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28 de junho de 2021

23

 Mamã, já não sei entrar aqui e tenho receio que um dia não consiga de todo mas, apesar do receio, não venho. Perdi o tempo. Perdi a vontade. Sobretudo o tempo. Perdi outras coisas este ano muito, muito mais importantes do que o tempo que não tenho. Gostava de me perder também, vogar livre ao teu encontro. Resisto. O Pai enxotou-me antes de ir embora, sabias? Foi tudo tão diferente com ele. Não sei onde anda. Talvez tenha ido ter contigo mas se o tivesse feito eu sentiria, não? Ou ele talvez faça parte de um círculo de gente tua e não minha. Acho que cada um de nós tem círculos de gente sua. Eu posso estar no teu círculo e não conhecer toda a tua gente, tal como tu não conheces toda a minha. E há gente que só encontramos uma vez. Talvez o pai me tenha sido gente dessa do uma só vez. Seja como for, está tudo diferente. Só não está diferente este falar contigo neste dia. 

Voltei a ver o futuro como o via depois de te teres ido embora. Acho que vivi uns anos de interregno dessa visão. Talvez me tenha iludido No diferente que tudo está, voltei ao que era. Em suma, se calhar não está tudo tão diferente assim. Vir aqui verbalizar ajuda-me a pensar que sim, se calhar não está tudo diferente houve foi uma recolocação de coisas e pessoas. Nunca pensei viver para dizer que te foste há 23 anos. Uma vida. Passou rápido com dias lentos. Que eu aqui esteja é que me espanta. Tanto tempo, Mãe, e tu sempre aqui e eu vivendo aqui. 

Queria perder-me. Que estupidez. Estou tão perdida, Mãe. Ando tão longe e pesa-me tudo. Às vezes penso de onde venho. Nesses  momentos de alguma lucidez vejo que grande foi a viagem, muito, bem  para lá do que eu podia pensar quando esperava o autocarro vinda do Nada para ir de regresso a casa ao fim do dia e pensava no que seria o desconhecido que me aguardava no futuro. Já o conheço. É enorme. No entanto, não me sabe a nada. Estas ironias são tramadas. Deveria saber-me a tudo mas é-me indiferente. Só tu me és. Amor da minha vida. Só tu me és...

28 de junho de 2020

22

Mamã, deixei de vir aqui. A vida faz-se de novos projectos, o tempo foge, as responsabilidades aumentam. Mudou muito e mudou pouco desde a última vez que aqui estive. Basicamente, mudei-me para outras paragens digitais, mais na moda, mais imediatas, sei lá. O tempo não cresce e um blogue faz-se de tempo e disponibilidade. Noutros lados, a rapidez compensa o tempo que me escorre fugaz.

2020 está a ser um ano pesado de estranho, fico feliz que cá já não estejas. Dizias-me que eu estava segura quando me aconchegavas os cobertores e prometias que não haveria mais nenhuma guerra, nós que sempre fomos traumatizados de guerra. Acreditei que o mundo era o lugar que me prometias no meu conforto mesmo sabendo das guerras e de todas as inseguranças e terrores que assolam o mundo. Por alguma razão, não me atingiriam, afinal nós estamos na zona confortável do planeta e da vida, os tais 10%.

22 anos depois, aqui estamos nesta estranheza de tudo. O mundo parou, os países fecharam, as pessoas esconderam-se, nada é normal e, na minha vida, nada também é normal. No dia antes de o país fechar despedi-me do Spotty à tardinha. Uma despedida definitiva a um amigo que partilhou o meu caminho durante mais de treze anos. Juntos até ao fim. Não tive tempo de luto ou de me aperceber do sucedido porque no outro dia, toda uma outra realidade amanheceu. Parecia um filme catástrofe com a diferença de ser real e não ter um fim esperado. Ainda não sabemos o fim. O Pai já não é ele. Vive num corpo que parece o dele uma existência sem presente e nunca pensei que tivesse de assistir a esta velhice. No outro dia fugiu do hospital. Tem apenas fugazes lampejos de ser ele. Vive contigo e antes de ti num passado em que só ele vive A Tante Ruth morreu no Verão e agora que quero ir vê-la ao cemitério a Berlim, as fronteiras estão mais fechadas do que durante a Guerra Fria que nos amedrontava e que tu prometias nunca me ir afectar. Não reconheço nada disto, Mutti.

