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24 de novembro de 2018

Pedro Rolo Duarte: um ano já e tão longo

Era sexta-feira quando o telefone tocou. A voz do outro lado dizia que tinhas morrido. Tinhas morrido, imagina! como se tu pudesses morrer assim sem mais nem menos. Mas era isso que eu ouvia: tinhas morrido. O choque foi paradoxal. Levou uns momentos a instalar-se ao mesmo tempo que era súbito. De repente tinhas-me-nos morrido e eu não sabia o que fazer com essa realidade.
Telefonei a gente que te tinha em comum comigo e era voz de desalento e surpresa o que eu ouvia.
Vesti-me de linda para ir ter contigo à noite como nas vezes em que saíamos e tu me achavas bonita. Só tu para me fazeres rir no teu velório. só tu para me dares uma derradeira despedida desconstruída para nos rirmos sonoramente. Entrei no velório errado, um daqueles velórios do excesso de morte. Eu linda e tudo e todos em modo sorumbático de olhares de estranheza à minha aparição. Achei aquilo tudo mórbido demais mas enfim, era o teu velório e aquelas pessoas que eu não conhecia tinham tanto direito a conhecer-te como eu.
O outro Pedro da minha vida deixou-me estar nos meus pensamentos que falavam contigo. Deu-me tempo antes de, de mansinho, me tocar no ombro e me dizer que eu estava no velório da pessoa errada. Saí envergonhada e meio a pensar que me deviam ter considerado qualquer coisa como "a outra" que se ia despedir. Ri baixinho pela situação trágico-cómica.
Depois encontrei-te ao som de Sting e das músicas que gostavas e que comigo partilhavas quando me fazias CDs com as tuas playlists. Sempre tiveste bom-gosto nesse departamento. Tinhas chamado os amigos e era como se nos encontrássemos para um serão em que eras o anfitrião. Despedi-me de ti por entre o sorriso da cena anterior e o coração despedaçado.
No dia seguinte, fui ao ginásio, como costumo aos Sábados de manhã. No final da aula, os alongamentos foram feitos ao som de uma música que me lembrou de ti. Desabei em público porque foi aquela música que me disse que nunca mais aqui estarias fisicamente. Recebi tanto amor nessa hora. As colegas da aula, que por respeito à tristeza que imaginavam eu estaria a sentir, não tinham tocado no assunto da tua morte, saltaram sobre mim num abraço colectivo. O meu luto por ti começava.
Passou um ano e eu lembro-me tantas vezes de ti...

