11 de setembro de 2011

Somos todos americanos

Cansa-me o 11 de setembro. Cansam-me as palavras, as florestas de teorias, as culpas americanas, as culpas terroristas, a Al-Qaeda. Irrita-me a constante alusão a um mundo pós-11 de setembro, como se isso significasse alguma coisa. Farto-me de imagens-choque, de documentários, reportagens e entrevistas, opiniões, relatos e memórias. Mas entendo. Entendo que precisamos todos de uma espécie de catarse para o que os nossos olhos viram naquele dia. Revivemos aquela impossibilidade hollywoodesca tornada real porque ainda a não expurgámos do nosso sistema e ainda a não banalizámos.
Acho que todos nos lembramos daquela terça-feira de um dia bonito e todos, cada um à sua maneira, encontramos maneiras de nos aproximarmos da tragédia, como se comungássemos todos da mesma perda colectiva e aquele atentado não se circunscrevesse ao perímetro americano. Eu encontro essa comunhão ao dizer que tinha acabado de regressar de Nova Iorque e que nessa tarde recebia telefonemas de gente a saber onde eu estava. Aproximo-me daquilo na incredulidade que senti quando vi uma imagem fugaz na televisão de um café que mostrava uma torre em chamas. Pensei que se tratava de uma invenção à americana e só caí em mim quando, para tirar dúvidas cheguei a casa e, na coincidência do horrível, vi o segundo embate. Gritei muda incapaz de gritar e não arredei pé da televisão que me ligava a espaços familiares onde eu queria estar naquela comoção solidária que nos invade em momentos destes.
Mas talvez mais do que o 11 de setembro, lembro-me de acordar no 12 de setembro. 8.00 da manhã e o despertador toca com as notícias. Afinal o dia anterior existira, tão horrível como os meus olhos o tinham visto e tantas horas depois ainda não havia resgates de sobreviventes. Isso e os voos de morte no abismo é o que ainda mais me aflige nisto tudo que aconteceu há dez anos e me farta no demasiado das palavras e das imagens que, ainda que em excesso e excessivas, são tão infimamente capazes de dar uma razão a esta coisa que apenas pronunciamos com uma data: 11 de setembro.

4 comentários:

António de Almeida disse...

Um dos dias mais infames na história da humanidade...

Pedro disse...

desde há mais de 10 anos que há um outro 11 de Setembro, com muitos (mais?) mortos e muitos (mais?) desaparecidos; mas foi mais "tradicional", menos mediático, não menos infame; não consta que os cérebros tenham sido abatidos a tiro

Daniel Santos disse...

Um dia onde o mundo reparou que a humanidade não era intocável.

ESpeCiaLmente GaSPaS disse...

Prova viva de que o ser o humano pode cometer as maiores barbaridades... Mas a verdade é que quando nos caracterizamos dizemos sempre que somos boas pessoas!