26 de dezembro de 2013

Houve dois Natais


Se eu morresse hoje havia dois Natais que eu levava.
1997 - Estávamos os quatro felizes como nunca. Pela primeira vez em seis anos eu não pensava que aquele poderia ser o último. Pensei, antes, que seria o primeiro de muitos depois de tudo. Não festejei com receios de perda. A Mãe, eu e a Mana dançámos ABBA e Demis Roussous até às três da manhã. Foi o Natal mais feliz da minha vida de então vintes e tais. Três dias depois começaria o fim. Seis meses depois e este tinha sido o último Natal. Mas enquanto o festejámos não havia futuro e o Natal foi livre de sombras e incertezas.
2013 - Refizémos a vida de tal modo que, dos três que restámos estropiados e dilacerados ao infinito, somos hoje o dobro do que éramos quando éramos quatro: felizes por nos termos desde sempre e ainda e por nos termos encontrado em outros. A Mana multiplicou-nos. E mesmo que eu sinta sempre a falta da Mãe e o meu coração eternamente sinta o vazio da presença física Dela, conseguimos ser felizes na estabilidade que, a custo, fomos criando para as nossas vidas. Este ano tive um ajudante para distribuir os presentes. Passinhos pequenos e ágeis que procuram a pessoa a quem a Tia diz para levar os ditos. Sorriso impresso em olhos contentes e, ao colo de avó que nos é maternal, porque o sangue nem sempre é tudo, sete meses de gente que dão conta de tudo até ao dia em que também ajudará a Tia a distribuir presentes. Estamos completos. Fizémos uma família que tem tanto de continuação de uma primordial como de construção nova. Estou orgulhosa de nós. Estabilizámo-nos. E eu tento evitar o receio da comparação com um outro Natal imensamente feliz porque o medo está sempre lá. Depois de experimentarmos a irremediabilidade da Perda, dificilmente baixamos a guarda para nos darmos a felicidades totais. Mas neste Natal, a felicidade vivi-a enxotando o medo. O Manel e a Margarida são mais fortes do que o meu medo, tal como os bordões que encontrámos para nos acompanharem na vida são mais fortes do que o meu medo.
Que me sossegue o coração e se apazigue porque se eu morrer hoje, ontem foi um dos melhores Natais de sempre. 

2 comentários:

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

É uma mulher feliz, porque as gerações vão renovando o seu Natal, Blonde.

Ältere Leute disse...

Leis da Vida que, por portas, às vezes tão enviesadas,se consagram no tempo para dar continuidade renovada às pessoas, às coisas e aos lugares !