
Call it Fate or Fado or whatever.
I had decided that my first 2008 post was going to be about the Dakar and I would post my rentrée text today. I was going to say how much I love the Dakar race, how I have the dream of participating in it (and I usually fulfill my dreams), how I've been in love with the desert ever since I laid my feet in the Sahara for the first time, how I hate January and that the only good thing about it is the Dakar (and I absolutely hate it that my birthday has to be in such a cold, grey, looooooong month and the misery of being a down-to-earth, insipid Capricorn).
But, hey, some terrorist blokes have messed with my intentions and I can't tolerate that! I'm fed up to the bone that we have to be the hostages to a bunch of no-good-for-nothing Islamic fundamentalists that don't know anything about anything, who have only memorised (not read) the Koran and think that Allah is an exclusive God of the Arabs and forget that the three semitic religions have only one same God and that we are all the children of Abraham.
So, you fundamentalist bastards, I'm still gonna write about the Dakar and how much I love the deserts where you hide cowardly and from where you try to menace and destroy us.
É verdade, sou fanática pelo Dakar. Adoro aquela prova de resistência. A invasão e a conquista do deserto e do espaço inóspito. Desde miúda que acalento o sonho de entrar na prova, não para competir mas numa de me divertir e superar limites. É a adrenalina do perigo. E a ansiedade do ser capaz ou não e ter de ser capaz à força toda. Adoro!
E sempre me lembro que o Ano Novo entra com o Dakar e evita a pasmaceira pardacenta do detestável mês de Janeiro. É o ocre e o calor do deserto que, vindos pela televisão, dão um certo colorido ao lamaçal de Janeiro. E é, sobretudo, o DESERTO.
O Gobi, o Caláari, o Atacama, o Great Outback... o Sahara. Conheço-os todos dos meus atlas e dos meus globos que eu percorria em criança quando queria ser cientista (virei intelectual vá-se lá saber porquê). Sabia quais eram os povos e os animais do deserto e sonhava que um dia iria ao deserto.
Fui. Entranhei aquela imensidão. Ainda não os percorri todos, nem pouco mais ou menos (e muito mais para o menos do que para o mais). Mas cada um é tão diferente e tão especial. Estranhei a areia do Sahara: viscosa e espessa (eu pensava que era solta como a das nossas praias, santa ingenuidade!), entra por todos os poros da pele e arranha o esmalte dos dentes. O Deserto Oriental é antipático (que raio de adjectivo para descrever um lugar!). É branco e áspero, polvilhento (será que isto se diz?), cheio de vértices cortantes. Eu que derreto assim que os termómetros se descolam dos 25º e acho o pico do Verão um tormento insuportável, nem dou pelo calor. 56º (o máximo que eu apanhei) não são assim tão intoleráveis. Enfim, cada qual tem as suas taras, esta é uma das minhas.
Uma vez ouvi um Beduíno dizer que o deserto é um castigo e que nós (os Europeus) somos bons e por isso temos chuva nos nossos países e eles são maus e por isso não têm água. Achei aquilo um paradoxo completo. Eles que não poluem, que não têm nada a não ser o básico, que não inventam armas de destruição massiva, que não são capitalistas neo-liberais acham-se maus, nós seremos o quê? Fiquei a pensar que, de facto, Deus dá nozes a quem não tem dentes e que nós somos uns idiotas privilegiados que não sabem a sorte que têm e que, além de idiotas, somos uns masoquistas acéfalos que conseguem destruir as benesses que lhes vieram parar às mãos imerecidamente.
Bem, mas adiante. A paixão do deserto é uma coisa tão fenomenal e a Vida algo tão extraordinário que uma das maiores coincidências da minha vida (letra minúscula porque a minha é uma ínfima parte da outra) se deve ao deserto.
Há uns anos foi a Oxford palestrar (assunto sério, académico, erudito e essas coisas que tais que acontecem aqui no meu mundo). Ansiosa porque era a primeira vez ali e as primeiras vezes são sempre uma carga de nervos. Blábláblá, aplausos, perguntas, mais blábláblá, o costume. Ora, quem organizou o evento era um tipo francês da Maison Française lá do burgo, até aqui nada de especial. Só que o fulano era filho do Alain Sèbe, para quem conhece, um dos mais conhecidos fotógrafos do deserto. "Talk about coincidences!"
Ele tinha acabado de vir de uma expedição à Mauritânia. Eu ainda tinha frescas as memórias da última vez nas franjas do Sahara. Acabou-se logo ali a conversa que me tinha levado a Oxford. Pagou-me uns copos num pub à saída da faculdade e só falámos de deserto (acho que foi uma seca para quem estava connosco e pensava que o assunto da palestra se ia prolongar na informalidade de
half pints e
ginger ale)
. No final deu-me um bloco de notas com a foto da capa do livro
Redjem. Libye des grands espaces (v.
www.alainsebeimages.com). "Man, was I happy!"
Such a small world, such big impressive deserts and the cosmic coincidences of Life.
There you have it you insolent terrorist bastards, I talked about the Dakar and I invaded your deserts! You may win a battle here and there, but never the war (no matter how holy you want to make it)!