7 de janeiro de 2008

The Race is Out!


Irrita-me o interesse desmedido em torno das presidenciais dos EUA. E irrita-me por um simples facto, é que isto é a admissão de que esta nação retalhada de culturas impôs-se no teatro político e económico mundial e detém um império mais ou menos informal (dependendo das conotações de imperialismo informal) que directa e indirectamente nos afecta a todos como um Colosso. É quase garantido que quem está de fora dos territórios em que se arvora a "Star-spangled banner" tem tendência a detestar figadalmente a única super-potência restante da Guerra Fria. Mas, quer gostemos ou detestemos, a verdade é que a América não nos deixa, e não pode deixar, indiferentes, pois o que lá se passa reflecte-se, com maiores ou menores consequências, na vida de todos nós, a começar pelo facto de que globalização é um encapuzamento de americanização e macdonaldização das sociedades à escala planetária.
Também é verdade que todos esperam que, finalmente, uma mulher ou um Afro-Americano, representante das minorias étnicas do mosaico americano (para quem não sabe é tudo menos verdade que, em termos sociológicos, a América seja o tão falado "melting pot") vá morar no 1600 Pennsylvania Avenue, Washington DC. Pois eu, não sei bem...
Explico.
Fora eu americana e o meu voto ia para o John Edwards. A propósito, acho que o GOP este ano não está em posição de discutir eleições. Estamos a falar de um grupo de candidatos muito à direita, ou que recentemente inflectiram muito à direita, que não deixa muita margem para um eleitorado menos posicionado politicamente. O Mitt Romney e o John McCain devoram-se um ao outro abrindo espaço ao Mike Huckabee e o Giuliani é um fiasco de que não vale a pena falar (é um daqueles homens que teve um momento na História, mas que não vai além disso, ademais, perdoem-me, sempre se disse que nenhum homem careca chega alguma vez à Presidência dos EUA).
O Edwards, a meu ver, é o típico americano: "self-made man", moralista q.b., perdeu um filho de 17 anos, tem a mulher a morrer de cancro e a fazer campanha pelo marido, é sulista (tem aquela pronúncia deliciosa que lembra nozes pecan e frango frito). É agradável às massas e confesso que, apesar de entender que ele não será o próximo presidente, aquele segundo lugar no Iowa foi surpreendente. Peca por não ter a máquina política da Hillary Clinton e a capacidade de gerar fundos do Obama. Claro que não é pela típica trajectória de desgraçadinho que lutou sempre contra as agruras que a vida lhe pôs no caminho que votaria nele. Mas, dentre os três Democratas presidenciáveis, ele é o que me inspira mais confiança apesar de tudo (logicamente que não é nenhum menino de coro).
Justifico.
A Hillary Clinton é um animal político que vive política até à medula. É metódica, arrogante, diligente e tem uma espinha muito dura e atenção que eu acho que isto são atributos louváveis num político. O caso Whitewater não teve maiores proporções porque os Clintons, apesar de posteriormente ilibados, saíram da Casa Branca mesmo a tempo e é certo que Clinton & Clinton é uma marca política, o que, francamente, não me convence. Depois, a Sra. Clinton tem perspectivas governamentais muito europeizadas e os americanos não gostam de ingerências federais (o plano nacional de saúde da administração Clinton, que foi o cheval de bataille da Primeira-Dama, morreu na praia) e, aquando do caso Lewinski, houve fracturas no seio dos Democratas com o Sen. Lieberman a erguer a voz contra Clinton e agora o mesmo senador anda pelo New Hampshire a favor do McCain, será que já notaram? Portanto, apesar de em '92 o NH ter votado Clinton, não sei se o fará amanhã.
O Barack Obama tem, de facto, a falta de experiência de que o acusa o bloco Clinton. Nem é genuinamente Afro-Americano nem branco (estou muito curiosa com o voto do Sul, sempre quero ver o que vai votar o Mississippi, o Arkansas ou o Alabama). Mas tem a Oprah, a personalidade feminina mais poderosa e popular na América e a capacidade de gerar as maiores doações via internet. Se for eleito, duvido que tenha muita liberdade de manobra porque as eleições pagam-se e os lobbies cobram-se. Mas seria interessante ver alguém chamado Barack Hussein Obama dirigir a América!
Enfim, veremos como se porta o Edwards amanhã. Cinco dias após o Iowa e num caucus absolutamente frenético com 33 Estados a votar em 31 dias ao contrário da última eleição em que num mês votaram 9 Estados, veremos o tempo que os candidatos têm para inverter discursos e arrepiar caminhos. A very interesting affair for someone that likes to see the battles from afar!

