24 de janeiro de 2013

Morrer para poupar

Não me espantam as declarações do Ministro Japonês das Finanças sobre a necessidade de poupar o Estado Social às despesas decorrentes da velhice e da inviabilidade da vida mantida artificialmente. Alguém tinha de ser o primeiro a dizê-lo com todas as letras.
Nunca em fase alguma da nossa evolução como espécie vivemos tanto mas também nunca os nossos dias se acabaram em tanto arrastamento, em tanto adiamento do inevitável. Não acho humano, porque acho indignificante, que morramos na decrepitude total só porque há máquinas com as quais brincamos aos deuses (imperfeitos). Se me disserem que falo só por falar, desminto com o conhecimento de causa de quem desejou a morte do Ser que mais amava, de quem rezou a um Deus livre dos espartilho da Igreja dos homens para que o fim chegasse e chegasse célere. Falo conhecendo o martírio dos que estão agarrados à vida na impotência da decisão, dos velhinhos que perderam todas as suas faculdades, que estão inferiorizados na sua humanidade porque a medicina os levou até aí, ao insustentável onde se encontram à espera, à espera. Falo das famílias assoladas pelo prolongamento atroz desse martírio. Acho apenas que não há direito a um tipo de sofrimento que não nos é natural como espécie.

Porém, as palavras do Ministro abrem caixas de Pandora de consequências inimagináveis. As palavras do Ministro atribuem um valor económico ao que é incalculável. As palavras do Ministro criam contingentes de humanos descartáveis. E isso não é moralmente aceitável. Porque, afinal de contas, não somos uma espécie qualquer, somos o exemplo máximo da Criação ou a espécie mais bem sucedida na Evolução. Nenhum Homem pode ter um valor, como nenhum Homem pode ter um custo. Como ficamos entre o paradoxo do direito à dignidade na recta do fim e a quantificação do nosso peso morto e desnecessário ao grupo?

Não sei a resposta. Sei apenas que não é matéria que se deva meter em exclusivo nas mãos dos políticos como estamos a deixar que se faça. É que um dia seremos nós o peso morto de amanhã.

Aqui a notícia.

3 comentários:

luisa disse...

Aflige-me pensar no "fim" dessa forma. O maior problema do Homem é querer brincar de Deus. Para o bem e para o mal.

Ältere Leute disse...

Partilhei no FB e vai tendo muito eco... Porque esse seu modo de dizer a(s) coisa(s) desperta as campainhas certas !

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

O grande problema dos políticos actuais é que as pessoas os atrapalham...