6 de outubro de 2010

Diários agrícolas: o meu pedaço de chão

O solo está crestado e áspero. Conjuro memórias de um passado abundante. Inalo o cheiro plácido de uma terra amena que me povoa um tempo ido. Havia pomares e vinhas, terra de pão e oliveiras que davam um azeite verde cristalino que se empastava na invernia. Lembro-me de vindimas e do cheiro a mosto na adega. Lembro-me do som distante de gentes que amanhavam aquela terra, esta terra cinzenta que agora piso e pela qual entro falando baixinho:

- Perdoa-me. Vou tratar de ti. Aceita-me de volta.

Os portões foram roubados. Uma parte do muro de cima ruiu. Vou ver os poços. Há água, muita, de um inverno húmido que deixou marcas. Mas tenho sempre medo daquela escuridão fresca com água parada que me reflecte a face que espreita a medo. Percorro a terra caminhando sobre grossos torrões revolvidos. Verifico marcos. As vedações também desapareceram.

- Venho aqui tomar-te de volta. Reclamo-te. Abraço-te.

Sinto-me a herdeira que não devia ser. Não ainda. Entro como proprietária. É cedo demais. Há doze anos que é cedo demais para eu ser herdeira do que quer que seja. Mas sou e é tempo, mais do que tempo, de tomar o pulso às coisas. Sinto que a Casa Grande já me vai correndo nas veias. A casa que me ocupa tantas páginas neste blog. A casa que também herdei cedo demais, tão grande que quase me afogou. Tão pesada que quase me asfixiava. Deitei paredes abaixo. Erigi outras tantas. Pintei e repintei. Destruí, restruturei, construí. Domei memórias. Apaziguei saudades. Convivi com ecos e portas fechadas. Fui um fantasma e vi fantasmas. É tempo de olhar noutra direcção. Continuar numa outra etapa deste luto doloroso e fazê-lo para continuar a seguir em frente.

Ali estão, estes hectares de chão que se declina suavemente pelo outeiro abaixo e se espraia numa várzea virada para o sol nascente. O meu pedaço de mundo. O meu legado tão precoce e violentamente caído nas minhas mãos. Venho reclamá-lo. É tempo de enfrentá-lo.

- Estou aqui. Vou cuidar de ti.

8 comentários:

Eu Mesma! disse...

existem textos teus que batem aqui mesmo dentro...
este foi um deles....

Fenix disse...

"A terra a quem a trabalha"!
Que desperdício, não?!!!

S* disse...

Está mesmo a precisar de ser cuidado... boa sorte na tarefa.

antonio - o implume disse...

Desejos latifundiários, terra estéril em busca de carinho...

Daniel Santos disse...

gostei... a terra é a nossa origem.

Ana Campos disse...

...E o nosso fim!

Joaninha disse...

É tempo sim senhora, como te entendo :-)

beijos

Maria, Simplesmente disse...

Como eu conheço esses sentimentos!...