21 de janeiro de 2011

Admirável mundo novo


Começou em lágrimas.
- Gosto tanto de ti, filha. Gosto tanto de vocês...

Eu não sabia que acabaria noutras lágrimas.

Prodigioso mundo quando agarramos na Vida com as mãos.

Dia longo. Tremendo. A lua que se põe na madrugada está grande e perto. Tão perto... Penso que será a única coisa boa do dia que começa e dou-me por feliz por ter a lua como bom do dia. Ou melhor, dou-me por feliz na capacidade de, num dia antecipadamente pavoroso, discernir o bom e ter esse pedaço de bom. O Pai telefona enquanto estaciono ao chegar à faculdade. É sempre o primeiro, sempre. Mas este ano chora. Chora. E desliga em choro. Perturba-me. Chora porque me gosta. Chora porque a Vida se alongou e a bagagem o alquebrou. Chora porque a Frau Hoffmann morreu no dia anterior e a Morte o olha. Chora porque há muitos porques que não interessam e basta que sejam porques.
Amanhece em pleno.
O dia antecipadamente pavoroso cresce. Vai-se esfumando no muito que me acompanham, no muito que me falam, no muito que me rodeiam, no muito que me fazem sentir pessoa; pessoa boa. Eles sabem que gosto deles naquela envolvência morna de pastéis de Belém regados a Nós. Ainda me surpreendo na coincidência supra-cósmica de nos termos nos termos em que nos temos. Sou feliz nesse aí, num dos aís em cenário da minha Vida.
A lua levanta-se quando saio da cidade e regresso ao meu campo de cheiro a chaminé de lareira acessa. Está cinematográfica. A lua laranja com farrapos de nuvens que se atravessam na luz de neblina de lua grande perto da terra. O contraste com a fila de faróis encarnados à minha frente lembra-me o prodigioso do dia antecipadamente pavoroso que se esfumou. A lua leva-me para casa no privilégio de ter a lua que eu pensava ser o único pedaço de bom do dia, quando foi, apenas, premonição de bom que eu não interpretei.

A banda sonora é uma canção de amor mau. Por muito que eu não quisesse, ou queira, é a minha canção de sempre. Talvez seja a música. Talvez a voz da Mary J. Blige. Talvez o Bono que canta One, quando One é, claro, uma impossibilidade e a impossibilidade sempre me desafiou. As imagens correm no televisor. Começam na Austrália e eu não sabia da existência destas imagens. O zero absoluto. One é isso. One sou eu comigo. E eu nasci para mim na solidão da Austrália. Choro que me farto. Vejo-me nas imagens que correm embrulhadas naquele One em banda sonora. Vejo-me ali e só me vejo em Graça. Correm num círculo que se fecha há uns dias apenas na mulher que olha o mar no voo das asas recém-abertas. O amor mau dá uma banda sonora paradoxal, uma banda sonora redonda repetida à exaustão. O amor mau da banda sonora serve-me as imagens desta Vida admirável.
Love is a temple
Love the higher Law...
One Life
You got to do what you should.

Acho que foi o melhor presente de sempre. Talvez, afinal, no dia antecipadamente pavoroso, o melhor aniversário de sempre.
Somos a soma das nossas escolhas, diria o Woody Allen. As imagens correm e neste pós-dia revejo-as em repetição sobre repetição. O melhor presente de sempre quando alguém que não Nós nos oferece o Eu para que o Eu One se reveja em terceira pessoa.

Eu fui à procura do impossível. One. In.

PS - Dedicated to the Ones I love and you that make me One.

5 comentários:

antonio - o implume disse...

No ar sopra o nosso destino.

Ältere Leute disse...

Que susto me pregou no início da leitura... ! Uff ! Que alívio!

S* disse...

Alguém que nos ama e nos faz sentir amadas é, sem dúvida, o melhor presente.

Turmalina disse...

Parabéns querida Blonde!!!
Cadê o bolo?
E quanto ao amor, seja ele one ou não, nem sempre nos sai como os outros idealizam, mas acho que acabamos aprendendo à nos amar nos outros.
Grande beijo e obrigada pela constante presença :o)

António de Almeida disse...

Parabéns!