Hoje são 22 anos. Penso neste número, como penso em todos os números a cada ano destes anos: em incredulidade. Morrias-me hoje há 22 anos e hoje eu vou gravar um episódio para o meu canal. Imagina! Eu tenho um canal de programas que filmo à frente da câmara por trás da qual está o marido que me apareceu muito depois de tudo e que tu nunca conheceste. Ele acha-te linda. Como não? Vê as tuas fotos e acha-me parecida contigo. Às vezes já me olho ao espelho e vejo-te. O ar nos olhos que me olham do espelho é o teu. A expressão está cada vez mais tu à medida que me aproximo da tua idade. Tem vezes que acho que não chego lá, que vou partir antes ainda do precoce em que partiste. Quem sou eu para te ultrapassar na idade. Tem outras que acho que me farei velha como a Avó ou mais. Escrevi sobre essa velhice e saiu uma livro que viu a luz do dia e que agora, vê só, vai levar a nossa história além-fronteiras. Como vês, passa-se tudo mesmo que me parece que não se passa nada pois eu estou sempre aqui contigo no coração como se o tempo não existisse pois não é possível que sejam vinte e dois anos.

Nestes últimos tempos, e talvez porque me esteja a aproximar de ti na idade ou no tempo a menos que falta para te reencontrar, tenho pensado no propósito da minha vinda Aqui e nos meus sentimentos. Chego à conclusão que vim para ti e por ti e que tu és o grande amor da minha vida. Se sinto falta ou pena de nunca ter sido mãe? Não, na verdade.Eu sou sou mãe, e, por isso, não tenho nem pena nem falta. Fui tua mãe quando tu precisavas de uma. Fui mãe da tua outra filha quando tu lhe faltaste e sou tia-mãe de duas crianças felizes que se enganam e me chamam mãe de tanto que me amam e de tão habituadas estão À minha existência na sua. Amo todos na minha vida, daria a vida sem pestanejar pelos meus e fá-lo-ia alegre mas tu és o Amor da minha vida, a alma antiga que me acompanha desde antes de mim, que me inspira os livros e me sopra o fôlego dos sentimentos.

Deixei de vir aqui, Mamã, mas por ti regresso sempre...

7 de agosto de 2019

Mudança de vida

Sem que nada o desse a entender, esta estação de comboios, numa Baixa lisboeta que nunca frequento, nem mesmo me são sítios próximos as estações de comboio, mudou-me a vida há exactamente dez anos. Nunca mais nada foi igual. A própria Lisboa não era igual a esta, tão sobrelotada.
A cor da noite caíra sobre o céu, o relógio da Estação do Rossio marcava as 21.30. A vida aconteceu e acontece desde aí...

28 de junho de 2019

21

Às vezes penso quando é que vou deixar de vir aqui, de me lembrar deste dia, quando o vou esquecer ou fazer dele uma banalidade normal daquelas que nos passam despercebidas. Acho que não o faço por isso seria traír-te, menorizar-te no meu coração, quando menor é tudo o que não és nem nunca foste. O filho que eu teria tido, se fosse vida e não morte o que assinala esta data, seria um adulto na plenitude da maioridade, aquela a que se chegava antes de ela ter descido aos dezoito anos do fim adolescente. Quem seria e o que faria com os seus vinte e um anos. Que vida teria eu tido mãe dessa pessoa? Ao invés, tenho sido filha ferida pela saudade e pela amputação. Nunca o superei, como não o quero superar.
Não é masoquismo esta lembrança, é uma forma de me avivar de ti, Tu que andas sempre presente e te fazes notar a cada instante. A vida seguiu-nos, de uma maneira estranha, é certo, mas seguiu. Hoje temos o que temos, sendo o que somos, órfãos de ti mas gente viva que viveu o que soube e pôde depois daquilo. Vinte e um anos, Mãe. Vinte e um, tenho de repetir para me dar conta do lapso de tempo menos rico e feliz que passou entre aquele dia e hoje. Lembro-me de como pensava que cinco anos eram tantos, depois dez e mais e agora isto, este número com tendência a crescer, enquanto decresce a minha proximidade de ti.
No meio disto tudo sou feliz. Feliz porque te tenho e feliz da sorte que me fez ser-te o que sou. Não me fiz mãe de algum filho que agora fizesse vinte e um anos e estivesse prestes a seguir a sua vida longe de mim. Continuei filha e filha morrerei, como morreria se me tivesse feito mãe como a tua outra filha. É assim a vida, eu venho aqui, um dia estarei aí.
Não se dizer como te amo... Mãe.

5 de maio de 2019

Mães

Tenho uma sorte incrível. Há três mães na minha vida e isso é excepcional.
Há a Mãe, essa Tudo.
Há a minha irmã que vejo tão orgulhosamente mãe.
E há uma mãe que me adoptou em amor.
As mães são, inequivocamente, o melhor do mundo.