23 comentários:

bluegift disse...

Concordo contigo, os EUA representam demasiado na história, economia, segurança e cultura mundiais para que se fique indiferente. São as eleições mais importantes do planeta, sem dúvida. Tenho o feeling que o Edwards vai ganhar, apesar de que eu votaria num Obama, jamais na Cliton.
Mais uma coisa: os EUA são um país que tem tanto de detestável quanto extraordinário. Se a minha família e amigos não vivesse na Europa seria, seguramente, o meu segundo lar. Sim, eu sei que há uns tempos vocês fartaram-se de deitar abaixo os americanos. Eu estou a olhar apenas para os lados positivos do país, nada desprezíveis.

antonio disse...

E a tentares convecer-me que não és americana...

A sério bom texto, o que é raro quando um europeu fala dos EUA, são acometidos de acefalia primária. O teu texto foi uma agradável surpresa.

Agora parece-me inacabado...;)

quintarantino disse...

Well, I would love to be there tomorrow and on the 5th February. Really. Feel the sweat, the heat and the blood.
A political campaign is something astonishing. Believe me.

As for the candidates, if I where american I would probably give my vote to Edwards on the Donkey side (by the way, Democrats are so called Donkeys after their candidate Andrew Jackson; the Republicand of those days called him Andrew Jackass = Donkey) or on the Mitt side if I where an Elephant (they used to be eagles).

Since I'm an european I would like anyone to win since it wasn´t Huckabee neither any one seeming a less Bush with muscles.

Since I'm an european with funny ideas on politics (I'm still searching for a socialist politic that isn´t afraid to use his muscles or his balls) I would like Hillary Clinton to win.

Yes, she is all that you say but I have the strong sensation that she can be a disaster in campaign (and she is) but she would be a great ruler.

That Lewinski affair that you mention could be, if well used, turned in favour of her campaign. But then "spin doctors" would need a more sobbing Hillary.

I saw John Edwards and his wife talking about her cancer problem and I thought it was disgusting. But then it´s me as european speaking.

If by any chance I had to vote for Republicans, well then I would stick with "Bold" Giuliani.

I can't stand those methodists and reborn christians that are almost equal to those islamic radicals; seeing those ladies praying on the Huckabee campaign almost made throw everything up. That´s pure hypocrisy and absolut blindness.

Rommey could also deserve a chance.

By now I think Obama will win New Hamshire and put a lot of pressure over Hillary. Either she finds what people want quickly or she can say goodbye to that dream of her.
But even if Obama comes to be the chosen one (with all the help from Oprah), he will have to face major problems afterwards.

One will come from where he less wants problems coming.
The afro-american (can´t see why we can´t say black, but then it must be me as a "boer" thinking) radicals will tend to appear and that is a problem he wouldn´t like to stay hidden.

But it's amusing. And by the way, I think USA is like those relatives that we can´t quite decide if we like or we hate.

I guess it must be amazing doing USA coast to coast, for instance.
And I love some of their things.

Oh, and by the way, start watching more carefully campaigns.
Who knows?

Blondewithaphd disse...

Pois olha Blue, apesar de tudo, eu gosto dos EUA (cheguei a ver casas em St Augustine na Florida a pensar que conseguia viver ali, mas isso são outras histórias). É claro que em termos culturais aproveitam-se os nova-iorquinos e os bostonianos, o resto são todos uns "rednecks" impolidos e incultos. A "deep America" é profundamente deprimente. Mas há Harvard e a Ivy League toda e a potência de um país que se fez a si próprio na convicção de que venceria. Há que admirá-los! Eu admiro-os, claro, mas também os castigo, naturalmente! Afinal, também castigo Portugal (e não é pouco!)

