27 de dezembro de 2008

Um Novo Natal



Tranco portas e janelas e deixo a casa entregue aos favores da P. e do Spotty. Enfio malas e presentes na carrinha e parto. Tirando o bolo-rei da Garrett do Estoril e os Lebkuchen e Stollen, tudo neste Natal será diferente. Nada de nostalgias, o que importa é que estaremos juntos e, por isso, felizes naquela união inquebrantável de clã. Este ano cedo o lugar que usurpei da Mãe quando ela morreu.

Passei a ver o Pai como Homem no dia em que a Mãe partiu. Não imaginava que ele ainda estivesse apaixonado por Ela. Engraçado como nunca racionalizamos que os nossos pais vivem os sentimentos de homens e mulheres. Vi-o chorar às escondidas. Observei o seu desmoronar interior e percebi porque é que ele regressou à Alemanha: não queria que o víssemos como Homem e, dessa feita, foi para longe fazer um luto penoso que lhe custou um enfarte no dia de anos Dela. Escondeu de nós a sua fragilidade. Mais tarde soube que eles falavam objectivamente da morte Dela e isso encheu-me de um respeito enorme e triste por este homem, não pelo Pai, frio e metódico, mas pelo Homem com emoções e catástrofes interiores como qualquer homem.

No Dia de Natal saímos os dois. Deixámos o resto do clã entregue ao aconchego morno e plácido da tarde de Natal e fomos para a rua. Estaciono na Avenida da Liberdade; queremos ir a pé e vir até ao Cais das Colunas (claro que é do Pai que me vieram os genes desportistas!). Falamos. Falamos tanto. Estou tão bem ali a passear com Ele. Não me invade a privacidade. Entende-me sem precisar de o verbalizar. Falamos da Mãe. Sempre. Falamos em alemão e em português. Falamos do passado e do presente. Rimos. Sinto-me filha, a filha que não vê o Homem mas o Pai. Volto a ver o Pai e é tão especial ver o Pai, estar com o Pai ali no Rossio e pelas ruas de Lisboa.

Ainda me lembro da primeira vez que Ele me levou a Lisboa e de como me pediu para desenhar aquilo que mais me tinha chamado a atenção na cidade. Desenhei uma estátua e pombos, muitos, muitos pombos. Em Bremen havia esquilos e passarinhos nas praças e aqueles bandos de pombos eram uma coisa assustadora, mas, igualmente, muito curiosa aos olhos de uma miúda de seis anos.

Paramos para tomar alguma coisa. Apenas um tasco asqueroso está aberto na Baixa. Propriedade de imigrantes chineses, ali se congregam turistas, mais imigrantes chineses e uns pouquíssimos portugueses que, como nós, saíram à rua. É a globalização à minúscula escala lisboeta. Tomo um chá de jasmim e o Pai o de sempre: camomila e noto que Ele nunca perdeu certos estrangeirismos nos hábitos e na maneira de ser. Ali estamos, ambos vividos do Mundo, ambos estrangeirados eternos: o Pai e eu. E no entanto, já lá em baixo, junto ao Tejo, falamos do como gostamos de Lisboa apesar de todos os apesares. É noite escura e tempo de regressarmos.

Sinto-me pequenina outra vez. Como é bom ser filha, como é bom este Natal...

Dem Vati. Die stolze Tochter.

22 comentários:

Tiago R Cardoso disse...

tocaste-me profundamente com este texto.

Deixo-te apenas uma vénia a este momento.

António de Almeida disse...

-Todos por vezes somos obrigados a regressar ao nosso passado, que afinal faz parte do nosso presente, para resolver algo que nos afecta. Isto quando ainda chegamos a tempo, o que nem sempre acontece...

mdsol disse...

:)

Canseiroso disse...

Que esse estrangeirismo por cá perdure, porque estamos sobretudo necessitados de alguém que nos traduza

antonio - o implume disse...

A redenção do homem (e com o homem) faz-se em amor. Fazia-te falta este encontro (julgo eu!).

Ferreira-Pinto disse...

Ante tão comovente reencontro, penso que qualquer comentário cheira a intromisão. E há sítios, espaços e momentos que respitosamente não se invadem.
Este é um deles!

Please tell your Father that he haves all the reasons in the world to be proud of a certain Blonde!

DANTE disse...

Não posso dizer nada mais a não ser:ainda bem que estás feliz :)

Jokas Loira kum kanudo :)

Carol disse...

Entendo-te perfetamente quando dizes que viste o Homem e não o Pai quando o viste desmorornar-se interiormente. Eu tive essa percepção quando o meu irmão casou e o meu Pai percebeu que estava a ficar só (numa solidão que, por acaso, foi ele próprio que criou e nunca foi capaz de desfazer...). Nunca o tinha visto chorar! Infelizmente, não voltei a ver o Homem depois disso.

Joaninha disse...

Blonde!

Já estou a chorar outra vez!

Beijos...(Saio de fininho e com muito respeito, por ti, pelo teu pai...)

joshua disse...

Este texto é um Monumento. Dem müde Vater und die glückliche Tochter.

Adoro-me, minha amiga!

joshua

PreDatado disse...

Este sim é um lindíssimo texto de Natal!

Ferreira-Pinto disse...

Um PRÓSPERO ANO NOVO, eis os meus votos para ti e para os teus!

Alexandre Nunes disse...

Excelente texto. Profundo, não esteriotipado, bonito de se ler.
Vou voltar.

Joaninha disse...

Blonde,

Bom ano!

beijos

Tiago R Cardoso disse...

Um Feliz Ano Novo e um tradicional mas sentido, que conseguias tudo o que desejas.

Daniel Santos disse...

Um belíssimo momento.

Um feliz 2009.

Carol disse...

HAPPY NEW YEAR!! ;)

lusitano disse...

Belíssimo texto!

Ao findar este ano, aqui deixo os meus votos de um Novo Ano cheio das bênçãos de Deus na tua vida e dos teus.

Abraço amigo.

João Castanhinha disse...

Belo texto, que 2009 (já?) seja o ano da Blonde! happy new year, ou como se diz aqui para o sul, bom revilhao!

António de Almeida disse...

-Um feliz 2009, é o que lhe desejo!

Alexandre disse...

Porra! Só ao ler este post é que me lembrei do que queria ter feito este Natal passado: ir à Garret, comprar o bolo rei... :(

Maria, Simplesmente disse...

Depois de ler este texto, que tanto senti e nos faz reflectir, só sei dizer: Está aqui o espirito de Natal.
Braço Blonde
Maria