2 de fevereiro de 2011

Porque recebi um mail

Nos doze anos que já levo de Academia, acuso um desapaixonamento que me desmorona cada vez mais no muito que eu gosto de pertencer à Academia e no muito que este desapaixonamento significa a contradição da visão que eu tinha há esses doze anos atrás. Não interessam os factores: as sucessivas políticas de mutilação da Universidade enquanto instituição, as hordas de alunos que, sem outras alternativas, vêem no ensino superior a única via profissionalizante e chegam no mais completo desalento e na maior impreparação imaginável, a degração da imagem académica, etc, etc.
É também verdade que tem sido no exterior que eu tenho encontrado as maiores fontes de inspiração, seja porque eu continuo uma "outsider" neste país, uma eterna estrangeirada no país que forçosamente eu quero que seja meu e nunca é, seja por causa do bilingualismo que me desbarra as fronteiras geográfico-linguísticas, não importa. Hoje recebi um de milhentos mails de um daqueles académicos que plantamos num Olimpo onde muito poucos ascendem. Nos últimos cinco anos temos trabalhado juntos em diversas ocasiões. Separam-nos décadas e um grande abismo em termos de senioridade. Lamento dizer que em Portugal dificilmente trabalharia com ele nos termos em que trabalho com ele. E ele tem sido uma fonte profícua de inspiração e contrabalanço ao desapaixonamento. E, à sua maneira, acho que ele me está a pavimentar um caminho.
Hoje, a propósito das dores de cabeça que me estão a dar certas "prima donnas" académicas, daquelas que não colocamos no Olimpo mas que se acham residentes desse Olimpo, disse-me:

"Carissima,
I sometimes think that the bad actor, in addition to wanting to get a lot of attention, is trying to see if I lose my temper. And, in a weird sort of way, I do everything I can to try not to... perhaps just to spite them?
My personal mantra is "tormented children", because so many adults I interact with in the academy seem to fit that description...and I find that I have to be the accomodating one. And, in complete contrast, the real giants in the academy, as well as the real world, that I've been lucky enough to meet have almost all been incredibly humane. Strange, isn't it?"

A razão para vir para aqui com este mail não é desabafar tormentos e dizer que alguém me passou a mão pela cabeça paternalisticamente, é a lucidez do comentário de alguém que já andou muito numa estrada muito longa. A lucidez que nos falta na nossa pequenez e umbiguice. E a razão principal por que aqui deixo um excerto deste mail, cuja leitura seduz no caráter literário até, é porque o quero partilhar, colocá-lo longe do esquecimento a que se votam os mails que nos caem no correio profissional de todos os dias, dá-lo a todos porque se transcreve para o mundo real, para o mundo português (ainda que o contexto particular de onde partiu seja americano), para a nossa vida rodeada de "bad actors", quando os gigantes caminham sem ondas entre nós e sem nos molestarem com o peso dos seus passos.

Como diria a voz da RFM, vale a pena pensar nisto...

5 comentários:

antonio - o implume disse...

Os ditos em inglês sempre nos parecem mais sábios. Também resulta com o latim.

Ältere Leute disse...

Ohne Worte! Alles schon gesagt: von Ihnen beiden !

António de Almeida disse...

Procuro não fazer cedências e deixar de ser quem sou, custe o que custar, por mais pesada que seja a factura... Portugal está dividido em pequenos quintais onde todos querem promover no seu, uma feira de vaidades.

I. disse...

AS pessoas verdadeiramente grandiosas são, as mais das vezes, as mais humildes. Porque já aprenderam que a humildade não é reconhecimento de qualquer inferioridade. É bom aprender, trabalhar, conviver, com quem é humilde na forma de ser.

Manuel Rocha disse...

Caso para dizer que "santos da casda não fazem milagres". Fosse um autóctone a escrever-te exactamente o mesmo e era um alienado. Como é estrangeiro...E pelo que escreve parece que afinal no "país" dele conhece e vive os mesmos problemas. Lá se vai a tese de que tudo o que há de mal " só neste país"... Ou não ?! :)