fechada, o Alcázar fechado. Há uma bodega típica que faz provas de xerez, como convém na pátria deste vinho, ao pé de onde estacionamos o carro. Espreitamos só pois, palpita-nos que haverá tantas que poderemos escolher a que mais nos agradar. Rumamos ao centro da cidade e deparamos com o panorama desolado. Aberto, apenas a adega do Tio Pepe, íman turístico que não apela pela quantidade de gente que, estando o resto da cidade fechada, aí encontra com que se entreter. Dispenso e refazemos os passos até à bodega simpática e castiça ao pé do carro aparcado. Má sorte, triste fortuna. No entrementes de termos ido dar de caras com a catedarl fechada, os monumentos fechados e as filas de turistas a querer experiências vínicas pré-fabricadas, a bodega fechou. O que trago de Jerez? Nem uma garrafinha de vinho para recordação. Fuga foi o sentimento que dali nos levou.
30 de junho de 2019
Gibraltar visto de Espanha
O dia em que estive em Gibraltar estava nublado, pardacento, melancólico, muito diferente do dia em que subo aos montes vizinhos e o observo ao fundo na sua solidão de rocha escarpada e velha. Só assim se tem a real percepção da sua diminuta dimensão no coração de Espanha. Do aglomerado urbano que circunda O Rochedo, apenas uma ínfima fracção é Gibraltar, tudo o resto é Espanha que faz questão de se encostar o máximo que pode à fronteira. Mal se dá por ela. Parece uma portagem em hora de ponta e nada mais, ou um porto onde atracam ferries e se assista ao movimento de gente e carros de um lado para o outro. Olhando para a vastidão espanhola, Gibraltar, e o Rochedo em particular, têm a minúscula e dolorosa dimensão de uma ponta de alfinete ali cravada. Majestoso, O Rochedo domina, na sua altivez, a paisagem envolvente. Não é o promontório mais alto daquelas cercanias mas é singular pelo seu obstinado destaque e o não querer ligar-se à cordilheira que o cerca por todos os lados menos do do mar. Fiquei-lhe com respeito...
26 de junho de 2019
Baía de Cádiz
Associo Cádiz às descobertas espanholas, aos tempos imperiais, a uma época de navegações e rivalidades com Portugal. A localização de Cádiz tem o privilégio e a sorte de lhe dar duas caras, uma virada para um porto abrigado, gigante e sereno, e outra que a projecta para o mar aberto. É uma língua de terra rodeada de água e esse geoestrategismo deu-lhe a história e a importância. Ir a Cádiz obriga a que lhe façamos a circunferência. entremos pelas ruas do casco histórico e apanhemos a marginal nas costas da catedral Sigamos pela marginal que contorna o mar ventoso, continuemos e entremos pela marginal que percorre a serenidade da vasta baía.
As praias ficaram algures na década de 1950, parece-me. Guardam uma nostalgia perdida que não as torna modernas mas sim reminiscentes de esplendores de outrora. Têm também qualquer coisa de magrebino, o edifício de banhos, agora albergue arqueológico meio abandonado, teria enquadramento pleno numa praia marroquina ou tunisina, aqui fica numa descontextualização paradoxal de uma Espanha que, afinal, foi árabe. É neste cadinho de confluências culturais e geográficas que se ergue Cádiz, cidade de amarelos e rosas pálidos em fundos azuis de céu, mar e baía. Esperava, confesso outra monumentalidade, algo imponente como Sevilha ou, mesmo, Salamanca (tão diferente do espírito andaluz) mas Cádiz não é isso. Tem uma catedral de colosso, como convém e como seria expectável, tem igrejas de tamanho tudo menos menor mas falta-lhe o esplendor palaciano. é terra de comércio, de mercadores e marinha e exércitos estacionados, não é um local de grandes portentos cortesãos. Talvez necessite um pouco mais de carinho nos edifícios devolutos ou semi mas, quiçá, talvez seja isso que lhe dá o charme negligenciado...