5 de janeiro de 2019

O que se descobre em árvores de Natal

Quando dei aos meus sobrinhos (8 e 5) liberdade para decorarem a árvore de Natal deste ano, devem ter entendido que liberdade era o máximo absoluto de que as suas cabeças infantes se lembrassem. É assim que descubro onde vieram parar os cabos das sombrinhas de chocolate que lhes dei.
Com a sua virola (mesmo apropriada para pendurezas) e a sua chamativa cor amarela, devem ter pensado os petizes que os cabos dariam magníficas decorações.
A Tia, por sua vez, lá pensa que nada como a imaginação infantil para nos colocar, a nós adultos convencionais, um sorriso nos lábios...

26 de dezembro de 2018

Árvore 2018

Há dois duendes, de 8 e 5 anos, que se encarregam das decorações natalícias. Dou-lhes uma autorização excepcional este ano: podem escolher o sítio onde vamos colocar a árvore de Natal (como sempre, nesta casa, um resto qualquer de poda). Exultam na alegria de tão fantástica liberdade. Digo-lhes que a mãe deles gostava muito das maçãzinhas quando era pequena. Enchem a árvore de maçãzinhas, como a enchem de ornamentos que vão descobrindo dentro de caixas dentro de caixas. Refreio os meus impulsos de lhes dizer que estão a meter demasiadas coisas na árvore. Não dou palpites e fico-me a observá-los entretidos e a ouvir as suas conversas e negociações. Eles podem estar alegres, eu estou mais, muito e indizivelmente mais.
Também os autorizo a decorar a casa. Ainda me assoma um semi-pensamento de que me vou arrepender na hora de ter de desmontar o Natal mas não quero saber. Lembro-me dos Natais mágicos da minha infância feliz e quero proporcionar algo semelhante aos meus sobrinhos. Acabo com os corrimões decorados, as portas todas, casas-de-banho e cozinha e tudo o que seja puxador de gavetas e móveis. Sim, vai ser bonito arrumar o Natal mas jamais tão bonito como vê-los azafamados.
Um Natal onde haja crianças corresponde a todos os clichés e frases gastas de tão verdadeiras que são.
Feliz Natal!

24 de novembro de 2018

Pedro Rolo Duarte: um ano já e tão longo

Era sexta-feira quando o telefone tocou. A voz do outro lado dizia que tinhas morrido. Tinhas morrido, imagina! como se tu pudesses morrer assim sem mais nem menos. Mas era isso que eu ouvia: tinhas morrido. O choque foi paradoxal. Levou uns momentos a instalar-se ao mesmo tempo que era súbito. De repente tinhas-me-nos morrido e eu não sabia o que fazer com essa realidade.
Telefonei a gente que te tinha em comum comigo e era voz de desalento e surpresa o que eu ouvia.
Vesti-me de linda para ir ter contigo à noite como nas vezes em que saíamos e tu me achavas bonita. Só tu para me fazeres rir no teu velório. só tu para me dares uma derradeira despedida desconstruída para nos rirmos sonoramente. Entrei no velório errado, um daqueles velórios do excesso de morte. Eu linda e tudo e todos em modo sorumbático de olhares de estranheza à minha aparição. Achei aquilo tudo mórbido demais mas enfim, era o teu velório e aquelas pessoas que eu não conhecia tinham tanto direito a conhecer-te como eu.
O outro Pedro da minha vida deixou-me estar nos meus pensamentos que falavam contigo. Deu-me tempo antes de, de mansinho, me tocar no ombro e me dizer que eu estava no velório da pessoa errada. Saí envergonhada e meio a pensar que me deviam ter considerado qualquer coisa como "a outra" que se ia despedir. Ri baixinho pela situação trágico-cómica.
Depois encontrei-te ao som de Sting e das músicas que gostavas e que comigo partilhavas quando me fazias CDs com as tuas playlists. Sempre tiveste bom-gosto nesse departamento. Tinhas chamado os amigos e era como se nos encontrássemos para um serão em que eras o anfitrião. Despedi-me de ti por entre o sorriso da cena anterior e o coração despedaçado.
No dia seguinte, fui ao ginásio, como costumo aos Sábados de manhã. No final da aula, os alongamentos foram feitos ao som de uma música que me lembrou de ti. Desabei em público porque foi aquela música que me disse que nunca mais aqui estarias fisicamente. Recebi tanto amor nessa hora. As colegas da aula, que por respeito à tristeza que imaginavam eu estaria a sentir, não tinham tocado no assunto da tua morte, saltaram sobre mim num abraço colectivo. O meu luto por ti começava.
Passou um ano e eu lembro-me tantas vezes de ti...

