21 de maio de 2011

Um instante

Pára ao meu lado num semáforo. Conduz uma carrinha empoeirada que já viu muito sol e muitos anos. Cabelo longo frisado. Castanho banal. Óculos escuros sem estilo, sem moda. Deve ser mais nova que eu. Os braços descaem na flacidez dos músculos. Enquanto apoia a cabeça sobre o ombro esquerdo para ver se o sinal cai imagino-lhe a vida. É só um instante. A brevidade dos segundos desenrola-me um filme. Vida de compromissos algures num subúrbio de apartamentos e muita gente. Horários de escolas e creches. Jantar para fazer. O emprego. O dinheiro à justa.
Olho para mim na antítese. Ali, lado-a-lado num semáforo em Benfica, separa-nos um abismo. Prefiro a margem em que estou mil vezes. Se eu sair fora de mim também vejo um filme, tão sedutor e diferente do daquela mulher que arranca na pressa ao verde do sinal. Os olhos que já viram mundo por detrás de óculos de revista. A Casa relvada e a vida desimpedida. Os braços rijos. E, no entanto, não sei onde pára essa coisa esquiva chamada felicidade...

11 comentários:

bluegift disse...

Olá menina. Long time no see. Gostei deste teu momento, também me encontro nessas reflaxões de vez em quando. Provavelmente ela terá os seus momentos de felicidade, à sua maneira. Mas também prefiro o outro lado da margem. Vá-se lá saber porquê...

Fernando Vasconcelos disse...

hum, são interessantes esses momentos não são? Por vezes acontecem-me também ao olhar para as janelas das cozinhas que se vislumbram em certas vias rápidas demasiado perto dessas vidas que cruzamos ... Interrogo-me então se terão sido para elas dias banais ou dias extraordinários os que se passaram e se o momento que vislumbro é de felicidade ou de rotina. Nem sempre prefiro o meu lado da margem, confesso.

antonio - o implume disse...

Lado a lado e nunca estamos do mesmo lado. A felicidade está nesse desprendimento que nos faz aceitar com assombro os momentos que sabemos irrepetíveis por mais banais que o sejam e sobretudo se forem simplesmente banais. Aquele arranjo floral que nos deixam, como uma pequena nota: pensei em ti, fiz isto para ti; como o abraço inesperado de uma das minhas filhas dizendo precisei deste momento e soube-me tão bem; é como passar por aqui e tropeçar neste texto.

Ana disse...

Gosto muito de a ler e de a imaginar...
Adorei este post sobretudo: "onde pára essa coisa esquiva..."
Parabéns.

Cristina Torrão disse...

Bom momento de leitura, parabéns.

João Afonso Machado disse...

A sua felicidade está no seu mundo. Dentro de si que é a melhor companhia de si própria. De resto até se vê que sabe falar consigo excelentemente. E ali o Spotty ainda dá uma ajuda.
Que quer mais?

António de Almeida disse...

A felicidade estará algures no momento em que aceitamos e apreciamos devidamente aquilo que temos, não me refiro apenas a bens materiais, o que somos e o que existe à nossa volta...

George Sand disse...

Eu também não sei Blonde.
É esquiva, traiçoeira, fugidia...mas vai-se procurando. Sobretudo nos outros, para os os outros e com os outros. (Sartre nesse aspecto, estava enganado)
Never quit!

Eu Mesma! disse...

adorei o texto...
tb eu por vezes nos semáforos me deixo levar....

sem-se-ver disse...

ambas as margens são uma só, no que se refere à felicidade... não é? :-)

Leonor disse...

Adorei o texto. Beijo