28 de março de 2018

O que me é vir a Rheydt

Já não há nada de mim em Rheydt. Memórias. O acaso do meu nascimento. Vivi aqui três meses depois de nascer, porém Rheydt nunca esteve muito longe de mim, mesmo que andássemos longe. Havia os Falls, que me tiveram nos braços antes dos meus avós portugueses e, claro, havia a minha Tante Henny, um portento de mulher que vivia a vida como se inspirasse grandes golfadas de ar de cada vez que respirava. Sempre me lembro dela bem-disposta, tinha uma voz que ecoava e se ouvia em alto. Era uma presença! Deixou o lado oriental da Alemanha aquando do fim da Guerra e da ocupação mas acho que nunca se queixou da sorte. Coleccionava patos de todas as formas e feitios e eu cheguei a contribuir com patos de louça das Caldas para a sua colecção. Não deixava que a vida a perturbasse. Morreu há quatro anos. Demente. Depois de ela morrer quis ir à Alemanha ter com a minha outra tia mas nunca consegui porque não queria enfrentar a orfandade da minha Tante Ruth, porque não queria despedidas, porque tinha medo da dor que me esperava. A Alemanha chamava-me e eu resistia.
Quando decidi que este ano é que teria de ser, confesso que vim a medo. Forcei-me em pensamentos positivos de vir mostrar a Alemanha ao meu marido. Forcei-me na alegria de serem os noventa anos da Tante Ruth. encontrei felicidade em poder ter os nossos padrinhos americanos na primeira parte da viagem. Ou seja, vi coincidências que me afastariam o receio da tristeza que eu sabia também me esperar nesta viagem.
A Tante Ruth já não mora em Rheydt. Regressou a Berlin há sete anos onde quer acabar os seus dias. Na Heimat, na pátria, como sempre ouvi dizer às minhas tias sobre o outro lado da Alemanha. Que estranho e triste que elas se referissem à sua pátria vivendo no mesmo país. Acho que nenhum português consegue compreender estes paradoxos. Os Falls há muito que morreram. Ele era veterano de guerra. Tinha uma perna prostética e vivia numa rua onde todos os homens eram mutilados de guerra. Todos. E todos casaram independentemente do grau de mutilação que trouxessem da guerra, porque, na geração das minhas tias, havia escassez de homens. As minhas tias nunca casaram. Também acho que isto é difícil de entender: um país depauperado de homens numa inteira geração.
Percorro uma rua que só me traz memórias porque já nada aqui resta fisicamente do meu passado. Tiro fotos à rua, às casas, à tabuleta e envio-as por email para a minha tia em Berlin. Penso na ironia das coisas esvaziadas. Na ironia de enviar emails à tia com quem sempre me correspondi por cartas longas de muitas páginas.
Amo a minha Tante Ruth. Tem a voz mais doce que imaginar se possa. Não tem o corpo possante que tinha a Tante Henny. Porém, a fragilidade do físico é compensada por uma alma (de) gigante. Toda a vida foi uma aventureira. Uma vez foi sózinha ao Uganda ter com um amigo. Outra vez foi para a Líbia. Nunca falou outra língua que não o seu alemão, o seu Hochdeutsch, o alemão-padrão, que eu também falo, e que não nos deixa compreender outras variedades de alemão. Foi à Turquia. Fez um cento e mais de coisas. Colecciona corujas, tal como a Tante Henny coleccionava patos.
Venho a Rheydt mas não me demoro. A alma não me mora aqui. Rheydt foi-me um acaso. Rheydt deu-me as minhas tias mas elas já cá não estão. Sinto-me tremendamente só aqui. Ainda não tinha sentido solidão nesta viagem. Como posso estar só se me acompanha o homem da minha vida, se me acompanharam os nossos padrinhos, se já estive com a Tante Ruth? Contudo, sinto aqui em Rheydt uma solidão desmesurada. A minha Mãe morreu há quase vinte anos e eu vim aqui em busca de consolo à casa das tias quando o veredicto da doença nos entrou em casa. A Tante Henny morreu. a Tante Ruth está em Berlin. Perdi Rheydt e é essa solidão que sinto, a solidão da perda. Fecho o coração e digo a mim mesma que não mais aqui regressarei. O luto de que eu tinha receio de vir encontrar, faço-o aqui. Acho que Rheydt me morreu...

6 de dezembro de 2017

Johnny Hallyday (1943-2017)


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O primeiro dinheiro que ganhei na vida, o primeiríssimo, foi a fazer  figuração em duas cenas de um filme francês chamado "La Gamine". O actor principal era o Johnny Hallyday e parte da acção decorria em Lisboa. Lá fui. Disseram-me, já nem sei quem, que eu parecia a Catherine Deneuve. Perdeu-se uma carreira, está visto.
Depois peguei no dinheiro e fui, toda contente, gastá-lo num concerto do Bryan Adams no antigo estádio do Sporting. Estava-se nos alvores da década de 90 e, agora que olho para trás, vejo que o passado está cada vez mais passado e que, cada vez, as coisas e, sobretudo, as pessoas, que me ligavam ao passado de mim se vão perdendo. É estranho.
RIP