11 de setembro de 2018

A descobrir o meu sobrinho

Estamos no carro. Pede-me U2.
- Um álbum qualquer, Tia. Conheço-os todos.
Parte do meu cérebro trava enquanto a outra tenta perceber. Tem sete anos.
- U2? - pergunto.
- Sim, Tia.
Tocam os U2. Sabe as letras todas. Canta-as e o meu cérebro sem perceber aquela possibilidade. Pergunto-lhe se o pai ouve U2 porque nem eu, nem a mãe dele ouvimos.
- Descobri sózinho.
- E gostavas de ir a um concerto dos U2?
- Adorava, Tia. Mas os bilhetes são só para adultos. Adorava, Tia.
Já se passaram uns dias e eu continuo nesta estupefacção. O meu sobrinho de sete anos descobriu U2, gosta de U2 e canta U2 sem que isso lhe seja um gosto ensinado. Que tempo é este que corre tão veloz?

Descubro, por coincidência, que vou a um concerto de U2 para a semana. Não sou fã. Não aprecio particularmente se bem que a minha canção favorita de sempre seja "One" na versão Mary J. Blige e U2. Eu vou ao concerto sem saber que os U2 vinham cá. Vou sem saber que ia e o meu sobrinho que ama e adora não vai porque só tem sete anos. Ele há cada coincidência...

28 de julho de 2018

Coincidências na Lua de Sangue

Dizem que os planetas estavam alinhados, que esta lua só de cem em cem anos nos agracia com esta vista. Dizem coisas que não acredito. Só sei, porém, que a minha vida pode ter mudado ontem, no dia da Lua de Sangue, com os planetas alinhados e todas as coincidências cósmicas em que não acredito mas que me deixam alerta e meio atónita.
A vida da minha irmã também mudou ontem. Será que há coincidências?

28 de abril de 2018

Chegar a Rothenburg ob der Tauber

Chegar a Rothenburg ob der Tauber é chegar ao Natal, às imagens dos postais ilustrados com cenas natalícias, é chegar ao coração da Estrada Romântica no que mais tem de encantador e, lá está, romântico. Rothenburg é a vila pitoresca por excelência, a autêntica pérola desta estrada feita turismo e iconografia nostálgico-romântica. Venho com expectativa de reencontro e na ilusão, aquela que traduz a esperançosa e esperançada ilusión espanhola, de mostrá-la ao meu marido e acordar-lhe memórias de infância. Sim, trago ilusão no coração neste regresso a Rothenburg.
 Perco-nos nas ruazinhas castiças e enfeitadas de flores, sentindo-nos a passear pela paisagem de um postal tridimensional. A cada esquina os olhos arregalam-se. Tanto se têm arregalado nesta viagem e ainda não estão de tal cansados. Quero ver tudo e quero que o meu marido tudo veja, o que me duplica as coisas a ver: a envolvente e as reacções dele. Vejo uma chocolataria artesanal com Schultüten na montra. Shultüten... Memórias, familiaridades. Os Schultüten são uns cones de cartolina que as crianças levam no primeiro dia de aulas. Vão cheios de gulodices e materiais escolares diversos e coloridos. Entro. O chocolateiro, dono da loja, faz-nos uma demonstração de como molda ursos de chocolate e outras criatividades, como instrumentos musicais à escala normal para clientes excêntricos. É tudo muito giro mas eu quero mesmo é comprar dois Schultüten para levar para os meus sobrinhos de 6 e 4 anos. Quero que passem pela experiência. Porém, criados à portuguesa vão olhar para os cones como apenas, e só, mais umas lembranças que a tia lhes traz. Os Schultüten não lhes dizem o mesmo que me dizem a mim. Talvez um dia tenham a memória de a tia lhes ter dado umas coisas engraçadas e típicas do seu primeiro país. Por ora, são só umas embalagens curiosas com guloseimas, lápis de cor e borrachas. Enfim, fiz o que o coração mandou...
Sigo o passeio, embrulhada na felicidade quente que emana dos Schultüten da minha infância. Impossível vir a Rothenburg sem que a infância, onde quer que tenha sido passada, como quer que tenha sido passada, não nos assalte. Só por isso, creio Rothenburg uma cidade de paz e afabilidade. Que bom não ter morrido sem nunca aqui ter vindo...