As praias ficaram algures na década de 1950, parece-me. Guardam uma nostalgia perdida que não as torna modernas mas sim reminiscentes de esplendores de outrora. Têm também qualquer coisa de magrebino, o edifício de banhos, agora albergue arqueológico meio abandonado, teria enquadramento pleno numa praia marroquina ou tunisina, aqui fica numa descontextualização paradoxal de uma Espanha que, afinal, foi árabe. É neste cadinho de confluências culturais e geográficas que se ergue Cádiz, cidade de amarelos e rosas pálidos em fundos azuis de céu, mar e baía. Esperava, confesso outra monumentalidade, algo imponente como Sevilha ou, mesmo, Salamanca (tão diferente do espírito andaluz) mas Cádiz não é isso. Tem uma catedral de colosso, como convém e como seria expectável, tem igrejas de tamanho tudo menos menor mas falta-lhe o esplendor palaciano. é terra de comércio, de mercadores e marinha e exércitos estacionados, não é um local de grandes portentos cortesãos. Talvez necessite um pouco mais de carinho nos edifícios devolutos ou semi mas, quiçá, talvez seja isso que lhe dá o charme negligenciado...
23 de junho de 2019
Macacos de Gibraltar
Fomos bem avisados que os macacos do Rochedo são atrevidos, impertinentes e totalmente donos do espaço. São conhecidos por "roubarem" os turistas e pela dentada ocasional em gente mais imprevidente. Logo à entrada do teleférico, fotos de dentes aguçados avisam para o perigo de mordeduras. Não vou sem falta de aviso.
São a única colónia de macacos em solo europeu. Macacos de Barbária. Vi os seus primos há muitos anos empoleirados nas coníferas do Atlas marroquino. São iguais, a mesma pelagem densa dourado-acastanhado e avivam-me memórias de uma série menos conhecida, mas minha preferida, do David Attenborough, "O Primeiro Éden: O Mundo Mediterrânico e o Homem". Ao evocar a fauna mediterrânea veio aqui filmar estes macacos isolados e é ao vivo, neste seu habitat, que os venho encontrar. Movem-se com incrível agilidade nos penhascos. Dá-me vertigens vê-los a correr nas escarpas. Não me aproximo muito embora eles se aproximem de mim. Penso que me vão agarrar a carteira e, por isso, não quero cá intimidades. Entram pela cafetaria adentro, remexem em lixos e pacotes. São tudo o que eu pensava que seriam. Deixam-se fotografar mas pedem coisas em troca. São negociantes e mercenários que olham para nós com o desprezo altaneiro que, justificadamente, lhes merecemos. Em suma, mandam em nós e deixam-nos pensar o contrário. tiro-lhes o chapéu!
São a única colónia de macacos em solo europeu. Macacos de Barbária. Vi os seus primos há muitos anos empoleirados nas coníferas do Atlas marroquino. São iguais, a mesma pelagem densa dourado-acastanhado e avivam-me memórias de uma série menos conhecida, mas minha preferida, do David Attenborough, "O Primeiro Éden: O Mundo Mediterrânico e o Homem". Ao evocar a fauna mediterrânea veio aqui filmar estes macacos isolados e é ao vivo, neste seu habitat, que os venho encontrar. Movem-se com incrível agilidade nos penhascos. Dá-me vertigens vê-los a correr nas escarpas. Não me aproximo muito embora eles se aproximem de mim. Penso que me vão agarrar a carteira e, por isso, não quero cá intimidades. Entram pela cafetaria adentro, remexem em lixos e pacotes. São tudo o que eu pensava que seriam. Deixam-se fotografar mas pedem coisas em troca. São negociantes e mercenários que olham para nós com o desprezo altaneiro que, justificadamente, lhes merecemos. Em suma, mandam em nós e deixam-nos pensar o contrário. tiro-lhes o chapéu!