24 de novembro de 2017

Pedro Rolo Duarte: ao meu amigo

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Não tenho palavras. Fogem-me neste choque em que estou. O Pedro conhecia a Blonde, a Blondewithaphd e a dona da Blonde. Inúmeras vezes mencionou os textos que por aqui lia nos seus programas de rádio em que fazia a revista dos blogues, quando os blogues eram mais populares do que o Facebook. Depois publicou textos da Blondewithaphd na revista que dirigia no Jornal i, "Nós". Implorei-lhe o anonimato:
- Mas não queres assinar com o teu nome? - perguntava-me enquanto eu lhe dava as razões para continuar a ser a Blondewithaphd e não a dona da Blonde. Respeitou a minha decisão.
Um dia convidou a dona da Blonde a tomar café no CCB. Queria falar comigo. Tinha ideias, e claro, ele tinha sempre ideias, e as ideias dele envolviam-me, não como Blondewithaphd mas como eu. Queria que eu escrevesse o romance da minha família. Desafiou-me. Escrevi. Publiquei. Abdiquei do anonimato dado pelo nome Blondewithaphd e assinei por mim própria. 
Mais tarde, convidou-me e ao meu marido para irmos ao "Central Parque" mostrar um brinquedo tecnológico do meu marido para ilustrar um dos episódios sobre a internet das coisas. Fomos. Mostrámos o dito cujo brinquedo para gente grande.
O Pedro era uma presença elegante na minha vida. Estou em choque e não sei como dizer-lhe: gosto muito de ti... Obrigada, Pedro por estares na minha vida, porque sempre vais estar...
RIP

21 de abril de 2016

Purple Rain (1958-2016)

Prince é Purple Rain. É a minha adolescência. É Alphabet Street. É a minha cena. O Bowie morreu e eu entrei em choque mas isto é a detonação da bomba.
Pego na carrinha para vir para casa. Quase oito da noite. Na rádio oiço falar de Prince, no passado. Adivinho. Não quero adivinhar e chego a duvidar que estou a adivinhar o que estou a adivinhar. Mas, é claro, adivinhei. Bomba.
You'll be as missed as you are irreplaceable.
RIP.

27 de janeiro de 2016

O meu amigo morreu (1929-2016)

Morreu-me quem tão bom me foi. Salvou-me e levarei essa gratidão quando, por minha vez, morrer.
Tinha 78 anos quando decidiu patrocinar o meu inclemente divórcio. Durante quatro anos instruiu dois processos, deu-me a voz que a justiça me amordaçava, representou-me, nunca me deixou só e, sobretudo, nunca cedeu e nunca teve medo. Chorei muitas vezes ao pé dele, apunhalada que estava pela justiça, refém que estava de gente má. Dava-me coragem e dele aprendi que uma coisa é a Justiça, outra o Direito e que uma e outro nem sempre se encontram porque uma e outra são coisas diferentes.
Era agreste, temível e temido. Não era o tipo de homem que gera simpatias e amizades fáceis. Ouvi dizer dele que era espinhoso e impossível. Acredito. Mas para mim era mel. Vinha trazer-me carradas de lenha a casa com medo que eu passasse frio. Trazia-me queijo e cerejas e pão da sua quinta nortenha com medo que eu passasse fome. Dizia para me distrair que era muito nova. Queria-me acompanhada porque lhe doía que estivesse só. Dava-me o interior do passeio como um cavalheiro. Mesmo que eu o convidasse era ele que pagava porque jamais admitira que uma senhora pagasse fosse o que fosse ao pé dele e eu não seria excepção por muito nova e moderna que fosse. Falava o Português antigo que eu sempre ouvi da minha Mãe e que não ouvi muito tempo porque dela não foram longos os anos. Era meu amigo.
Quando fez 82 disse-lhe que não podia mais pedir-lhe o esforço de me patrocinar, que não era justo, que eu não lhe podia fazer aquilo e fazê-lo continuar a passar por aquilo. Recusou. Ajoelhei-me à frente dele no gabinete e implorei que me me deixasse libertá-lo daquele fardo. Recusou mas aceitou só para não me ver implorar. A contra-gosto assinou os papéis que me faziam transitar de advogado e disse que estaria ali a zelar por mim e pelos meus interesses. Pedi-lhe a conta dos honorários e recusou, que não saberia o que me levar e que não havia conta nenhuma a ajustar.
Três anos depois, o meu infame divórcio concretizou-se, a meu favor como ele vaticinara e como ele preparara. Devo-lhe a liberdade. A felicidade em que hoje vivo devo-lha.
Era e foi e será sempre no meu coração meu amigo. Meu bom e querido amigo...