Blondewithaphd disse...

Antonio, Antonio, este texto só se acaba em Novembro;)

Blondewithaphd disse...

Quinn, another political animal you are! Of course that when campaigns are concerned every single blow or weapon counts. So the Edwards sell Elizabeth's cancer to appeal to people's hearts. It's a method just like any others.
Gosh man, don't tell me you would give Giuliani a chance!
Turn the Lewinski affair in Hillary's benefit?! I don't see a point in that. Hillary would rather eat flaming blades than touch that again;)

I have the dream of driving Route 66, wanna join? I did Canada-Florida (with loads of coffee to stay awake during those long driving hours) and it was awesome!!!

quintarantino disse...

When I say turn it in her favour...
Picture this: Hillary sobbing (just a little bit), telling american people she had her doubts but she was married to that man, family always comes firts, she had prayed a lot...
Do you want best?
But then, she is unable to do that.
There you have a point.
And that is what will turn to doom her.
As you see I'm a hell of a "spin doctor".
Count me in on that driving thing.
Miss, what an adventurous life you have... driving and coffee ... Canada to Florida... gee!!!!

bluegift disse...

Eu também fiz a costa leste e ADOREI! Fiquei mais tempo por Chicago e NewYork. Uma experiência inesquecível e a repetir. Um dia destes ainda combinamos todos fazer a 66 ;)

Tiago R Cardoso disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tiago R Cardoso disse...

Como país fascina-me, quer dizer como local para visitar, não me parece que com um sistema politico e social daqueles eu deseja-se lá morar.

Demasiado confuso, demasiadas variantes dentro da mesma nação.

Fizestes uma grande analise da situação, digo-te fiquei mais informado do que em muitas reportagens que tenho visto por cá.

Penso que os melhores candidatos e aqueles que realmente poderiam fazer alguma coisa estão ofuscado pelas "máquinas" dos favoritos, como sempre por lá a propaganda e o mediatismo são leis.

indomável disse...

Blonde,

mais uma vez me convenço que as mulheres têm sido um património mal aproveitado durante séculos... mas isso são outros carnavais.
OS EUA são uma super-potência que se quer policia do mundo. Por essa razão também está sempre sob o escrutinio do resto do mundo e sofre disso consequências visíveis, não se permitindo falhar (embora falhando no processo, mas quem não erra, não é?).
Temos outras super-potências que passarão despercebidas até elas entenderem, mas a quem ninguém dá atenção e de onde poderão vir piores consequências que o espectáculo feito pelos EUA - a China e a India.
As presidenciais norte americanas chamam-me sempre a tenção, sobretudo pelo curioso que é aquele tipo de organização politica.
A Europa olha de longe aquela federação de Estados, dando a entender que nunca resultaria cá. Mas o que vemos na realidade é uma organização europeia a tentar arduamente atingir aquele tipo de organização.
Todos sabemos que um país se diferencia dos outros quanto à lingua, cultura, legislação própria e capacidade de cunhar moeda. Na Europa temos Estados autónomos, mas teremos verdadeiros países? Os unicos países autónomos na Europa são aqueles que ainda não aderiram e a Grã-Bretanha. De resto somos estados como os norte-americanos que apenas diferem de nós no facto de terem uma polícia federal que se sobrepõe às locais!
Por isso, apesar de concordar contigo naquela história dos rednecks, não me parece que possamos realmente deixar passar despercebido o sistema politico norte-americano e a forma como elegem os seus representantes. Talvez que um dia tenhamos nós um sistema semelhante. Mais vale aprender com os erros dos outros, ou não será o caso?

Blondewithaphd disse...

Blue,
DEAL!

Blondewithaphd disse...

Tiago,
É realmente um país fascinante! Mas concordo contigo, um sistema mais europeizado e aí é que se tornava um país muito mais do nosso agrado;)

Blondewithaphd disse...

