Dizem que os planetas estavam alinhados, que esta lua só de cem em cem anos nos agracia com esta vista. Dizem coisas que não acredito. Só sei, porém, que a minha vida pode ter mudado ontem, no dia da Lua de Sangue, com os planetas alinhados e todas as coincidências cósmicas em que não acredito mas que me deixam alerta e meio atónita.
A vida da minha irmã também mudou ontem. Será que há coincidências?
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28 de julho de 2018
28 de junho de 2017
19 anos
E eu quase me esqueci. Lembrei-me há bocado, como num susto. E se eu me tenho esquecido?, foi o susto simultâneo ao susto de me ter lembrado mesmo a tempo.
O ano passado alguém me disse que eu me devia deixar de insistir nestas lembranças porque são dor e o relembrar do passado. Só que eu não quero esquecer. Que mal tem querer lembrar-me? Tudo bem que a morte da Mãe é dor infinita e inultrapassável mas a Mãe é a melhor coisa que me aconteceu na Vida e que me acontecerá num futuro a menos dezanove anos deste dia em 1998.
Engraçado pronunciar 1998. Um outro milénio, uma outra época. Também nós éramos outros e outra era eu. A Mãe ficou ali naquele tempo e naquela pessoa. Não se fez outra. Ali está, cristalizada para sempre naquela juventude que não envelheceu. Nunca penso como é que Ela estaria hoje. Não tenho essa curiosidade imaginativa. Olho-a como sempre a vi e endeuso-a como sempre a endeusei. Não há mal nestas memórias nem mal se em todos os dias de hoje eu me quiser lembrar Dela de uma forma diferente das vezes que me lembro Dela todos os dias e a todos os instantes.
Continuo a sentir a amputação, a orfandade e a tristeza de não a ter aqui connosco nesta dimensão. Sinto falta do seu toque quente e macio, do seu aroma morno que dizia um tudo Dela. Sinto uma falta enorme, como um vácuo, das nossas conversas que nunca mais se replicaram com ninguém, porque ninguém fala comigo com a profundidade de inteligência com que Ela falava. Há coisas que morreram com Ela e são incapazes de ressurreição. O espaço Dela pertence-lhe em absoluto e eu alegro-me por ter esta Mãe insubstituível. Se eu devia de me deixar destas lembranças? Claro que não. A minha Mãe é a maravilha da minha vida e isso traz-me felicidade mesmo que a dor nunca se arrede...
O ano passado alguém me disse que eu me devia deixar de insistir nestas lembranças porque são dor e o relembrar do passado. Só que eu não quero esquecer. Que mal tem querer lembrar-me? Tudo bem que a morte da Mãe é dor infinita e inultrapassável mas a Mãe é a melhor coisa que me aconteceu na Vida e que me acontecerá num futuro a menos dezanove anos deste dia em 1998.
Engraçado pronunciar 1998. Um outro milénio, uma outra época. Também nós éramos outros e outra era eu. A Mãe ficou ali naquele tempo e naquela pessoa. Não se fez outra. Ali está, cristalizada para sempre naquela juventude que não envelheceu. Nunca penso como é que Ela estaria hoje. Não tenho essa curiosidade imaginativa. Olho-a como sempre a vi e endeuso-a como sempre a endeusei. Não há mal nestas memórias nem mal se em todos os dias de hoje eu me quiser lembrar Dela de uma forma diferente das vezes que me lembro Dela todos os dias e a todos os instantes.
Continuo a sentir a amputação, a orfandade e a tristeza de não a ter aqui connosco nesta dimensão. Sinto falta do seu toque quente e macio, do seu aroma morno que dizia um tudo Dela. Sinto uma falta enorme, como um vácuo, das nossas conversas que nunca mais se replicaram com ninguém, porque ninguém fala comigo com a profundidade de inteligência com que Ela falava. Há coisas que morreram com Ela e são incapazes de ressurreição. O espaço Dela pertence-lhe em absoluto e eu alegro-me por ter esta Mãe insubstituível. Se eu devia de me deixar destas lembranças? Claro que não. A minha Mãe é a maravilha da minha vida e isso traz-me felicidade mesmo que a dor nunca se arrede...
