5 de fevereiro de 2012

Luz de casa

Às vezes sinto-me como Lord Grantham na solidão de não ter descendência directa a quem legar, não Downton Abbey, bem entendido, mas estas coisas em dimensão muito mais reduzida. A luz de hoje, por exemplo. Fria de inverno, reflectida no mármore velho da bancada da cozinha. Luz de Leste de manhãs a vento. Quem a seguir a mim se deterá no momento da contemplação desta luz no silêncio da cozinha com cheiro a café e pequeno-almoço? Sei que a Mãe tinha momentos destes. Herança maior que eu recebi, recebendo-a em conjunto com a Casa. Sei que há coisas que me chamam. Escolher a Casa tem sido pesado. Continuará a sê-lo. Acho que não me importo com o peso ainda que sinta que deixo escolhas por fazer que me trariam outras felicidades, menos passados. Mas esta Casa sou Eu nos meus grilhões e liberdades. Os meus genes estão argamassados nestas paredes, nos mármores frios e nos ecos. A Mana e depois dela o meu sobrinho farão a geração seguinte e eu serei uma espécie de limbo intermediário. Gostava que qualquer um deles amasse esta Casa com o amor que eu lhe tenho nestes momentos de luz fria que passa pelas vidraças e me enche o espaço de ânimo. 

3 comentários:

mfc disse...

Percebo tão bem esse amor que tens pela Casa e o desejo de o veres continuado por alguém chegado!
É como se fosse necessário que a Casa pudesse continuar a ter alma!
Entendo tão bem... Beijinhos!

luisa disse...

Luz perfeita... essa :)

zana dias disse...

Gostei de ler, da foto, da luz.
O melhor foi,tu tê-la captado. Conheço bem essa sombra de futuro.Viro-lhe as costas e olho para a luz presente.