7 de maio de 2012

Vi a Lisboa do Bourdain

Aqui.
O que é engraçado (ou talvez não) é que eu chego a Lisboa sempre através dos Outros. Conheço melhor Lisboa pelos olhos dos estrangeiros do que pelos dos portugueses. Agora vi a Lisboa do Anthony Bourdain. O que é que hei-de dizer? Faz-me confusão a insistência nos eléctricos, no fado, no passado do salazarismo e dos Descobrimentos. Faz-me impressão a ênfase na crise como se sempre e só sejamos um povo diminuído.
A Mãe, que conhecia os portugueses através dos alemães, irritava-se com o servilismo e a menorização portuguesa do país de velhas com xailes pretos, bairros degradados e pobreza. Estes anos depois, pouca coisa mudou. Talvez só os xailes pretos tenham morrido com as velhas que morreram.
Porém, ao fim destes anos todos a ver Portugal desta maneira, acho que a imagem perdura porque, se calhar, Portugal é isto: é esta alma dorida perpetuamente, o fado desconsolado que entrou nos genes. Se gostei ou não do programa do Bourdain (de quem me acho fã) não importa. Vi como se fosse a estrangeira que sou em grande parte do tempo da minha existência e dessa percepção ficou-me a vontade de ir ter com a Lisboa das vielas íngremes, dos grafittis nas paredes, dos sons de gente que vive saudade. Por muito que eu gostasse que a imagem de Lisboa fosse uma de cosmopolismo moderno, tenho de confessar que esse é o meu engano. Não posso querer que este país ou esta capital se aproximem de coisas que não são só porque eu me amesquinho e penso que esta imagem não é necessariamente a nossa. Não posso querer que Lisboa seja Nova Iorque, Londres ou Berlim. Afinal, eu adoro Lisboa e talvez a ame por ela ser assim: cheia de velhice e de graça decadente, cheia, afinal de uma vida absolutamente castiça que eu não e nunca posso encontrar nas metrópoles do Norte que me fizeram a educação. Mesmo que eu olhe para Lisboa sob o prisma estrangeirado, caramba, não há disto em mais lado nenhum. (Só gostava mesmo era que filmassem menos cães abandonados, menos velhos perdidos em solidões e menos aparato de pobreza porque somos mais do que isso).


1 comentário:

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Eu creio que é precisamente esse ar de velhinha indefesa que encanta os estrangeiros.