11 de abril de 2018

Comer e beber à beira Reno

À beira do Reno, essa via rápida da Europa, e à sombra da catedral existem excelentes oportunidades para uma paragem para desfrutar o cenário e as maravilhas de Colónia. Quero surpreender o meu marido, mergulhado-o, metaforicamente, no complexo mundo das cervejas alemãs. Colónia é um óptimo local para esse rito de passagem já que Colónia é famosa pela sua Kölsch, a cerveja típica cá do sítio e, para mim, "a" cerveja (ou seja, mais outra das originalidades de Colónia). Entro numa Bierhaus com esplanada virada para o rio, uma das muitas, e pergunto se tem Kölsh.
- Mas há outra? - pergunta a rir o empregado. - Claro que há! É só o que há! - exclama como se o mundo multiplural da cerveja se resumisse a esta. O meu marido nota o humor e olha para mim como quem pensa que, afinal, estes tipos germânicos até têm esse sentido fino que os estereótipos lhes retiram. Sentamo-nos e eu peço uma Halver Hahn para cada um de nós. É a sanduíche típica de Colónia. Enquanto aguardamos, leio, ou tento, os dizeres da "Constituição de Colónia", as Kölsche Grundgesetze. Maravilho-me em continuidade com a riqueza linguística deste país. Uma vez li um artigo no The Guardian a confirmar o que nós sabemos e que a maioria dos estrangeiros ignora: na Alemanha a língua menos falada é o Alemão. Rio mentalmente nessa lembrança. Aliás, o adjectivo para denominar "de Colónia" em Alemão é "Kölnisch" mas na língua falada em Colónia é "Kölsch", tal como a cerveja. Faço a tentativa de ler, mas sucumbo à ignorância.
Chega a cerveja e eu anseio o veredicto do meu marido. "Deliciosa!" Suspiro de alívio e contentamento. Sim, é. Genuinamente, é. Passará o resto da viagem em busca de Kölsch mesmo que eu lhe repita à exaustão que Kölsch é Kölsch por ser de Colónia e só de Colónia. Provará mais cervejas típicas mas nenhuma lhe vai causar e delícia desta. Entretidos nesta apreciação chegam as sanduíches.
- E como é suposto eu comer isto? - pergunta o meu marido ante a visão de uma sanduíche desmontada.
- Fácil. só tens de a compor com os seus elementos - digo eu, para quem a tarefa não poderia ser mais evidente. Ali está um pãozinho, um frasco de mostarda, um pacotinho de manteiga (não há sandes sem manteiga, ok?), uma fatia de queijo edam que dá para um regimento, um pouco de salada e uma porção generosa de rodelas de cebola. Mãos à obra. Ora, o Reno à frente, a Catedral atrás, uma bela Kölsch (até foi mais do que uma...), uma Halver Hahn, uma esplanada sob os pingos da chuva, o meu marido a ser iniciado nestas coisas de Colónia e estou no paraíso. Aproveito cada longo segundo para fazer render o tempo.

28 de março de 2018

O que me é vir a Rheydt

Já não há nada de mim em Rheydt. Memórias. O acaso do meu nascimento. Vivi aqui três meses depois de nascer, porém Rheydt nunca esteve muito longe de mim, mesmo que andássemos longe. Havia os Falls, que me tiveram nos braços antes dos meus avós portugueses e, claro, havia a minha Tante Henny, um portento de mulher que vivia a vida como se inspirasse grandes golfadas de ar de cada vez que respirava. Sempre me lembro dela bem-disposta, tinha uma voz que ecoava e se ouvia em alto. Era uma presença! Deixou o lado oriental da Alemanha aquando do fim da Guerra e da ocupação mas acho que nunca se queixou da sorte. Coleccionava patos de todas as formas e feitios e eu cheguei a contribuir com patos de louça das Caldas para a sua colecção. Não deixava que a vida a perturbasse. Morreu há quatro anos. Demente. Depois de ela morrer quis ir à Alemanha ter com a minha outra tia mas nunca consegui porque não queria enfrentar a orfandade da minha Tante Ruth, porque não queria despedidas, porque tinha medo da dor que me esperava. A Alemanha chamava-me e eu resistia.
Quando decidi que este ano é que teria de ser, confesso que vim a medo. Forcei-me em pensamentos positivos de vir mostrar a Alemanha ao meu marido. Forcei-me na alegria de serem os noventa anos da Tante Ruth. encontrei felicidade em poder ter os nossos padrinhos americanos na primeira parte da viagem. Ou seja, vi coincidências que me afastariam o receio da tristeza que eu sabia também me esperar nesta viagem.
A Tante Ruth já não mora em Rheydt. Regressou a Berlin há sete anos onde quer acabar os seus dias. Na Heimat, na pátria, como sempre ouvi dizer às minhas tias sobre o outro lado da Alemanha. Que estranho e triste que elas se referissem à sua pátria vivendo no mesmo país. Acho que nenhum português consegue compreender estes paradoxos. Os Falls há muito que morreram. Ele era veterano de guerra. Tinha uma perna prostética e vivia numa rua onde todos os homens eram mutilados de guerra. Todos. E todos casaram independentemente do grau de mutilação que trouxessem da guerra, porque, na geração das minhas tias, havia escassez de homens. As minhas tias nunca casaram. Também acho que isto é difícil de entender: um país depauperado de homens numa inteira geração.
Percorro uma rua que só me traz memórias porque já nada aqui resta fisicamente do meu passado. Tiro fotos à rua, às casas, à tabuleta e envio-as por email para a minha tia em Berlin. Penso na ironia das coisas esvaziadas. Na ironia de enviar emails à tia com quem sempre me correspondi por cartas longas de muitas páginas.
Amo a minha Tante Ruth. Tem a voz mais doce que imaginar se possa. Não tem o corpo possante que tinha a Tante Henny. Porém, a fragilidade do físico é compensada por uma alma (de) gigante. Toda a vida foi uma aventureira. Uma vez foi sózinha ao Uganda ter com um amigo. Outra vez foi para a Líbia. Nunca falou outra língua que não o seu alemão, o seu Hochdeutsch, o alemão-padrão, que eu também falo, e que não nos deixa compreender outras variedades de alemão. Foi à Turquia. Fez um cento e mais de coisas. Colecciona corujas, tal como a Tante Henny coleccionava patos.
Venho a Rheydt mas não me demoro. A alma não me mora aqui. Rheydt foi-me um acaso. Rheydt deu-me as minhas tias mas elas já cá não estão. Sinto-me tremendamente só aqui. Ainda não tinha sentido solidão nesta viagem. Como posso estar só se me acompanha o homem da minha vida, se me acompanharam os nossos padrinhos, se já estive com a Tante Ruth? Contudo, sinto aqui em Rheydt uma solidão desmesurada. A minha Mãe morreu há quase vinte anos e eu vim aqui em busca de consolo à casa das tias quando o veredicto da doença nos entrou em casa. A Tante Henny morreu. a Tante Ruth está em Berlin. Perdi Rheydt e é essa solidão que sinto, a solidão da perda. Fecho o coração e digo a mim mesma que não mais aqui regressarei. O luto de que eu tinha receio de vir encontrar, faço-o aqui. Acho que Rheydt me morreu...