20 de junho de 2019
Gibraltar
O dia não era exactamente o que eu esperava. Nublado e fresco, não correspondia bem à imagem mental que eu trazia ao chegar ao Rochedo, esse enclave britânico, aguçado que nem uma espinha, no meio de terras andaluzes. Imaginava vir aqui num dia de sol radioso como o são os dias de sol andaluz.
Percebe-se logo porque é que Gibraltar se chama O Rochedo, na maiúscula do nome. É uma rocha imponente que se levanta na paisagem e nada mais. O Rochedo é um pedaço de rocha, ponto. Monumental e solitário, é o paradigma perfeito da definição de enclave. A entrada é feita através da pista do aeroporto. Cada centímetro de terra conta. Há casas na vertigem vertical da rocha, há terra tirada ao mar, tudo é apertado e claustrofóbico. Porém, a vida decorre e Gibraltar lembra-me Miami Beach em ponto micro: os empreendimentos virados para o mar que nos cortam a visão do mar, os habitantes anglo a fazerem o seu jogging, as marcas saxónicas, o inglês inesperado no meio do espanhol. É uma Grã-Bretanha tão ao sul que mais parece americana e os ingleses aqui não parecem viver em pátria sua mas numa espécie de expatriamento. O Brexit aqui foi rechaçado e não imagino o que seja a (re)imposição de fronteiras num território que, por força da sua exiguidade, tem de estar aberto sob pena de colapsar.
Percorre-se num ápice este espaço e, porém, a sensação é de que aqui os britânicos vivem em modo de auto-suficiência. Há aqui hospitais, escolas, jardins, comércio, bancos, colégios, igrejas de diferentes denominações e até uma mesquita. Recentemente, inaugurou-se a universidade de Gibraltar (coitada, que caminho terá de correr até chegar aos rankings da notoriedade e ser levada a sério). Não falta nada apesar de faltar espaço.
Naturalmente, a grande atracção é o topo do Rochedo, o teleférico vertiginoso até lá chegar e os macacos de Barbária que nos esperam ávidos e atrevidos. Mordo as vertigens e subo ao alto, vendo, cada vez mais nitidamente, os contornos do enclave e o horizonte de mar que aponta para África ali tão perto. As nuvens baixas que envolvem o topo dão ao Rochedo um ar melancólico. Penso que, em vez de decepção, tive uma sorte enorme de ver o Rochedo sob esta luz difusa e acinzentada que dá umas fotos bem distintas e diferentes das habituais com que se vende Gibraltar.
À saída, uma fila de carros com uma hora de espera empata o regresso a Espanha. O polícia de fronteira olha para o meu ar incrédulo e diz, sorridente, no humor britânico de que é filho:
- I bet this wasn't on the prospect!
Sim, de facto, isto não está em nenhum panfleto turístico.
Percebe-se logo porque é que Gibraltar se chama O Rochedo, na maiúscula do nome. É uma rocha imponente que se levanta na paisagem e nada mais. O Rochedo é um pedaço de rocha, ponto. Monumental e solitário, é o paradigma perfeito da definição de enclave. A entrada é feita através da pista do aeroporto. Cada centímetro de terra conta. Há casas na vertigem vertical da rocha, há terra tirada ao mar, tudo é apertado e claustrofóbico. Porém, a vida decorre e Gibraltar lembra-me Miami Beach em ponto micro: os empreendimentos virados para o mar que nos cortam a visão do mar, os habitantes anglo a fazerem o seu jogging, as marcas saxónicas, o inglês inesperado no meio do espanhol. É uma Grã-Bretanha tão ao sul que mais parece americana e os ingleses aqui não parecem viver em pátria sua mas numa espécie de expatriamento. O Brexit aqui foi rechaçado e não imagino o que seja a (re)imposição de fronteiras num território que, por força da sua exiguidade, tem de estar aberto sob pena de colapsar.