Descanse em paz, Dr. Eduardo. Descanse em paz.

11 de novembro de 2015

Helmut Schmidt, 1918-2015

Engraçado, no dia em que morre o Helmut Schmidt, o Der Spiegel tem um artigo sobre a crise política em Portugal falando de um governo que vai aliar socialistas, comunistas e marxistas ("Ein Bündnis aus sozialisten, Kommunisten und Marxisten..."). Noto a coincidência num dia que me é triste porque é mais um que me morre, um deles, daquela geração que tanto me ensinou, que me ensinou, sobretudo, o medo da guerra e a presença da guerra, a geração que lutou contra os demónios. A Tante Henny que morreu, a Tante Ruth que tem a idade do Helmut Schmidt... Penso no Pai que colou cartazes do Willy Brandt quando havia o medo do outro lado. Pobres construtores de uma Europa desagregada que se esqueceu como e porque foi construída. Já estou muito afastada da Alemanha para me identificar com o presente (um espaço de letras no passaporte). Morre-me a Alemanha, aos poucos, pessoa a pessoa. Falta morrer a Tante Ruth. Falta morrer o Pai (mas que me dure, que me dure mais, bitte...).

RIP. 

15 de abril de 2015

Günter Grass (1927-2015)

Nunca fui grande fã da sua escrita literária mas sempre apreciei as suas opiniões. Nunca o julguei por participações na Guerra ou no regime da Guerra porque era uma fatalidade da sua geração (quantos eu não conheço, ou conhecia, nessas circunstâncias). As minhas Tias viveram a face da opressão, o outro lado da moeda, as execuções e as fugas, Grass e tantos e tantos outros homens viveram arrastados para o militarismo e a brutalidade: de um lado e do outro o medo e o trauma que lhes ficou por sobreviverem àquilo. Se calhar é por isso que nunca, a não ser por obrigação de cultura e educação, consegui ler Grass com vontade. Ao invés, foi sempre com prazer que lhe lia as entrevistas e as opiniões: a voz do Eu em directo que falava de coisas com que me identifico e coisas com que vivi.
Mais recentemente li-lhe uma que partilho descontextualizada mas que acho que é auto-inteligível nestes tempos apressados:

„Wenn jemand 500 Freunde hat, dann hat er keinen.“*

Olho para a morte dele como olho para a morte da Tante Henny e a proximidade da da Tante Ruth: é mais um que vai e mais longe fica aquele tempo e mais nos vamos esquecendo de que aquilo aconteceu.
RIP.

* "Quem tem 500 amigos, não tem nenhuns."

28 de fevereiro de 2015

"Beam me up, Scotty!"

A ironia toda é que eu tinha acabado de ver um "Star Trek" quando soube da notícia e tinha pensado na velhice velha do Nimoy. Já estava à espera sem estar à espera.
Era a minha personagem favorita do "Star Trek", e o Nimoy o único Mr. Spock do mundo. Por isso, sim, talvez ele fosse mesmo um Vulcano em extinção, um dos últimos representantes da espécie. Imagino que lhe farão um episódio especial na "Big Bang Theory", onde até lhe coleccionam os bonecos e o Sheldon tem uma ordem de restrição por ser tão fanático por ele.
Partiu e foi ter com os da espécie dele, o Leonard Nimoy que sempre, e só, foi Spock.
Live long and prosper!