25 de março de 2018

Rheydt: Nasci aqui

Faço os trezentos e tal quilómetros entre Bremen a Mönchengladbach num só esticão. Paramos só num supercharger porque o carro é eléctrico e precisa desse abastecimento. O coração palpita o caminho todo. Deixo a cidade da minha infância feliz e sigo para a cidade onde nasci mas que só conheço dos meus tempos de adulta de quando ia visitar as minhas tias berlinenses, exiladas deste lado da antiga barricada. Assim que avisto as placas que indicam que estamos a chegar, peço ao meu marido que pare o carro. Preciso destas fotografias. Preciso de congelar o momento. Eu nasci aqui. Eu nasci aqui, repito e re-repito no pensamento.
A cidade grande chama-se Mönchengladbach, famosa pelo seu clube de futebol, o Borussia Mönchengladbach. Porém, eu não nasci em Mönchengladbach propriamente dita, eu nasci em Rheydt que hoje se encontra dentro de Mönchengladbach mas que na altura era uma cidade por si. A coisa é de tal forma engraçada que Mönchengladbach é a única cidade alemã com duas estações-centrais de comboio. Tem a estação central de Rheydt, que nunca abdicou desse resquício de autonomia, e a estação central de Mönchengladbach. Quando me perguntam onde nasci digo, normalmente, Mönchengladbach por ser mais facilmente identificada do que Rheydt. Outras vezes, e porque me custa sempre dizer Mönchengladbach por isso não ser a verdade do meu nascimento e por estar a sobrepor Mönchengladbach a Rheydt (coisa que não gosto), digo que nasci em Rheydt-Ödenkirchen. Ödenkirchen é, digamos, um círculo administrativo da cidade de Mönchengaldbach (que também foi, como Rheydt, uma cidade independente) e assim componho o nome do local onde nasci. Além disso, Ödenkirchen soa-me a "Igrejas" (Kirchen) de Odin, o deus nórdico. No entanto, a etimologia de Ödenkirchen está ainda muito envolta em brumas, Talvez "Öden" venha do germânico antigo para "velho" e a palavra signifique local da igreja velha ou, em alternativa, local da igreja de Hudo, no caso de "Ödin" ser a evolução desse nome masculino. Seja como for, gosto de dizer que venho de Rheydt-Ödenkirchen. Mönchengladbach é o que digo quando não estou para me justificar. Eu nasci em Rheydt e é isso que conta em todos os meus assentos de nascimento, naturalização e todos os etcs. legais da minha existência cidadã.
Rheydt é uma medalha numa pulseira que as minhas tias me deram quando eu tinha oito anos e que usei o resto da infância (a pulseira também tinha, como tem, a medalha de Mönchengladbach mas, por obra e graça da ironia, o esmalte dessa lascou-se um bocado). Rheydt é passarem-me os teclados dos computadores nas Repartições de Finanças e nos Registos quando tenho de escrever a minha naturalidade perante a lei do país que não me viu nascer. Rheydt é uma geografia de acaso, o acaso do local onde abri os olhos e inspirei a vida (ou era aí ou era a Austrália e, apesar de me ter estrangeira estrangeira, a minha Mãe grávida queria-me europeia).
Sim, nasci em Rheydt e, por isso, peço ao meu marido para parar o carro quando chegamos, vindos de Bremen, ao fim do dia...

