
Nasceste! E aí estás a alegrar a casa que este ano se enche novamente de Natal.
Sabes, o ano passado não houve Natal cá em casa pela primeira vez desde sempre. Não podia ser. Não havia espírito, nem vontade anímica e eu não conseguia arranjar a força para a celebração, para as decorações, as compras. Havia demasiados pesos em cima destes pobres ombros, demasiadas coisas avassaladoras que me consumiam a alma, a mente e o coração. Eu não tinha a capacidade para me concentrar em mais algo que fosse e, assim, cedi o lugar de matriarca à Mana e fui apenas filha e irmã. As Festas passaram por mim e não eu por elas como costuma ser. Foi bom que tomassem conta de mim. Acho que precisei de mim o ano passado: parar por e para mim.
Mas este ano não. Reclamo as Festas e os meus papéis habituais. Porém, tem de ser tudo reinventado. Dei as antigas decorações, presépio incluído, à Paula (que todos neste blog sabem é o meu braço-direito nesta casa grande onde vivo com o Spotty). Só preservei algumas decorações antigas do tempo da Mãe e da Alemanha, recordações, muito mais que enfeites de Natal. Não me apetece montar um pinheiro como todos os pinheiros e foi aí que pensei em ti.
Tinhas de ser uma árvore diferente de todas, tal como diferente de todos vai ser este Natal que antecipo e preparo com tanto esmero e carinho. Trouxe-te de Santiago do Cacém, onde eu nunca tinha ido na vida e onde fui levada pela energia do inesperado das pessoas boas. Parecia que o céu ia desabar em chuva sobre as nossas três cabeças desprotegidas lá no alto do morro. Mas o céu aguentou a chuva, percebendo que um propósito maior nos fazia desprender os teus ramos da árvore morta e nua no chão. Eram ramos primordiais que tinham um papel principal a desempenhar num Natal a muitos, muitos quilómetros dali e, por isso, nem tu nem os céus obstaram à nossa missão.
Vieste contorcida na bagageira e chegaste aqui. Pintei-te com spray branco de tinta para carros que comprei na secção auto de um supermercado porque eu não sei onde se compra tinta para pintar Árvores de Natal. Sabes, eu não sou lá muito prendada mas sou muito desenvencilhada. Pus-te lá fora no jardim enquanto aguardaste heróica que eu te pintasse e que o Spotty não te esfanicasse de curiosidade tonta enquanto eu, como sempre, gritava com ele para parar quieto e me deixar acabar o trabalho com o mínimo de tinta nas mãos, o que, como viste, não foi exactamente possível.
Agora estás ali na sala-de-estar. Estás tão bonita. Sabes o que significas para mim? Emancipação. Alegria. Cortes totais com o passado. Vida absolutamente nova e a afirmação de mim para mim. Não és um pinheiro, és tu nos teus ramos decorados frugalmente e é o seres tu, única e exclusiva como quem te escreve, que interessa. Olho-te e sorrio por ter chegado aqui da maneira que cheguei aqui. Enches-me de orgulho, sabes?