Leonard Nimoy (1931-2015)
RIP

25 de agosto de 2014

Richard Attenborough, 1923-2014

Dear Lord Attenborough,

There are days of dread when looming horizons forecast the dawning of a future of irretrievable losses. This is one of them. My heart sank on hearing about your departure, more so because it is a clarion call to another loss with which I will one day need to come to terms: that of your brother David.

My thoughts on this day go out to Sir David and to the remembrance of what your career instilled in mine and in my formative years. I thank you as I once had the opportunity of thanking your brother for all he means in my life.

Short for words as I am, let me just tell you how watching "Ghandi" and "Cry Freedom" helped carve my academic and intellectual path towards imperial studies. I know for a fact how those movies have also inspired some of my students into writing their dissertations. From within academe, I am sure that, albeit the angle one chooses to look at it, today, all of us who study Empire are grateful for your having recreated on screen what we struggle to bring to life in the long dead and lifeless pages of archives. Your images and layer upon layer of the plight of the oppressed have reached millions through an industry available to the masses: entertainment. Our gratitude to your work cannot go out in silence. Not today.

You once said you wished to be remembered as a storyteller. I will remember you as the storyteller of a part of History I study, a storyteller who also happens to be the sibling of my most respected and impacting intellectual influence, David Attenborough.

Thank you.

                                                             Gratefully yours,
                                                                       I.T-S.
RIP

28 de maio de 2014

The (Un)Caged Bird Sings, Today

A Maya Angelou morreu hoje e só consigo pensar numa perda semelhante em 1960, a da Zora Neale Hurston.
The South has a voice: humming birds and caged souls that freely contemplate the skies. The South has the voice of Zora and Maya.
RIP

28 de abril de 2014

Graça Moura: Que grande inconveniência!

Era para dizer "que grande gaita!" mas isso não se diz sobre quem cultivava as palavras. É, de facto, uma grande inconveniência para a Língua Portuguesa a morte de Graça Moura. Quem, como ele, nos vai continuar a defender da artrose linguística chamada (Des)Acordo Ortográfico? Estou muito insatisfeita com esta notícia. Ora esta, a Morte é tão incómoda. Que tremenda chatice.


Conheci-o (palavra muito desadequada e muito manca de veracidade) há uns anos valentes quando estava a organizar uma conferência lá na faculdade. Eu muito novinha, toda anglística e ainda me faltava muito chão a percorrer até me pacificar com o Português, ele o portento literário da Palavra. Senti-me uma formiga loura (não sei se existem formigas louras, mas eu não poderia ser uma formiga morena, não é?). Uns anos mais tarde, já eu de pazes com o Português (não vou dizer pazes, é mais tréguas) usei um texto dele num exame. E agora foi-se e levou um bocado da Língua. Não acho bem e, por conseguinte, estou em total desacordo com esta morte (não digo falecimento porque não gosto de eufemismos, morte é morte, como é óbvio).


Tenho dito.
RIP

18 de abril de 2014

García Márquez

Impossível não se ser tocado por "O Amor nos Tempos de Cólera" (o meu favorito) ou "Cem Anos de Solidão" (o meu segundo favorito). A partir de agora, no Panteão dos deuses das palavras.
RIP

2 de abril de 2014

Morreu o Jacques Le Goff

E, de súbito, apetece-me reler a Civilização do Ocidente Medieval. Já não me lembro em que cadeira é que descobri Le Goff, deve ter sido ainda no 1º ano da licenciatura nos cadeirões gerais. Sei é que li e rascunhei o livro todo e, não contente com o rascunhado, enchi-o de post-its que me seriam muito úteis quando foi do Mestrado e que ainda me servem de guião para consultas rápidas. Nunca mais li o livro mais do que em modo consultivo mas ontem fiquei com vontade de regressar...
RIP

20 de março de 2014

Sam J. Riley, 1939-2014

Dear Sam,

I was looking forward for Paris next May and am still caught up by the wordless Unexpected.
I will miss your genteel manners and your overall Southern gentlemanlyness. It was a pleasure, for you sure had a way to make us laugh, and an honor to have crossed paths with you. Now that everybody is remembering you, it warms my heart to realise that fond memories were kept of you in that Port wine tasting back in 2008. The sunny weather became you, as did that red bow tie.