Percorre-se num ápice este espaço e, porém, a sensação é de que aqui os britânicos vivem em modo de auto-suficiência. Há aqui hospitais, escolas, jardins, comércio, bancos, colégios, igrejas de diferentes denominações e até uma mesquita. Recentemente, inaugurou-se a universidade de Gibraltar (coitada, que caminho terá de correr até chegar aos rankings da notoriedade e ser levada a sério). Não falta nada apesar de faltar espaço.
Naturalmente, a grande atracção é o topo do Rochedo, o teleférico vertiginoso até lá chegar e os macacos de Barbária que nos esperam ávidos e atrevidos. Mordo as vertigens e subo ao alto, vendo, cada vez mais nitidamente, os contornos do enclave e o horizonte de mar que aponta para África ali tão perto. As nuvens baixas que envolvem o topo dão ao Rochedo um ar melancólico. Penso que, em vez de decepção, tive uma sorte enorme de ver o Rochedo sob esta luz difusa e acinzentada que dá umas fotos bem distintas e diferentes das habituais com que se vende Gibraltar.
À saída, uma fila de carros com uma hora de espera empata o regresso a Espanha. O polícia de fronteira olha para o meu ar incrédulo e diz, sorridente, no humor britânico de que é filho:
- I bet this wasn't on the prospect!
Sim, de facto, isto não está em nenhum panfleto turístico.
15 de junho de 2019
Tarifa
Vem de há muito o desejo de ir ao ponto mais ao sul na Europa continental. Localiza-se em Espanha e é em Tarifa, aquela espécie de península triangular que ajuda a fazer o estreito que separa a Europa de África. Todos os viajantes nutrem sonhos de ir a sítios relacionados com algo único: o ponto mais a oeste, o mais a norte, a maior queda de água, qualquer coisa superlativa. Cá venho, então, finalmente vinda a possibilidade de concretização de uma aspiração viajante.
Sabia que é um local ventoso e surfeiro. Confirmo. Parques e parques de campismo, auto-caravanas, gente alternativa que deve viver de aventuras e estrada. O mar é bonito, orlado de ondas que rebentam brancas porque o vento as bate e espuma. À entrada de Tarifa antiga, uma placa na porta da muralha indica que foi cidade-fiel quando os mouros a queriam e quando deles se livrou. O carro segue vagaroso pelas ruas da cidade, evitando os hippies, os surfistas, os turistas e os imigrantes. É suja, muito suja. As casas decaem num misto de negligência e salitre do clima marítimo. O vento carrega as ruas de areia e os estacionamentos são raridades rarefeitas. Vejo o mar. Não me detenho mais do que cinco minutos, só para sentir que já aqui estive. Não penso regressar e não terei saudades do sítio, talvez sim do momento. Porque é uma viagem e eu amo viajar. Porque estou acompanhada e amo quem me acompanha. De outras coisas não, Tarifa não me acorda a sensação que espoleta a saudade. Vi, está visto. Isto é o ponto mais ao sul da Europa continental e não lhe acho beleza nenhuma a não ser que é o ponto mais ao sul da Europa continental.
Sabia que é um local ventoso e surfeiro. Confirmo. Parques e parques de campismo, auto-caravanas, gente alternativa que deve viver de aventuras e estrada. O mar é bonito, orlado de ondas que rebentam brancas porque o vento as bate e espuma. À entrada de Tarifa antiga, uma placa na porta da muralha indica que foi cidade-fiel quando os mouros a queriam e quando deles se livrou. O carro segue vagaroso pelas ruas da cidade, evitando os hippies, os surfistas, os turistas e os imigrantes. É suja, muito suja. As casas decaem num misto de negligência e salitre do clima marítimo. O vento carrega as ruas de areia e os estacionamentos são raridades rarefeitas. Vejo o mar. Não me detenho mais do que cinco minutos, só para sentir que já aqui estive. Não penso regressar e não terei saudades do sítio, talvez sim do momento. Porque é uma viagem e eu amo viajar. Porque estou acompanhada e amo quem me acompanha. De outras coisas não, Tarifa não me acorda a sensação que espoleta a saudade. Vi, está visto. Isto é o ponto mais ao sul da Europa continental e não lhe acho beleza nenhuma a não ser que é o ponto mais ao sul da Europa continental.