10 de março de 2018

Bremen: Böttcherstrasse

Böttcherstrasse significa Rua dos Tanoeiros. É um nome de origem medieval mas, na verdade, esta rua icónica de Bremen é uma espécie de rua art déco. Estreita e sinuosa, a Böttcherstrasse lembra o labirinto de Schnoor mas está a vários quarteirões de distância. Com apenas 100 metros em todo o seu comprimento, a Böttcherstrasse é a rua artística de Bremen.
Aqui convivem galerias de arte, pequenos museus e lojas in (dessas de perder a cabeça e pensar na pena que é o porta-bagagens do carro já estar tão cheio e ainda a viagem ir a meio e haver tanta Alemanha pela frente). Os edifícios são todos em tijolo e a rua, tal como é actualmente, é uma criação dos anos 1920 e de um magnata do café (facto curioso, Bremen é a principal cidade da importação de café na Alemanha e, talvez por isso, a minha Mãe adorasse Mocha, uma torrefacção que nunca apanhei em Portugal e que deixa o café com um aroma ligeiro e muito perfumado. Ah... o cheiro de grãos mocha acabados de moer na cozinha com que eu acordava de manhã. Deve ser essa a razão de eu preferir o cheiro a café do que o sabor a café). 
Em cada recanto da curtíssima Böttcherstrasse há algo especial que nos detém o olhar, o pensamento, o passo. Böttcherstrasse é um mundo, uma Betesga num enorme Rossio. Quando vierem à Alemanha lembrem-se de Bremen e verão o quão mais existe além de Berlin e das cidades-chave como Munique, Frankfurt ou Hamburgo. Bremen é a cidade grande com coração inocente e livre. A minha infância mora aqui e, por conseguinte, há um pouco de mim que nunca daqui partiu. Que eu tenha trazido aqui o homem da minha vida só me pode deixar o mais feliz que feliz se possa estar num determinado momento da Vida. Sou feliz nestes instantes em que aqui o trago como sou feliz no tempo feliz que aqui passei.
Bremen, ich liebe Dich...

7 de março de 2018

Bremen: Schnoor

Schnoor é o bairro mais pitoresco de Bremen. É o coração medieval da cidade e as ruas labirínticas são tão estreitas que, às vezes, basta abrirmos os braços para tocarmos de um e de outro lado da rua. É a cidade antes de a cidade se ter tornado parte da hansa dos mercadores e do dinheiro. Aqui viviam pescadores, artesãos, as primeiras comunidades de Bremen. Depois a cidade expandiu-se para um outro centro que é hoje o do esplendor monumental da praça da câmara, da catedral, da liga dos mercadores, da estátua de Roland.
Hoje-em-dia, o encanto de Schnoor está nas lojas maravilhosas de artesanato local e alternativo, nos pubs e pequenos restaurantes, na delícia das casinhas coloridas. Schnoor é uma exposição a céu aberto. Penso em Schoor como o coração pequenino de Bremen a bater ao lado do coração grande da praça central e da Böttcherstrasse (falarei dela adiante). Passeio por estas ruelas e volto décadas no tempo. Schnoor aprecia-se bem com olhos de criança e coração despreocupado.  
Como as ruas são estreitas e apertadas, não há carros. Impera o silêncio das vozes que se ouvem, o silêncio dos passos ou o grito ocasional das gaivotas que sobrevoam baixo mesmo por cima dos telhados. Quando emergimos para fora de Schnoor o contraste não pode ser maior. De repente há carros e barulho. De repente temos de nos lembrar das regras de convivência com a era moderna e a era moderna é tão rápida e tão desalmada. Schnoor, que caixinha de tesouro tão precioso... 

24 de fevereiro de 2018

Bremen: a rua a caminho de casa

Continuando nas lembranças, tiro esta foto porque é assim que me lembro da rua a caminho de casa. Lembro-me desta imagem como uma passagem familiar nos meus percursos por Bremen quando era pequena e esta era uma parte do percurso que me levava a casa.
Na verdade, esta é a praça central e histórica de Bremen, classificada património mundial UNESCO por causa de dois monumentos icónicos (e ambos nesta imagem), a estátua de Roland e a Rathaus, a Câmara. Falarei deles brevemente. Mas, por ora, isto é o que me fica: a memória da rua que levava à nossa casa, a casa onde passei os meus primeiros anos conscientes de ser pessoa.
Digam lá se não é um bonito caminho de casa?