20 de abril de 2017
Dia 17: Tempo de regressar
Dezassete dias depois de chegar a esta terra de contrastes é tempo de regressar. Engraçado como os contrastes da terra proporcionam os contrastes na vida. Em dezassete dias parece que vi o mundo inteiro. Percorri desertos e estradas, vi gentes, vi nadas. Engolfaram-me tempestades, tive encontros e desencontros com as autoridades da terra, calor, chuva e frio foram as estações, desci às entranhas da terra e subi a cumes de montanhas, vi o tempo esculpido na rocha e o tempo esculpido pelo Homem Antigo, vi o moderno e o kitsch, o velho e o espiritual, conversei com o vento e comigo. Fiz a estrada. Casei na cidade perdida às escondidas e por entre Amor. Chego ao aeroporto e é um sinal de "Welcome" que me diz adeus. Confundem-me com uma actriz conhecida, negam que eu não seja ela e perseguem-me por eu ser ela. Rio. Abraço o futuro novo e velho que me aguarda ao cabo deste interregno.
Regresso feliz à Vida que me espera.
Regresso feliz à Vida que me espera.
27 de março de 2017
Dia 16: E depois de casar?
Estou mais feliz hoje do que ontem porque hoje é o depois da curva e a paisagem neste depois é infinitamente bela e cheia de promessas de descoberta. Ontem vislumbrava a curva sem saber o que estaria depois. Agora já sei e não tem os temores que eu receei, não é o igual ao de sempre, não é nada do que eu pensava, é uma coisa nova e desassombrada. Que eu Aqui esteja é o absoluto.
Meses depois o homem que me fez casar dirá destes dias numa cidade sem alma "surreal quality Vegas" e é isso: surreal. Porém, real, o meu real.
20 de março de 2017
Dia 15: O bom de casar em Vegas
Tirando duas pessoas em Portugal e duas nos Estados Unidos, uma destas últimas a que me tomou a decisão de eu me casar, ninguém sabia que eu ia fazer uma coisa destas. Aliás, já a viagem estava marcada e nem eu sabia que ia casar (pois sim, eu casar?! só se estivesse doida varrida e chalupa! jamais!, prometido a pés juntos. nunca!). Não é surpreendente a vida?
O email chegou num dia banal: "Devias casar", dizia enquanto acrescentava, "irei a qualquer lugar no mundo to give you away". Fechei o email. Marquei não lido e esperei que o tempo me dissesse algo. Casar estava-me na gaveta fechada do nunca mais. Só que eu amo e respeito (talvez até o tenha num pedestal) o homem me enviou o email e não o queria desapontar. Engraçada esta coisa de casar para não desapontar terceiros. E onde estava nesta equação estranha o homem com quem me diziam para casar? O homem com quem agora me diziam para casar dar-me-ia a liberdade do não e do sim. Já me tinha dado a liberdade do não. Um não por cada anel que me deu quando me pedia sim. Três. Deixei o coração falar com a mente para trocarem ideias sobre aquele mail. Talvez chegassem a um entendimento
"Ok, caso," respondi ao email. "Passo por Las Vegas e se quiseres vem lá ter comigo para me levares ao altar." E foi assim que decidi o meu novo casamento na condição de nada ter a ver com o primeiro e, já agora, e porque seria em Vegas, que não fosse o Elvis a casar-me numa pimbalhice qualquer sem graça e elegância porque eu tenho alergia às coisas sem graça e elegância.
Contratei uma wedding planner e disse-lhe que preparasse tudo para que o tudo estivesse pronto à minha espera quando eu chegasse para o grande momento. Não queria chatices, não queria pensar que me ia casar. No dia antes de embarcar para a América comprei um mini-vestido tipo Jackie O e levei o colar da Mãe, o colar dos anos sessenta que lhe assentava tão bem e que calhava bem com o vestido.
Casei sob um belvedere de verduras plásticas à sombra de 45ºC e aspersores refrescantes. Quem me enviou o mail levou-me ao altar e escolheu a música de entrada, se era para "give me away" pois que o fizesse em pleno, que escolhesse a música e me libertasse das chatices de preparar o meu próprio casamento, pois essas eu não as queria. não, nunca e jamais! No público apenas a wedding planner que chorou a rodos por chorar sempre em casamentos. Entrámos de braço dado ao som da música que ele escolheu. Deu-me ao homem bom, de olhos mansos e coração paciente que me recebeu. Em cinco minutos o sim pronunciado "Yes, I do" e a audição, como num filme, do clássico "By the power invested in me by the State of Nevada, I pronounce you husband and wife". "Wife..." Bateu fundo. Olho para o homem a que a lei daquela terra estrangeira me faz marido e percebo o que fiz. Aterro na minha vida e reparo que sou infinitamente feliz.