12 de junho de 2019
E, claro, a Macarena
Naturalmente que eu não poderia deixar Sevilha sem ir ver a Virgem de Macarena. Tampouco poderia ir embora de um sítio aficionado destes sem ir ver a padroeira dos aficionados, a Virgem de Macarena, a tal que eu pensava também tivesse uma imagem na catedral e devo ter passado por herege tal a blasfémia do meu pensamento audaz. a Virgem de Macarena alguma vez teria uma imagem na catedra? Não. Ela tem toda uma igreja. Só dela e só por ela. Quando chego, a igreja da Macarena está, como todas por estes dias, de portas abertas de par em par e um mar de gente, devota ou só curiosa, lá dentro em enchente que transborda para fora. O andor da santa está pronto para a sua hora de procissão. Decorado com mil velas e desvelos é uma coisa barroca e tão pujante que a santa para mirrar naquela profusão decorada.
- Mira, como parece una niña - oiço a meu lado uma senhora emocionada que prossegue dizendo que a santa é linda e tem uma cara linda, linda como se fosse uma criança de carne, osso e vida.
entro na igreja, misturada com o mar de gente de telemóvel em riste a fotografar a santa maravilhosa. Faço o mesmo mas apenas com a curiosidade sociológica pelo momento que vejo desenrolar-se. Atento os ouvidos para ouvir pedaços de conversas e afirmações relativas à santa. Amam o manto que, pelos vistos, é das coisas mais apreciadas pelas santas em época pascal. Concordo que é toda uma imponência este manto de veludo verde, bordado em relevo a fio de ouro. Que povo assim adorna os seus santos? Que horas e investimentos estarão neste manto e em todos os outros de todas as outras santas de todas as outras igrejas? Dou a volta ao andor-altar em que, solene e hirta, a santa pacienta sob o nosso olhar colectivo. Reparo também nas paredes da igreja, no altar desocupado, nas capelas adjacentes e no fausto, opressivo de tão rico, que decora a casa desta santa, padroeira de toureiros e matadores, de aficionados, de ciganos e dos andaluzes. Esta Virgem é a Nossa Senhora andaluz. Aqui, nesta igreja, melhor chamada basílica, é Nossa Senhora da Esperança Macarena, a Virgem, a deusa em toda a sua glória.
- Mira, como parece una niña - oiço a meu lado uma senhora emocionada que prossegue dizendo que a santa é linda e tem uma cara linda, linda como se fosse uma criança de carne, osso e vida.
entro na igreja, misturada com o mar de gente de telemóvel em riste a fotografar a santa maravilhosa. Faço o mesmo mas apenas com a curiosidade sociológica pelo momento que vejo desenrolar-se. Atento os ouvidos para ouvir pedaços de conversas e afirmações relativas à santa. Amam o manto que, pelos vistos, é das coisas mais apreciadas pelas santas em época pascal. Concordo que é toda uma imponência este manto de veludo verde, bordado em relevo a fio de ouro. Que povo assim adorna os seus santos? Que horas e investimentos estarão neste manto e em todos os outros de todas as outras santas de todas as outras igrejas? Dou a volta ao andor-altar em que, solene e hirta, a santa pacienta sob o nosso olhar colectivo. Reparo também nas paredes da igreja, no altar desocupado, nas capelas adjacentes e no fausto, opressivo de tão rico, que decora a casa desta santa, padroeira de toureiros e matadores, de aficionados, de ciganos e dos andaluzes. Esta Virgem é a Nossa Senhora andaluz. Aqui, nesta igreja, melhor chamada basílica, é Nossa Senhora da Esperança Macarena, a Virgem, a deusa em toda a sua glória.