Dear Sam, you will be missed. One-hit wonders will never be the same without you to keep track!

RIP

23 de março de 2011

Elizabeth Taylor, 1932-2011


Morreu a actriz dos olhos violeta e o que é que eu posso dizer?
Morreu a actriz favorita da Mãe e eu vejo toda uma geração de referências que se vai extinguindo e que começou precisamente na Mãe.
Nem é tanto pela Elizabeth Taylor, é por todo um passado que se vai esvaindo e me vai deixando o presente cada vez mais só de laços a um atrás, a um tempo que não se reflecte neste agora em que tudo é diferente e orfão.
Oiço a Mãe a pronunciar Elizabeth "Taylior" na pronúncia alemã que Ela tinha e imagino o que ela diria se hoje se desse conta que morreu a Elizabeth Taylor. Acho que me iria contar a vida trágica dela e dos romances falhados com o Richard Burton e como foi a primeira actriz a ganhar um milhão de dólares por um papel, o de Cleópatra. E nada disto eu precisaria ou precisei saber pela Wikipedia porque tudo isto era o presente em que a Mãe viveu.
RIP

21 de março de 2011

Knut, 2006-2011


E qual é a primeira coisa que eu descubro ao chegar à Alemanha?
O Knut morreu! A bola de pêlo da idade do meu Spotty morreu.
Mein Schatz, Du bist jetzt im Tierhimmel.
Era tão querido...
Pode não parecer mas é uma notícia importante num mundo de guerra (nunca fiz voos com tantos GIs) e nuclear.
RIP

23 de dezembro de 2010

Nuno,

Não sei como te escrever. Sei que quero escrever de ti. Não estou em choque. Não estou a reagir na incredulidade, na surpresa violenta com que reagi quando soube da Cristina. A F. saiu daqui agora e tu calhaste em conversa. Ela não te sabia um capítulo na minha vida. Engraçado como ela poderia ter saído hoje daqui, de uma das nossas conversas, sem que eu soubesse de ti. Eu ignoraria. E na noite de Consoada iria, como nestes anos todos, lembrar-me: "O Nuno faz anos hoje." Um pensamento que duraria os segundos de se semi-materializar na minha mente mas estarias lá nesses segundos. Não sei, portanto, como estou a reagir. Se for para a cama levo-te no pensamento e não será só por uns segundos. Lembrar-me-ei de tudo, das canções que compunhas e tocavas à viola, da tua voz, de tantas coisas.
Eu augurava-te um futuro escrito a maiúsculas. Admirava a tua inteligência e a capacidade de articulares conversas. Acho que me ficaste como marca em muitos dos homens de que gostei a seguir a ti: olhos de céu a espreitarem nos óculos e o cabelo louro dourado, quente, amistoso, diferente do meu mais agreste. Talvez inconscientemente eu tenha estabelecido em ti um paradigma ou talvez, aqui neste Meridião, me lembrasses os homens do meu Norte original. Não sei. Sei que gostei de ti e que me fui lembrando de ti à medida que a minha vida se separou de ti.
Não te reconheci na última vez que nos vimos. Estranhos. Vidas muito distantes. Universos de galáxias diferentes. Acho que me desapontaste mas é terrível de mim, depois de eu saber disto, dizer uma coisa destas. Não vi o teu futuro escrito a maiúsculas e o meu estava ali, em negrito e sublinhado. Apareceste-me escrito normal. Foi isso que me desapontou. Que terrível de mim ter pensado isso. Que terrível hoje.
Sim, tudo nisso foi, afinal maiúsculo. A tua inteligência rumo à libertação última, final, amordaça o meu desapontamento. Foste determinado, louvo-te isso. Calo a vontade de te recriminar. Inibo-me de te julgar. Imagino a cena. A premeditação meticulosa. O jogo do teu cérebro superior a ser usado no plano perfeito, com calma. Não consigo imaginar mais. Páro. Porque se imagino mais acho que vou perder a consciência ou vou desabar.
Sinto o coração a querer bater, naqueles batimentos arrítmicos, sabes? Mas estou a fazer um esforço estóico para não o deixar descontrolar-se. É medo. É medo de aceitar. É medo de saber que sim, que é real. É medo de desatar a chorar. É medo de começar a visualizar. É medo de te perguntar porquê e começar a comparar-me contigo e que eu estou aqui. E eu não posso fazer isso. Eu não te posso dizer:
- Olha para mim. Pensas que tem sido fácil? Pensas que alguma vez foi fácil? Pensas que não pensei nisso? Pensas o quê? Que enfrentamos a Morte e a perda sem que isso nos faça passar o inferno? Pensas que é fácil aguentar um casamento duro e sair dele sem que te deixem sair? Pensas que isto não é uma luta constante? Pensas que é fácil acordar todos os dias com o passado a olhar-te quando te levantas da cama?
Pronto, conseguiste! Ei-las que chegam! E eu não te posso perguntar nada. Não me posso usar como comparação contigo. Nem seria justo.
Vou ter saudades de te saber neste mundo. Não gostaria que um capítulo bom desse passado que acorda comigo fosse tão derradeiro e tão permanentemente fechado.
Vieram enterrar-te aqui. Estavas tão longe e agora estás tão ironicamente perto. Vou passar por ti todos os dias. Todos os dias. A começar daqui a bocado quando amanhecer e eu passar no mundo dos vivos à tua porta.
Ó meu Deus, que esta hora me passe depressa. Ó meu Deus, eu estava a protelar. Ó meu Deus, que o meu choro se cale. Ó meu Deus...