21 de fevereiro de 2018

Bremen: o "meu" rio Weser

Outras das minhas actividades infantes quando vivia em Bremen era vir com os Heils, ou com os meus pais, ou com os Heils e os meus pais, à beira do rio Weser, o rio que atravessa Bremen e dsagua no Mar do Norte a uns 60 kms de distância numa cidade portuária chamada Bremerhaven (literalmente Porto de Bremen) que, estando separada de Bremen faz parte da cidade-estado-Bremen (coisas do federalismo). Vínhamos aqui para eu atirar pão e migalhas aos patos e às gaivotas. Adorava! Havia dias gélidos em que vínhamos, que o frio aqui não impede ninguém de sair de casa, e eu recordo a nossa respiração fazer nuvens brancas e de dar as migalhas aos patos com as mãos metidas numas luvas que só tinham polegar e o resto era uma saquinho aconchegado para os outros dedos. Vinha toda enroupada e gorro até debaixo das orelhas e vinha feliz junto da água para tratar da bicharada avícola.
Hoje passeio com o meu marido por estas margens. Conto-lhe as histórias das minhas lembranças e é como se eu nunca tivesse saído daqui e este regresso um mero repegar da vida. Olho à volta e apetece-me dizer: Bremen, olha o que eu fiz da minha vida!

17 de fevereiro de 2018

Bremen: o "meu" mercadinho

Esta é uma imagem muito presente na minha infância aqui em Bremen. Os Heils, outras vezes a minha mãe, traziam-me frequentemente ao mercado, a este ou outros, porque os mercados ao ar livre com hortícolas e frutos e outros produtos caseiros das quintas das redondezas são muito populares por estas paragens. Muitas vezes, por ser tradição e por graça, vestiam-me em trajes típicos (coisas muito desprezadas aqui em Portugal e meramente associadas a ranchos folclóricos. Na Alemanha há um garbo e um orgulho pelo envergar trajes típicos) e vinham comigo ao mercado. Lembro-me de muitas vendedoras também estarem vestidas com trajes típicos que, aqui em Bremen, incluem rendas muito finas e uns toucados também em tecido fino e rendado. Lembro-me de em muitas banquinhas me darem fatias de diversas espécies de Schinken (carnes frias) a provar como se eu fosse gente grande e depois, como se eu também fosse gente grande, os Heils perguntavam-me se eu gostava. Se eu gostasse, que era sempre, pediam uns quantos gramas ou fatias da dita Schinken, que era embrulhada em papel vegetal, e chegávamos a casa e fazíamos sanduíches com cremes de maionese e ervas (imaginam o que é chegar a Portugal e as sandes na escola serem só fiambre ou queijo em paposseco, grande choque cultural, isso e a televisão a preto e branco que só abria às seis da tarde).
Ainda hoje me perco por mercados...

14 de fevereiro de 2018

Dia 11: Bremen, cidade livre

Há um orgulho de peito cheio que se sente em Bremen. Bremen é o livre-arbítrio dos homens, a liberdade como valor supremo e quem lê este blog sabe o que me significa a liberdade e o que tanto tenho lutado por ela. Acho que, agora que penso nisso ao escrever estas linhas, talvez seja a minha costela Bremenense (xii, como se dirá isto em Português?) que me fez aguentar sete anos de tribunais para obter a minha libertação daquele mal-fadado não-casamento.
Passo pelo parlamento de Bremen e fotografo com emoção o que diz de ser a casa dos cidadãos livres da cidade hanseática e livre de Bremen. Isto não é um Reichstag imponente e quase ameaçador, isto é uma assembleia, uma casa, de gente livre que se junta para se auto-governar por si própria. Nunca aqui houve reis, príncipes, bispos-governadores (bem, bispos poderosos até havia mas não podiam exercer poder total sobre a população). Aqui é uma terra de homens-livres e é com orgulho que digo: eu cresci numa terra assim!
Como imaginam, vou fazer muitos posts sobre Bremen. Não me sinto nem mais nem menos portuguesa por também pertencer a Bremen. O coração é grande e o amor maior. É possível o amor a dois países. Nunca me questionem de qual gosto mais e nunca me peçam escolhas. Sou portuguesa na totalidade do amor patriótico mas há uma parte de mim que também ama esta terra livre.
Bem vindos à cidade do meu coração. Espero que gostem da visita!