19 de março de 2012

Vejo-as

Não me reconhecem. Sou invisível como os estranhos que não se conhecem. Pedem dois cafés na manhã ensolarada no café onde trabalho ao computador nas coisas que faço porque faço e porque quero. Lembro-me delas do colégio. Uma é da minha idade, a outra um ou dois anos mais velha. Acho que eram irmãs ou podem ser só amigas.
O tempo não foi generoso com elas. Embranqueceram os cabelos crespos. Engordaram. As caras acusam a vida que lhes adivinho nas roupas e na postura. Penso no meu percurso de pulso para chegar aqui, o pulso que se tornou nos meus privilégios na face sem rugas, nos cabelos cuidados, na vida que já viu muito e andou por muito. Dou graças, sempre e em toda a hora. Dou graças pelas oportunidades e pela conjuntura familiar. Dou graças pelos meus discernimentos e determinações. Dou graças até pelos sofrimentos que me fizeram Eu.
Vejo-as e agradeço por não ser eu a observada pelo meu olhar.

3 comentários:

zana dias disse...

Got curious...Would I recognize them too?

mfc disse...

E porque não te observas?!
Eu observo.me...

Leonor disse...

Gostei muito :)
Somos muitas vezes implacáveis, connosco também.