Eu esperava isto há muito tempo. Li a notícia na caligrafia quase imperceptível da Tante Ruth. Poucos pormenores, apenas a informação aliviada de que se conseguiu despedir dela. Há muitos anos que eu sabia que a Tante Henny ia morrer primeiro do que a Tante Ruth. Li a carta sem mais sobressaltos do que quando leio as cartas normais da Tante Ruth que desta vez me pede para ir ter com ela antes que não haja tempo. Comecei ontem a despedir-me dela.
Da Tante Henny guardo as memórias de infância de quem me ensinava canções e se passeava pelo Algarve em Verão agarrando a mãozita da minha irmã. Eu era mais sorumbática e apegada à Tante Ruth, a Mana, sempre muito expansiva e cantarolas, emparelhava com a Tante Henny e corria pelos areais selvagens de Vale do Lobo a fugir à apanhada com ela. E lembro-me da Tante Henny num restaurante em Rheydt numa vez que ela me confidenciou que havia uma coisa que ela nunca tinha percebido no meu Pai mas que nunca tinha tido coragem de lhe perguntar: o que é que ele queria dizer de cada vez que a via e se despedia até sempre? Expliquei-lhe um pouco da alma portuguesa que o Pai às vezes deixava transparecer. Não sei se ela percebeu e agora nunca saberei.
Tinha um riso franco e sonoro, a Tante Henny. Larga e grande impressionava pelo físico que se desconstruía naquelas gargalhadas de quem gostava de viver porque sabia o que era lutar para poder viver. Nunca a ouvi falar da Guerra como ouvia à Tante Ruth a história da fuga delas da Berlim ocupada, das rajadas de metralhadoras enquanto atravessavam o Spree para o mundo livre. Pararam quase ao pé da Holanda onde eu fui nascer e sempre chamaram Heimat, pátria, à Alemanha que tinha ficado ocupada por outro regime. Mesmo depois da reunificação continuaram a chamar Heimat àquela terra.
A Tante Henny morreu e eu sabia que ela ia morrer. Ainda não disse ao Pai nem à Mana. Tenho de ir rápido a Berlim. É visceral. A Tante Henny morreu mas não imagino a devastação quando morrer a Tante Ruth. Tenho de ir rápido a Berlim mas penso irracionalmente que não quero porque isso é despedir-me, é não voltar a vê-la. Eu despedi-me da Mãe e não quero mais despedidas.
A notícia chegou ontem mas só hoje me estou a dar conta do que se está a passar: as Tanten estão a morrer e o meu passado está a acabar.
"Até sempre", Tante Henny.
13 de janeiro de 2012
11 de janeiro de 2012
E vão duas
Serrote. Tesoura de poda. Coragem. A ver se poupo em jardineiro, que a crise toca a todos, decidi podar as roseiras do jardim. E neste suplício descobri que são oito. Já despachei duas. Se florirem na Primavera saberei se as podei bem ou não. Vou fazer as outras seis em suaves prestações. Abri o pulso direito, espetei-me, piquei-me, emaranhei os cabelos. Não consigo compreender o gosto que muita gente tem em ter a jardinagem como hobby.
E, claro, podar as roseiras é lembrar a Mãe que as plantou e as dispôs como estão no jardim. Desde que Ela morreu já transformei muitas coisas mas nunca toquei nas roseiras. Elas são Ela e são Dela perpetuamente. Hoje ao podar apercebi-me da sua velhice nos caules em troncos grossos como os das videiras. Terão talvez vinte e tal anos e, ainda que eu não queira fazer a soma, Ela já cá não está no meio das roseiras há treze anos. Há treze anos, portanto, que eu mando cuidar das roseiras. Hoje atirei-me a elas. Que dirias Mãe?
E, claro, podar as roseiras é lembrar a Mãe que as plantou e as dispôs como estão no jardim. Desde que Ela morreu já transformei muitas coisas mas nunca toquei nas roseiras. Elas são Ela e são Dela perpetuamente. Hoje ao podar apercebi-me da sua velhice nos caules em troncos grossos como os das videiras. Terão talvez vinte e tal anos e, ainda que eu não queira fazer a soma, Ela já cá não está no meio das roseiras há treze anos. Há treze anos, portanto, que eu mando cuidar das roseiras. Hoje atirei-me a elas. Que dirias Mãe?