20 de setembro de 2010

Não é possível que morresses. Não é possível!


Não acredito.
Tem de ser ser engano.
Não é possível.
Não consigo abarcar.
Há duas horas que sei que a Cristina morreu. O número no telemóvel. Os contactos na agenda. Como é que eu apago uma amiga que me morreu nesta vertigem? Não consigo. Não consigo.
A Cristina morreu. Meu Deus, a Cristina morreu! Os filhos! Meu Deus, são tão pequenos!
A Cristina... Meu Deus! E eu não tive tempo de saber a tempo. E eu que não lhe telefonava há que tempos. Aqueles telefonemas para aqueles encontros de gente que tomamos por garantida, gente que está sempre lá e que retoma os telefonemas e as conversas no exacto sítio em que as deixámos. Chá na minha casa. Chá na dela. Canela com maçã. Álbuns de fotos em tardes de Outono com o sol a cair cedinho. Raptava-me à minha vida quando a Mãe morreu e eu estava perdida naquela dor maior que a Vida.
- Anda! - Dizia. E levava-me dentro da vida dela à casa dela, buscar os miúdos. Fazia-me chá. Dava-me mimo.
- Anda! - E eu ia. E ela era a coisa mais alegre que eu conhecia naqueles dias. E foi por causa da minha Dor que eu a conheci. Fazia-me coisas especiais com bordados colados. Colagens para postais. Dava-me uns presentes sempre muito originais. Ensinou-me a aspirar. Sim, a aspirar. Um dia em que me raptou para a casa dela e foi fazendo as coisas que tinha de fazer enquanto falávamos e falávamos e eu saía de lá tardíssimo.
E ela era alegre. Meu Deus, que alegre! E tinha gatos e filhos, o marido e o cão. E eu achava que ela tinha o paraíso naquela casa com vista de Tejo e das ilhas do Mar da Palha.
A Cristina morreu. A Vida ceifou-a em três semanas e eu não tive tempo de saber a tempo.
A Cristina morreu! Meu Deus, a Cristina morreu e eu não acredito.
Meu Deus, como é que se morre assim?
- Ó Cristina...