8 de junho de 2019
Preparar as procissões
As ruas estão, como convém, engalanadas para, com respeito, deixarem passar a procissão. Das janelas e varandas caem panos brocados cor de sangue e debruns de ouro. Devem ter um nome específico. Alguns são tão vistosos que estão decorados com palmas e entrançados de alguma coisa semelhante a verga ou palha. Porém, como em Portugal também há o hábito das colchas à janela para receber a procissão, não é isso que me espanta o olhar. O que me aguça a visão é os milhares de cadeiras empilhadas, os espaços reservados para quem se queira sentar a ver as procissões com aqueles andores que pesam toneladas e que se movem à velocidade ínfima de centímetros por minuto. Sim, só mesmo sentada é que uma pessoa consegue ver o desenrolar da procissão. Da minha experiência anterior, uma procissão leva horas a passar, horas a cobrir uns poucos de metros. As ruas seguem-se umas às outras com cadeiras e cadeiras, empilhadas umas, já dispostas outras, e eu imagino o serpentear longo e lento da procissão tal anaconda. Admiro a fé destas gentes.
5 de junho de 2019
Esta coisa das procissões
Foi há dois anos em Salamanca que, pela primeira vez, vi uma procissão espanhola de Semana Santa. Tinha acabado de deixar as coisas no hotel e ia, curiosa e desperta, ver o que a cidade tinha para oferecer a alguém recém-chegado. Era aquele passeio de reconhecimento que fazemos quando chegamos a um local novo e todos os nossos sentidos são, e estão, abertos para a novidade. Ao aproximar-me das imediações da catedral, povo e mais povo na rua. Caminho mais um pouco e dou de caras com o que, sinceramente, me pareceu a fonte de inspiração dos robes malfadados do Ku Klux Klan. Palavra de honra que tomei susto. Eram, afinal, os pagadores de promessas e aqueles devotos que assim queriam ir na sua fé e respeito pela solenidade da morte do Cristo. Achei, em comparação, as nossas lusas procissões eventos mais felizes e ligeiros, como se a fé do Catolicismo português fosse menos suplicante e sofredora do que a espanhola.
Dois anos depois, estou no centro de Sevilha em plena Semana Santa. O mesmo fervor da angústia pelo Cristo mortificado e a mortificação por via da procissão, via-sacra de expiação e dor. Novamente aqueles capuzes e aqueles robes que me assomam à mente imagens de horror do outro lado atlântico. Respeito estas manifestações de fé. Quem sou eu para dizer seja o que for? Vejo a procissão com olhos de turista, ou talvez de viajante que pensa em milhentas coisas acordadas por estas imagens. Vejo, penso e demito-me de opinar.
Dois anos depois, estou no centro de Sevilha em plena Semana Santa. O mesmo fervor da angústia pelo Cristo mortificado e a mortificação por via da procissão, via-sacra de expiação e dor. Novamente aqueles capuzes e aqueles robes que me assomam à mente imagens de horror do outro lado atlântico. Respeito estas manifestações de fé. Quem sou eu para dizer seja o que for? Vejo a procissão com olhos de turista, ou talvez de viajante que pensa em milhentas coisas acordadas por estas imagens. Vejo, penso e demito-me de opinar.
1 de junho de 2019
Nem sei como escapei
Sendo um edifício circular, a Maestranza vê-se no plano "à volta" e foi ao dar a volta à praça que não sei como escapei ilesa das coincidências acidentais que ao pé de mim ocorreram.
Sevilha é como a Itália: motas, motoretas, vespas, motocicletas e o diabo a sete em duas rodas. Andando eu de nariz para o ar nas costas da praça de toiros e á procura da dita, oiço atrás de mim uma queda com som metálico, raspar de coisa pelo alcatrão e ais humanos. Percebi o acidente atrás de mim pelo som. Pelo som inquietei-me por o arrastamento que ouvia não parar. Pensei que viesse para cima de mim. Apressei o passo e só metros adiante, olhando para trás, confirmei a moto caída com os seus dois ocupantes. O que, nesse instante, dei conta foi como as pessoas estavam a olhar para mim em pasmo pois, pelos vistos, não se vislumbra como é que eu não fui colhida pelo arrasto da mota caída.
