11 de setembro de 2009

Paro-me

Gosto dos meus partos. Dos meus renascimentos.

Morro de mortes mortas e ressuscito. Hoje, agora, sei que (re)nasci como no dia primordial em que me cortaram o cordão umbilical e eu tive de respirar. Respiro.

Morri há onze anos. Talvez há um pouco mais. E, desde aí, tenho estado no meu velório. Estive. Não estou mais.

Vim aqui, pela primeira vez, a este Alentejo de placenta quente há quatro meses. Casamento desfeito que nada me importava. Males de coração que não saravam desde o Inverno e que eu mascarei sem sucesso em curvas (des)sentimentais vãs. Vivia o luto que não o do casamento infeliz, mas o do Amor que não pôde desabrochar porque um qualquer estado “zen” inexplicado e súbito o cerceou. Pedro… Acolheram-me aqui no amor sincero de amizades redescobertas. Fui feliz a passear cães e a correr sobre restolhos com botins de borracha. Parti de energias renovadas para a vida que me esperava na grande cidade.

Regressei em Agosto. As férias da minha vida. Tão simples. Tão despojadas. Como se explica a premonição da viragem? Não sei. Sei que vim na abertura da mudança. Nas férias pacifiquei-me junto a silvados de amoras silvestres, em noites de luar cheio por entre ramos de oliveira e à sombra do montado. Voltei a ser a filha das trancinhas louras, amada e querida, pequenina mas mulher. Dei as mãos ao passado que me pariu no início do início e que fora interrompido nesses onze anos de limbo, de vida sem ser vida. E quando parti de novo tive a certeza que a Vida mudara. Ia mudar ainda mais.

Voltei novamente. Estou aqui ainda. Tinha, porque tinha, de ser. Percorro estas estradas ao som celta de música escocesa. A paisagem seca deste Alentejo ibérico e quente que se junta à suavidade verdejante e húmida das Highlands. Não imaginava que a mudança passasse por aí. Como não pensava que passasse por aqui. Passou. Cinco mil e tantos quilómetros. Tantos, meu Deus. E eu, que subi aos vulcões de Lanzarote na ânsia de tocar o céu por entre a lava matricial que me encheria a alma com a força telúrica do interior da terra viva, desci para regressar a este Alentejo uterino que me pare num parto belo sem dor.

Respiro o ar que me enche os pulmões na golfada imensa de quem inspira o sopro do começo. O meu Começo post-mortem. Corro ao encontro das tempestades violentas que rasgam os céus do crepúsculo deste Alentejo quando o calor do dia se verga em tormenta.

– És completamente louca!

Sorrio. Sim, talvez. Ainda bem.

– Vê os relâmpagos. – Insto enquanto me perco em trovões e raios de luz ofuscante que me riscam os olhos.

Sinto a energia que se desaprisiona do céu em chamas. Não há medos ou inseguranças. Deixei as incertezas sepultadas algures. Não sei onde. Talvez no cume de um vulcão ou talvez no fundo de um balde de amoras silvestres colhidas enquanto me pacificava comigo e com as saudades daquilo de que se sente falta sem saber o que é: “How is it possible to miss what you don’t even know?” Perguntei-me tanto. Tanto, meu Deus.

Pedro…

16 comentários:

Goldfish disse...

Só percebi metade (se tanto...), mas pelo menos percebi que não era para (eu) perceber mais! Só comento para dizer que já tinha saudades.

Pedro Lopes disse...

dá vontade de ter inveja desse Pedro

olha que pena não ser eu!

Chinook disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
antonio - o implume disse...

Como se pode começar a morrer no mesmo dia em que se renasce? Mas tu não aprendeste nada? Como se pode assassinar um texto, esmagar toda a sua poesia e agredir-nos de forma quase obscena? Como te escapou um nome no fim? Como uma bota cardada que cai sobre uma pétala... Os meus pêsames. (Ou então felicidades.)

Chinook disse...

Pois que o tempo tem o seu tempo e o espaço o seu espaço.

E nada mais há a dizer. Felicidades...

Eu Mesma! disse...

Adorei a intensidade do texto...

Turmalina disse...

Blonde querida...fico mais tranqüila ao te ler.
Sou uma pessoa que vive com saudades daquilo que se sente falta sem saber o que é.
Fico me perguntando o que o destino me reserva? Será este sentimento uma intuição do que se aproxima, uma vez que não tem relação alguma com o passado?
Será um tipo de redenção do inconsciente que dizem ser atemporal?
São muitas as perguntas e desconfio que nunca encontrarei as respostas, pelo menos não na forma do que acredito.

Blondewithaphd disse...

Goldfish,
Acontece que, dito assim, percebeste o que havia para perceber...

Pedro,
Esta coisa de haver mais Marias na Terra:)

Implume,
Lê outra vez! Escapou-me também um nome a meio:) Obrigada pelas últimas!

Chinook,
E o Alentejo é em si um tempo e um espaço.

Tu mesma!,
E eu adorei que o tivesses lido!

Turmalina,
Acho que sim, que ficamos sempre sem resposta às nossas indagações inquietas. Vamos vivendo e, a cada passo, descobrindo respostas às perguntas que tantas vezes nem sequer fazemos.
Benvinda a esta casa.

mdsol disse...

Eu sabia Blondinha. Eu sabia.
Fica com um beijo muito feliz por ti!

:)))

[Sabes que escreves muito bem, mas mesmo muito bem? Claro que antes da escrita, neste caso, está a tua enorme capacidade de sentir e de integrar o que sentes num quadro de referências bem alargado, o que acrescenta ainda mais sentidos ao que deixas transparecer. Os teus textos estão cada vez mais ricos. E eu também melhoro com eles.
Mais um beijo, Blondinha]

:)

Blondewithaphd disse...

Geeee, mdsolinha, nem sei que diga... Tiras-me o pio... Obrigada.

Patti disse...

Uma fotografia brutal, estas suas palavras, Blond. Há sempre que dar respostas à vida.
Parabéns pelo texto.

António de Almeida disse...

Compreendo-a demasiado bem, ou então não a compreendo de todo, talvez nem sequer a mim próprio, percorro caminho idêntico, mas ainda agora iniciei a viagem, veremos até onde me leva...

Manuel Rocha disse...

Então e as imperiais no "Pateo Real" ???....Assim não vale !!!

Ferreira-Pinto disse...

You know ...

Joaninha disse...

Que bom foi espreitar aí para dentro...Bonito o que vi....

Seja bem vinda de volta minha linda loira :)

antonio - o implume disse...

;)