9 de janeiro de 2012
Domingo sózinha em casa
Passar o Domingo sózinha em casa dá-me fome. Não é uma fome qualquer. É um desejo de experimentar coisas, não estar quieta e, sobretudo, não usar o Domingo para os trabalhos que me ocupam a semana. Quando me separei dei comigo a preencher tempo na cozinha, a experimentar fazer crepes com natas e farinha porque não havia leite em casa, a fazer "pastas" de toda a espécie e uma sopa de couve roxa que ficou azul e incomestível. Fiz tremendas asneiras e no meio apareceram coisas boas. Como em tudo, habituei-me à situação de sózinha em casa (que já existia no meu não-casamento em versão acompanhada que é, de todas, a pior variante da solidão). A habituação levou-me a experiências mais consistentes, às vezes até para mostrar afecto, em forma culinária, a quem entrava na minha vida ou a quem nela vive. Ontem não tinha porque ou para quem cozinhar. Mas deu-me fome. Fiz sopa de coentros, batatas salteadas, esparguete em molho de tomate com paprica e ervas e pão com paio e queijo de ovelha. Lembrei-me de mim há três anos no novo mundo de descobertas que se me abria em vislumbres de libertação. Fui feliz como nunca pensei ser entre tachos, panelas e a minha cozinha de azulejos azuis escolhidos pela Mãe. E comi, feliz, todos os hidratos de carbono que não comia quando estava presa na infelicidade da minha prisão. Percebo, cada vez mais nitidamente, o bilhete que a Mana me deu quando eu me separei e que, de tanto o passear em bolsos de casacos, já se vai esfarelando: "Somos a soma total das nossas escolhas", Woody Allen. As minhas trouxeram-me a um Domingo de sol e cozinhados.
O pão (na breadmachine):
Ingredientes
200grs de farinha de cereais integrais
300 grs de farinha de trigo
450ml de água
50ml de azeite
1 chávena de café de paio cortado em cubinhos
1 queijinho de ovelha seco cortado em cubinhos
Orégãos a gosto
1 colher de chá de fermento
Na máquina de pão colocar os ingredientes pela ordem seguinte: água, azeite, farinha, fermento, óregãos. Ligar o programa normal. Quando a máquina apitar no começo do segundo ciclo de amassadura juntar os pedacinhos de queijo e paio. Esperar até sair um pão delicioso.
O pão (na breadmachine):
Ingredientes
200grs de farinha de cereais integrais
300 grs de farinha de trigo
450ml de água
50ml de azeite
1 chávena de café de paio cortado em cubinhos
1 queijinho de ovelha seco cortado em cubinhos
Orégãos a gosto
1 colher de chá de fermento
Na máquina de pão colocar os ingredientes pela ordem seguinte: água, azeite, farinha, fermento, óregãos. Ligar o programa normal. Quando a máquina apitar no começo do segundo ciclo de amassadura juntar os pedacinhos de queijo e paio. Esperar até sair um pão delicioso.
7 de janeiro de 2012
Já não ria assim há séculos
É tão bom o riso inesperado. Eu ia à espera de um encontro bom, a convivência retomada, a troca de presentes em atraso na coincidência do Dia de Reis. Mas depois houve o riso, fácil e instantâneo, desde a chegada. Ao conduzir de regresso na noite escura e cheia de curvas deste pedaço de campo, trazia a cabeça cheia das novas palavras aprendidas e da memória do riso. Adorei. Têm sido umas semanas pródigas em reencontros de um passado Eu como se não houvesse um interregno em que me esqueci de Mim.
Obrigada.
Obrigada.
6 de janeiro de 2012
O nome dito por um estranho
Quinze segundos. O encontro formal não durou mais do que quinze segundos. Segundos suficientes para sentir o aperto de mão com que julgamos logo o nosso interlocutor. Quinze segundos para lhe ouvir dizer o meu nome com a insistência de quem se não quer esquecer. A face contrita e contida que se lhe iluminou. Engraçado como, por vezes, sensações primeiras e imediatas nos podem marcar pela intensidade. Três sílabas bem pronunciadas e fortes. O meu nome da boca de um estranho.
4 de janeiro de 2012
Many beautiful women have been made happy by their own beauty, but no intelligent woman has ever been made happy by her own intelligence.
Mignon McLaughlin, The Second Neurotic's Notebook, 1966
Hoje fiquei a saber que não é só no ginásio que me chamam Barbie. Sorri no sorriso Barbie mas pensei com os miolos enquanto me lembrava da Gloria Steinem e da Betty Friedan. Será que algum homem gostaria de ser o Ken?
Mignon McLaughlin, The Second Neurotic's Notebook, 1966
Hoje fiquei a saber que não é só no ginásio que me chamam Barbie. Sorri no sorriso Barbie mas pensei com os miolos enquanto me lembrava da Gloria Steinem e da Betty Friedan. Será que algum homem gostaria de ser o Ken?
3 de janeiro de 2012
Chá verde com amizade
Habitualmente escolhemos a Baixa em fim de tarde, Natal à porta e gente na rua. É uma espécie de ritual anual. Houve uma altura em que eram almoços mas confesso que acho os nossos chás de invernos meridionais numa cidade ribeirinha um encontro mais caloroso. Temos sempre imenso para falar e tagarelamos sem fim à vista. Separam-nos gerações mas unem-nos traços de carácter, respeito mútuo, interesses comuns que fazem com que esta amizade quase improvável dure e perdure e me enterneça tanto.
Hoje bebo chá que ela me deu enquanto trabalho nas coisas de que lhe falo nos nossos encontros. De certa forma, ela ajudou a preparar-me para isto. E aqui estou, feliz na lembrança e de coração quente de chá e memória de conversas na Baixa ao cair da tarde.
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