Indy,
Sim a UE é em si uma espécie de aglomerado federativo de países. Se isso é bom ou mau, não sei realmente. Há estados federados na Europa como a Alemanha, mas são em ponto muito mais pequeno que os EUA. O modelo federativo tem as virtudes da supremacia do poder estadual muito mais perto dos cidadãos e um governo que depois procede à unificação nacional. No caso da UE acho que temos o receio da demasiada desagregação nacional que pode ocorrer. Em todo o caso, a Europa é uma federação de países, línguas e nacionalidades muito díspares que dá agora os primeiros passos. Os EUA têm uma história comum e muito mais elos de ligação que nós e um país com mais de 200 anos de continuidade federal. A ver o que os nossos estadistas fazem da Europa.
Sim, concordo que é um assunto muito complexo.

Blondewithaphd disse...

Quinn, Quinn, Quinn; a hell of a spin doctor! They would give you the spin doctor oscar if you made Hillary turn into the abused wife;)

quintarantino disse...

And don´t you tell me I wouldn´t deserve it...
By the way, you posted under the title "The race is out!" and I remembered that song on some movie "The heat is on!"

António de Almeida disse...

-Vou mesmo directo ao assunto, uma vez que comentar cenários é sempre fazer futorologia, e eu hoje também postei nesta matéria. Alguém ficaria surpreendido se, Edwards daqui a uns tempos, depois dos estados do Sul terem votado, vier a desistir apoiando Obama? E caso este ganhe, seja Edwards o candidato a vice-presidente? Não procurará por seu lado Lieberman igual cargo, por parte de McCain, como forma de penetrar o eleitorado democrata? Mas acabo como comecei, comentar sobre cenários previsiveis...

Carol disse...

A portuguese text deserves a comment in portuguese!
Sinceramente, custa-me a acreditar que Obama seja o próximo Presidente... Não me parece que os americanos estejam assim tão liberais que se esqueçam do factor "raça". Chamem-me descrente, céptica, o que quiserem, mas não acredito!
Apesar de não ter grandes conhecimentos sobre política, nomeadamente a americana, o meu voto iria para a Hillary. Perdoem-me, mas acho que esta "donna" tem uns "balls" bem grandes! Acho que tem estofo para líder...

Blondewithaphd disse...

Quinn, with the temperatures in NH, they definitely need some heat on up there;)

Blondewithaphd disse...

António de Almeida,lógico que ninguém entra numa corrida destas para perder. O mais que pode acontecer ao Edwards é ser, novamente, o candidato a vice como foi com o Kerry. E o Lieberman lá terá a sua "hidden agenda" (agenda escondida???) e pode perfeitamente agradar aos Democratas mais à direita do espectro partidário com as suas ideias e moralismo conservador.
Já agora, aquele seu "ticket" (???) Obama/McCain é capaz de bater certo porque as duas cidades que já votaram no NH elegeram esses dois. Falta ver o NH mais citadino como se porta com a ligeira vantagem Romney. Amanhã a esta hora já saberemos!

Blondewithaphd disse...

Carol, o Obama vai lançado neste momento. Se a Hillary for outra vez para terceiro lugar vai ficar com a campanha muito desmoralizada. E, my dear, ela não tem estofo de líder, ela É uma líder, talvez até demais para o gosto americano;)

quintarantino disse...

Am I more or less good or what?
A public appearence where she almost let a little tear drop and... zush... back in the race. Sorry, I didn´t tell you all (just a little sign) before about the tear but I had to keep it secret.
I'm learning there so I can later make you president. Don´t know of what, but something will be...

Joshua disse...

Não sei porquê, mas pareces-me cada vez mais Palavrossavrvs-Rexizada, isto é, com uma pitada de agressividade, factos fortes, frontalidade crua.

Agora que o cenário electivo norte-americano gera hesitações de monta, gera. Não as escondes. Uma forma de resistir à globo-americanização não é ignorar, é conhecer para desconstruir.

Beijos (Don't be mad at me!!!!)
PALAVROSSAVRVS REX