Chego ao hotel, onde ninguém sabia que eu ia casar e há champanhe e morangos com chocolate e uma carta da gerência escrita à mão a dizer como descobriram que eu ia casar. Isto só mesmo em Las Vegas, penso.
O bom de casar em Vegas? Para mim, foi o bom de um dia feliz, o primeiro, por fim, da minha vida. Não quis casar. Não fiz nada para me casar. Pensaram por mim que eu haveria de casar e eu casei. No sítio mais insuspeito no mundo, perante as testemunhas mais insuspeitas no mundo, o casamento mais insuspeito do mundo. Isto só mesmo em Las Vegas ou, então, isto só mesmo numa vida feliz...
O email chegou num dia banal: "Devias casar", dizia enquanto acrescentava, "irei a qualquer lugar no mundo to give you away". Fechei o email. Marquei não lido e esperei que o tempo me dissesse algo. Casar estava-me na gaveta fechada do nunca mais. Só que eu amo e respeito (talvez até o tenha num pedestal) o homem me enviou o email e não o queria desapontar. Engraçada esta coisa de casar para não desapontar terceiros. E onde estava nesta equação estranha o homem com quem me diziam para casar? O homem com quem agora me diziam para casar dar-me-ia a liberdade do não e do sim. Já me tinha dado a liberdade do não. Um não por cada anel que me deu quando me pedia sim. Três. Deixei o coração falar com a mente para trocarem ideias sobre aquele mail. Talvez chegassem a um entendimento
"Ok, caso," respondi ao email. "Passo por Las Vegas e se quiseres vem lá ter comigo para me levares ao altar." E foi assim que decidi o meu novo casamento na condição de nada ter a ver com o primeiro e, já agora, e porque seria em Vegas, que não fosse o Elvis a casar-me numa pimbalhice qualquer sem graça e elegância porque eu tenho alergia às coisas sem graça e elegância.
Contratei uma wedding planner e disse-lhe que preparasse tudo para que o tudo estivesse pronto à minha espera quando eu chegasse para o grande momento. Não queria chatices, não queria pensar que me ia casar. No dia antes de embarcar para a América comprei um mini-vestido tipo Jackie O e levei o colar da Mãe, o colar dos anos sessenta que lhe assentava tão bem e que calhava bem com o vestido.
Casei sob um belvedere de verduras plásticas à sombra de 45ºC e aspersores refrescantes. Quem me enviou o mail levou-me ao altar e escolheu a música de entrada, se era para "give me away" pois que o fizesse em pleno, que escolhesse a música e me libertasse das chatices de preparar o meu próprio casamento, pois essas eu não as queria. não, nunca e jamais! No público apenas a wedding planner que chorou a rodos por chorar sempre em casamentos. Entrámos de braço dado ao som da música que ele escolheu. Deu-me ao homem bom, de olhos mansos e coração paciente que me recebeu. Em cinco minutos o sim pronunciado "Yes, I do" e a audição, como num filme, do clássico "By the power invested in me by the State of Nevada, I pronounce you husband and wife". "Wife..." Bateu fundo. Olho para o homem a que a lei daquela terra estrangeira me faz marido e percebo o que fiz. Aterro na minha vida e reparo que sou infinitamente feliz.
Chego ao hotel, onde ninguém sabia que eu ia casar e há champanhe e morangos com chocolate e uma carta da gerência escrita à mão a dizer como descobriram que eu ia casar. Isto só mesmo em Las Vegas, penso.
O bom de casar em Vegas? Para mim, foi o bom de um dia feliz, o primeiro, por fim, da minha vida. Não quis casar. Não fiz nada para me casar. Pensaram por mim que eu haveria de casar e eu casei. No sítio mais insuspeito no mundo, perante as testemunhas mais insuspeitas no mundo, o casamento mais insuspeito do mundo. Isto só mesmo em Las Vegas ou, então, isto só mesmo numa vida feliz...
26 de março de 2014
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