Mal refeita do susto e após me distrair no interior da Maestranza a ver as portas rubras de sol e sombra, eis que me vou embora. À frente dos olhos passa-me uma moto que, ao curvar no semáforo onde eu estava parada à espera da minha luz, cai no chão, jogando de arremesso o seu motorizado condutor. Em escassos minutos de intervalo, livrei-me de infelizes acasos, infortúnios súbitos que me teriam estragado Sevilha. O que posso dizer? Obrigada à qualquer sorte benfazeja que ali por mim esteve e cuidado em Sevilha que as motos são um perigo.
Sevilha é como a Itália: motas, motoretas, vespas, motocicletas e o diabo a sete em duas rodas. Andando eu de nariz para o ar nas costas da praça de toiros e á procura da dita, oiço atrás de mim uma queda com som metálico, raspar de coisa pelo alcatrão e ais humanos. Percebi o acidente atrás de mim pelo som. Pelo som inquietei-me por o arrastamento que ouvia não parar. Pensei que viesse para cima de mim. Apressei o passo e só metros adiante, olhando para trás, confirmei a moto caída com os seus dois ocupantes. O que, nesse instante, dei conta foi como as pessoas estavam a olhar para mim em pasmo pois, pelos vistos, não se vislumbra como é que eu não fui colhida pelo arrasto da mota caída.
Mal refeita do susto e após me distrair no interior da Maestranza a ver as portas rubras de sol e sombra, eis que me vou embora. À frente dos olhos passa-me uma moto que, ao curvar no semáforo onde eu estava parada à espera da minha luz, cai no chão, jogando de arremesso o seu motorizado condutor. Em escassos minutos de intervalo, livrei-me de infelizes acasos, infortúnios súbitos que me teriam estragado Sevilha. O que posso dizer? Obrigada à qualquer sorte benfazeja que ali por mim esteve e cuidado em Sevilha que as motos são um perigo.
29 de maio de 2019
Real Maestranza
Goste-se ou não de toiros, não se vai a Sevilha sem passar pela Real Maestranza, catedral-mor da tauromaquia e dessa afición de tardes soalheiras em que homens e bichos fazem arte de uma luta milenar.
Passo por aqui apenas para sentir um pouco desse ar aficionado que aqui se respira. não é uma praça como as nossas, isolada. Faz parte do tecido urbano, fundindo-se com o casario à volta, de tal forma que passa despercebida se a vermos do lado de trás, o lado da rua comercial. Parece mais um outro prédio e nada mais. Só de frente é que lhe apercebemos o lado monumental. Surpreendo-me ao ver que tem uma biblioteca lá dentro. devidamente assinalada, presumo que seja um tesouro de livros e palavras dedicados a esta arte que envolve três espécies de seres viventes: homens, cavalos, toiros. Dou a volta, respeito e vou-me embora, deixando aos turistas as vistas da arena e o tour pelo dédalo da praça.
Passo por aqui apenas para sentir um pouco desse ar aficionado que aqui se respira. não é uma praça como as nossas, isolada. Faz parte do tecido urbano, fundindo-se com o casario à volta, de tal forma que passa despercebida se a vermos do lado de trás, o lado da rua comercial. Parece mais um outro prédio e nada mais. Só de frente é que lhe apercebemos o lado monumental. Surpreendo-me ao ver que tem uma biblioteca lá dentro. devidamente assinalada, presumo que seja um tesouro de livros e palavras dedicados a esta arte que envolve três espécies de seres viventes: homens, cavalos, toiros. Dou a volta, respeito e vou-me embora, deixando aos turistas as vistas da arena e o tour pelo dédalo da praça.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

















