6 de julho de 2011

Alguém me explique como se eu fosse muito burra

Hoje acordamos para a lixeira em que a Moody's nos colocou.
Hoje fui ao ginásio e uma colega despediu-se: parte amanhã para Espanha em busca de trabalho.
Hoje recebi um mail de alguém que precisa de trabalho e esperança.
Hoje não posso estar em modo silly season.

Há coisas que não entendo. Portugal não é o Ruanda, o Burundi, a Venezuela ou o Equador. Portugal é, ainda que não pensemos nisso, um país de primeiro mundo. Temos corrupção a rodos, uma justiça burocrática, morosa e medieval, uma classe política inepta, um sistema de ensino que é uma vergonha. Mas temos democracia, Estado Social (a cair, é certo, mas temo-lo), empreendedorismo, empresas, diplomacia, igualdade de direitos. Como é que podemos ser lixo? Como é que agências de rating (e rating, que eu saiba apenas significa classificação, cotação) se sobrepõem à soberania de um Estado independente? E como é que os responsáveis políticos que nos ajudaram a chegar aqui podem ser desresponsabilizados ante os cidadãos? Eu devo talvez ser muito estúpida porque não entendo este estado de coisas num país europeu, civilizado e, apesar de tudo, avançado.
Como é que podemos ser o país em segundo lugar de probabilidade de entrar em bancarrota? Então e a Síria ou o Zimbabué? A Somália e a Etiópia? Meu Deus, os Estados Unidos? Descapitalizados e endividados, os maiores devedores da ONU.
E como é que pessoas decentes, com famílias, contas, gente que trabalha, podem ser obrigadas, por força das circunstâncias e conjunturas, a suportar os humores, os moods, de uma qualquer Moody's e de políticas desastrosas que tantas e tantas vezes são feitas ao arrepio e em total ignorância das reais necessidades do país?
Porque é que nos curvamos perante imposições externas? Porque é que temos medo da nossa própria soberania? Onde anda a nossa coluna vertebral?

Sim, há coisas que não entendo, que não tenho capacidade para entender mesmo que me expliquem em versão lenta e com desenhos. Não percebo como é que um país naufraga desta maneira, um país que não é o Kazaquistão ou El Salvador. Um país onde, na comparação com os países deste mundo, até e ainda é uma boa sorte nascer (para quem aqui nasça ou, como eu, aqui viva nas opções que se tomam na vida).

10 comentários:

zana dias disse...

Faz-nos mais diferença o q dizemos dos outros do q os outros dizem de nós, acho!

Daniel Santos disse...

Deixa estar que alguém tem sempre um explicação.

João Afonso Machado disse...

Já reparou que essas agências apenas medem o rating da República?
Já reparou que, não obstante o «lixo» ainda não ouvimos (agora) Mário Soares e as suas mensagens ao mundo?
Isto não lhe diz nada?

George Sand disse...

E a procissão ainda vai no Adro Blonde. Muito mais medidas se avizinham. Ou muito me engano ou estamos só na crista do furacão...

Ältere Leute disse...

Realmente... depois de um dia em que só os Duran Duran foram notícia... Foi o tal "murro no estômago"!

antonio ganhão - o implume disse...

Os desígnios da Moody's são mais insondáveis do que os de Deus...

António de Almeida disse...

Uma vontade enorme de virar costas ao estado a que chegámos, anda muita há vários anos a avisar que tarde ou cedo isto iria acontecer, mas ninguém quer saber. Como escrevi dezenas de vezes, querem reformar o Estado a bem ou à bruta? Parece que os portugueses escolheram a 2ª hipótese. Quanto às agências, elas estão de facto sobrevalorizadas, porque lhes dão demasiada importância. Ouvi ontem uma análise lúcida, quando o BCE (europeu), para emprestar dinheiro a um estado membro, contrata os serviços da agência americana, em vez de fazer ele próprio o seu trabalho de avaliação, está tudo tido. Comento aqui, porque o texto coloca questões de forma correcta, não entra na tolice de dizer que se deveria multar as agências, ou ainda pior, criar uma agência europeia, alguém iria acreditar nas suas avaliações? Não! Importa é que o BCE e U.E não tomem decisões baseadas nas notações das agências, só isso. A questão envolve uma guerra Euro vs Dolar. Deixemos de lado o disparate e façamos o nosso trabalho, que é cumprir o acordo...

Olá Amor disse...

Blonde, é muito simples e respondo-te com uma pergunta: como queres que os nosso incompetentes governantes que se subjugaram estes anos todos, não se subjuguem agora? Não sei bem como vamos sair disto, mas sei que não é por aqui por onde estamos a caminhar.

Daniel Santos disse...

Acabei de enviar para o mail "anthony.thomas@moodys.com", eu que sou um gajo concordato e amigo do meu amigo, a seguinte mensagem: "go fuck yourself."



Já me esquecia, o fulano é o presidente da Moody's.

A.B. disse...

Blonde, tente este video-quarteto
- The Inside Job
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- Uma Verdade Inconveniente
...e depois junte ao resto.
Claramente está a decorrer um novo tipo de guerra, e não é da Moody's contra Portugal, nós somos só uma casualidade colateral.